sábado, 29 de março de 2014

Faça-se Saber

Bravos comatriotas, em nome de Shiva, Exu e Pacha Mama, nossa vitória foi épica, heroica e histórica. Marchamos por todas as ruas, avenidas e becos, empunhando apenas cajados mágicos, varinhas de condão e metralhadoras piratórias; e vencemos! Vencemos, amigo humano, toda a tirania do status quo; solapamos as superestruturas do atraso; implodimos as barricadas entranhadas da injustiça social, racial e de gênero; e acima de tudo pulverizamos a estupidez ancestral dos símios falantes. Outra era se anuncia, e para tanto, fica instituído, por força de sortilégio, e faça-se valer a pena:

I) Não haverá nenhuma declaração de princípios, carta de direitos ou convenção internacional.

I.i) Toda transformação será de dentro pra fora e de baixo para cima.

II) Todo humano terá a comunidade como prioridade.

II.i) O acúmulo de riquezas será punido com ostracismo e jamais admirado.

II.ii) A sociedade não tolerará que seus membros sofram penúria material.

III) Apenas a intolerância será intolerada.

III.i) Todo ato de discriminação será punido com o exílio a algum lugar onde o infrator é discriminado.

III.ii) Aqueles que se manifestarem ofendidos com manifestações de afeto não normativas terão cassados quaisquer direitos a contato físico público com seus cônjuges, consortes, concubinas, namoradas(os), ficantes e assemelhados.

IV) A comunidade providenciará, através de uma rede colaborativa de organizações horizontais e participativas, os seguintes serviços: Encantamento Básico, Deseducação, Teletransporte, Calma e Sossego, Robin-úde e Inoculação Artística.

IV.i) As finanças das administrações serão permanentemente expostas e explicadas ao público, na rede em tempo real, e em impressos mensais disponibilizados gratuitamente.
  
V) A tecnologia servirá à disseminação da prosperidade e do bem-estar, mas estará subordinada à racionalidade ambiental e humana.

V.i) Tudo será feito para durar e materiais serão aproveitados ao máximo. Descartáveis serão severamente sobretaxados.

VI) A guerra é um anacronismo pois não haverá mais fronteiras e os recursos serão compartilhados de modo racional.

VI.i) Todo logradouro ou monumento em homenagem a militares mudarão de nome para homenagear pacifistas.

VII) Todas as disposições em contrário que vão pra puta que pariu.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Linguística Clínica I

Depois de trinta anos no meio acadêmico, tantos títulos e congressos, tantas aulas e pesquisas, todo aquele circo me aborreceu imensamente. Como meu último interesse vinha sendo Linguística Clínica, e me sentia fascinado, pareceu natural largar a Academia justamente para levar a teoria ao mundo real: montei um consultório para atender pessoas com dificuldades de fala. Demorou para que eu me estabelecesse, para que colegas médicos e fonoaudiólogos descobrissem do que se trata e passassem a recomendar meus serviços, mas hoje posso dizer que a Pacífico Linguística Clínica está consolidada. Ah, esse é meu nome também, muito prazer. É gratificante olhar para trás e ver o quanto pude aprender e quanta gente superou problemas estigmatizantes através das sessões aqui nesta saleta. Mas não foi nada fácil: a vivência de consultório é rica, mas pode ser às vezes imprevisível demais, não se furtando a ser cômica. Exatamente por isso me propus a compilar algumas reconstituições, imperfeitas que sejam, de algumas sessões. Os pacientes geralmente desaparecem sem pagar, de modo que não foram encontrados para autorizar a publicação. Isso representa um problema ético na visão de certos colegas, mas já mandei um uísque para cada um deles. Sem mais delongas, aqui vão relatos de casos que exigiram muito de mim, seja pela peculiaridade do problema, seja pela dificuldade em segurar o riso. Você não precisa se submeter a essa inconveniência, o maior risco é não ter riso para segurar. Nesse caso, tira-me ao solo, ou à lixeira antes; fecha a janela do navegador ou algo assim.

