sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Episódio IV

Quintal. TEMIS no chão, cantando; SAGAZ bola um beque; ESTELA e LÚCIA jogam xadrez.

SAGAZ. Criamos um monstro!
LÚCIA. Normal, Sagaz. As pessoas passam a vida represadas.
SAGAZ. Por isso eu tenho meu vertedouro.
ESTELA. Vertedouro? Isso é um Amazonas!
OGRO. Mãe, levanta daí...
TEMIS. Catch a fire...
SAGAZ. Opa, Tetê, agora!
close em OGRO contrariado
LÚCIA. Cheque-mate!
ESTELA. Eu nunca vou ganhar da Lúcia.
SAGAZ. Se for campeonato de riponguice...
OGRO. Mãe!
TEMIS. Diga, Rix!
OGRO. Rix?! Vem aqui, mãe!
TEMIS [levanta] Faaala, bebê!
OGRO sussurra. TEMIS gargalha e empurra a cadeira para dentro.
SAGAZ. Estela, dá uma olhada na fraldinha enquanto o bebê troca o fraldão.
LÚCIA. O que a gente faz com ela?
ESTELA. Nada. Espera ela ir embora.
LÚCIA. E quanto tempo ela vai ficar?
SAGAZ. Por mim ela ficava e o Ogro voltava para o Sargento Severo.
ESTELA. Quem é Sargento Severo?
LÚCIA. O pai dele, não ouviu ela dizer o nome completo do Ogro ao telefone?
SAGAZ. A patente é que eu inventei. Não deve ser mais que isso.
LÚCIA. Sei não, o Ogro tem grana.
SAGAZ. General Severo, então. Marechal Severo, torturador da ditadura!
Entram TEMIS e OGRO.
OGRO. Eu ouvi, Sagaz, tá anotado, viu?
TEMIS. Ih, o Arnaldo torturou sim, conta com o maior orgulho.
LÚCIA. Sério mesmo, Temis?
SAGAZ [sério]. Tem coisa mais séria?
ESTELA. atende o celular, conversa em off.
TEMIS. Eu não costumo falar sobre isso. Tenho colegas, amigos mesmo, que foram presos na época. Mas sabe como é, eu me casei muito nova... e militar sempre teve um encanto, não?
LÚCIA. Também não é todo militar que é torturador; é uma profissão muito digna... em vários aspectos.
ESTELA. Gente, a Gabi me chamou pra jogar basquete, alguém topa?
OGRO. Eu topo! [riso geral]
LÚCIA. Hoje, não, amiga.
SAGAZ. Eu vou ficar aqui com a Temitchka.
OGRO. Sagaz...
SAGAZ. Lisonja sua, senhor.
ESTELA. Então vou indo. [todos se despedem dela, ad lib]
OGRO. Mama, posso conversar com você? Em particular? [TEMIS empurra a cadeira para dentro]
LÚCIA. Que situação, Sagaz!
SAGAZ. Se a situação é ruim, a oposição é ainda pior.
LÚCIA. Fala sério agora: você está tentando comer a mãe do Ogro?
SAGAZ. Olha, acho que uma ogra não é exatamente um ser humano. Ninguém poderia me acusar de canibalismo, poderia?
LÚCIA. A Temis não é ogra, é uma criatura muito sensível.
SAGAZ. Mas seu coração é Severo!
LÚCIA. O safado tá mesmo gamado na...
SAGAZ. Claro que não, Lúcia, não seja boba; estou só torturando o Ogro.
LÚCIA. Igual o Marechal Severo?
SAGAZ. Igual não, pior. Eu não espero nenhuma confissão dele.
TEMIS e OGRO voltam, visivelmente tendo discutido.
TEMIS. Ai, gente, esse meu filho... É uma criança ainda. Como é difícil criar filhos! É muito complexo.
SAGAZ. De Édipo.
TEMIS. Vamos fumar?
LÚCIA. Que aluna aplicada!
SAGAZ. Vamos fumar, sim, e não será debalde! Quer dizer, vai ser de balde!
TEMIS. Balde?!
OGRO. E eu não tenho escolha, tenho que assistir tudo isso. Não posso nem ligar pro papai. Não é estranho que ele não ligou de novo, mãe?
TEMIS. Explica isso melhor, Sagaz.
OGRO. Ela nem me ouve mais.
SAGAZ. Vais aprender na prática, Temizzia, não precisa de nenhuma equação de hidráulica.
entram. LÚCIA empurra a cadeira, SAGAZ beija TEMIS sem que ninguém perceba. 
corte. interno. LÚCIA, SAGAZ e TEMIS em volta do balde. OGRO tenta se manter alheio, ouve música.
TEMIS. Que maluquice é essa?
LÚCIA. É simples, Temis, um balde com água, uma garrafa cortada e a um buraco na tampinha. Beque no buraco, garrafa na água, enrosca a tampinha. Pegou? Agora, puxe a garrafa para cima... ela se enche de fumaça; você desenrosca a tampinha, mete a boca empurra a garrafa pra baixo. Presta atenção.
TEMIS [gargalhando] Deixa eu, deixa eu. [tenta fumar, se atrapalha, consegue eventualmente e tosse muito] Puta que pariu! [riso quase geral]
LÚCIA. Na verdade, isso a gente só faz de vez em quando. É meio extremo. Acho que não deve ser bom pro pulmão. Até o beque mesmo faz mal. A gente tá pensando em comprar um vaporizador.
TEMIS. Uai, eu tenho um vaporizador. Funciona que é uma beleza, limpa a cozinha...
SAGAZ. Tá virando uma piadista, né?
LÚCIA. Vaporizador é uma nova – nem tão nova – forma de usar a ganja. Sem queimar a erva, extraindo as substâncias com vapor quente. Elimina o risco de câncer. Se bem que tem pesquisas que indicam até que ela previne. Mas isso é controverso.
OGRO. Mãe! Mãe! MÃE!!!
TEMIS. Diga lá, Ogrinho.
OGRO. O papai não ligou de novo desde ontem, não é estranho? Eu quero falar com ele.
LÚCIA. Temis, isso é sério, ele deve estar preocupado.
TEMIS. Ele que ligue.

