quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Felisberto

Felisberto Jovino era um velho infeliz. Talvez não tão velho, mas de meia idade; talvez não tão infeliz, mas amargurado. Não era mal humorado, e sim bastante espirituoso, ainda que mordaz. De qualquer sorte, gastava seus dias em bibliotecas, livrarias, um cinema às vezes, ou longas caminhadas, sempre só. As noites eram preenchidas com audições em elevados decibéis de compositores vanguardistas – para desespero dos vizinhos – ou bebedeiras, às vezes ambos. Sempre só, claro.

Não que ao longo de sua vida atribulada ele não tenha tido mulheres e amigos, foram até muitos na juventude. Mas o tempo se encarregava sempre de decantar sua personalidade densa, submergindo-o em um mar de melancólica solidão. Não era um pessimista profissional, como um alemão que ele gostava de ler; mas se tornou aos poucos um misantropo, como um grego que ele admirava.

Numa certa madrugada ébria, numa mesa de canto dum bar pouco recomendável da metrópole, relia pela enésima vez, no original, a obra maior de outro alemão (cuja recomendação de lê-la depois dos quarenta ele descumprira). Súbito, seja pela mistura arriscada de Steinhaeger com antidepressivos, seja por um desses eventos inexplicáveis pela ciência, Felisberto sente um cheiro de enxofre e, erguendo os olhos da leitura, depara-se com um senhor sentado à cadeira oposta, de pele muito vermelha, usando um belo terno e um chapéu bem negros. Sobre a mesa, uma valise cor de sangue.

