segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Moça Casta de Cheapside 3.2

III.ii. Casa de Manso.

Uma cama é trazida ao palco, com a Esposa de Manso sobre ela. Entram todas as Madrinhas1, incluindo Rosinha e Sra. Manso.
PRIMEIRA MADRINHA 
E então, mulher? Lhe trouxemos de volta
Uma alma batizada.2
SRA. MANSO
Sim, Grata pelo trabalho todo.
PRIMEIRA PURITANA 
E muito bem batizada, da maneira certa,
Sem qualquer idolatria ou superstição,
Obedecendo ao puro costume de Amsterdam.3
SRA. MANSO
Sentem-se boas vizinhas; Ama!
[Entra a Ama de Leite.]
AMA DE LEITE 
Ao seu dispor, de fato.
SRA. MANSO
Cuida p'ra que todos tenham bancos.
AMA DE LEITE 
Eles têm, de fato.
SEGUNDA MADRINHA 
Traz aqui o bebê, Ama;
Que me diz, comadre,
Não é uma mocinha briosa como o pai?
TERCEIRA MADRINHA 
Como se ela fora da boca dele cuspida,
Olho, nariz e testa dele, sendo menina,
Só a boca mesmo que é igual a da mãe.
SEGUNDA MADRINHA 
A boca da mãe em cima e em baixo, em cima e em baixo.4
TERCEIRA MADRINHA 
É um bebê grande, quase uma mulherzinha.
SEGUNDA PURITANA
Não, acredita, é mirradinha, mas de todo coração,
Mui bem disposta, como fiel, a suportar
Suas tribulações aqui, e erguer a prole.
SEGUNDA MADRINHA 
O parto dela foi difícil, garanto, você sabe, vizinha.
TERCEIRA MADRINHA 
Oh, correu tudo bem; nós chegamos a temer,
Mas ela aliviou a todos nossos corações;
Uma boa alma, de verdade;
A parteira a achou uma filhota muito risonha.
PRIMEIRA PURITANA 
É o Espírito, as irmãs são todas como ela.
Entram Sir Walter, com duas colheres e uma travessa, e Manso.
SEGUNDA MADRINHA
Oh, lá vem o padrinho-mor, vizinhas. 
SIR WALTER 
[crux] A abundância de vossos votos a todas, ladies.
TERCEIRA MADRINHA 
Oh, doce cavalheiro, que belas palavras usa –
A abundância de nossos votos!
SEGUNDA MADRINHA 
Nos chama de ladies.
QUARTA MADRINHA 
Prometo que é um distinto cavalheiro, e cortês.
SEGUNDA MADRINHA 
Eu acho que o marido dela parece um matuto perto dele.
TERCEIRA MADRINHA 
Não me importaria ter um matuto de marido, também, se tivesse crianças tão lindas.
SEGUNDA MADRINHA 
Ela só tem crianças lindas, comadre.
TERCEIRA MADRINHA 
Sim, e veja com que rapidez elas vêm.
PRIMEIRA PURITANA 
Filhos são bênçãos, se forem gerados com fervor
Pelos irmãos, como eu tenho cinco lá em casa.
SIR WALTER 
O pior já passou, espero, comadre.
SRA. MANSO
Assim espero também, meu bom senhor.
MANSO 
Pois eu espero também, pr'a fazer companhia.
Do contrário não tenho nada o que fazer.
SIR WALTER 
Uma lembrancinha, lady!
Pelo amor do neném; rogo que aceite.
SRA. MANSO
Oh, não tinha que se incomodar, senhor.
SEGUNDA MADRINHA 
Olha, olha, que foi que ele deu a ela, o que é, comadre?
TERCEIRA MADRINHA 
Ora, por minha fé, um belo cálice de haste alta, e duas grandes colheres de apóstolo5, uma delas folheada a ouro.
PRIMEIRA PURITANA 
Certamente então era Judas e sua barba ruiva6.
