sábado, 29 de março de 2014

Ato I Cena II

Festa. A metade livre do palco representa um quintal. Extras.

luz sobre TOBIAS e TAMARA
TOBIAS         Mas você não pode analisar o impacto da tecnologia sem considerar relações de classe!
TAMARA       Verdade... mas como é que se pode encabrestar a tecnologia para a mudança social?
TOBIAS          Você acaba de formular o maior dilema moral do século.
entra VALDIR
VALDIR         E aí, Tobas, vai salvar?
TOBIAS         Não me chama de Tobas, feladaputa. Eu tô sem seda, você tem?
VALDIR         Porra, o Kid sempre tem, cadê ele? KID!!!
TOBIAS         Ih, olha ele lá faturando outra... Machista filha da puta.
VALDIR         Porra, ele não é casado, brother, tá ligado? Deixa de ser moralista.  
TAMARA       Peraí, acho que eu tenho uma seda! (procura na bolsa e dá ao namorado) Você exagera, carinho, ele não está enganando ninguém.
VALDIR          Deixa que eu aperto, tá ligado?
TOBIAS          Só a si mesmo, o cara tá com mais de trinta!
TAMARA       Uai, isso é problema dele. Eu acho que ele é machista pelo que diz, mas se ele quer ficar cada dia com uma, isso não é um crime, é?
TOBIAS          Ele não tem a sorte que eu tenho! (beijam-se)
VALDIR          O amor não é lindo?
                        Dois pombinhos se amam
                        Duas mãos que apertam
                        Baseado saindo!
TAMARA       Caralho, Val, esse ficou profissional!
VALDIR         Baseado é coisa séria, Tamara. Uso recreativo é para amadores. Tá ligado?
luz sobre PAULO e MÁRCIO
PAULO          Quer dizer então que tem festa toda semana e vocês mentiram. Todo mundo fumando maconha, olha! Onde é que eu vim me meter!
MÁRCIO       Relaxa, filhote. Você está descobrindo o mundo agora... Muita coisa que você acredita... não é bem assim, tá bom?
PAULO          Não é bem assim? É proibido! É crime! Você financia o narcotráfico.
MÁRCIO       Errado, bebê. O proibicionismo financia o tráfico.
PAULO          Ora, um sofista! Não, eu vou achar outro lugar. E não me chame de bebê, ou de filhote. Ser mais velho não te faz melhor.
MÁRCIO       Já que você é contra as drogas, não quer uma vodka? Eu vou buscar uma pra mim. (entra a FICANTE com dois copos). Olhaí, ela adivinhou meu pensamento. (pega os dois copos) Busca outra pra você, amorzinho.
PAULO         Vocês são uns desregrados.
MÁRCIO      Negativo... meu caro. Seguimos a regra de ouro: faça a si mesmo o que você gostaria que você fizesse a si mesmo.
PAULO         Não é bem assim a regra de ouro. A regra de ouro manda fazer aos outros o que gostaria que fizessem a você.
MÁRCIO      Então a minha é a regra de platina. Que importa? Lá vem ela, depois a gente continua. Relaxa. Olha em volta, tá cheio de mina, porra!
PAULO         Eu tenho namorada, entendeu? E quero ver quem vai limpar essa bagunça amanhã!
MÁRCIO      Caralho, filho... quer dizer, caralho! A Benedita vem amanhã. Se solta!
luz sobre TOBIAS, TAMARA e VALDIR
TOBIAS        O que a reitoria está tentando fazer é absolutamente fascista! Querem tirar o direito à moradia estudantil!