LÚCIA. Pois é, meu medo é que ele tenha justamente resolvido [toca a campainha] vir até aqui.

Episódio III

Em frente à casa. OGRO na cadeira, SAGAZ, LÚCIA E ESTELA, recebem TÊMIS.

ESTELA. Olá, dona Têmis! Que saudade!
TÊMIS. Foi só uma semana! E não me chame de dona mais!
SAGAZ. É a dona dos nossos corações!
LÚCIA. Que pieguice, Sagaz, não parece você.
ESTELA. Deve ser porque é sincero.
TÊMIS abraça OGRO
TÊMIS. Como tá, filhão?
OGRO [fala normal]. Melhorando, mãe, fez boa viagem?
TÊMIS. Fiz, Rique. O congresso foi uma chatice, mas não podia faltar.
SAGAZ. É assim mesmo, a gente faz o que é obrigado e é proibido de fazer o que quer.
OGRO. Não vai começar, Sagaz!
ESTELA. E aí, bateu aquele dia?
TÊMIS [rindo]. Bateu? Eu fui até o aeroporto rindo e cheguei rindo em Vitória. Achavam que eu era louca. 
SAGAZ. Estava louca.
LÚCIA. Mas foi bom?
TÊMIS. Foi ótimo! Ótimo! E a fome? Eu pedi três sanduíches no avião, a comissária dizia "nós vamos pousar", eu disse que queria pouso e pasto. Ela não entendeu [risos].
LÚCIA. Foi muito irresponsável deixar você sozinha, ainda bem que deu tudo certo.
ESTELA. Vamos entrar?
entram. corte.
OGRO. O papai ligou ontem. Disse que a casa está uma zona sem você.
LÚCIA. O mundo é dos homens, mas a responsabilidade é das mulheres.
SAGAZ. O cara não é milico, porra? Tinha empregada no quartel?
OGRO. Cuida da tua vida.
ESTELA. Posso bolar um?
SAGAZ. E precisa autorização agora? Licitação, publicar no Diário Oficial?
close em TÊMIS, sorrindo matreira.
TÊMIS. Estava esperando por isso.
SAGAZ. Não disse? Eu soube desde o início que o Ogro tinha escolhido os piores cromossomos.
OGRO. Não fala mal do meu pai, vagabundo.
SAGAZ. Vagabundo? Não fui eu quem bombou Cálculo I três vezes.
ESTELA. Meninos, chega. Cadê o dechavador?
LÚCIA. A seda tinha acabado, não?
SAGAZ. Não pode ser, a seda acabou? É só ir ao bar da esquina!
ESTELA. Eu só fumo em papel de arroz!
SAGAZ. Minha cara, eu já fumei papel de pão, de caderno, de bíblia, de sapato, de bala de coco, de fax, de extrato...
ESTELA. Tá bom, tá bom, sedanapo tá ótimo!
LÚCIA. Espera aí, gente, esta é uma ocasião especial, vamos bongar.
SAGAZ e ESTELA. Bongada! Bongada! Bongada!
LÚCIA sai.
OGRO. Mama...
TÊMIS. O que é bongar?
SAGAZ. Bong, Teminha...
OGRO. Teminha?!
SAGAZ. ...é um tipo de cachimbo que permite dar uma megabola e ficar megachapado. Agradeça por ter professores assim.
OGRO. Mãe, me alcança um cigarro?
TÊMIS. Não consegue fumar sozinho? Como fez esses dias todos?
entra LÚCIA com o bong.
SAGAZ. Eu acendi muito careta pra esse careta. Ora lá está! Isso é um bong. Que pena que tenho aula. Me dá o primeiro pega que estou atrasado.
SAGAZ usa o bong, os demais fazem silêncio.
TÊMIS [ri]. Que loucura!
toca a campainha, LÚCIA vai atender.
LÚCIA. É o Bob.
Entra BOB.
BOB. Senhoras e senhores, que belo espetáculo! Vim só fazer uma ponta! Quem é essa coroa gostosa?
OGRO. É minha mãe, seu safado! Mais respeito!
SAGAZ. É impossível fazer uma ponta, Bob. Você faz o beque, aí ele vira uma ponta. Mas chega aí, estamos bongando. [passa para LÚCIA]
BOB. Desculpa, dona coroa gostosa, eu não sabia. Ô Sagaz, e aquele disco do Peter Tosh, hein? Toca ele aí!
LÚCIA [tossindo]. Vai perder a aula.
ESTELA. Esse filho da puta nem precisa ir às aulas, passa com notão.
SAGAZ. Já que vocês se importam tanto com minha vida, eu vou. Mas vou rodar o disco do Tosh antes.
LÚCIA passa para TÊMIS, e a instrui:
LÚCIA. Você tapa o buraco, acende, puxa, enche o tubo de fumaça, solta o dedo e aspira. Mas não enche demais da primeira vez, vai devagar.
BOB. A mãe do Ogro fuma?!
TÊMIS se atrapalha e tosse muito.
TÊMIS. Virge Maria santíssima! É forte! Meu corpo pesa uma tonelada!
TOSH [música]. Legalize it...
TOSH, SAGAZ e BOB. Don’t criticize it...
TÊMIS passa para ESTELA
OGRO. Se eu não estivesse preso aqui...
LÚCIA. Ia fazer o que, Ogro, mandar a gente pagar dez flexões?
OGRO. As vantagens da disciplina... constrói caráter.
SAGAZ. Você aí não pode fazer flexões, mas pelo menos a flexão verbal pode fazer!
ESTELA. Tá bem, Têmis?
TÊMIS [rindo]. Demais, filha! Essa música é muito boa! [levanta e tira ESTELA para dançar, desajeitada; todos riem]
TOSH e TÊMIS. Legalize it!
SAGAZ. Bom, eu tenho que ir mesmo. [despede-se de todos; ad lib; sai]
ESTELA passa para LÚCIA
LÚCIA. Não pense que a gente passa o dia todo fumando, nós temos nossos compromissos. Eu preciso trabalhar na dissertação. Depois da inspiração. [bonga, passa para BOB]
