quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Álacre

Tomo da lauda pristina
Prestes a louvar-te o nome
De amor com tanta fome
Tão indigna mão assina

Versos tolos, não os tome
Por nada que a muito assome
Mas de lavra genuína

Ah, tu que encantos não poupa
Álacre flor pueril
Tua graça juvenil
Meu sossego de mim rouba

Com teu fogo tão sutil
Lume de menina moça
(Oxalá a Lei não me ouça!)
Tu acendes meu pavio

Não me saem da cabeça
Teus tão formosos pezinhos
Me entorpece como vinho
Tua aura silfidesca

Não te faltarão carinhos
Peço apenas teu beijinho
Com sabor de fruta fresca

sábado, 22 de novembro de 2008

Primeiro Monólogo de Hamlet [I.ii]

Oh, quem dera esta tão tão maculada carne se derretesse, se degelasse, e se resolvesse num orvalho! Ou que o Eterno não houvese estabelecido seu cânone contra o auto-extermínio! Oh, Deus! Oh, Deus! Quão aborrecidos, estiolados, banais e improfícuos me parecem todos os usos deste mundo! Nojo! Oh, nojo! É um jardim de ervas daninhas, que crescem até dar sementes, coisas de natureza sórdida e grosseira dominam-no completamente. Que tenha chegado a este ponto! Morto havia não mais que dois meses! Não, nem isso, nem dois. Um rei tão excelente que era, frente a este, Hipérion para um sátiro. Tão cioso de minha mãe, que não consentiria que os ventos celestes roçassem-lhe a face demasiado forte. Céu e Terrra, devo eu lembrar? Ora, ela dele pendia como se o apetite crescesse por aquilo de que se nutre: no entanto, dentro de um mês! Ah, prefiro nem pensar! Fraqueza, teu nome é mulher! Um breve mês, antes de rotos os sapatos com que ela seguiu o corpo de meu pobre pai morto, como Níobe, em desatado pranto; pois ela, ela mesma... Oh, Deus! Uma fera sem a faculdade da razão teria se enlutado mais tempo! Casou-se se com meu tio, o irmão de meu pai, mas menos semelhante a meu pai do que eu sou a Hércules: em um mês! Antes mesmo que o sal de lágrimas tão iníquas deixassem de fluir de seus olhos irritados, ela se casou. oh, quão maldita rapidez! Entregar-se com tal destreza a lençóis incestuosos! Não é, e não pode vir a ser, nada bom. Mas que se quebre meu coração, pois devo conter minha língua!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Melhor que a Encomenda

Vamos lá... eu detesto xopincênter, mas eu preciso desse livro pra um trabalho, e é pra semana que vem; e, pra piorar, essa puta ressaca... Opa, um sorvetinho vai ajudar... cinco contos numa bola! Que remédio... “Moça, o que é stracciatella?”, “Flocos”, “Ah... dá um de avelã”. Enquanto isso, uma senhora cria caso porque o sorvete dela está muito duro, não resisto e digo “mas vai derreter...”, por sorte ela não me dá atenção; faz o rapaz cancelar o pagamento, o coitado fica batalhando com a maquininha enquanto ela repete “todo cartão dá pra cancelar, blablabla”; quase dou mais cinco pra véia calar a matraca. Felizmete, se aprendi aguma coisa na vida é a evitar encrenca quando não tenho nada a ganhar... mentira, ainda faço isso todo o tempo, vocês logo verão, mas ali ao menos minha têmpera funcionou. Saio de perto, subo as escadas rolantes que levam direto às portas da Livraria Cultura.