VALDIR        Mais ou menos, Maça, eles não podem também deixar todo mundo hospedar quantas pessoas quiserem. Ia ficar insustentável, tá ligado?
TAMARA      Mas então vão fiscalizar cada casa, cada dia? Os moradores precisam ter autonomia.    
TOBIAS        Júlio! Julião Pirata!
entra JÚLIO
JÚLIO           Fala meu chapa!
TOBIAS        Porra, nem me fala em chapa, a eleição tá aí! (riem) Queria te perguntar uma coisa... sabe quem tem uma brizola?
TAMARA     Poxa, carinho...
JÚLIO           Pô, parece que o Berna tá com um bom. Mas é caro.
TOBIAS        É, né? Tô meio mal de grana. Você não salva nem um tirinho?
JÚLIO           Porra... Vem aí. Um tirinho, que eu também estou mal das pernas. (entram na casa)
TAMARA     Eu fico tão preocupada com o Tobias. Ele até que cheira pouco, mas sei lá. Essa droga é foda.
VALDIR       O bagulho é cabuloso, tá ligado? Eu que o diga.
TAMARA     Você cheirava?
VALDIR       Pô, pra caralho! Mas tive que parar. Ainda bem.
TAMARA     Como foi?
VALDIR       Então, tá ligado? Eu tinha um amigo... Eu estudei em colégio bacana, ganhei uma bolsa. E esse amigo era filho de um industrial riquíssimo. Ele não sabia onde comprar, eu morava do lado da boca... tipo uma simbiose, tá ligado? A gente aprontava todas. Ele tinha duas motos, nós dois rodávamos a cidade com um papel no bolso da camisa e um canudinho, tá ligado? Barato louco. Sobrevivi a três overdoses, ele a umas cinco. Melhor do que ser amigo do rei é ser amigo do filho porra-louca do rei, tá ligado?
TAMARA     E o que aconteceu?
VALDIR       O pai dele bateu as botas e ele assumiu o controle da fábrica, não, das fábricas. Virou um cuzão e disse que não falava mais comigo. Aí eu não tinha mais grana pra cheirar e parei. No começo foi foda, mas depois melhora, tá ligado?
luz sobre PAULO
PAULO         Que porra de... peraí. Eu não devia beber vodka. A Marina ia me matar se soubesse que... porra, a Marina tá muito longe agora. Talvez ele tenha razão: se entrega, é uma vida nova. Mas eu não vim aqui para isso, vim com um propósito! Vou ligar pra ela... tá tarde. Vou escrever então. Vou pedir desculpas. Desculpas por quê? Por ficar bêbado. Ela não me perdoaria. Não importa, vou escrever. Vou me sentir melhor. Mas primeiro eu vou descansar um pouco aqui... (dorme)
luz sobre MÁRCIO e LAMBÃO
LAMBÃO       Ela está no banheiro há meia hora!
MÁRCIO        Tá lavando a boceta pra eu chupar!
LAMBÃO       Tá é batendo siririca e vai te deixar na mão!
MÁRCIO        Que! Xá comigo, eu não dou bola fora. Todo fim de semana eu marco ponto.
LAMBÃO       Fazendo Farmácia é fácil, eu devia ter feito o mesmo. Engenharia é foda!
MÁRCIO        Tem que saber trabalhar.
entra VALDIR
VALDIR          Salve, macacada. Cadê a gatinha, Kid? Tá conversando com cueca?
MÁRCIO         Foi ao banheiro, mano. Deixa que eu estou no controle.
VALDIR          Você só está no controle quando joga PlayStation, Kid. Tá ligado?
LAMBÃO        De onde vem esse apelido, Kid?
MÁRCIO         Não te contei isso?