SEGUNDA PURITANA
Eu não alimento minha filha com tal colher
A troco do mundo, temendo colorir seu cabelo;
Irmãos condenam pelo ruivo, chegam a se excitar,
Não é a cor das irmãs.  
Entra Ama com doces e vinho.
MANSO 
Faz muito bem, Ama;
Avia-te logo com eles entre as comadres –
Agora são sacados todos os lenços de borla,
Já estão esparramados por sobre seus joelhos;
E entram em cena longos dedos embebidos
Três vezes ao dia em urina7 – minha esposa usa –
Agora vai ser um tal de embolsar;
[crux] Vê como escondem coisas em toda parte.8
PRIMEIRA PURITANA 
Vem aqui, Ama.
MANSO 
De novo! Ela já pegou dois.
PRIMEIRA PURITANA 
Esqueci da filha doente de uma irmã.
MANSO
Maldição, parece que a pureza das senhoras ama tanto coisas doces que põe p'ra dentro três de uma vez. Fosse tudo isso às minhas expensas, me levaria à mendicância. Essas mulheres não têm escrúpulos com conservas, aonde vão; vê se não garimparam todas as ameixas9 compridas, também – não deixaram nada aqui a não ser uns cotocos de doce que nem vale por na boca. Não me espanta ter ouvido um cidadão uma vez reclamar que a barriga da mulher sozinha lhe quebrou as pernas; as minhas estariam em frangalhos nesses sete anos, não fosse este valoroso fidalgo que com uma bengala sustenta a minha mulher e a mim, e meu patrimônio estaria enterrado na Rua Bucklersbury.10
SRA. MANSO
Aqui, Senhora Dourado, e vizinhas minhas,
A todas que tiveram o trabalho comigo,
A todas boas esposas, um só brinde.
PRIMEIRA PURITANA 
Eu respondo por elas;
Elas desejam saúde e vigor,
E que a senhora possa prosseguir com coragem,
Para fazer o mesmo mais tantas vezes,
Como verdadeira irmã de porte maternal.
MANSO 
Agora as taças rolam p'ra molhar o bico das madrinhas;
Vai escorrendo, sério; nem lhes importa quem paga.
PRIMEIRA PURITANA 
Enche de novo, Ama.
MANSO 
Bendita seja, duas duma vez; não fico mais;
Ia ser a morte ter que pagar tudo.
Agrada ao senhor caminhar e deixar as mulheres?
SIR WALTER 
De todo coração, Zé.
MANSO 
Fato, não posso culpá-lo.
SIR WALTER 
Sentem-se todas, donas alegrinhas.
TODAS MADRINHAS
Grata a sua reverência, senhor.
PRIMEIRA PURITANA 
Grata a sua reverência, senhor.
MANSO 
[crux] Duas vezes maldita11, é a mais tarda e mais baixa.
Saem Manso e Sir Walter.
PRIMEIRA PURITANA 
Traz aqui aquela taça, Ama, eu de bom grado afastaria esta (hic!) tristeza pouco cristã.
TERCEIRA MADRINHA 
Vê, comadre, se não pare como uma condessa;
Quisera ter tal marido para minha filha.
QUARTA MADRINHA 
Ela já não está na hora de casar?
TERCEIRA MADRINHA 
Oh, não, doce comadre.
QUARTA MADRINHA 
Ora, ela tem dezenove!
TERCEIRA MADRINHA 
Sim, completou na festa de Lammas12,
Mas tem um defeito, comadre, um defeito secreto.
QUARTA MADRINHA 
Um defeito, e o que é?
TERCEIRA MADRINHA 
Eu conto depois de beber.
QUARTA MADRINHA 
Vinho faz aquilo, vejo, que amizade não faz.
TERCEIRA MADRINHA 
Agora eu digo, comadre – ela é muito solta.
QUARTA MADRINHA 
Muito solta?
TERCEIRA MADRINHA 
Oh, sim, não consegue manter-se seca na cama.
QUARTA MADRINHA 
Como, aos dezenove?
TERCEIRA MADRINHA 
É o que eu lhe digo, comadre.
Entra a Ama Seca e conversa com Rosinha.