25 de abril

Minha secretária anunciou a sra. X, ela entrou.

Bom dia, minha senhora.
Igual bom diamente.
Perdão?
É problematicamente o exato, doutor seu! Eu coiso a troca das ordens.
Você troca a ordem das coisas! Interessante, diga mais. Você sempre teve esse problema?
Eu radiava em trabalho, não.
Entendo... E desde quando vem apresentado esse sintoma?
Certo ao sei não bem eu... Se trabalhei porque foi a perda ou se por trabalho perdi isso.
Como? Você perdeu o trabalho por isso?
Isso é falar sobre difícil...
Fique calma, aceita um a água, chá? Respire fundo. Você está protegida por sigilo profissional.
Verdade na, doutor seu, antes começou.
Não precisa me chamar de doutor, sinta-se à vontade. Então começou antes, prossiga
Atrás meses seis, ele divorciou o pedido.
Interessante.
Meu ex-advogado é marido, e guardou os filhos do ganho.
Ganhou a guarda, sim.
Eu bebi a começar, comprimir tomadas...
Ah!
Época empreguei a perda nessa eu, e troquei a começar falado... não veio o que sei antes!
É um caso fascinante, vamos tentar um exercício. Diga "planejamento da intervenção".
Intervenção do planejamento.
Agora diga "intervenção do planejamento".
Intervemento da planejação.
Curioso... Diga "Intervemento da planejação".
Davenjainter taplajação.... Ama de deus pela parada!
Calma, descane um pouco... Fica tranquila, estou aqui para ajudar.
Bem tudo.
Diga "a galinha da vizinha".
A vizinha da galinha.
Agora diga "a vizinha da galinha".
A galinha da vizinha. Boa que coisa!
Exatamente, tente inverter o que vai dizer antes de dizer.
Vou tentar.
Isso! muito bom.
Ótimo você é!
Estamos apenas começando. Diga "o cavalo branco de Napoleão". Pode pensar à vontade.
O Napoleão do cavalo branco.
Está bom, mas pode melhorar.
O branco Napoleão do cavalo.
Vamos mais devagar. Diga... "trabalho na rádio".
Radio no trabalho.
Não, você esqueceu de inverter antes, é o mesmo exercício. Não tem pressa.
Trabalho na rádio.
Perfeito!
Tente agora "perdi meu trabalho na rádio".
Trabalhei... Não. Meu rádio perdi no trabalho.
Tudo bem. Vamos tentar assim: quem perdeu o trabalho?
Eu
O que aconteceu com você?
Trabalhei na perda do rádio!
Mais devagar... qual é o verbo? É chorar?
Sido tem...
Não, o verbo é perder. Na primeira pessoa do presente do indicativo?
Perdi?
Isso, diga "eu perdi".
Eu perdi.
Parabéns, agora diga "o trabalho na rádio". Pense antes.
O trabalho... na rádio.
Bom. Agora diga "eu perdi o emprego na rádio".
O emprego na rádio eu perdi.
Quase lá... pode pensar, não há pressa.
Eu perdi... o emprego na rádio. Viva! Estou curadamente completa!
Calma, ainda há muito por avançar... Vamos tentar uma frase mais complexa. Diga "eu preciso aceitar a separação". Senhora, não, por favor, não vá embora agora, estamos progredindo. Sente-se por favor.
Que por assuntar desse falo?
(aqui eu me viro para esconder o riso)
Esse trauma é a origem do seu problema. Vamos aos poucos, diga "eu preciso".
Eu preciso.
"Aceitar a separação"
Separar a aceitação.
Não exatamente, lembre-se de inverter.
Sepitar a aceração.
Não, fique tranquila. Quando você conseguir dizer esta frase, será um grande passo, e seguimos na próxima sessão. "Aceitar a separação".
Aceitar... a separação.
Ótimo. "Eu preciso aceitar a separação".
Eu preciso... canalhar aquela morte!
"Eu preciso... aceitar... a... separação".
Eu preciso. Ufa! Aceitar a separação. Consegui! Eu disse a inteira frase!
Meus parabéns, sra. X! Fez ótimo progresso. Por hoje é só.
Nossa, me sinto tão bem, seu... Pacífico! Sou uma mulher outra! Como agradecer posso?
Apenas acerte com a secretária e marque para semana que vem.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pode Acreditar!




