quinta-feira, 7 de março de 2013

Nos Canos IV

Tudo estava pronto, então. Miroslav tinha apenas uma seringa e uma agulha, então combinaram que um tomaria o baque e o próximo teria que ferver tudo. Não era o ideal, mas era razoavelmente seguro. "É melhor que eu ajude o Flávio, injete a minha e aí o João...", "Não sei, Miro. Eu prometi a uma amiga que não ia mais fazer isso. E eu acho que eu perco o controle muito fácil, melhor não". Flávio então se sentou no sofá, trocou um olhar cúmplice e um sorriso com o amigo, que se aproximou e lhe acariciou os cabelos. Miroslav apareceu com a seringa e a agulha, mais uma colher e um isqueiro zippo, voltando para buscar algodão e um pouco de água. Abriu espaço na mesa de centro e se sentou, "John, pode buscar o garrote, na primeira gaveta do banheiro?". Com cuidado, depositou uma pequena quantidade da heroína, que se parecia agora com um pó amarelado, sobre a colher, alcançou a pipeta e adicionou algumas gotas d´água. Acendeu o isqueiro com a mão esquerda e o deixou sobre a mesinha, ao seu lado, levando o fundo da colher ao fogo. A droga se dissolveu rapidamente, então ele pôs uma bola de algodão sobre a mistura e em seguida introduziu a agulha nela e puxou o êmbolo. "Esse algodão nem é necessário, porque nós já purificamos, mas é o costume", "É uma cena clássica", concordou Flávio, "também, eu devo ter visto Trainspotting umas dez vezes". Os três riram e quebraram um pouco da tensão. João brincava com o tubo de borracha, e o entregou a Miroslav, que garroteou o braço do estreante. "Eu quero injetar eu mesmo!", "Hum, sério? isso pode ser perigoso", advertiu o amigo. João e Miroslav trocaram um olhar,  e aquele tentou tranquilizar este com um meneio de cabeça. Então a seringa estava pronta, o braço, garroteado; Miroslav deu as instruções básicas, mas como a veia estava bem saliente, o trabalho foi fácil. Flávio penetrou apele lentamente com a agulha, parou, e puxou o êmbolo para trás com o dedão; o sangue fluiu para dentro da seringa, misturando-se com a solução de heroína. Ele ainda olhou para os outros dois, sorriu nervoso, e pressionou o êmbolo.


Bem devagar, enquanto sentia a substância rapidamente ser levada até seu cérebro, fazendo efeito em frações de segundo. A primeira coisa que sentiu, enquanto mal conseguia tirar a agulha de dentro da veia e descartar a seringa de lado, escorregando do sofá e espalhando-se pelo tapete da sala, foi um formigamento tomar conta de todo seu corpo: se uma lança o trespassasse, seria como se o fizesse a um corpo inerte, e separado do dele. Na verdade, o prazer era tão intenso, um prazer corporal, primitivo, que estivesse ele em qualquer circunstância, se estivesse em um barril de merda, ainda estaria se sentindo muito bem. Ele pensava coisas diversas de sua vida, mas a maior parte era rechaçada como desnecessária, se não nociva, naquele momento. Por um instante, um sentimento de culpa tentou dominá-lo, ele repetia: é só desta vez, não vende no Brasil, e toda a racionalização há muito aprendida. Mas foi um instante breve, e a maior parte do tempo ele teve uma onda límpida, intensamente corporal e, ao mesmo tempo, de algum modo transcendente. João se ria do espetáculo enquanto Miroslav fervia a seringa para tomar o baque por seu turno, quando Flávio começou a descer de órbita e perceber o ambiente a sua volta.