BOB. Louvado seja Jah, nas alturas onde eu quero estar, bendita é a flor da vossa planta, assim na terra como na areia da praia, amém. [bonga]
telefone toca; ESTELA corre para atender
ESTELA. Alô? (...) Sim, sim, ela acaba de chegar. (...) Ela, eh... tá meio ocupada, agora, tá... no chuveiro...
TÊMIS. É o Arnaldo? Passa pra mim! Pode passar.
TÊMIS [assume o telefone]. Fala, queriiiiiido!
ARNALDO [voice over] Meu tesouro, está tudo bem?
TÊMIS. Maravilha, Arnaldo. O Ogro está bem melhor.
ARNALDO. Quem?!!!
TÊMIS. O Rique, Naldo. O Henrique Vilanova Severo, seu filho.
ARNALDO. Você está estranha, Têmis.
TÊMIS. Estranho é você!
ARNALDO. Aconteceu alguma coisa?!!!
TÊMIS. Aconteceu, sim, eu... virei uma borboleta!
LÚCIA. Isso vai dar merda...
BOB. Pô, então, eu vou virar o disco.
ESTELA. Eu ainda tentei...
LÚCIA. Nós vimos, Estela.
OGRO [extremamente ansioso]. Agora não falta mais nada...
TÊMIS [tapando o bocal]. Falta sim, falta ele experimentar!
LÚCIA. Têmis, diz que precisa desligar.
ARNALDO. Estou muito preocupado, amor, não estou entendendo nada!
TÊMIS. Você nunca entendeu nada, passar bem. [desliga]
BOB. Olha, dona, com todo respeito, mandou muito bem, toca aqui.
OGRO. Bob, quando eu melhorar eu te quebro.
BOB. Que agressividade, bro, devia fazer como sua coroa gos... aqui, bonga aí, a gente ajuda.
OGRO. Bonga aí... eu sou um homem de caráter!
LÚCIA. Como quando você engravidou uma moça e a abandonou à própria sorte? Belo caráter.
ESTELA. Gente, tá ficando esquisito, não quero briga aqui nesta sala. Não quero essa ondas cerebrais carregadas invadindo meu corpo.
BOB. Gente, eu vou em boa hora. A paz de Jah fique com vocês. Ou a guerra dos cristãos, o que preferirem.
todos se despedem; ad lib
TÊMIS. Ué, eu não fiz nada. Só porque eu virei uma borboleta vou me incomodar com quem ainda é lagarta? Nunca!
LÚCIA. Então. Têmis, infelizmente que usa maconha tem que saber como lidar com uma sociedade careta. Ninguém aqui queria acabar com seu casamento, e...
OGRO. Nenhum casamento acabou. Mãe, explica tudo, inventa uma história. O papai não pode saber que você...
TÊMIS. Que eu fumei? Eu mal posso esperar para contar pra todo mundo: meus alunos, minha manicure... meu psiquiatra!
ESTELA. Cuidado com esse psiquiatra...
LÚCIA. Verdade, Têmis, médicos têm uma postura ideológica, e a maioria deles é conservadora. Acho que você deve dizer, mas é importante ter um médico com quem você pode ter um diálogo franco... quem sabe você não possa abrir mão do Rivotril? Esses caras patologizam até a primordial angústia humana.
TÊMIS. Angústia? Deixa isso pra outra hora, eu estou feliz!
ESTELA. No momento, você está chapada, felicidade é mais complicado.
TÊMIS. Eu estou feliz no meio de tantos jovens felizes. E é só maconha, ué. Vocês não usam outra droga.
LÚCIA. Não é bem assim, Têmis, a gente flerta com outras coisas às vezes. As drogas estão no mundo, cabe a cada um fazer um uso responsável. O Sagaz dá seus tiros, de vez em quando eu tomo um ácido ou um cogu...
TÊMIS. O que é cogu?
ESTELA. Cogumelo, Têmis. Psilocybe cubensis, cresce no esterco de vaca. É alucinógeno, ou enteógeno.
TÊMIS. Enteógeno?
ESTELA. Permite o acesso a outros níveis de consciência.
LÚCIA. É uma onda muito forte, mas é seguro. Enfim, voltando ao assunto: são várias as drogas, e o ideal é que todas sejam legalizadas eventualmente. Imagina que só a maconha seja legalizada, os traficantes vão fazer um [sinaliza aspas] “marketing” agressivo para vender as que ainda são ilegais.
TÊMIS. Mas você quer legalizar o crack? O crack cria zumbis.
OGRO. Tem que internar esses noias.
ESTELA. Tinha que internar você. Pelo menos eu não ia trocar fralda de ninguém.  
LÚCIA. Veja bem, o crack é uma questão difícil. Primeiro, o problema de quem está na rua usando crack não é o crack, é estar na rua. O crack é sintoma. Tem gente em boa posição social que usa suas duas pedrinhas depois do trabalho e vai em frente. Outra coisa, o crack não deveria existir, ele existe porque o refino da cocaína está nas mãos do crime. Durante a lei seca nos Estados Unidos, as pessoas bebiam álcool com plastificantes, o chamado jake, que as levava à loucura e à morte. Ele sumiu com o fim da proibição.
TÊMIS. Ninguém nunca me disse isso! Bem galera, pintou uma fome...
ESTELA. Fome, não. Larica. Isso encerra a lição de hoje. Nós vamos preparar um frango ao vinho com risoto de cogumelo pra você.
TÊMIS. Cogumelos alucinógenos?
LÚCIA. Não, essa é uma lição avançada. É shitake mesmo.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Episódio II