VALDIR          Pó deixar que eu conto, tá ligado? Eu tava lá e eu vi. Eu, o Tobias e o Márcio fomos passar um fim de semana em Arvoredo. Era em pleno verão, tipo agora, e não demorou a alguém, que não vou identificar, tá ligado? (aponta para MÁRCIO) ter a ideia de catar cogumelo no pasto. Brother, eu nunca vi tanto cogumelo de uma vez só; era suficiente para trinta, e éramos três.
LAMBÃO        Eu nunca tomei cogu!
MÁRCIO         Eu conheço um pasto, a primeira chuva que der a gente vai à caça!
LAMBÃO        Vamos combinar sim, mas continua a história.
VALDIR           Vai ouvindo, tá ligado? A gente tomou na sexta, ficou locaço, foi o pôr-do-sol mais espetacular da minha vida, o céu estava róseo, armava uma tempestade, as nuvens dançavam... Enfim, no dia seguinte tinha um monte de cogu, eu e o Tobas não queríamos nem ouvir falar em tomar de novo; mas o Kid aqui não tava nem aí, e comia as chapeletas uma depois da outra, mesma coisa no domingo...
MÁRCIO          E quando eu cheguei de volta, começaram a aparecer umas brotoejas enormes no meu corpo todo. Aí eu virei o Kid Brotoeja. E com muito orgulho!  
PAULO acorda
PAULO             Nossa... que coisa, eu... nossa. Eu apaguei. Nunca mais eu bebo. Vou escrever pra Marina. (entra e liga o laptop) Ah! tem mensagem dela! Vamos ver. (pausa) Como?! Acabou? Como assim acabou? Sua! Assim, em duas linhas! Pela internet! Mas eu... quantas... quantos... por nada. Nada! Eu vou beber mais, vou morrer até beber, quer dizer... vou... (pega mais uma vodka e se junta a TAMARA e TOBIAS)
TOBIAS            Que houve, Paulo, que cara é essa? Viu assombração?
PAULO             Não quero falar disso, quero ficar louco, inconsciente! A ingratidão! O escárnio! Mas deixa estar. Vou buscar mais uma.
TAMARA          Parece que você devia parar, Paulo. Por que não se deita?
PAULO             Acabo de dormir uma meia hora, eu quero é ficar louco. Louco!
TOBIAS            Você precisa é se acalmar... Carinho, cadê aquela ponta?
TAMARA          Vai aplicar o menino? Ele não está em condição de decidir, não é certo.
TOBIAS            Um careta morar aqui é que não está certo. Dá aqui.
PAULO             É isso mesmo. Eu quero experimentar! Me dá!
TOBIAS            Então vai com calma. Puxa devagar, traga e solta. Não prenda. Cadê o isqueiro? Pronto, aqui. Essa é da boa, vai te deixar beleza. Mas você tem que ficar tranquilo. Não entra numas.
PAULO             (tosse) Não seu nada.
TAMARA          Demora um pouco. Às vezes, na primeira vez, não dá nada.
PAULO             Mas eu quero ficar loooooouco! (começa a cambalear o tronco)
TOBIAS            Parece que tá entrando! Já acabou, Paulo, você está fumando a piteira.
PAULO             (se deita na grama, começa a rir) Tá vendo, Marina, tá vendo?
TAMARA          Ah! Já tinha desconfiado, é mulher.
TOBIAS            Deixa, ele não quer...
PAULO             Não, eu quero. Quero dizer que ela é uma ingrata sem coração, nem esperou e me trocou por um idiota qualquer. Meus planos de me casar no dia do lançamento do meu primeiro romance... eu troco por... um misto quente! Bateu a fome, tem pão?
TAMARA          Vamos entrar, eu preparo alguma coisa pra você, depois é cama.