"Fez boa viagem?". "Ah... eu... não, ótima. Grande viagem". Flávio olhava para o furo no braço esquerdo: tinha feito, tinha tomado nos canos, e não ia se tornar um viciado, apenas uma boa experiência. Pensou então em fazer um cigarro, mas sua coordenação era ainda errática, e o amigo teve que fazê-lo. Por longos minutos ele permaneceu deitado no chão, mas João trouxe umas latinhas da geladeira e ele se sentou. Miro, um pouco mais experiente, com facilidade fez todos os procedimentos sozinho e injetou sua dose, um pouco maior, e ficou muitos minutos no sofá enquanto os brasileiros conversavam sobre cinema e, por algum motivo, sobre a crise política de algum país do Oriente Médio. Flávio não deixava de sorrir um instante. Quando João percebeu que Miro voltava do país das maravilhas, buscou seu estojo e confeccionou um do AK-47. Todos fumaram sentindo imensa paz, João talvez ainda mais do que os que usaram herô, não obstante seus contratempos com a burocracia e com o tráfego ciclístico.

O dia seguinte era aquele em que Flávio iria embora. Ele arrumou tudo ao acordar, seu trem era às três. João propôs almoçar em um restaurante perto da estação. Entraram, rumaram para um setor aberto, onde era possível fumar, pediram duas cervejas, e enrolaram seus cigarros. "Paris, então?", "Poucos dias. Aí Lyon". "Foi bom estar com você estes dias", "Ora, eu que o digo. Não suma!". "Eu só passo às vezes um tempo sem ler e-mail, mas...", "Você sabe que eu eu te considero muito". "Igualmente, Flávio, esteja certo", "E avisa quando for ao Brasil". A resposta do outro foi um aperto de mãos afetuoso. A comida chegou e foi regada a qualquer conversa amena, e a um bom vinho tinto; o café estava excelente. Pagaram a conta e rumaram para a estação de trem, faltavam vinte minutos para o horário. Ainda tomaram outro café antes de ir até a plataforma, onde esperaram pouco tempo, conversando sobre a crise europeia, até que o chamassem para embarcar. Os dois trocaram um forte abraço, beijos nas faces, e tapas nas costas. "Mantém contato!", "Pode deixar!". Flávio entrou no trem e procurou seu assento. João voltou para casa para ele mesmo arrumar as coisas, iria mais tarde para sua cidade prosseguir seus estudos. Flávio achou a poltrona e ligou os fones de ouvido tocando Bitches Brew do Miles. Ele até tentava evitar, mas pensava na possibilidade de simplesmente ter tentado dar um beijo no amigo. Mas isso era assunto controverso e ele logo achava outra coisa para pensar.      

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Big Papa Records

Descobri que o Carlos e a Kátia, Biga Papa e Big Mama, donos da melhor loja de discos do Brasil, incluíram um link da Leosfera no site da loja! Muito honrado, e a partir de hoje, Big Papa, a loja e o site, estão mais do que recomendado por aqui. É bem verdade que eu dou muito dinheiro a eles quando vou lá, mas dá pra sentir o apreço que eles têm por um "true collector". Então se você curte vinil, mora ou está passando por Sampa, apareça lá na Galeria Nova Barão, perto da República, para conferir.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XVII


Olhou no relógio e concluiu que ainda tinha tempo bastante para trocar a lanterna do carro. Pegou trânsito e chegou à loja de peças, no Setor de Indústrias com menos indústrias de que se tem notícia, minutos antes de descerem as portas. Os funcionários fizeram cara feia, mas um topou o serviço, contando com uma boa gorjeta. Obviamente não conhecia Hal. O aspecto do carro melhorou muito, mas persistia o amassado na lataria, que não era para ele uma prioridade.