Sala. OGRO na cadeira de rodas, MÃE DO OGRO (DONA TÊMIS), SAGAZ e LÚCIA.

MÃE. Meninos, meninas, muito obrigada, eu preciso ir. Cuidem dele. Desculpa filho, mas eu não posso perder esse congresso.
OGRO [com dificuldade, em toda cena]. Tô bem, mãe.
SAGAZ. Eu garanto que ele vai se comportar por um mês, dona Têmis. Pode deixar que eu busco o carro no conserto também. Quem não tem conserto é ele. 
OGRO. Vai se foder.
MÃE. Rique!
LÚCIA. Espero que ele nunca mais pegue o carro bêbado, né?
entra ESTELA
ESTELA. Carro bêbado? Até o carro é viciado em álcool?
SAGAZ. Ih, bebe até gasolina.
MÃE desvanece. ESTELA a socorre.
LÚCIA. Que houve, dona Têmis?
MÃE [arfando]. Não é nada. Quando eu tomo Rivotril logo cedo me cai a pressão.
SAGAZ. Joga fora os comprimidos e adere à onda medicinal, dona.
LÚCIA. Não, Vítor, não é assim que...
OGRO [ansioso]. Cala a boca.
ESTELA. Não, gente, nós temos que falar abertamente, ué.
MÃE. É, o Henrique comentou alguma coisa... Eu nem acho errado, sabe...
SAGAZ. Errado é deixar de aproveitar essa planta fantástica!
LÚCIA. Isso é verdade, Têmis, além do uso por prazer, a planta também é matéria prima e um remédio muito eficiente e versátil, além de ser pouco tóxico.
MÃE. Mas maconha não é tóxico?
SAGAZ. Eu peguei um fumo aí que é um veneno.
ESTELA. Veneno é o que eles misturam na maconha.
LÚCIA. Exatamente. Se legalizar, poderemos controlar a qualidade. Tóxico é só um nome popular para as drogas ilícitas, mas elas são muito diferentes. O que é fato é que a maconha – e o LSD também – têm baixo grau de toxicidade. Ninguém morre por usar maconha, ou ácido.
MÃE. Ah, mas daí a liberar geral, é difícil, né?
SAGAZ. Geral já liberou, dona, você que não sabe.
ESTELA. Se quiser comprar, é mais fácil que pão.
LÚCIA. É o contrário, Têmis, queremos que o mercado tenha regras, e recolha imposto. Criança não poderá comprar, e hoje pode. E o mais importante é perceber que o combate às drogas tem feito muito mais mal do que as próprias drogas, especialmente a plantinha.
MÃE. Acho que tem que liberar só o remédio, aquele do Fantástico.
SAGAZ. Tipo liberar o suco de laranja e proibir a laranja?
ESTELA. O uso medicinal pegou carona com o recreativo e roubou o carro.
LÚCIA. Os avanços são graduais, Estela. Mas na minha visão é muito pouco mesmo legalizar só o CBD, porque reafirma a noção de que o uso recreativo é condenável.
SAGAZ. Recreativo, não, preventivo.
ESTELA. Ritualístico.
LÚCIA. Ou privativo. Eu acho que não temos que fingir, eu gosto de “recreativo”.
SAGAZ. Recreativo. Recreativo é jogar dominó. Eu levo isso mais a sério do que qualquer outra coisa, como é que é recreativo?
MÃE. Mas como é que vamos impedir que as pessoas fumem?
OGRO. Seu voo, mãe.
MÃE. Como?
OGRO. Seu voo.
MÃE. O papo tá bom, Rique. Eu tenho ainda tempo pra queimar.
SAGAZ. Por que a senhora não disse que queria queimar?
ESTELA. Vou bolar um.
OGRO. Não...
MÃE [rindo]. A piada é boa, mas eu não tenho coragem não.
