sábado, 22 de novembro de 2008

Primeiro Monólogo de Hamlet [I.ii]

Oh, quem dera esta tão tão maculada carne se derretesse, se degelasse, e se resolvesse num orvalho! Ou que o Eterno não houvese estabelecido seu cânone contra o auto-extermínio! Oh, Deus! Oh, Deus! Quão aborrecidos, estiolados, banais e improfícuos me parecem todos os usos deste mundo! Nojo! Oh, nojo! É um jardim de ervas daninhas, que crescem até dar sementes, coisas de natureza sórdida e grosseira dominam-no completamente. Que tenha chegado a este ponto! Morto havia não mais que dois meses! Não, nem isso, nem dois. Um rei tão excelente que era, frente a este, Hipérion para um sátiro. Tão cioso de minha mãe, que não consentiria que os ventos celestes roçassem-lhe a face demasiado forte. Céu e Terrra, devo eu lembrar? Ora, ela dele pendia como se o apetite crescesse por aquilo de que se nutre: no entanto, dentro de um mês! Ah, prefiro nem pensar! Fraqueza, teu nome é mulher! Um breve mês, antes de rotos os sapatos com que ela seguiu o corpo de meu pobre pai morto, como Níobe, em desatado pranto; pois ela, ela mesma... Oh, Deus! Uma fera sem a faculdade da razão teria se enlutado mais tempo! Casou-se se com meu tio, o irmão de meu pai, mas menos semelhante a meu pai do que eu sou a Hércules: em um mês! Antes mesmo que o sal de lágrimas tão iníquas deixassem de fluir de seus olhos irritados, ela se casou. oh, quão maldita rapidez! Entregar-se com tal destreza a lençóis incestuosos! Não é, e não pode vir a ser, nada bom. Mas que se quebre meu coração, pois devo conter minha língua!

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