De volta à pensão, ligou imediatamente o rastreador, ansioso. A caminhonete importada do senador havia parado em dois pontos: no Setor de Autarquias, certamente seu escritório, e... voilà: no Setor de Hotéis de Turismo, exatamente onde ficava o Ilhas do Lago. Grande Aranha! Acertou na mosca. Excitado, Halunke ligou para Jorge.
_ Meu velho!
_ Como vai essa força?
_ Beleza. Bem, quase tudo.
_ Que houve?
_ Vamos tomar um chope e eu conto as novas, boas ou más, que tal?
_ De leve? Hoje é quarta...
_ Deixa de frescura, Jorjão. Bar Brasília em meia hora?
_ Calma, eu estou... meio ocupado. Vamos marcar às nove?
_ Eu vou estar lá. Até mais.
_ Hasta.
Halunke tomou o jornal e o Bukowski e rumou para o bar, que estava lotado. Era um ambiente mais contido que o Beirute, frequentado basicamente por funcionários, e mais de uma vez Hal pescou uma coroa por lá. Conseguiu uma mesa, pediu um chope e o cardápio, e abriu o jornal. A matéria arrolava todas as velhas práticas dos coronéis, contava como uma determinada fazenda era guardada por um imenso efetivo de jagunços e cercada de mistério. Chegava enfim ao relato de dois trabalhadores que fugiram de lá, cujas dívidas no armazém do próprio latifundiário cresciam mais do que a soja que plantavam, e mal comiam crendo que assim comprariam um dia sua alforria. Enrolou um cigarro e tomou o livro. Parou um instante, tentando recuperar alguma coisa na memória. No caso dos sócios, era justamente uma fazenda do Macieira que era citada. Precisava verificar. Pediu uma porção e leu um capítulo inteiro antes que chegasse o amigo, que se sentou, sinalizou ao garçom com um dedo no copo do outro e desbafou.
_ Nada, Hal, não consigo nada. Voltei a rodar os teatros, perguntei a todo mundo, ninguém a conhecia. Eu decidi procurar em Alto Paraíso.
_ Faça isso, já disse que é um bom palpite. Mas tem também Pirenópolis, Goiás Velho... se não estou esquecendo de nenhum reduto riponga.
_ Putz, não fala isso. O pai dela está me pressionando, eu tenho que inventar que estou seguindo tal e tal pista. Ele me deu duas semanas.
_ Não surgiu nenhum outro caso?
_ Surgiu um matrimonial, mas é uma história estranha. O cliente exige anonimato e se recusa a dar mais informação do que uma foto. É outro beco sem saída, não decidi se vou aceitar.
_ Você tem a foto aí?
_ Só um instante.
Jorge tirou de sua pasta uma impressão de uns vinte por dez centímetros, em papel fotográfico, e mostrou ao colega. Halunke conteve o susto, sacudiu a cabeça e devolveu a foto. Era Cláudia Albuquerque.
_ Nunca vi. É uma coroa bonita.
_ Eu vou conseguir qualquer outro emprego, Hal...
_ Por falar em coroa bonita, olha aquela ali. Ela não tira os olhos de nós.
_ Vai lá conferir, eu sou compromissado.
_ Você é muito otário, mesmo.
_ E suas novidades? Aconteceu algo errado?
 _ Só isso – disse, tirando os óculos escuros.
_ Caralho, Hal, quem fez isso?
_ Bem, sabe aquela dívida que eu assumi, para pagar a anterior e assim sucessivamente?
_ De quanto é?
_ Três barões. Eu estava contando com a grana da madama, achei que tinha um puta flagrante e era ouro dos tolos.
_ De volta a estaca zero? Bem vindo ao clube.
_ Não exatamente. Graças ao seu aparelho eu consegui uma boa pista.
_ Maravilha!
_ Eu não aguento, Jorjão. Tem papel e caneta aí?
Rabiscou qualquer coisa na folha arrancada do bloco do amigo e chamou o garçom. A coroa estava com duas amigas menos agraciadas pela beleza, então ele especificou enfaticamente: aquela de verde. Os dois acompanharam enquanto o senhor que os atendia levava o torpedo até o navio inimigo. A mulher, loira de olhos claros, e com um batom rosado discreto, sorriu na direção deles. Hal acenou para que ela se juntasse aos dois detetives. Ela achou tal ocupação “super glamourosa”, Jorge suspirou enfadado e Hal concordou entusiasmado: “é uma aventura constante”.  Ao fim de uma conversa animada e depois de muitos chopes, Jorge tomou o rumo de casa e Hal seguiu Cíntia até o Park Way. O sexo valeu com sobras todo o combustível necessário, e Hal se viu na manhã seguinte brincando de fazer caretas com a filha de sua presa na mesa do café.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Nos Canos III