LÚCIA. Então, Têmis, sobre sua pergunta, a primeira coisa a ter em mente é que apenas uma pequena parcela dos usuários de maconha faz uso problemático, ou seja, a maioria segue normalmente sua vida. Então não se trata de impedir o uso. Precisamos é evitar o abuso, o que não estamos fazendo com o álcool, aliás.
SAGAZ. Eu não abuso dela, sempre a tratei com todo respeito.
ESTELA. Você pode proibir o isqueiro, ou a seda, ou o oxigênio...
MÃE.  Não sei, gente, sempre ouvi que isso era perigoso.
SAGAZ. O único perigo é rodar, dona.
LÚCIA. Isso mesmo, o perigo está mais na sociedade do que na planta. Perigoso é frequentar biqueira. Os males que se atribuem à maconha são quase todos inventados, não têm base científica.
ESTELA. Seguro é beber e dirigir, né Ogro? Henrique, quer dizer.
OGRO. Humpf.
MÃE. Verdade, né? Hipocrisia pura. Dizem que é uma droga leve.
SAGAZ. Não é não, R$50 de maconha é muito mais pesado que R$50 de pó.
LÚCIA. É como eu disse, Têmis, a maconha tem baixa toxicidade e baixo poder de causar dependência. A abstinência de café é mais séria do que a de maconha!
ESTELA. Tem muito mais viciado em coca-cola do que maconheiro!
MÃE. Eu tomo dois litros todo dia.
OGRO. Mãe, vai perder...
MÃE. Calma filho. Eu vou experimentar.
OGRO. Mãe!
MÃE. Não, eu vou sim. Sempre tive colegas que fumam, eu achava o fim do mundo. Mas sabe o que? Um dia eu li o artigo de um deles e era simplesmente brilhante. Ora! Vocês têm razão.
OGRO. Que vergonha...
(ela fuma, tosse; aplausos)
SAGAZ. Bem vinda ao restante de sua vida!
ESTELA. Mandou bem, dona Têmis!
OGRO. O que o papai vai dizer!
LÚCIA. Olha lá o machismo... Você lembra quando ela disse que não tinha coragem? Aposto que tinha medo do marido conservador.
MÃE. Ah, o Arnaldo é linha dura mesmo. Militar, sabe?
SAGAZ. Filho de ogro, ogrinho é!
ESTELA. A sociedade é uma fábrica de ogrinhos.
MÃE. Não estou sentindo nada.
SAGAZ. Mentira, está sentindo a expectativa.
LÚCIA. É normal, às vezes a pessoa só vai sentir na terceira, quarta vez que fuma. Seu cérebro está se acostumando à ideia.
ESTELA. Volta de novo, dona Têmis.
MÃE. Eu vou sim, depois do congresso. Queria ficar ao lado dele, mas não posso.
SAGAZ. Fica tranquila que a gente vai espezinhar ele com muito carinho.
LÚCIA. Vai, lá, Têmis. Eu vou chamar o táxi.
OGRO. Mãe, não vai contar nada...
SAGAZ. Ela vai contar as horas para fumar de novo.
ESTELA. Deixa cada um decidir, Vítor, não força. É a cannabis que escolhe as pessoas, não o contrário. Somos os eleitos de Shiva.
SAGAZ. Então eu sou um sacerdote. Amém.
MÃE. Você é um barato, Vítor.
SAGAZ. O barato é louco, dona, e o processo é lento.
LÚCIA [entra]. Taí o táxi.
ESTELA. Isso é quase um hai cai.
MÃE [despedindo-se]. Bem, meninos... e meninas, vocês são todos um amor. Na volta conversamos mais. Cuidem bem desse moleque pra mim. [p/OGRO]E você, agora que passou o susto, vê se dá valor à vida.
OGRO. Já sei disso, mama.
SAGAZ. Não bateu nadinha?
MÃE. Não sei, estou um pouco... não sei.
ESTELA. Tenha uma ótima viagem, Têmis!
Saem todos, ESTELA empurra a cadeira.
corte
MÃE gargalhando dentro do taxi
TAXISTA. Pra Onde, senhora?