Você já ouviu falar em um centro-avante consagrado que também bate uma tremenda bola como zagueiro? Se no futebol isso é raro, na música nem tanto: muitos artistas fazem incursões fora de sua esfera habitual. É o caso do grande Tony Williams, baterista que entrou para o grupo de Miles Davis aos dezessete anos e destacou-se desde então como um elegante e eficiente baterista de bop, mas precisou dar vazão a seu lado mais roqueiro em seu projeto solo: Tony Williams' Lifetime. Foram diferentes encarnações e propostas, com menção especial à primeira, com John MacLaughlin, mas o ápice da produção do grupo é, a meu ver, o fantástico álbum Believe It, de 75. Além da percussão alucinada de Tony, o disco conta com o brilhantismo do guitarrista britânico (e favorito do blogueiro) Allan Holdsworth, cuja lista de empregos aqui seria enfadonha, bastando citar Bruford e Gong; conta ainda com dois prolíficos e competentes session men, Alan Pasqua nos teclados e Tony Newton no baixo. Isso não significa que estes últimos sejam coadjuvantes: todos são compositores na banda, e a afinidade entre os membros garante a coesão do disco.

Classificar a música de Williams não é difícil, basta escolher entre os sinônimos jazz-rock ou fusion. Diria mesmo que Believe It disputa com Hymn of the 7th Galaxy, do Return to Forever, o posto de epítome do gênero. Os andamentos são mais rápidos do que lentos, a dinâmica mais pra fortissimo do que pra piano. Os riffs poderosos do rock se aliam à improvisação virtuosística do jazz, e o funk vem adicionar um tempero a mais (sem a preponderância que teria no álbum seguinte, Million Dollars Legs). Alguém pode chegar a ter pena dos tambores e pratos de Mr. Williams, tal a veemência com que ele espalha fills mirabolantes sobre levadas intrincadas. É irônico imaginar a tranquilidade com que o circunspecto Holdsworth tamborilava freneticamente os dedos no braço de sua guitarra. Obviamente, o disco tem passagens mais calmas e líricas: nada mais desinteressante do que a energia no topo todo o tempo.

Meu LP - e os sintetizadores analógicos realmente PEDEM vinil aqui - foi comprado na Big Papa, com o Carlos e a Kátia, em meio a muita prosa musical; afinal, disco não é como um sapato ou um perfume, coisa que algumas "lojas de disco" não aprenderam. A capa é em P&B e traz o músico, que gostava de aparecer pelado nas capas... pelado na capa, com um sorriso de Mona Lisa e segurando um par de baquetas; o nome do grupo e do disco figuram em uma fonte elegante, à esquerda. O verso traz, sobre um fundo avermelhado, Williams ao kit, envolto em uma legítima purple haze, além de uma foto dos quatro e créditos. Prossigamos portanto a, não uma análise, mas impressões bastante subjetivas de cada faixa.

O álbum abre com um baixo em wah-wah, que conduz a um riff poderoso de guitarra. É a introdução de Snake Oil: aqui basicamente se alternam um tema alegre e ensolarado, com a condução direta, e um misterioso e tenso, com chimbau no contratempo; o andamento é mediano. No solo, Williams abusa de sua caixa de ferramentas: muito prato, fills de flams nos tons, apenas para citar, por sobre os teclados funqueados de Pasqua; vem então a hora do solo de Holdsworth, com suas tradicionais notas longas tecendo uma atmosfera espacial, e a peça termina em fade out.     