Flávio subiu e encontrou os dois se beijando no sofá. Fingiu que aquilo não lhe importava e confessou logo seu lapso. "Putz,  que horas são?", João - que não usava relógio - disse, em português mesmo. Seu parceiro pareceu entender e consultou o relógio: "quinze para as seis". João foi até a minúscula área de serviço, ocupada plenamente por uma bicicleta do tipo speed, a qual ele trouxe para a sala. "Não tenho certeza se a farmácia fecha às seis ou às sete, mas eu vou correr. Já saindo pela porta, escutou de Miroslav: "você é um speedfreak agora". Todos riram, era uma alusão à droga que combina pó e herô. Flávio voltou a se desculpar e os outros dois mandaram ele ficar tranquilo.

Sentaram-se no sofá novamente, o brasileiro levemente constrangido, mas a conversa começou a rolar sobre a música que rolava, do Velvet Underground. "É a trilha perfeita para 'tomar nos canos'", expressão que o sérvio também já entendia. Uma ponta no cinzeiro foi devidamente acesa, era o AK-47 da casa. "Então você faz mestrado e trabalha?", "É, um tanto duro, mas eu perdi minha bolsa". "O que houve?", "Eu soquei meu antigo orientador". Flávio escancarou a boca e o outro prosseguiu: "Um cuzão completo, vaidoso, intransigente, machista...". "Mas aconteceu alguma coisa?", "Claro, ele disse que 'alguém como eu' - aspas que ele fez com os dedos no ar - jamais teria um futuro em computação". "Pois é, eu nem sabia sua área", "Enfim, você entende o que ele quis dizer", "Perfeitamente". "Eu quase fui expulso, mas só perdi a bolsa e mudei para uma orientadora, e ela é adorável; além de ser, obviamente, alguém 'sem futuro em computação' na visão dele". "O João então também é um intruso na matemática", "Um intruso respeitado, ao que me parece, o último artigo dele já foi citado sem nem ser publicado". "Ele é um crânio. E seu trabalho?", "É num supermercado. Bem tranquilo, as pessoas são ótimas". "Aqui dá pra viver com uma profissão dessas, no Brasil, é emprego de pobre", "Imagino". A trilha mudou para Led Zeppelin, o que animou Flávio. "Tem cerveja aí?", "'Opa', pega uma aí, deve ter" - essa interjeição era uma muleta para João, o outro aprendeu rápido. "E você, o que faz no Brasil?", "Cara, eu devo confessar que ainda estou na graduação, eu desisti de química, tentei geografia e vim me encontrar nas Letras, eu quero me dedicar a estudar Dostoiévski", "Fascinante!". "E eu trabalho também, pro governo, é uma chatice  mas a grana é boa, tem certas vantagens". Flávio sacou seu saquinho de White Widow e confeccionou um fino, mas com bem pouco tabaco, o que permitia saborear melhor a planta proibida que era tolerada naquela terra. Passaram por diversos assuntos, como a visita ao museu, e criavam uma empatia cada vez maior enquanto aguardavam João Marcelo.

Amsterdã é célebre por ser amigável às bicicletas. Mas no horário em que João saiu, o tráfego era tão intenso que nem ele pôde desenvolver alguma velocidade nem pilotar tranquilamente: qualquer ciclista que saísse do rumo constante derrubaria uma dezena deles. Mesmo assim, às seis em ponto ele chegava à farmácia. Era a única que não exigia até certidão de batismo para vender certos produtos químicos, e só funcionava - como ele ficou aliviado em descobrir - até as sete da noite, ou do dia, no verão. A compra foi rápida, o frasco plástico foi para o bolso da bermuda e a bicicleta de volta para a ciclovia ainda movimentada. Quase chegando, quando João precisava sair da ciclovia e atravessar a rua para chegar ao conjunto de blocos de Miroslav, um engraçadinho achou por bem ultrapassá-lo pela direita, os dois foram ao chão e uma colisão em cadeia, verdadeiro engavetamento, fez até o fluxo de carros se interromper e olhos curiosos concentrarem-se no acidente. João se desvencilhou do emaranhado de rodas e guidons que o cobriam, levantou-se e descobriu que tivera escoriações leves apenas, mas que o frasco de ácido clorídrico havia se aberto, metade do conteúdo perdido. "É o bastante", pensou, enquanto terminava o trajeto empurrando a bike imprestável. Subiu as escadas, deixou a speed no hall e entrou. Miroslav acariciava a orelha de Flávio, que levou um susto ao ver o amigo, enquanto o outro parecia não se importar. "O que houve?", disseram os dois quase em uníssono. João Marcelo contou sobre o acidente, espumando de raiva, e pôs o frasco meio vazio ou meio cheio sobre a mesa de centro. "Fica tranquilo, John, toma um banho que eu vou montar a vidraria e começar o processo", Miroslav apaziguava o amante.    