Ato I Cena I

Um lado do palco representa a república, o outro todos os demais cenários.

Entram PAULO e o PAI
PAULO        (toca a campainha) É a última tentativa, pai, se não der certo eu volto pra Curitiba.
PAI               Calma, filho, tudo se resolve. Você queria tanto estudar na UNICA.
PAULO        Já faz uma semana que estamos tentando achar um lugar!
Entra MÁRCIO, atende à campainha
MÁRCIO     Oi! Vocês que ligaram?
PAI               Sim, meu filho passou na segunda chamada, estamos procurando um lugar pra ele.
MÁRCIO      Claro! Entrem, meu nome é Márcio.
PAULO         Eu sou o Paulo.
MÁRCIO      Passou em quê?
PAULO         Letras...
PAI                Meu filho tem essas ideias de poeta... Mas eu repeito a escolha dele.
MÁRCIO      A gente tem que fazer o que gosta né? Eu mesmo ainda estou tentando descobrir...
Ilumina-se o sofá, onde estão Valdir e Tobias. Tobias aplica um spray de bom-cheiro.
VALDIR        Chega aí, rapaziada, a casa é sua, tá ligado? Ou pelo menos tão sua quanto minha, que a gente paga aluguel, e caro! Eu sou o Valdir. Senta aí, tá ligado?
PAULO          Paulo, prazer.
TOBIAS         Eu sou o Tobias, beleza? Tá chegando agora?
PAULO          Pois é, e parece que tá difícil achar uma república.
TOBIAS         Relaxa, aposto que você já encontrou. Vem de onde?
PAULO          Do Paraná, e você?
TOBIAS         Daqui mesmo, cara! Meus pais são professores da UNICA. Eu faço História; o Valdir é do Vale do Paraíba e faz Matemática.
PAULO          Bacana, e você, Márcio?
MÁRCIO       Eu faço Farmácia, meu, é um harém aquilo, você nem imagina. Mas eu já passei pela Geografia, pela Engenharia Agrícola...
VALDIR         O Kid já tem doutorado em safadeza, no entanto.
TOBIAS         Kid é o apelido do Márcio.
PAI                 Eu queria saber se vocês usam drogas.
PAULO          Pai!
VALDIR         Tranquilo, Paulo, ele tá certo! Hoje em dia, você sabe. O que tem de cheirador de maconha por aí! Não senhor, fique tranquilo que aqui somos gente séria, ordeira e respeitadora, tá ligado?
PAI                 Muito bem. E como é? Quanto é o aluguel? Vocês têm empregada? Tem ônibus aqui pro campus?
TOBIAS         Olha, seu... ainda não sei seu nome! (...)
TOBIAS e PAI conversam em off
PAULO          Espero que vocês não façam muita festa aqui, eu vim para estudar à vera!
MÁRCIO       Pode ficar sossegado, Paulo. Aqui é uma tranquilidade absoluta.
VALDIR         E tudo que é absoluto é relativo, tá ligado?
PAULO          Quem é que toca bateria?
MÁRCIO       O Maça. Maça é o Tobias.
PAULO          Mas não atrapalha vocês?
VALDIR        Ele só toca de fim-de-semana. Quase não toca. Os vizinhos é que tocam aqui, pra agradecer por não tocar. Tá ligado?    
PAI chama PAULO à parte
PAI                 Filho, o que você me diz? A despesa cabe no meu bolso. A decisão é sua.
PAULO          Olha, pai... não tem pra onde correr, vamos fechar.
PAI                 Tudo bem, então, Márcio. Ele vai ficar.
TOBIAS          Eu sou o Tobias, ele é o Márcio.
PAI                  Perdão. E você é o... Valdir? Certo, gente. Cuidem desse rapaz, ele tem um coração de ouro mas nasceu sem um grama de malícia. Tenho medo do que vai acontecer, mas ele precisa cair no mundo. (a PAULO) Eu acredito em você, filhão. Você é inteligente e dedicado; vai longe! Podia ser advogado, mas enfim... (a todos) Fiquem com Deus, então. Amanhã ele volta com a bagagem, e eu volto pra casa.
(apertos de mão)
VALDIR          Vai com Deus o senhor também, estaremos orando aqui, tá ligado?
MÁRCIO         Seu filho está em boas mãos, com certeza ele será um grande... o que mesmo?
PAULO            Escritor.
TOBIAS           Adeus, fica com meu telefone (escreve no papel). (a PAULO) E até manhã, camarada. Seja bem vindo! Aliás, vamos brindar, não?
PAI                   Vocês vão beber de dia?!
VALDIR           Não, senhor, não entenda mal. Não se bebe nem ki-suco aqui, tá ligado?
PAI                   Tá bom, vou fingir que acredito. Foi um prazer e... bem, já sabem.
TODOS            Bem vindo!
PAULO e PAI saem
TOBIAS           Caralho, meu, será que isso vai dar certo?
MÁRCIO         Vamos ver! De qualquer forma ninguém quer dividir as contas por três, né?
TOBIAS           Aposto que esse moleque é um reacionário filho da puta!
VALDIR           Vai se foder, Tobias, você quer que todo mundo seja igual você, tá ligado?
TOBIAS           Vai se foder você. Não entendo como pode ser pobre e conservador.
MÁRCIO          Vão começar já? Sossega aí vocês e faz um beque pelamor!
 