A intro de Fred são singelas notas de bumbo e prato, dando lugar a um tema que remete ao Havaí, andamento presto... vivace, com uma linha bem interessante de baixo e uma batera jazzística de bumbo sincopado. Uma falsa ponte traz de volta o mesmo tema, que por sua vez dá lugar aos famosos intercâmbios de tema-"solinhos-de-batera", e logo em seguida ao solo de Pasqua, bem animado, sugerindo um funk-progressivo, com bom gosto e maestria. Vem então Holdsworth e a montanha russa de suas escalas pouco convencionais, enquanto a música vai ficando mais pesada em direção à ponte, complexa, antes de voltar ao Havaí e daí a mais um intercâmbio com a batera, para fechar num outro energético, quase adolescente.

Proto Cosmos abre, bombástica, tempo presto... con fuoco, diretamente em mais um bate-bola entre tema (2 tempos) e baquetadas vulcânicas (6 tempos). É a peça que vai exibir a maior dose de virtuosismo, boa candidata a representar o disco. Por isso mesmo, em vez de descrevê-la, aqui vai o vídeo da reunião em que, dez anos depois da precoce morte de Williams, por enfarto em 1997, ele é muito bem representado por Chad Wackerman, pupilo de Frank Zappa e grande parceiro de Holdsworth - e excelente baterista.


Proto-Cosmos com Holdsworth-Pasqua-Wackerman-Haslip

Urgente é o adjetivo adequado para a uptempo Red Alert, compreensivelmente. O riff que explode desde o início é uma martelada em uníssono, que faz balançar a cabeça como, digamos, um fusion-metal. O tema atravessa toda a peça, e sustenta ora a metralhadora de Holdsworth, ora o doce Fender Rhodes de Pasqua, com Williams irrequieto todo o tempo.

Se a essa altura, você precisa de fôlego, está com sorte. Por algum tempo. Wildlife começa melódica, quase piegas; depois dá uma reviravolta e se transforma num vigoroso funk com a pulsação irrepreensível do discreto Newton ancorando mais um solo de piano elétrico, enquanto guitarrista descansa. Volta o tema apenas para encerrar a peça em que Tony parece mais comportando; uma que, sendo tão boa, só me parece a mais fraca do disco porque todas as demais são espetaculares.

Existe uma ciência no ordenamento das faixas em um disco, que fica meio prejudicada nos CD's (que não têm a "primeira do lado B" por exemplo), e um dos pressupostos básicos estipula que o bom álbum começa bem e termina bem. A última peça de Beieve It é similar à anterior no sentido de que vai do suave ao intenso, mas chega a um resultado mais interessante. Introduzido pelos tradicionais flams, um tema bem roqueiro, mas sorridente, entrega, depois de uma ponte, o bastão a mais uma conversa entre a cozinha e os teclados; Tony não se limita a conduzir, aspergindo semicolcheias furiosas e acentos no contratempo. Ele segue se expressando com a fúria e a fluidez características por cima das notas anasaladas de Holdsworth, num crescendo que leva a um solo enfático e coeso, contra um riff sujo e pesado. É o grande momento da volúpia rítmica do músico americano. O tema sorridente volta brevemente, e parece que a música acabou; mas Williams não quer parar de tocar, e só o fade out para acabar com o disco. Pode respirar agora.     

domingo, 17 de novembro de 2013

Deriva

Desde que fugi para dentro de mim,
Pouco se me dá que o mundo exploda.
Política, esporte, guerra - que se foda:
Levar o circo a sério não estou afim.
Misantropia é meu refúgio enfim,
E com o cinismo ela celebra boda.

Por que dar ouvidos à cacofonia?
Tantas bizantinas e estéreis polêmicas;
Mediocridade e estupidez endêmicas.
Busco, no silêncio, uma sinfonia;
Na solidão, férias da humana agonia:
Desejos frustrados, afeições anêmicas.