Flávio olhava fascinado enquanto o sérvio misturava as bolinhas marrons do tamanho de cabeças de alfinete no ácido diluído, esmagando-as e mexendo até se dissolverem. Quando João saiu do banho, preparou um cone gigante: "eu preciso". Quando terminaram de fumar, conversando sobre a batalha burocrática que João não pudera vencer  no compromisso da tarde, já era hora da segunda etapa: com uma pipeta, Miroslav transferiu a solução para outro vidro. "Tá vendo esse resíduo sólido? É sujeira que nego manda pra dentro", João disse. O amigo eslavo adicionou então hidróxido de amônio à solução, deixando-a branca, acrescentando então etil-éter e chacoalhando vigorosamente. Era preciso esperar, então desceram para comprar mais cerveja e ver o movimento, estava terminando de anoitecer. "Cara, estou tão ansioso", Flávio afirmava o óbvio: uma constante excitação e um sorriso bobo o denunciavam. Encontraram brasileiros no mercado, e ele não se conteve: "a gente vai tomar nos canos!"; a reação dos amigos foi de clara mas silenciosa desaprovação, os compatriotas só aconselharam cuidado. Voltaram, era hora de retirar a água e adicionar nova solução de ácido clorídrico, de mexer com vontade e, mais uma vez, esperar a decantação. João tirou o rock'n'roll da playlist (tocava The Who) e voltou ao jazz extremo. Isso deve ter distraído Miroslav, que esbarrou no béquer e quase põe tudo a perder. Refeitos do susto, Flávio pediu para participar da feitiçaria: teria que transferir com a pipeta o líquido do fundo do recipiente para uma placa de Petri, e não decepcionou. Descobriram então que além do ácido que João sofrera tanto para adquirir, faltava o fermento em pó, mas isso se resolveu em nova ida ao mercado, ao qual foram tranquilamente pitando mais um. Bem, não tão tranquilamente no caso de Flávio, cada vez mais nervoso. Chegaram de volta e só faltava realmente essa última etapa: o fermento fez a solução borbulhar, e um secador de cabelo eliminou a umidade, após o que restou apenas heroína e sal de cozinha. "A quantidade é um quarto do original, imagina injetar esse lixo todo", observou Miroslav. Flávio esfregava as mãos. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XVI


Ele aproveitou para comprar tabaco, e reclamou pois não havia onde sentar para ler e tomar um café, fumando, por isso fumou um cigarro em pé e subiu para a Praça, onde conseguiu uma cerveja e atacou o Bukowski que estava começando. Voltou a descer minutos antes da hora marcada, fumou e subiu para encontrar Cláudia sentada em uma mesa do canto. Ela estava ligeiramente menos perua do que de costume, em um vestido simples e sem muita maquiagem. Seu nariz era bem desenhado e as sobrancelhas altas davam um ar altivo à cinquentona.