Devo confessar que me sinto bem aqui, gosto da decoração, gosto de estar cercado de livros... e este pé direito alto (que terá acontecido ao esquerdo?) dá uma sensação agradável de amplidão; assim como a amplidão do saber humano ao mesmo tempo me encanta e me apequena, cá estou ironicamente num manancial de tramas e idéias, teorias e teoremas, cores e formas... e ao mesmo tempo num templo do capitalismo, da ostentação frívola. Bem, agora que já tomei o sorvete e digredi o bastante, me dirijo ao atendente, um rapazola com um troço bizarro na orelha, digo que havia reservado um livro e ele me encaminha para um balcão logo ali. Sorrio ao pensar que devia ter perguntado: "Onde é que Steinbeck?" De passagem, paro pra folhear um livro de humor judaico e de repente me sobrevém um incoveniente intestinal. Perdoe-me a leitora se o assunto indigno, e os que me censurarão por imitar as apóstrofes do Bruxo; o fato é que me escapou um flato. Putz... ainda bem que não tem ninguém por perto, vamos resolver isso rápido, ir pra casa tomar um banho, que hoje tem João Bosco e... Cara, que gata no balcão de encomenda! Eu adoro esse tipo, pele alabastrina, cabelos lisos e nigérrimos. Parece que no latim há duas palavras para a cor negra e niger seria o preto brilhante; isso torna o adjetivo superlativo acima ainda mais apropriado. “Boa noite”, “boa noite”, “eu encomendei um livro.”

A questão é que o maldito metano não se volatiliza assim tão fácil, e tem o péssimo hábito de acompanhar seu atífice por algum tempo, ou então foi o sistema de ventilação que fez só de sacanagem, sei que eu falando com a mina e tá lá aquela realidade incômoda que obviamente fingimos ignorar quando na presença de estranhos, mas é assunto de galhofa em círculos mais relaxados (trrrrrr psh!). “Seu nome completo, por favor”, e eu o digo mecanicamente, nem me passa pela cabeça mandar um “diga o seu primeiro”, nem seria apropriado naquela situação embaraçosa; e eu nunca fui mesmo um grande galanteador. “Qual é o livro?”, “tem um do Cândido, que eu tinha encomendado há mais tempo, e o outro é um do bardo”, “Shakespeare?” Taí o que mais gosto na Cultura: você é atendido por alguém que tem alguma. Pra falar a verdade, bem que gostaria de qualquer dia largar minha confortável sinecura numa repartição (palavrinha mais datada, essa) e vir trampar aqui.

“Senhor, só localizei o Macbeth.” e aí ela passa a explicar que a reserva cai depois de não sei quanto tempo, “o senhor gostaria de voltar a encomendar?”, “mas eu preciso fazer um trabalho com esse livro, pra semana que vem!”, “puxa... quando for assim, o senhor pode ligar e pedir pra estender a reserva”. E pra provar o que disse há pouco, lá vou eu me lançar numa diatribe inútil, chegando talvez a ser indelicado com a linda senhorita, que me atendia tão bem! “Sabe, eu pensei que a Cultura fosse a única livraria que eu pudesse levar a sério!”, “mas, meu senhor, eu expliquei que...”, e eu tento remediar: “não, não é isso, é que eu fui até a Cultura do Conjunto Nacional e não achei nada do que eu busquei, inclusive esse Cândido!”, “do Voltaire?”, “não, o Antonio...”, “lamento, senhor.”, “o senhor tá no céu... dizem”, ela sorri burocraticamente. E lá vou eu me pavonear um pouco: “mas eram coisas bem específicas, como a Ilíada traduzida pelo Pope”, “ah... posso voltar a pedir então?”, “não, eu preciso aprender a usar a biblioteca, ou vocês vão ficar com todo meu dinheiro!”, e ela sorri de verdade desta vez, que espetáculo! “Posso ajudá-lo em algo mais?”

Não, eu não passei nenhuma cantada de mau gosto, e olha que o gancho era perfeito; de bom gosto tampouco, que aliás são as que menos funcionam, eu só disse “não, por ora é tudo, obrigado” ou coisa que o valha. E fui embora, sem sequer me lembrar de olhar seu nome no crachá. O trabalho no fim foi pro espaço, a biblioteca também não tinha nenhum exemplar disponível. O João Bosco foi ótimo pelo menos.