Se é verdade que ninguém é uma ilha,
Sou tal como uma Península Ibérica.
Um terremoto que fende a América,
Faz a Califórnia seguir sua trilha.
Um lobo que se separa da matilha
E se entrega todo a sua sina tétrica.

sábado, 19 de outubro de 2013

Não há modo de escapar
Não nasci para poeta
Por que diabo tentar
Combinar alfa com beta

Larga essa imagem em paz
Que é banal ou absurda
Rimas pobres, triviais
A Musa se faz de surda

Não se meta a declarar
Entortando a linha reta
Outro amor sem nenhum par
Passando ao largo da meta

Não se ponha a elucubrar
Com sua pouca metafísica
Língua rude e vulgar
Abandona a pena tísica

Deixa o ofício a quem sabe
As Letras são arredias
Aceita a mediocridade
Ocupa melhor teus dias

quinta-feira, 7 de março de 2013

Nos Canos IV

Tudo estava pronto, então. Miroslav tinha apenas uma seringa e uma agulha, então combinaram que um tomaria o baque e o próximo teria que ferver tudo. Não era o ideal, mas era razoavelmente seguro. "É melhor que eu ajude o Flávio, injete a minha e aí o João...", "Não sei, Miro. Eu prometi a uma amiga que não ia mais fazer isso. E eu acho que eu perco o controle muito fácil, melhor não". Flávio então se sentou no sofá, trocou um olhar cúmplice e um sorriso com o amigo, que se aproximou e lhe acariciou os cabelos. Miroslav apareceu com a seringa e a agulha, mais uma colher e um isqueiro zippo, voltando para buscar algodão e um pouco de água. Abriu espaço na mesa de centro e se sentou, "John, pode buscar o garrote, na primeira gaveta do banheiro?". Com cuidado, depositou uma pequena quantidade da heroína, que se parecia agora com um pó amarelado, sobre a colher, alcançou a pipeta e adicionou algumas gotas d´água. Acendeu o isqueiro com a mão esquerda e o deixou sobre a mesinha, ao seu lado, levando o fundo da colher ao fogo. A droga se dissolveu rapidamente, então ele pôs uma bola de algodão sobre a mistura e em seguida introduziu a agulha nela e puxou o êmbolo. "Esse algodão nem é necessário, porque nós já purificamos, mas é o costume", "É uma cena clássica", concordou Flávio, "também, eu devo ter visto Trainspotting umas dez vezes". Os três riram e quebraram um pouco da tensão. João brincava com o tubo de borracha, e o entregou a Miroslav, que garroteou o braço do estreante. "Eu quero injetar eu mesmo!", "Hum, sério? isso pode ser perigoso", advertiu o amigo. João e Miroslav trocaram um olhar,  e aquele tentou tranquilizar este com um meneio de cabeça. Então a seringa estava pronta, o braço, garroteado; Miroslav deu as instruções básicas, mas como a veia estava bem saliente, o trabalho foi fácil. Flávio penetrou apele lentamente com a agulha, parou, e puxou o êmbolo para trás com o dedão; o sangue fluiu para dentro da seringa, misturando-se com a solução de heroína. Ele ainda olhou para os outros dois, sorriu nervoso, e pressionou o êmbolo.