_ Cláudia Albuquerque, que prazer revê-la.
_ Igualmente, seu canalha.
_ Como?!
_ É o que quer dizer seu nome, não? Eu pesquisei sobre você, e tudo que descobri foi isso. Que espécie de piada é essa?
_ Calma, Cláudia. É só um elemento de estilo. Eu leio muita história de detetive, deve ser isso. Você foi a primeira a me ganhar, parabéns.
_ Espero não ter feito a escolha errada, Hal, ou seja lá como você se chama.
_ Vamos ficar com Halunke, Hal, como queira.
_ E o que você tem pra mim?
_ Ah! – sacando o telefone.
_ Sua câmera é seu celular? Não acredito.
_ Celulares são muito mais discretos, e este tem setenta megapixel.
_ Não fala bobagem.
_ Sei lá, tem muitos, pode ficar tranquila. Aqui, é esta a foto.

Cláudia tomou o aparelho e levou alguns instantes antes de soltar uma gargalhada. Hal, angustiado, não conseguia extrair dela uma explicação, até que o riso deu uma trégua.

_ É a sobrinha dele!
_ E ele está tendo um caso com ela?
_ Um certo tipo de caso, ela é a líder do comitê de crise que ele montou.
_ Então isso aqui não vale nada?
_ Não para mim.

Halunke bebeu o resto da cerveja de um gole só, esfregou as mãos, nervoso. Precisava de uma estratégia matadora para resolver o caso, pôr algum no bolso e aplacar o agiota. Recobrou a calma e pôs-se a interrogar a cliente.

_ Qual tem sido a rotina do seu marido?
_ Bom, ele quase não fica em casa, se divide entre o Senado e o escritório.
_ Você não me falou sobre um escritório.
_ Puxa, é mesmo. Perdão, foi um lapso.
_ Eu preciso de toda a informação.
_ Toma este cartão aqui, tem o endereço. É no setor de autarquias.
_ Ele usa os carros particulares?
_ Muito pouco. Mas eu tenho uma boa notícia: hoje ele saiu na caminhonete, porque o motorista do Senado está de licença.
_ Isso é ótimo. Me diz, a que horas ele tem voltado?
_ Lá pelas nove.
_ Certo. Eu vou acompanhar o rastreador, você dê um jeito de forçá-lo a usar a caminhonete.

Despediram-se com dois beijinhos e um meio abraço que os unia pelo pescoço, Halunke podia sentir o perfume da socialite, que era forte demais, e a maciez apreciável da pele daquela mulher madura. Ela ainda cravou os olhos verdes nos dele, fez um comentário sobre o traço que ambos compartilhavam e virou-se para ir. Ele aproveitou para perguntar sem olhá-la de frente:

_ Será que eu não consigo mais um adiantamento?
_ Mas... Hal, foi combinado que...
_ Bom, eu trouxe alguma foto, não? Quer dizer que estamos progredindo. Eu vou ganhar o senador, é questão de tempo. Se eu não ganhar, fica claro que era só uma suspeita sua, e eu recebo mesmo assim.
_ Como assim?!
_ É só a praxe do ramo.
Ela levou a mão ao queixo, pensou, suspirou e alcançou a carteira francesa donde sacou cinco garoupas.
_ Tá bom assim?
_ Ótimo. Mais uma coisa.
_ Sim?
_ Vocês têm um imóvel no Ilhas do Lago?
_ Não que eu saiba. Ele tem inúmeros, sabe. Mas ele costuma ir lá, na casa do Alfredo, um assessor, por quê?
_ Nada, talvez eu tenha me precipitado. Muito obrigado, Cláudia. Não vou te decepcionar.

Desceu e descobriu que estava chovendo forte, felizmente não faltavam ambulantes vendendo guarda-chuvas e ele enfim comprou o seu. Passando pela Rodoviária, comprou o jornal, que trazia o senador Macieira na capa. Era uma nova denúncia que surgia, de que o oligarca usava trabalho escravo em suas fazendas. Boa gente.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Na Trilha Certa XV


Hal parou bloqueando a coleta de lixo e achou o bloco de Âmbar. A entrada tinha um intercomunicador, ele apertou o botão; faltavam dois minutos para meio-dia. Ela acionou a abertura da porta e ele subiu. Era uma kitinete na sobreloja de um bloco comercial, onde moravam basicamente estudantes, e ele cruzou com uma morena linda, estilo sério, que o olhou com uma expressão de desprezo. Bateu na porta com os nós dos dedos e a moça abriu. Ela usava jeans e uma camiseta azul, as tranças haviam sido desfeitas e ela estava ainda mais bonita.

