quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Fábula Acadêmica


Era uma Vez...

... sobre as verdejantes colinas de um reino próspero e distante, reino cujo monarca era justo, benevolente e próspero, e cujos súditos eram saudáveis, bonitos e asseados, além de não menos prósperos... enfim, surgiu nesse reino, vindo de terras ainda mais distantes, um autoproclamado sábio, guru e feiticeiro, não necessariamente nessa ordem. Era o grande, enormíssimo, estupendo e fabuloso (não necessariamente etc.) “Vazzen von der Zeffa”

Zeffa tinha uma proposta para o rei. Sim, isso mesmo, afinal de contas não se viajam léguas e léguas a troco de um aperto de mão. Sua idéia era simples mas genial – ele era sempre genial. Ora, o monarca dispunha de todo aquele reinado, mas seu povo era estúpido, não, não se ofenda, era uma nação de néscios. E Zeffa era depositário de todo o saber das bandas de cá do rio. Sua proposta era instituir algo a que ele chamava Academia. O Rei não teve tempo de coçar a cabeça uma segunda vez pois Zeffa se prontificou a explicar: na tal Academia, haveria livros – e o cenho do Rei franziu mais um pouco – e haveria professores – aqui chamaram-se os guardas. Vazzen escapou do calabouço trocando aquela palavra por “pesquisadores”, o que o Rei gostou muito de ouvir, sendo ele próprio um pesquisador, diga-se, da vida dos outros. Sua Majestade empertigou-se em sua farda e sinalizou que progredisse a explanação.

Bastava, fê-lo der Zeffa, interpelar todos mercadores que transitassem por terras vossas, cobrando-se-lhes uma pequena taxa, um ou dois dobrões de ouro. Daí viriam recursos suficientes para erguer alguns poucos prédios – ou diversas taperas, como preferirdes – onde seriam ministradas aulas por alguns de meus discípulos, detentores de todo o saber das bandas de cá do rio. Não bastando, todos poderiam se ocupar de tentar descobrir novos brinquedos, artefatos ou poções, feitiços ou antídotos... Mais, haveria bardos e menestréis, escribas e cartógrafos, pintores e escultores...

Chega! Isso já chega, bradou o Rei, não faço idéia do que significa tudo isso, mas vá, algo me diz que lho devo consentir. Vá, meu caro, tens Carta Branca. Doravante fica estipulado que nada se vende, nada se compra, nada se colhe e nada se come sem que o valoroso Vazzen von der Zeffa receba seu quinhão. E que se faça a Cadimia!!!

Academia, milorde.

Pois tudo transcorreu às mil maravilhas. Bem verdade que os campesinos, aldeões e demais qualidades de gente menor não puderam compreender aquele circo todo, mas quem são eles? As obras e preparativos seguiram, e todos estavam contentes e esperançosos; o monarca mesmo enviou uma expedição ao Condado dos Vinhedos encarregada de supri-los com o melhor dos vinhos. Zeffa, apesar de atarefado, aceitou uma ou outra regalia palaciana, dado que os sábios (gurus e feiticeiros) são de carne afinal. E a carne é fraca, já sabemos.

Quando tudo estava pronto, caiado de branco e acabado, fez-se uma festa que, segundo os ventos que passaram por aqui, durou algo entre três e setecentos dias. Pôs-se de pronto em andamento o projeto mirabolante de Vazzen, e houve uma euforia entre a corte e o clero. Houve quem falasse em milagre, olha, dizem que até em Messias, mas isso é terreno ardiloso. De qualquer forma, o sucesso obtido foi formidável, e a coisa toda prosperou a olhos vistos.

Algum camponês ou outro vendilhão, andarilho ou meretriz ficaram insatisfeitos a resmungar com a carestia, mas ora... O povo todo se enterneceu com o nascimento de uma adorável criatura, filha de nosso bom déspota, sua alteza Princesa Verba.

Verba cresceu forte e saudável e, cá entre nós, assaz bela. Sem falar que o reino em si cresceu, atraindo gente de todas as partes e parte de todas as gentes, enfim, havia muita gente mesmo. E para suprir a fome de todos, instituiu-se um galpão onde se servia sopa, uma sopa saborosa, que ficou conhecida como caldo de cultura. Foram tempos memoráveis aqueles antes do dragão.