Bem devagar, enquanto sentia a substância rapidamente ser levada até seu cérebro, fazendo efeito em frações de segundo. A primeira coisa que sentiu, enquanto mal conseguia tirar a agulha de dentro da veia e descartar a seringa de lado, escorregando do sofá e espalhando-se pelo tapete da sala, foi um formigamento tomar conta de todo seu corpo: se uma lança o trespassasse, seria como se o fizesse a um corpo inerte, e separado do dele. Na verdade, o prazer era tão intenso, um prazer corporal, primitivo, que estivesse ele em qualquer circunstância, se estivesse em um barril de merda, ainda estaria se sentindo muito bem. Ele pensava coisas diversas de sua vida, mas a maior parte era rechaçada como desnecessária, se não nociva, naquele momento. Por um instante, um sentimento de culpa tentou dominá-lo, ele repetia: é só desta vez, não vende no Brasil, e toda a racionalização há muito aprendida. Mas foi um instante breve, e a maior parte do tempo ele teve uma onda límpida, intensamente corporal e, ao mesmo tempo, de algum modo transcendente. João se ria do espetáculo enquanto Miroslav fervia a seringa para tomar o baque por seu turno, quando Flávio começou a descer de órbita e perceber o ambiente a sua volta.

"Fez boa viagem?". "Ah... eu... não, ótima. Grande viagem". Flávio olhava para o furo no braço esquerdo: tinha feito, tinha tomado nos canos, e não ia se tornar um viciado, apenas uma boa experiência. Pensou então em fazer um cigarro, mas sua coordenação era ainda errática, e o amigo teve que fazê-lo. Por longos minutos ele permaneceu deitado no chão, mas João trouxe umas latinhas da geladeira e ele se sentou. Miro, um pouco mais experiente, com facilidade fez todos os procedimentos sozinho e injetou sua dose, um pouco maior, e ficou muitos minutos no sofá enquanto os brasileiros conversavam sobre cinema e, por algum motivo, sobre a crise política de algum país do Oriente Médio. Flávio não deixava de sorrir um instante. Quando João percebeu que Miro voltava do país das maravilhas, buscou seu estojo e confeccionou um do AK-47. Todos fumaram sentindo imensa paz, João talvez ainda mais do que os que usaram herô, não obstante seus contratempos com a burocracia e com o tráfego ciclístico.

O dia seguinte era aquele em que Flávio iria embora. Ele arrumou tudo ao acordar, seu trem era às três. João propôs almoçar em um restaurante perto da estação. Entraram, rumaram para um setor aberto, onde era possível fumar, pediram duas cervejas, e enrolaram seus cigarros. "Paris, então?", "Poucos dias. Aí Lyon". "Foi bom estar com você estes dias", "Ora, eu que o digo. Não suma!". "Eu só passo às vezes um tempo sem ler e-mail, mas...", "Você sabe que eu eu te considero muito". "Igualmente, Flávio, esteja certo", "E avisa quando for ao Brasil". A resposta do outro foi um aperto de mãos afetuoso. A comida chegou e foi regada a qualquer conversa amena, e a um bom vinho tinto; o café estava excelente. Pagaram a conta e rumaram para a estação de trem, faltavam vinte minutos para o horário. Ainda tomaram outro café antes de ir até a plataforma, onde esperaram pouco tempo, conversando sobre a crise europeia, até que o chamassem para embarcar. Os dois trocaram um forte abraço, beijos nas faces, e tapas nas costas. "Mantém contato!", "Pode deixar!". Flávio entrou no trem e procurou seu assento. João voltou para casa para ele mesmo arrumar as coisas, iria mais tarde para sua cidade prosseguir seus estudos. Flávio achou a poltrona e ligou os fones de ouvido tocando Bitches Brew do Miles. Ele até tentava evitar, mas pensava na possibilidade de simplesmente ter tentado dar um beijo no amigo. Mas isso era assunto controverso e ele logo achava outra coisa para pensar.      

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Big Papa Records

Descobri que o Carlos e a Kátia, Biga Papa e Big Mama, donos da melhor loja de discos do Brasil, incluíram um link da Leosfera no site da loja! Muito honrado, e a partir de hoje, Big Papa, a loja e o site, estão mais do que recomendado por aqui. É bem verdade que eu dou muito dinheiro a eles quando vou lá, mas dá pra sentir o apreço que eles têm por um "true collector". Então se você curte vinil, mora ou está passando por Sampa, apareça lá na Galeria Nova Barão, perto da República, para conferir.