_ Tudo bem?
_ Tudo, claro.
_ O que é isso no seu olho?
_ Não foi nada... a porta do armário, eu... dei uma pancada.
_ Vem cá, vamos pôr gelo.
_ Poxa, Âmbar, você é um anjo.
_ Para com isso. A tradução, deu muito trabalho?
_ Não, depois que você se acostuma com o jargão oficial, é mais fácil.

Ele entregou o CD e ela o pôs no computador, que ficava em uma mesa repleta de todo tipo de objeto. Abriu os arquivos, fingiu inspecionar o trabalho e sorriu satisfeita.

_ Tem um resto de vinho aí.
_ Você não estava com pressa?
_ Cinco minutos, eu tenho.

Serviu duas taças e sentaram-se no sofá encardido, lado a lado. Ele se escorava no encosto de cabeça, torcendo a coluna para vê-la. Ela abriu a bolsa, retirou a carteira e entregou duas garoupas a Hal.

_ Você está com sorte, eu tinha sacado dinheiro.
_ É melhor minha sorte melhorar mesmo – e apontou para o olho inchado.
_ Lembrei de você outro dia, nós vamos tocar uma peça do Mussorgsky.
_ Na sexta?
_ Não, sexta nós vamos tocar Cage e Varèse.
_ Eu vou estar lá – disse, erguendo as sobrancelhas em aprovação – não perderia por nada.
_ Então você é amigo do pai da Simone. Você é de Anápolis, também?
_ Eu morei lá um período.
_ Você sabe então que ela fugiu de casa?
_ Não... de verdade? – parecendo surpreso.
_ Você não vai entregar o paradeiro dela, vai?
_ Não teria por que fazer isso.
_ Eu confio em você. Escuta, na sexta à noite eu vou reunir algumas pessoas aqui, para uma espécie de despedida. Você está convidado.
_ Puxa, fico muito feliz, virei sim – e, olhando em volta, perguntava-se quantas pessoas caberiam ali.
_ Agora acho que tenho que ir.

Ele terminou de tomar o vinho, pediu licença para fazer um cigarro, e os dois desceram a escada, ele inventando uma viagem a Viena que nunca fizera, e enfim se despediram. Ele foi até o carro, pegou o eixão e em pouco tempo estava na pensão. Encontrou a mãe na copa, ajudando a outra velha a preparar uma salada.

_ Filho, o que é isso?!
_ Calma, mãe, não é nada.
_ Como nada, você levou um murro.
_ Não, mãe, foi só um acidente.

Ela o olhou, inquisidora, e pegou-o por uma das orelhas.

_ Você tá metido em encrenca, eu sei.
_ Fica tranquila, vai. Nós não íamos almoçar fora?
_ Estou só ajudando a Gervásia, mas não mude de assunto.
_ Eu explico depois, vamos lá?

Halunke escolheu um restaurante mais caro, mas não demais, certo de que sua mãe pagaria, e calhou de ser um de comida chinesa. Sentaram-se e pediram cerveja e água, enquanto olhavam o cardápio.

_ Quem fez isso com você?
_ Um colega, mãe. Você quer a verdade? Eu sacaneei um colega, e ele veio atrás de mim. Mas já passou, bola pra frente. Mas afinal, você veio para ficar quanto tempo?
_ Três meses, enquanto sua irmã estiver no exterior.
_ Vai ficar na pensão, então.
_ Filho, por que você não abre o jogo? Estava na cara que você estava mentindo.
_ Tá bom, mãe, eu não sou professor universitário, eu trabalho como investigador particular, e as coisas não vão muito bem. Mas eu estou em um caso, dois na verdade, está tudo melhorando.
_ Você pode confiar na sua mãe, Jonas, pode dizer a verdade.
_ A verdade, mãe? A verdade é que eu sou o único da família nesta merda.
_ A gente pode te ajudar.
_ Eu não quero mãe. Não quero você me ajudando, não quer o pai me ajudando.
_ Não me fale nele.
_ Não quero Nádia me ajudando, não quero ninguém me ajudando. Eu já estou me recuperando, e em pouco tempo, se tudo der certo, eu devo estar no Caribe tranquilo.
_ E sozinho.
_ Sozinho, mãe, é a minha natureza.
_ E essa moça de quem você comentou?
_ Não é nada sério.
_ Alguma coisa é séria pra você?
_ Olha mãe, eu só não te mando...

