domingo, 2 de setembro de 2007

Resenha para Prometeu Acorrentado

A tragédia grega era, mais que uma forma de arte, uma catarse coletiva. Como naquele tempo ainda não havia psicoterapeutas, ela era usada para sublimar o sofrimento da platéia, já que as personagens no palco sofriam tanto que todos voltavam para suas casas mais tranqüilos. O assunto favorito de tais composições eram os mitos de criação, seja do mundo ou das cidades-estado que compunham a fértil civilização que floresceu na península grega e circunvizinhanças.

Ésquilo foi quem assinou “Prometeu Acorrentado”, trama que teria poucas chances de ser adaptada em Hollywood, para a sorte da memória de Ésquilo e do próprio cinema. Mas antes vamos nos situar um pouco.

O mito de Prometeu aborda a Antropogonia (criação do ser humano) segundo a mitologia grega, que é fundamentada em Homero (Ilíada e Odisséia) e na Teogonia (origem dos deuses) de Hesíodo. A cosmogonia (origem do universo) grega não é antropocêntrica e monoteísta como a judaico-cristã – na qual um só Deus, representante do Bem, cria, no sexto dia, um ser à sua “imagem e semelhança”, mas nada diz – mais do que “No princípio era o Verbo” – sobre o dia zero, ou antes disso. Aquela é bastante rica de símbolos e dotada de uma lógica menos simplista que o maniqueísmo característico desta tradição, que viria a ser imposta de forma brutal mundo afora, dezenas de séculos depois da civilização helênica.

Nela, o universo partiu do Caos Original. Impulsionados pelo Eros (amor) Original, surgiram Érebo (sombra) e a Noite. Da Noite nasceram o Éter e o Dia, ao qual Gaia iluminou, prenhe e enamorada de Érebo.

Gaia dá feição à Terra organizando, de acordo com seus pesos específicos, o Ar, a Terra, a Água o Tártaro – prisão subterrânea – e o Éter (conceito associado a Firmamento, que só foi cientificamente descartado há pouco mais de um século).

Gaia então engendrou as Montanhas, as Ninfas, e também Ponto, de asas agitadas; mas, principalmente, Gaia engendrou Urano (Céu) com suas mesmas proporções, para que a contivesse por todas as partes. Veja: a Terra cria o Céu e não o oposto. Não satisfeita, a vadia se amaziou com o próprio Urano e com ele teve, incestuosamente, lindas crianças de nomes exóticos como Arges, Brontes e Steropes, Briareus, Gies e Cottus. Excêntrico esse Urano: de seus genitais se fez Afrodite, que dispensa apresentações; de seu sangue se fizeram gigantes, ninfas e outros bichos. Sem falar que dessa união nasceram os Titãs. (Não a banda de rock, essa turma mitológica sofria mas não teve que suportar os anos oitenta, pelo menos).

Falo de Jápeto, por exemplo, que conheceu uma linda moça chamada Climene, com quem teve um rebento problemático do qual já falaremos. Dessa geração são ainda Oceano e Tétis, ligadas à água dos mares e rios, Cirus, Ceo e Febo, Mnemosine (símbolo para memória), Hipérion e Tia, Têmis, Réa e Cronos. Este se rebelou contra o pai despótico, Urano, e o destronou. Para evitar cair na mesma armadilha, devorava seus filhos. Mas chegada a vez de Zeus, deram-lhe uma pedra em seu lugar e - adivinhem - Zeus suplantou o pai e implantou a dinastia dos deuses olímpicos.

São eles: Héstia, Hades, Demétrio e Poseidon, além de Hera e do próprio Zeus. Esse casal perfeito, bem sucedido e poderoso (ainda que também incestuoso) não saía da coluna social do Olimpo.

Aqui chegamos ao Prometeu. A etimologia de seu nome pode ser compreendida como “o previdente”, ou como diria o Galvão Bueno, “Eu já Sabia!” Ele era aquele filho esquisito de Jápeto e Climene. O rapaz tinha uma cabeça até boa, mas cheia de pensamentos subversivos. O coitado era um revoltado, tadinho. Mas bem que ele apoiou Zeus em seu coup d´état olímpico. O problema é que depois de assumir, Zeus mudou o discurso: queria criar uma raça para substituir os humanos que Prometeu criara. Ah é, em algum lugar no meio do caminho nós fomos criados. Sentindo-se traído, ele entrou de fininho no Olimpo e zupt! Roubou o fogo que era exclusividade dos deuses, foi lá e entregou aos humanos.

Pronto, fodeu. Zeus não gostou nada daquela travessura. Mandou atar Prometeu a um rochedo no Cáucaso. Estamos falando de uma formação montanhosa entre o Mar Cáspio e o Mar Negro, na atual fronteira entre Rússia e Geórgia, de onde veio a “raça” caucasiana, que dominaria a Terra eventualmente. Enfim, lá, atado pela mão de Hefesto, Prometeu teria diariamente seu fígado devorado pela águia enviada por Zeus. Mas como ele era imortal, suas vísceras se regeneravam a cada dia para mais uma sessão de tortura que faria inveja aos soldados americanos no Iraque.

Para piorar as coisas, Zeus se juntou a seus colegas olímpicos para criar uma encantadora criatura chamada Pandora, que foi dada a Epemeteu, irmão de Prometeu. Este já havia advertido aquele a desconfiar de tal mimo; mas sabemos do que uma fêmea é capaz. Pandora trouxe consigo uma caixa que, quando aberta, espalhou pelo mundo desconfiança, doença e todos os males. Só deu tempo de aprisionar a esperança.

Em seu sofrimento, Prometeu dialogava com Oceano, que se compadecia do deus acorrentado. Ele a acalmava dizendo que Zeus cairia; e ele tinha o dom da antevisão, não esqueçamos.

Io era uma jovem concupiscível, filha de Ínaco, que atraíra a atenção de Zeus e o ciúme de Hera. Consultados os oráculos, Ínaco a pôs porta afora, contra sua vontade. A moça foi perseguida por um moscardo, vagando mundo afora até encontrar Prometeu, que lhe traçou uma rota e vaticinou que um descendente dela mesma derrotaria Zeus.

Hermes, filho e mensageiro de Zeus ainda tenta arrancar informações a Prometeu, que se mostra irredutível e ainda o trata como um mero serviçal do deus tirano. A trama acaba com uma violenta tempestade conjurada por Zeus para amedrontá-lo.

Mas vamos nos permitir uma pequena digressão. Que fogo era esse afinal que nosso herói roubou do Olimpo? A pólvora? O petróleo? Não! Trata-se de todas as faculdades superiores da mente humana. Criatividade, talento e destreza por exemplo. Mas parece que valorizamos demasiado a técnica. Tanto que um dos principais livros sobre a Revolução Industrial se chama Prometeu Desacorrentado, de David S. Landes. Ora, parece que esse rapaz abriu foi a caixa de Pandora.

Porque hoje as pessoas não têm grilhões, mas se comprometem a estar no rochedo num determinado horário para ser consumido. Alguns, não sendo imortais, perecem ou ficam debilitados pela ação da águia.

Aqueles aquinhoados com dons (inclinações, se preferir) mais sutis têm de enfrentar uma verdadeira batalha para que se possam expressar e sobreviver ao mesmo tempo.

Quem sabe não possamos vivenciar uma nova revolução, e tomar parte nela sobretudo, que nos leve desta sociedade de consumo hiper-acelerada para uma Sociedade da Consciência?

Um comentário:

António Lugano disse...

Apreciei o seu texto.
Cordial Saudação.
A. Lugano