sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Cafajeste Cultural

A erudição de Fábio se limitava a poder citar alguns nomes fundamentais: não ia além do lugar-comum. Mas isso não o impedia de paquerar as freqüentadoras da Livraria Cultura botando banca de intelectual. Afinal, é fácil iniciar uma conversa casual tendo diante de si uma estante de livros, discos, ou filmes a servir de pretexto. Ele costumava abordar as mais novinhas, por volta de vinte e poucos, que se interessassem talvez por um cara mais maduro e culto – o que ele acreditava ser – e que dizia ser médico e rico – o que nunca fora.

Mas naquele dia ele bateu os olhos em uma coroa que disparou nele uma descarga de adrenalina: sua tendência de se apaixonar à primeira vista dera uma trégua, mas voltara com tudo. Ela era esguia e portava um elegante tailleur, tinha um rosto de traços firmes mas harmoniosos, e cabelos vermelhos curtos, com duas pontas na frente a contrastar com a alvura de seu lindo colo. Mas eram aqueles olhos azuis, enquadrados pela discreta armação dourada, que o enfeitiçavam. Ela tinha o ar de uma diretora de escola inglesa, e, sentada em uma poltrona, folheava um livro de arte enorme; devia saber tudo de qualquer coisa... não era mais um alvo de sua caçada frívola, ele seria desmascarado logo de saída. Fábio não ficava nervoso assim por uma mulher desde a adolescência, e quando ela afinal ergueu os olhos na direção dos seus, ele rapidamente se escondeu atrás de uma estante, como uma criança. Respirou, criou confiança e tentou a sorte.

Debaixo da ducha quente do motel Hortência sorria... Sua colega do escritório tinha toda razão: a Livraria Cultura seria o melhor lugar para fisgar um marido. Que homem culto! Espera até eu contar pra Beth que ele já chegou falando de Renascimento, de Michelângelo... E ainda por cima é médico e tem casa de praia! Hortência se enxugou e, diante do espelho, conferiu se as lentes azuis estavam no lugar e vasculhou os cabelos em busca de raízes brancas.

Fábio, deitado, não cabia em si: restauradora de arte!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Estranhabloomdisséia

Era para ser apenas mais uma visita à Livraria Cultura, e me saía bem resistindo às tentações que, quais sirenas silenciosas, testavam minha fortaleza a cada passo. Mas foi justamente uma fortaleza sobre as rochas, armada apenas de letras brancas e prateadas, que, inexpugnável à minha parcimônia, arrancou-me a carteira do bolso. Suspirei: chegara a hora de empreender aquela jornada. Corri até o caixa com o mapa do tesouro quase escondido (não tivesse ele as dimensões de um tijolo!), e paguei a passagem. Embarquei na pena de Joyce, pronto para singrar os mares da subjetividade, sujeito às vagas do questionamento, às intempéries da fé, à calmaria do quotidiano e à deriva dos devaneios, traçando um caminho totalmente novo até a Ítaca do ideal helênico.

Ajudava o vento, e nossa embarcação deslizava sobre plácidas águas quando – não sei se foram os deuses, ou apenas meu próprio fluxo de consciência escapando por um meandro do curso principal – de repente me vi transportado para um amplo salão com uma longa mesa e bancos de madeira, e percebi logo que era convidado de alguma celebração muito especial. E insólita. Senti um cutucão e me virei para ver o próprio Joyce falar: “Dedalus, me passa o carreteiro?” Só então prestei atenção à mesa, repleta de iguarias da culinária tupiniquim. Quase à minha frente Guimarães Rosa oferecia torresmos a Victor Hugo; mais adiante era Dostoiévski que roía um caroço de pequi, e Cora Coralina alertava para os espinhos; sem falar na expressão de êxtase com que Cervantes despejava manteiga de garrafa em sua carne de sol, e no modo como Kafka bufava porque pusera pimenta demais na moqueca. Atravessou o umbral da porta um velho cego, com uma caipirinha na mão e falando com seu guia: “e o Dionísio disse: e daí, você também me fez nas coxa!” Sófocles caiu na gargalhada: “Homero, você não existe!”

Quando abri os olhos, vi a moça da faxina, a Livraria Cultura quase às escuras, o volume fechado e o capuccino pela metade... Ítaca ainda estava longe.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Extra! Extra!

MENINA DOS OLHOS É SALVA PELO SUPERCÍLIO