 

Faça-se Saber

Bravos comatriotas, em nome de Shiva, Exu e Pacha Mama, nossa vitória foi épica, heroica e histórica. Marchamos por todas as ruas, avenidas e becos, empunhando apenas cajados mágicos, varinhas de condão e metralhadoras piratórias; e vencemos! Vencemos, amigo humano, toda a tirania do status quo; solapamos as superestruturas do atraso; implodimos as barricadas entranhadas da injustiça social, racial e de gênero; e acima de tudo pulverizamos a estupidez ancestral dos símios falantes. Outra era se anuncia, e para tanto, fica instituído, por força de sortilégio, e faça-se valer a pena:

I) Não haverá nenhuma declaração de princípios, carta de direitos ou convenção internacional.

I.i) Toda transformação será de dentro pra fora e de baixo para cima.

II) Todo humano terá a comunidade como prioridade.

II.i) O acúmulo de riquezas será punido com ostracismo e jamais admirado.

II.ii) A sociedade não tolerará que seus membros sofram penúria material.

III) Apenas a intolerância será intolerada.

III.i) Todo ato de discriminação será punido com o exílio a algum lugar onde o infrator é discriminado.

III.ii) Aqueles que se manifestarem ofendidos com manifestações de afeto não normativas terão cassados quaisquer direitos a contato físico público com seus cônjuges, consortes, concubinas, namoradas(os), ficantes e assemelhados.

IV) A comunidade providenciará, através de uma rede colaborativa de organizações horizontais e participativas, os seguintes serviços: Encantamento Básico, Deseducação, Teletransporte, Calma e Sossego, Robin-úde e Inoculação Artística.

IV.i) As finanças das administrações serão permanentemente expostas e explicadas ao público, na rede em tempo real, e em impressos mensais disponibilizados gratuitamente.
  
V) A tecnologia servirá à disseminação da prosperidade e do bem-estar, mas estará subordinada à racionalidade ambiental e humana.

V.i) Tudo será feito para durar e materiais serão aproveitados ao máximo. Descartáveis serão severamente sobretaxados.

VI) A guerra é um anacronismo pois não haverá mais fronteiras e os recursos serão compartilhados de modo racional.

VI.i) Todo logradouro ou monumento em homenagem a militares mudarão de nome para homenagear pacifistas.

VII) Todas as disposições em contrário que vão pra puta que pariu.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Linguística Clínica I

Depois de trinta anos no meio acadêmico, tantos títulos e congressos, tantas aulas e pesquisas, todo aquele circo me aborreceu imensamente. Como meu último interesse vinha sendo Linguística Clínica, e me sentia fascinado, pareceu natural largar a Academia justamente para levar a teoria ao mundo real: montei um consultório para atender pessoas com dificuldades de fala. Demorou para que eu me estabelecesse, para que colegas médicos e fonoaudiólogos descobrissem do que se trata e passassem a recomendar meus serviços, mas hoje posso dizer que a Pacífico Linguística Clínica está consolidada. Ah, esse é meu nome também, muito prazer. É gratificante olhar para trás e ver o quanto pude aprender e quanta gente superou problemas estigmatizantes através das sessões aqui nesta saleta. Mas não foi nada fácil: a vivência de consultório é rica, mas pode ser às vezes imprevisível demais, não se furtando a ser cômica. Exatamente por isso me propus a compilar algumas reconstituições, imperfeitas que sejam, de algumas sessões. Os pacientes geralmente desaparecem sem pagar, de modo que não foram encontrados para autorizar a publicação. Isso representa um problema ético na visão de certos colegas, mas já mandei um uísque para cada um deles. Sem mais delongas, aqui vão relatos de casos que exigiram muito de mim, seja pela peculiaridade do problema, seja pela dificuldade em segurar o riso. Você não precisa se submeter a essa inconveniência, o maior risco é não ter riso para segurar. Nesse caso, tira-me ao solo, ou à lixeira antes; fecha a janela do navegador ou algo assim.

25 de abril

Minha secretária anunciou a sra. X, ela entrou.

