segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Estranhabloomdisséia

Era para ser apenas mais uma visita à Livraria Cultura, e me saía bem resistindo às tentações que, quais sirenas silenciosas, testavam minha fortaleza a cada passo. Mas foi justamente uma fortaleza sobre as rochas, armada apenas de letras brancas e prateadas, que, inexpugnável à minha parcimônia, arrancou-me a carteira do bolso. Suspirei: chegara a hora de empreender aquela jornada. Corri até o caixa com o mapa do tesouro quase escondido (não tivesse ele as dimensões de um tijolo!), e paguei a passagem. Embarquei na pena de Joyce, pronto para singrar os mares da subjetividade, sujeito às vagas do questionamento, às intempéries da fé, à calmaria do quotidiano e à deriva dos devaneios, traçando um caminho totalmente novo até a Ítaca do ideal helênico.

Ajudava o vento, e nossa embarcação deslizava sobre plácidas águas quando – não sei se foram os deuses, ou apenas meu próprio fluxo de consciência escapando por um meandro do curso principal – de repente me vi transportado para um amplo salão com uma longa mesa e bancos de madeira, e percebi logo que era convidado de alguma celebração muito especial. E insólita. Senti um cutucão e me virei para ver o próprio Joyce falar: “Dedalus, me passa o carreteiro?” Só então prestei atenção à mesa, repleta de iguarias da culinária tupiniquim. Quase à minha frente Guimarães Rosa oferecia torresmos a Victor Hugo; mais adiante era Dostoiévski que roía um caroço de pequi, e Cora Coralina alertava para os espinhos; sem falar na expressão de êxtase com que Cervantes despejava manteiga de garrafa em sua carne de sol, e no modo como Kafka bufava porque pusera pimenta demais na moqueca. Atravessou o umbral da porta um velho cego, com uma caipirinha na mão e falando com seu guia: “e o Dionísio disse: e daí, você também me fez nas coxa!” Sófocles caiu na gargalhada: “Homero, você não existe!”

Quando abri os olhos, vi a moça da faxina, a Livraria Cultura quase às escuras, o volume fechado e o capuccino pela metade... Ítaca ainda estava longe.

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