Pois sim, um dragão. Ora essa! E dos grandes, garanto. Mas ele veio disfarçado de mulher. Não me perguntes como, Julio Verne não tinha leitores tão curiosos... A verdade é que o bichão tornou-se uma graciosa criatura, recém púbere – fica aqui isto – bem ao gosto de sua Majestade. E veio em visita ao nosso adorável reino. Encantou a muitos, inveja também causou, e constrangimento, por ser tão jovem e tão desejável. Não tardou a ter acesso aos corredores acadêmicos e gostou muito do que viu. Tantas pessoas bonitas e talentosas, tanta efervescência que sentiu azia. Não via a hora de cuspir um foguinho. Mas enfim, logrou com igual êxito adentrar a alta hierarquia palaciana, insinuando-se até conhecer o supremo mandatário.
Aí então se revelou. E dizem que cuspiu fogo que ardeu duas semanas. Mas ao que me consta, só chamuscou alguns arquivos empoeirados. Fora de forma, desculpou-se o monstro. Mas o monarca, em trajes menores, ficou apalermado com aquele susto, olhou para cima e caiu desfalecido. O pânico logo tomou o castelo de assalto, dali a diante o reino inteiro. Nosso vilão dissimulado fez como dele se esperava, já advinhas: raptou a criança Verba, quem aliás tinha constituição bem semelhante à escolhida por ele para disfarce. Uma verdadeira princesa. A população pela primeira vez foi unânime quanto à necessidade de derrotar o enorme animal que punha labaredas pelas ventas. É verdade que discutiram até os bofetões sobre o modus operandi. Ficou decidido que apareceria um cavaleiro destemido, aventureiro vindo de bem além do rio que com sua enorme espada assassinaria a besta. Preferiram escrever dragão a besta, temendo pelo rei. Ah, e salvaria e desposaria a besta, digo, a Verba. Alguém aí? Voluntários, passo à frente.

Pouco mais tarde, chega uma mensagem aos aldeões, que a transmitem incontinenti ao bom Rei. O dragão exigia a academia para liberar, ou melhor, libertar a Verba. O Rei desmaiou de novo. Vazzen, vocês perguntam, que foi feito dele? Se esgueirava sorrateiro escapando da atenção de todos mas acabou pego pela guarda real. E agora? Zeffa objetou que era um absurdo, e ademais uma covardia entregar assim o fruto de tanto esforço. Parecia razoável. Mas não trazia a princesa de volta. Zeffa ficou cativo, afinal, foi ele quem começou tudo aquilo. Onde estava sua mágica agora?
Tão logo souberam da novidade, os alunos e freqüentadores da academia ficaram possessos. Ora, pois um réptil enorme, de hálito incendiário levaria a maior riqueza, digo, a segunda – a primeira já fora levada – sem que ninguém lutasse? Uniram-se, armaram-se paus e pedras e livros – os quais nunca se soube para que serviriam. Enquanto isso, nosso guru, sábio, bla-bla-bla, mexia seus pauzinhos. Preparou um feitiço para escapar do cárcere. Teve que usar até, ouvi dizer, a língua de um dos guardas. Desapareceu. A hora da batalha era chegada.
El Rei, que se arrependera desde muito de dar ouvidos àquele maluco, insistia que se concedesse à besta o que pedia, que se salvasse a Verba. Tarde demais. Catedráticos, pupilos, aldeões e bandidos, seguidos do magnífico Vazzen von der Zeffa, rumavam para a montanha do dragão.

Lá chegando, encontraram algo bem diverso do esperado. Mesa posta, centenas de salgadinhos, canapés, ponche e outras delicatessens brilharam ao povo faminto como o mais rico Potosi. A ira, a cólera, o ímpeto e a agressividade de cada um voltaram-se da besta para o próximo, cada qual querendo comer mais e primeiro. Como resultado, dois terços estavam mortos no chão no momento em que Vazzen chegou e se deparou com o espetáculo.

Estupefacto, boquiaberto e estarrecido (nessa exata ordem), Zeffa conjurou setecentos e cinqüenta demônios rastejantes, quatro ou cinco elementais de água e mais duas enormes gárgulas voadoras. O que seguiu não serei eu, nem sequer o próprio Vazzen, quem poderá descrever. Não é de nossa tradição narrar batalhas épicas; aliás, até então nunca houvera uma.

Mas ao cabo de um quarto de hora, as tropas etéreas e fantasmagóricas triunfaram ao conseguir induzir o monstro a engolir uma nuvem, depois do quê ficou a soltar umas fumacinhas que faziam um barulho que parecia, ainda que por lá não se soubesse o que eram, trens deslanchando.

Mas e quanto a Verba? E a academia, como ficou? Isso cabe a você descobrir; ou melhor, decidir.

Um comentário:

Unir disse...

Na Cadimia uma nova e estimulante atividade tomou de conta de todos os jovens ansiosos e sem cigarro: o truco, o nome esse ninguém soube explicar.
E a pobre da Verba más línguas (sempre elas) disseram que era fora aliciada por um anão que atendia por Vossa Excelência.







postado por vitti (não sei pq cargas dágua apareceu unir aí)