Bom dia, minha senhora.
Igual bom diamente.
Perdão?
É problematicamente o exato, doutor seu! Eu coiso a troca das ordens.
Você troca a ordem das coisas! Interessante, diga mais. Você sempre teve esse problema?
Eu radiava em trabalho, não.
Entendo... E desde quando vem apresentado esse sintoma?
Certo ao sei não bem eu... Se trabalhei porque foi a perda ou se por trabalho perdi isso.
Como? Você perdeu o trabalho por isso?
Isso é falar sobre difícil...
Fique calma, aceita um a água, chá? Respire fundo. Você está protegida por sigilo profissional.
Verdade na, doutor seu, antes começou.
Não precisa me chamar de doutor, sinta-se à vontade. Então começou antes, prossiga
Atrás meses seis, ele divorciou o pedido.
Interessante.
Meu ex-advogado é marido, e guardou os filhos do ganho.
Ganhou a guarda, sim.
Eu bebi a começar, comprimir tomadas...
Ah!
Época empreguei a perda nessa eu, e troquei a começar falado... não veio o que sei antes!
É um caso fascinante, vamos tentar um exercício. Diga "planejamento da intervenção".
Intervenção do planejamento.
Agora diga "intervenção do planejamento".
Intervemento da planejação.
Curioso... Diga "Intervemento da planejação".
Davenjainter taplajação.... Ama de deus pela parada!
Calma, descane um pouco... Fica tranquila, estou aqui para ajudar.
Bem tudo.
Diga "a galinha da vizinha".
A vizinha da galinha.
Agora diga "a vizinha da galinha".
A galinha da vizinha. Boa que coisa!
Exatamente, tente inverter o que vai dizer antes de dizer.
Vou tentar.
Isso! muito bom.
Ótimo você é!
Estamos apenas começando. Diga "o cavalo branco de Napoleão". Pode pensar à vontade.
O Napoleão do cavalo branco.
Está bom, mas pode melhorar.
O branco Napoleão do cavalo.
Vamos mais devagar. Diga... "trabalho na rádio".
Radio no trabalho.
Não, você esqueceu de inverter antes, é o mesmo exercício. Não tem pressa.
Trabalho na rádio.
Perfeito!
Tente agora "perdi meu trabalho na rádio".
Trabalhei... Não. Meu rádio perdi no trabalho.
Tudo bem. Vamos tentar assim: quem perdeu o trabalho?
Eu
O que aconteceu com você?
Trabalhei na perda do rádio!
Mais devagar... qual é o verbo? É chorar?
Sido tem...
Não, o verbo é perder. Na primeira pessoa do presente do indicativo?
Perdi?
Isso, diga "eu perdi".
Eu perdi.
Parabéns, agora diga "o trabalho na rádio". Pense antes.
O trabalho... na rádio.
Bom. Agora diga "eu perdi o emprego na rádio".
O emprego na rádio eu perdi.
Quase lá... pode pensar, não há pressa.
Eu perdi... o emprego na rádio. Viva! Estou curadamente completa!
Calma, ainda há muito por avançar... Vamos tentar uma frase mais complexa. Diga "eu preciso aceitar a separação". Senhora, não, por favor, não vá embora agora, estamos progredindo. Sente-se por favor.
Que por assuntar desse falo?
(aqui eu me viro para esconder o riso)
Esse trauma é a origem do seu problema. Vamos aos poucos, diga "eu preciso".
Eu preciso.
"Aceitar a separação"
Separar a aceitação.
Não exatamente, lembre-se de inverter.
Sepitar a aceração.
Não, fique tranquila. Quando você conseguir dizer esta frase, será um grande passo, e seguimos na próxima sessão. "Aceitar a separação".
Aceitar... a separação.
Ótimo. "Eu preciso aceitar a separação".
Eu preciso... canalhar aquela morte!
"Eu preciso... aceitar... a... separação".
Eu preciso. Ufa! Aceitar a separação. Consegui! Eu disse a inteira frase!
Meus parabéns, sra. X! Fez ótimo progresso. Por hoje é só.
Nossa, me sinto tão bem, seu... Pacífico! Sou uma mulher outra! Como agradecer posso?
Apenas acerte com a secretária e marque para semana que vem.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Pode Acreditar!