Com seu perdão, o senhor queira se retirar, eu não quero comprar nada.
Mas eu não estou aqui para vender...
(interrompendo) Já sei, quer comprar minha alma em troca de sabedoria. Não, muito obrigado, eu já tenho mais do que possa precisar.
Mantenha a calma, meu caro, ouça ao menos a proposta que eu lhe faço.
Espera um pouco. Garçom, mais um destes!
Permita-me me apresentar. (sacando um cartão do bolso do paletó) Sou Mefistófeles e atuo no ramo de compra, venda e permuta de bens imateriais.
Ah, prazer conhecê-lo pessoalmente. O último Anjo do Inferno que conheci pilotava uma motocicleta. Mas pode esquecer, já vendi minha alma pelo Mercado Livre.
(sonora gargalhada) Ora, Sr. Jovino, não se trata disso. Hoje em dia esse negócio não vale mais a pena. Tal mercadoria tem pouco valor de revenda, e...
Pode me chamar de Felisberto.
Ótimo. Indo direto ao ponto, Felisberto, o Sr. estaria...
(gritando)Você!
Você estaria interessado em me vender sua sabedoria?
Ora, mas isso é que não vale nada mesmo!
Talvez, mas eu preciso dar um presente ao Chefe, vai ser o aniversário da Queda semana que vem. Você sabe como ele gosta dessas coisas.
Hum... Posso te chamar de Mefisto?
É, não chega a me incomodar, fique à vontade.
Então, Memê, o que é...
Eu não gosto de ser chamado de Memê.
Mefinho?
Não.
Totofes?
Muito menos. Começo a me perguntar se você é o cliente ideal.
Mas eu sou ligeiramente diferente de sua clientela habitual. Vá lá, Me-fis-tó-fe-les, qual é a barganha?
Bem, Felisberto, é bem claro para mim que você não é feliz.
Ninguém o é, quem diz que é está se enganando.
Não é verdade. Veja ali aqueles jovens: estão dançando lascivamente, exibindo corpos bem feitos e bem cuidados, cada um com um belo sorriso no rosto bronzeado...
Você propõe me transformar em um deles.
Exatamente. Ao assinar este contrato (abrindo a valise), você perde toda sua erudição e acorda amanhã totalmente estúpido, mas jovem e musculoso, viril e priápico.
Sem ressaca?
Naturalmente!
Nunca mais?
Pode-se providenciar isso também.
Estou começando a me interessar.
A esta altura o contrato já estava em cima da mesa, bem como mais uma dose.
Felisberto lança mão do documento e começa a lê-lo.
“O contratante se compromete a alienar seu patrimônio cultural... perfeitamente néscio ao acordar na manhã seguinte...” E se eu passar a noite em claro?
Você vai dormir eventualmente.
“O contratado se obriga a prover o contratante com um corpo jovem, musculoso e de aparência atraente para jovens do sexo oposto...” Como você garante que nenhum viado vai me perseguir?
Não é isso o que está escrito.
“...sem disfunção erétil em condições normais... “ Devo admitir que às vezes... Sabe, é difícil achar boas profissionais... mas o que seriam as condições anormais?
Estão listadas no anexo III.
E o tamanho da minha ereção? Não que a atual não baste...
Tudo bem, quanto você quer?
(Faz um gesto com as mãos separadas por uns 30cm.)
Eu faço um adendo.
(risos) Boa piada... Mas o que são essas letras miúdas?
Nada de mais, é só um complemento.
Complemento? Espera aí (sacando os óculos do bolso da camisa).
“O contratante fica expressamente proibido de consumir qualquer tipo de arte, literatura, filosofia ou ciência, assim como ler os jornais e publicações listados no anexo VIII, sendo-lhe permitida apenas a leitura de livros de auto-ajuda, revistas semanais de grande circulação e bulas de remédio.” Tá querendo me tapear?
Olha, isso é uma formalidade, você não seria capaz de entender nada acima de revistas para adolescentes.
Tem mais: “fica obrigado a uma carga diária de duas horas de exercícios físicos, além de consumir esteróides anabolizantes”, isso faz parte do anexo III? Sim! “Deverá assistir a três novelas e, nos fins-de-semana, dois programas de auditório, a escolher. Também deverá manter uma média diária sete horas em frente à televisão.” Monsieur, c’est ridicule!
Num lance rápido, Mefistófeles tira o chapéu, revelando um par de chifres e uma calva completa. Coloca-o sobre a cadeira à esquerda de seu embriagado interlocutor e, de repente, o adereço se transfigura, crescendo até atingir a forma de um linda moça negra com um largo sorriso.
Safado, conhece bem os meus gostos, diz Felisberto, voltando o olhar para o Mefisto, que desta vez tinha um belo panamá na cabeça. Ele repete o mesmo truque e voilà: uma estonteante loura de olhos claros. Ambas estavam em trajes mínimos, obviamente.
Ah, cachorrão, que golpe baixo! (ele sente mãos indiscretas em sua virilha)
E então, meu caro, não é isso que lhe falta? Aproveita!
É uma amostra grátis?
Bem...digamos que é um brinde para celebrar sua assinatura.
Não seja cruel, deixe-me pensar melhor enquanto saboreio suas diabinhas aqui.
Nada feito. Vamos, vamos com isso Felisberto, não tenho todo dia.
Hoje em dia sua agenda tem andado cheia mesmo!
Eu tenho um encontro com Deus para discutir os preparativos da festa.
Que festa?
Aniversário da Queda, oras!
Veja só... Mas Ele não está em toda parte? Você pode encontrá-lo aqui mesmo, enquanto eu...
Não, chega de cincunlóquios. Aqui está a caneta, opa, está sem tinta! Você me consegue um pouco de sangue?
Sai fora capetão! Não assino nada.
Como?! Não é possível!
É sim, eu estou fora. .
Dê uma olhada nessas duas beldades!
Tudo bem, são lindas, mas estava planejando pegar o Quijote de novo, e você sabe, sexo sem amor é uma experiência vazia.
Mas é certamente a melhor delas!
No, gracias, yo no firmo.

Felisberto acordou com uma puta ressaca. Largou o Fausto e retomou o Quixote. Jogou fora a caixa de comprimidos com uma tarja preta. Não precisava daquilo, sabia que era muito feliz.

P.S.: Com agradecimentos a: Monty Python, Frank Zappa e Woody Allen. E ao Goethe, que, aliás, eu não li.

Um comentário:

Alexandre Piccolo disse...

ah, meu rapaz, se ainda não leu o Goethe, esforce-se ao máximo para fazê-lo: é dessas leituras que mudam seu (jeito de) ver o mundo...

Beleza de imaginação, hein?! E que fôlego!

Abs!