MÃE. Pra Saturno!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Episódio I

Quintal ou área; churrasqueira. OGRO (o careta) prepara a carne. ESTELA (a hippie), SAGAZ (o bobo) e LÚCIA (a raisonneur) preparam e fumam um.

ESTELA. Sagaz, tem uma seda aí?
OGRO. Vocês já vão fumar isso de novo? Daqui a pouco a polícia aparece aí.
SAGAZ.[dá a seda]  A gente dá uma cervejinha pro guarda.
LÚCIA. Relaxa, Ogro, a guerra é aos pobres.
OGRO. Ah, quer dizer que você defende bandido?
SAGAZ. Ué, você vai ser advogado pra defender bandido, não?
ESTELA. Pô, gente, que vibe mais errada. Estamos vivendo a Era de Aquarius...
SAGAZ. Ainda bem que eu sou Peixes, então.
ESTELA. Caramba! Nunca tinha pensado nisso? Eu sou Leão, vou me afogar (risos). E vocês? De que signo são?
SAGAZ. O Ogro fumando tanto careta só pode ser Câncer. A Lúcia...
LÚCIA. [interrompendo] Na verdade, Ogro, a ideia é que com a legalização das drogas a figura do traficante deixaria de existir, e o comércio seria legal, em drogarias.
OGRO. Vocês querem vender DROGAS nas DROGARIAS? Como assim?!
SAGAZ. Não vende PÃO na PADARIA?
ESTELA. Vamos celebrar Shiva então, gente?
LÚCIA. Opa, é uso religioso então?
SAGAZ. O meu uso é medicinal.
ESTELA. Sério?!
SAGAZ. Foi a única coisa que curou minha caretice refratária.
LÚCIA. Você ainda deixa ele te enganar, Estela? Acende logo.
OGRO. A maconha é o primeiro degrau para as outras drogas.
SAGAZ. Isso é verdade. Eu guardo o pó em cima do armário e preciso usar um quilo de fumo como degrau para alcançar.
LÚCIA. Ogro, a maconha é a droga mais usada, de longe. Isso significa que a maior parte de seus adeptos não migraram para cocaína ou crack. A maconha é, na verdade, ótima porta de saída, ajudando no tratamento de viciados.
ESTELA. A maconha é o primeiro degrau para a iluminação!  
OGRO. Maconha como tratamento, tá louco? A maconha mata neurônio.
SAGAZ. [mano] Aê mano, alguma coisa esse neurônio deve ter feito, também, tá ligado?
LÚCIA. Isso é uma fabricação, Ogro. O que mata mesmo é abusar da birita como você faz.
ESTELA. E a ressaca? Só a erva pra dar jeito...
OGRO. Se legalizar, vai aumentar o consumo.
SAGAZ. É simples, a gente aumenta a produção.
LÚCIA. Na verdade, Ogro, isso é improvável. Quem quer, hoje, já consegue. Se legalizar, talvez as pessoas tenham menos medo de experimentar, mas quantos vão adquirir o hábito é uma questão de predisposição individual. Os jovens da Holanda usam menos maconha do que a média europeia.
OGRO. Mas a maconha causa até esquizofrenia!
SAGAZ. Olha, eu sempre fumei pra ficar doido.
LÚCIA. A verdade, Ogro, é que quem tem o gene que predispõe à esquizofrenia pode ter a doença disparada pelo uso da cannabis, mas estamos falando de 1% da população.
ESTELA. Ai, gente, a maconha me ajuda muito a NÃO ficar louca!
OGRO. A maconha tira a motivação.
SAGAZ. Ué, maconha não é crime? Todo crime tem uma motivação.
LÚCIA. Outra invenção, Ogro. Há um bocado de gente dinâmica, produtiva e criativa que usa. Quando a pessoa abandona suas atividades, a explicação vai ser encontrada na psique, e não na substância.
ESTELA. Quem não tinha nenhuma motivação legítima eram os proibicionistas!
OGRO. Todo mundo sabe que a maconha causa alucinações.
SAGAZ. É verdade, eu acho que posso ver um asno na minha frente!