Você já ouviu falar em um centro-avante consagrado que também bate uma tremenda bola como zagueiro? Se no futebol isso é raro, na música nem tanto: muitos artistas fazem incursões fora de sua esfera habitual. É o caso do grande Tony Williams, baterista que entrou para o grupo de Miles Davis aos dezessete anos e destacou-se desde então como um elegante e eficiente baterista de bop, mas precisou dar vazão a seu lado mais roqueiro em seu projeto solo: Tony Williams' Lifetime. Foram diferentes encarnações e propostas, com menção especial à primeira, com John MacLaughlin, mas o ápice da produção do grupo é, a meu ver, o fantástico álbum Believe It, de 75. Além da percussão alucinada de Tony, o disco conta com o brilhantismo do guitarrista britânico (e favorito do blogueiro) Allan Holdsworth, cuja lista de empregos aqui seria enfadonha, bastando citar Bruford e Gong; conta ainda com dois prolíficos e competentes session men, Alan Pasqua nos teclados e Tony Newton no baixo. Isso não significa que estes últimos sejam coadjuvantes: todos são compositores na banda, e a afinidade entre os membros garante a coesão do disco.

Classificar a música de Williams não é difícil, basta escolher entre os sinônimos jazz-rock ou fusion. Diria mesmo que Believe It disputa com Hymn of the 7th Galaxy, do Return to Forever, o posto de epítome do gênero. Os andamentos são mais rápidos do que lentos, a dinâmica mais pra fortissimo do que pra piano. Os riffs poderosos do rock se aliam à improvisação virtuosística do jazz, e o funk vem adicionar um tempero a mais (sem a preponderância que teria no álbum seguinte, Million Dollars Legs). Alguém pode chegar a ter pena dos tambores e pratos de Mr. Williams, tal a veemência com que ele espalha fills mirabolantes sobre levadas intrincadas. É irônico imaginar a tranquilidade com que o circunspecto Holdsworth tamborilava freneticamente os dedos no braço de sua guitarra. Obviamente, o disco tem passagens mais calmas e líricas: nada mais desinteressante do que a energia no topo todo o tempo.

Meu LP - e os sintetizadores analógicos realmente PEDEM vinil aqui - foi comprado na Big Papa, com o Carlos e a Kátia, em meio a muita prosa musical; afinal, disco não é como um sapato ou um perfume, coisa que algumas "lojas de disco" não aprenderam. A capa é em P&B e traz o músico, que gostava de aparecer pelado nas capas... pelado na capa, com um sorriso de Mona Lisa e segurando um par de baquetas; o nome do grupo e do disco figuram em uma fonte elegante, à esquerda. O verso traz, sobre um fundo avermelhado, Williams ao kit, envolto em uma legítima purple haze, além de uma foto dos quatro e créditos. Prossigamos portanto a, não uma análise, mas impressões bastante subjetivas de cada faixa.

O álbum abre com um baixo em wah-wah, que conduz a um riff poderoso de guitarra. É a introdução de Snake Oil: aqui basicamente se alternam um tema alegre e ensolarado, com a condução direta, e um misterioso e tenso, com chimbau no contratempo; o andamento é mediano. No solo, Williams abusa de sua caixa de ferramentas: muito prato, fills de flams nos tons, apenas para citar, por sobre os teclados funqueados de Pasqua; vem então a hora do solo de Holdsworth, com suas tradicionais notas longas tecendo uma atmosfera espacial, e a peça termina em fade out.     

A intro de Fred são singelas notas de bumbo e prato, dando lugar a um tema que remete ao Havaí, andamento presto... vivace, com uma linha bem interessante de baixo e uma batera jazzística de bumbo sincopado. Uma falsa ponte traz de volta o mesmo tema, que por sua vez dá lugar aos famosos intercâmbios de tema-"solinhos-de-batera", e logo em seguida ao solo de Pasqua, bem animado, sugerindo um funk-progressivo, com bom gosto e maestria. Vem então Holdsworth e a montanha russa de suas escalas pouco convencionais, enquanto a música vai ficando mais pesada em direção à ponte, complexa, antes de voltar ao Havaí e daí a mais um intercâmbio com a batera, para fechar num outro energético, quase adolescente.