Ela estendeu a mão e a pousou sobre a do filho, mantendo silêncio por uns instantes. Fizeram o pedido e dona Ivone passou a narrar mil histórias banais de Holambra, às quais ele fingiu interesse. A comida veio, estava muito boa, e ela afinal pagou a conta. Hal a deixou na pensão e dirigiu até o Conjunto, poderia ler um pouco antes do encontro marcado.

Na Trilha Certa XIV


Outra vantagem de ter Zaira por perto era a comida de primeira que ela tinha sempre pronta logo de manhã. Por sorte a padaria era bem perto. Hal tomou café antes de fumar pela primeira vez em muito tempo, e despediu-se colocando na cabeça o chapéu. Ela o atacou e em instantes estavam no quarto mais uma vez. Na segunda tentativa, Hal conseguiu descer pelo elevador e procurar o carro no estacionamento, avaliando os danos da pancada da noite anterior, uma lanterna foi pro espaço e a lataria ficou um pouco amassada. Nádia não podia saber. Dirigiu até o escritório, sentou-se atrás da mesa vazia e pôs os pés sobre a mesa. De posse de seu único equipamento, telefonou para a mãe e combinou de buscá-la para almoçarem juntos. Recuperou um número na memória e ligou. Demoraram a atender, mas de repente veio aquela voz tão musical que ele esperava.

_ Âmbar!
_ Quem é?
_ Halunke.
_ Oi! Que que cê manda?
_ Sua tradução está pronta.
_ Que ótimo!
_ Eu acabei dando uma prioridade, sabe.
_ Obrigada. E você vai mandar por e-mail?
_ Bom, você tem que me pagar, não?
_ Verdade. Mas hoje eu tenho ensaio. Pode ser amanhã?
_ Eh... pode, na UnB?
_ Peraí, na sexta tem meu recital, você disse que viria.
_ É que na verdade eu já empenhei esse dinheiro, para mim seria melhor, você sabe.
_ Nesse caso, tem como passar aqui em casa antes de meio dia? É na 408, perto da UnB.
_ Posso sim, até mais então.

Ela ainda complementou o endereço antes de desligar. Hal fechou tudo, subiu, e, quando contornou o prédio, uma dor imensa explodiu em seu crânio. Só depois ele entendeu que havia tomado um poderoso cruzado. Cambaleou para trás e foi ao chão. Quando voltou a si, um sujeito ainda mais feio do que forte o segurava pelo colarinho.

_ Você já teve seus quinze dias, caloteiro imundo. Considere isto um aviso: em mais cinco, quebramos suas pernas.
_ Eu vou conseguir hoje, garanto.
_ Então por que fugiu da gente ontem, espertalhão? Achou que ia escapar? Cinco dias. Verme.

O outro que assistia calado veio até Hal, que fora arremessado de volta ao chão, e soltou-lhe uma cusparada. Ambos foram embora tranquilamente. Era uma área pouco movimentada e ninguém pareceu ver a cena. Halunke limpou o rosto com um lenço já imundo, juntou forças para levantar e andou, meio tonto, até o carro mais próximo, em cujo retrovisor pôde ver um olho inchado, já ganhando os primeiros matizes escuros. Encontrou o batmóvel, escorregou para dentro, encontrou uma garrafa d’água e jogou um pouco no rosto. Se corresse, ainda chegaria em tempo. E o sinal no painel indicava que o tanque estava na reserva.