LÚCIA. Alucinações foi o que as campanhas de desinformação criaram, como essa noção equivocada. Sem comentários.
ESTELA. Gente, se maconha fosse alucinógeno, quem ia precisar de ácido ou cogumelos!
OGRO. A maconha causa perda de memória.
SAGAZ. Ou seja, não fumem perto do computador, isso danifica o disco rígido.
LÚCIA. Esse mito provavelmente se origina nos “brancos” que o maconheiro pode ter às vezes quando sob o efeito. Pesquisas mostram que não há dano permanente às funções cognitivas.
ESTELA. Eu devo admitir que não me lembro da última vez que passei um dia sem fumar.
OGRO. A maconha provoca taquicardia.
SAGAZ. Ih, tá acabando a munição...
LÚCIA. Um susto provoca taquicardia.
ESTELA. Ou um amor à primeira vista!
OGRO. [irritado] A maconha destrói a família!
SAGAZ. Pô, minha família destrói minha maconha sempre que eles encontram.
LÚCIA. Será a maconha ou a intolerância que destrói essas famílias?
ESTELA. Eu aposto 50 gramas que o álcool destrói muito mais famílias.
OGRO. Até parece que vocês não bebem.
LÚCIA. Bebemos. Mas não defendemos a proibição do álcool.
ESTELA. É proibido proibir!
LÚCIA. A divisão entre drogas legais e ilegais é arbitrária. Até adoçante faz mais mal que maconha.
OGRO. Ah, tá. Então por que iriam proibir?
SAGAZ. Pra ganhar dinheiro traficando?
LÚCIA. São basicamente três razões; a primeira o é controle social. No Brasil, a proibição sempre teve caráter racista, pois a planta veio com os negros africanos; nos Estados Unidos, era hábito tanto de negros quanto de mexicanos.
ESTELA. La Cucaracha... La Cucaracha... ya no puede caminar...
ESTELA e SAGAZ. Porque no tiene... Porque no tiene...
ESTELA, SAGAZ e LÚCIA. Marijuana que fumar.
OGRO. Olé!
LÚCIA. Não, sério, a segunda é comercial: a planta da maconha tem muitos usos industriais, de têxteis a combustíveis, e era conveniente para a indústria petroquímica, que introduzia fibras sintéticas na época, tirar a concorrência do caminho.
OGRO. Teoria da Conspiração?
SAGAZ. Conspiração contra a piração.
LÚCIA. Não, é sério. Esse cara, o Aslinger, foi quem proibiu a maconha lá com campanhas de mistificação, era ligado à DuPont. Eu te mando o link.
ESTELA. Teoria da Corrupção, isso sim.
LÚCIA. Só terminando, tem o problema do moralismo, é claro. Na nossa tradição, o prazer é condenável.
OGRO. Mas enquanto for proibido, é proibido. Vocês financiam a violência.
SAGAZ. Eu não financio não, eu pago à vista.
LÚCIA. Cara, o usuário é uma peça nessa engrenagem sem dúvida, mas por total falta de opção. Plantar pode dar muitos anos na cadeia, nossos jardineiros são verdadeiros heróis.
ESTELA. Todo maconheiro é um herói!
OGRO. Bah! Gente, acabou a cerveja. Vamos comprar mais?
SAGAZ. Vai financiar a Ambev?
LÚCIA. Eu parei.
ESTELA. Também.
OGRO. Só a saideira.
SAGAZ. Saideira é pra sair do bar, você já está em casa.
LÚCIA. Você vai de carro? Não faça isso! Ogro! Henrique!
ESTELA. O livre arbítrio é tão tolhido quanto abusado.
(corta)
área interna. telefone toca
ESTELA atende (música, não se ouve a conversa)
sua expressão indica espanto e então desespero
desliga
ESTELA [chorando]. Gente! O Henrique se acidentou.
SAGAZ.
LÚCIA. A culpa é minha.
SAGAZ. Claro que não, Lúcia. (abraçam-se)
ESTELA [chorando]. Está em estado grave, tomando morfina.