ROSINHA 
Falar comigo, Ama? Quem é?
AMA SECA
Um cavalheiro
De Cambridge, acredito ser seu filho, de fato.
ROSINHA 
É meu filho Tim mesmo, rogo-lhe que o chame
Para dentre as mulheres, vai dar-lhe confiança,
Pois não lhe falta nada a não ser a audácia;
Queria que a senhora galesa lá em casa cá estivesse.
SRA. SECCO
Seu filho chegou, verdade?
ROSINHA
Sim, da universidade, verdade.
SRA. SECCO
É grande júbilo para você.
ROSINHA 
Tem um ótimo casamento encaminhado p'ra ele.
SRA. SECCO
Um casamento?
ROSINHA 
Sim, claro, uma grande herdeira em Gales
De ao menos dezenove montanhas,
Sem falar de seus bens e de seu gado.
Entra Tim.
TIM 
Oh, onde me meti!
Sai.
ROSINHA 
O que, voltou p'ra trás? Atrás dele, boa Ama;
Sai a Ama Seca.
É tão canhestro, põe a mocidade a perder;
Na universidade ficam sempre entre homens,
Nunca são treinados à companhia feminina.
SRA. SECCO
Isso é deveras por a mocidade a perder.
Entar Ama Seca e Tim.
NURSE 
É a vontade de sua mãe.
ROSINHA 
Ora, filho, ora Tim,
Devo levantar e buscá-lo? Que vergonha, filho.
TIM 
Mãe, a senhora faz um pedido de caloura;13
É contrário às leis da universidade
Para todos que já assinam bacharel
Se meter entre mulheres casadas.
ROSINHA 
Deixa, nós escusaremos você aqui.
TIM 
Manda chamar meu tutor, mãe, e pouco me importa.
ROSINHA 
O que, seu tutor veio, você o trouxe aqui14?
TIM 
Eu não o trouxe aqui, ele espera lá na porta,
Negatur, toma logo lógica para a senhora, mãe.
ROSINHA 
Corre, chama ele, Ama, é o tutor de meu filho;
Aqui, come umas ameixas.
Sai a Ama Seca.
TIM
Venho eu de Cambridge, e me oferece seis ameixas?
ROSINHA 
Ora, como é, Tim,
Não sobrou nada dos seus velhos truques?
TIM 
Servido como a uma criança,
Quando já assino como bacharel?
ROSINHA
Não vai parar até eu fazer seu tutor açoitá-lo;
Lembra como te servi uma vez na escola pública
No pátio da St. Paul15?
TIM 
Oh, monstruoso absurdo!
Não foi nada assim em Cambridge desde que cheguei;
Pois sim, açoitar um bacharel? Suscitaria
Gargalhadas, que meu tutor não a ouça, seria
Piadinha pela universidade inteira;
Sem mais palavras, mãe.
Entra o Tutor.
ROSINHA
É esse seu tutor, Tim? 
TUTOR 
Sim, certamente, senhora, sou o homem que o pôs
[super crux] A par da lógica, li os escatológicos16 a ele.
TIM Isso ele fez, mãe, mas agora já tenho todos
Na minha própria cuca, e posso também ler aos outros.
TUTOR 
Isso ele pode, senhora, pois fluem naturalmente dele.
ROSINHA 
Sou ainda mais grata pelo esforço, senhor.
TUTOR 
Non ideo sane.17
ROSINHA 
É, ele era mesmo um idiota
Quando saiu de Londres, mas já se emendou bem;
Recebeu as duas tortas de pato que mandei?
TUTOR 
E comi com gosto, grato a sua reverência.
ROSINHA 
É meu filho Tim, deem-lhe as boas vinda, damas.
TIM 
Tim? Escuta bem, Timotheus, mãe, Timotheus.
ROSINHA 
Como, vou negar seu nome? “Timotheus” ele diz?
Lá está um nome, é meu filho Tim, sem dúvida.
SRA. SECCO
Seja bem vindo, senhor Tim.
Beijo.