Proto Cosmos abre, bombástica, tempo presto... con fuoco, diretamente em mais um bate-bola entre tema (2 tempos) e baquetadas vulcânicas (6 tempos). É a peça que vai exibir a maior dose de virtuosismo, boa candidata a representar o disco. Por isso mesmo, em vez de descrevê-la, aqui vai o vídeo da reunião em que, dez anos depois da precoce morte de Williams, por enfarto em 1997, ele é muito bem representado por Chad Wackerman, pupilo de Frank Zappa e grande parceiro de Holdsworth - e excelente baterista.


Proto-Cosmos com Holdsworth-Pasqua-Wackerman-Haslip

Urgente é o adjetivo adequado para a uptempo Red Alert, compreensivelmente. O riff que explode desde o início é uma martelada em uníssono, que faz balançar a cabeça como, digamos, um fusion-metal. O tema atravessa toda a peça, e sustenta ora a metralhadora de Holdsworth, ora o doce Fender Rhodes de Pasqua, com Williams irrequieto todo o tempo.

Se a essa altura, você precisa de fôlego, está com sorte. Por algum tempo. Wildlife começa melódica, quase piegas; depois dá uma reviravolta e se transforma num vigoroso funk com a pulsação irrepreensível do discreto Newton ancorando mais um solo de piano elétrico, enquanto guitarrista descansa. Volta o tema apenas para encerrar a peça em que Tony parece mais comportando; uma que, sendo tão boa, só me parece a mais fraca do disco porque todas as demais são espetaculares.

Existe uma ciência no ordenamento das faixas em um disco, que fica meio prejudicada nos CD's (que não têm a "primeira do lado B" por exemplo), e um dos pressupostos básicos estipula que o bom álbum começa bem e termina bem. A última peça de Beieve It é similar à anterior no sentido de que vai do suave ao intenso, mas chega a um resultado mais interessante. Introduzido pelos tradicionais flams, um tema bem roqueiro, mas sorridente, entrega, depois de uma ponte, o bastão a mais uma conversa entre a cozinha e os teclados; Tony não se limita a conduzir, aspergindo semicolcheias furiosas e acentos no contratempo. Ele segue se expressando com a fúria e a fluidez características por cima das notas anasaladas de Holdsworth, num crescendo que leva a um solo enfático e coeso, contra um riff sujo e pesado. É o grande momento da volúpia rítmica do músico americano. O tema sorridente volta brevemente, e parece que a música acabou; mas Williams não quer parar de tocar, e só o fade out para acabar com o disco. Pode respirar agora.     

domingo, 17 de novembro de 2013

Deriva

Desde que fugi para dentro de mim,
Pouco se me dá que o mundo exploda.
Política, esporte, guerra - que se foda:
Levar o circo a sério não estou afim.
Misantropia é meu refúgio enfim,
E com o cinismo ela celebra boda.

Por que dar ouvidos à cacofonia?
Tantas bizantinas e estéreis polêmicas;
Mediocridade e estupidez endêmicas.
Busco, no silêncio, uma sinfonia;
Na solidão, férias da humana agonia:
Desejos frustrados, afeições anêmicas.

Se é verdade que ninguém é uma ilha,
Sou tal como uma Península Ibérica.
Um terremoto que fende a América,
Faz a Califórnia seguir sua trilha.
Um lobo que se separa da matilha
E se entrega todo a sua sina tétrica.

sábado, 19 de outubro de 2013

Não há modo de escapar
Não nasci para poeta
Por que diabo tentar
Combinar alfa com beta

Larga essa imagem em paz
Que é banal ou absurda
Rimas pobres, triviais
A Musa se faz de surda

Não se meta a declarar
Entortando a linha reta
Outro amor sem nenhum par
Passando ao largo da meta

Não se ponha a elucubrar
Com sua pouca metafísica
Língua rude e vulgar
Abandona a pena tísica

Deixa o ofício a quem sabe
As Letras são arredias
Aceita a mediocridade
Ocupa melhor teus dias