close em SAGAZ  que ergue uma sobrancelha

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Anti-Shakespearean Sonnet

True it is that increase is earth's old rule,
That mankind thriveth not but by conception;
Thinkst thou though, be not so fond and unschooled,
Any rule is deemed to have an exception.
Thy grace pitifully wanteth the means,
She aboundeth in years that which thou lack'st;
Pitieth the very babe's future's dreams,
Roughly denied for years and decades next.
The sands have not flown back and forth so much
Desperate measures are not in your hands;
Desperate ills must be addressed as such,
And Scripture breaks not thus but merely bends.
Thou deserv'st much worthier babies;
If not mine, then a worthier lady's.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Faux-Dark Lady Sonnet

Thou that deserv'st not this mere ink and paper
Whose wantonness is far and wide divulged,
To my bosom and wit stand'st such a gaoler
That in my eyes all your sins be purged.
Thy love I seek not; great fool else were I.
To keep in the private parts of Fortune,
And your favours enjoy and never belie
Sufficeth in suplus, whoe'er may thee importune.
Thus am I in rough terms with Reputation
Chasing none but lascivious Lady Lust.
A guilty delight's all my compensation,
Still, indulge in foul sin I simply must.
´Tis sterling tender in my poor-witted reckoning
Such as those I give thee at thy very beckoning.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Soneto

As estrelas que lhe emprestam o brilho
Não suportam mais sua usura.
Que credora intransigente e dura
Resiste a rogo por pai e filho?

E cobra juros de mora e multa
Dos pobres astros, já melancólicos.
Um apetite nada católico,
Que a todas galáxias oculta.

Será a bancarrota celeste?
Devedora, a Lua também,
Recorre ao Sol por algum vintém;
E ele já se esconde no leste.

Tudo isso por uma riqueza
Que tem infinda por natureza.