TIM
Oh, isto é horrível, esse beijo dela é úmido;
Seu lenço, doce tutor, para me defender delas,
À medida que ataquem.
SEGUNDA MADRINHA 
Bem vindo de Cambridge.
Beijo.
TIM 
Isto é intolerável! Esta mulher tem um hálito pernicioso, disfarçado com o fedor de docinhos; ajuda, doce tutor, ou vou esfregar os lábios até arrancá-los.
TUTOR 
Vou beijar no lado oposto18 enquanto isso.
TIM 
É o gesto mais doce, e despachamos logo isso.
PRIMEIRA PURITANA 
Agora é minha vez. Bem vindo da fonte da disciplina19 que bebida a todos os irmãos.
Fica tonta e cai.
TIM 
Levanta, faz favor!20
TERCEIRA MADRINHA 
Oh, pobre mulher – Senhora Umporcima!
PRIMEIRA PURITANA 
É só a aflição comum aos fiéis, devemos aceitar nossas quedas.
TIM 
[À Parte ao Tutor] Estou feliz de ter escapado; seria um beijo podre por certo, caiu do galho antes de me atingir.
Entram Manso e Davi.
MANSO 
[À Parte] Que bagunça, não se dispersaram ainda?
[super crux] Cruzes, um espelho21; elas beberam tanto do jarro22
Que algumas demandam outro tipo de vaso.
[A todos] Lá vai uma linda parada.
TODAS MADRINHAS 
Onde? Onde, senhor?
MANSO 
Passando agora mesmo pelo Canal do Mijo.23
Com dois lindos tambores e um porta-estandarte.24
TODAS MADRINHAS
Oh, que lindo.
TIM 
Vem, tutor.
Sai com o Tutor.
TODAS MADRINHAS
Adeus, doce comadre.
Saem as Madrinhas.
SRA. MANSO
Agradeço a todas pela ajuda.
PRIMEIRA PURITANA 
Alimente-se e fique forte.
Saem Rosinha, Sra. Secco e Puritanas. A cama com a Sra. Manso é recolhida.
MANSO 
[Para as Puritanas em saída]
A senhora precisa mais dormir que comer;
Vai, tira uma soneca com os irmãos, vai25,
E se levante uma irmã bem edificada e firme!
Oh, eis um dia de labuta bem superado,
Capaz de deixar o cidadão louco feito lebre26.
[crux] Como esquentaram a sala com seus gordos traseiros,27
Não sente, Davi?
DAVI 
Sim, está medonho, senhor.
MANSO 
Que é isso sob os bancos?
DAVI 
Apenas umidade, senhor, derramaram vinho aqui por certo.
MANSO 
Não pensa que será coisa pior?
Bancos de bordado fino p'ra elas não custam nada.
DAVI 
[À Parte] Nem pro senhor, é certo.
MANSO 
Olha como como os largaram,
Como largam a si mesmas, patas para cima;
Como espalharam toda a palha28 também, Davi,
[crux] Com as suas desprezíveis tamanquinhas baixas29;
Essas aí derrubam tudo que encontram de pé;
Mas qual é o segredo que ia me contar,
Honesto Davi?
DAVI 
Se o senhor vier a revelar...
MANSO 
Vida minha, me rasgue o ventre se o fizer, Davi.
DAVI 
Meu patrão vai se casar.
MANSO 
Casar, Davi? Me manda à forca antes.
DAVI 
[À Parte] Dei-lhe a ferroada.
MANSO 
Quando, onde, quem é ela, Davi?
DAVI 
A mesma que foi madrinha, e deu a colher.30
MANSO 
Não tenho tempo a perder, e mal posso falar,
[crux] É parar essas rodas ou tudo desmontar.
Sai.
DAVI 
Sabia que o atiçaria. Assim defendo
Meus próprios fins por meio de seu esforço horrendo;
É meu desejo mantê-lo solteiro também;
Sendo seu parente pobre, quiçá me dê bem
Com sua morte; essa esperança me conduz,
Já que a Lady Secco é seca e não dá à luz.
Sai.