terça-feira, 22 de dezembro de 2009

De volta a Rondônia



Morei em Porto Velho de 84 a 94, época em que as coisas aqui eram ainda mais precárias; mas fora as constantes quedas de energia - que suavizaram com o advento da usina de Samuel - reconheço que não tinha razão de me queixar por não ter os deslumbres sulistas. Tudo bem que nunca me acostumei ao calor, mas isso é o pensamento do colono: era como se estivesse ali por sacrifício, um dia votaria à "minha terra". Ironicamente foi o que veio a acontecer: depois de passar por Vitória (da qual gostei muito) e Campinas (da qual só falava mal), voltei à capital federal (com a qual tenho minhas questões). Mas digo que sinto orgulho de meu período amazônico.

A última vez que voltara foi em 2002, numa breve inserção em uma viagem para o Acre e o Peru. Desta feita, foi um corolário quase acidental à visita ao Amazonas (a opção inicial era conhecer o monte Roraima). Diziam que Porto Velho mudara muito, o que me pareceu um exagero à primeira vista: a esbórnia urbanística (gostou da aliteração?) segue a mesma: calçadas detonadas, lixo acumulado e água empoçada... Mas a cidade cresceu sim, e melhorou um pouco; só se fala no novo xopincênter, e alguns prédios já ameaçam o império das três caixas d'água (símbolos da cidade) na silhueta da capital. Tudo em função da construção da controversa Usina de Santo Antônio, que acabou com o marco inaugural de Porto Velho, a cachoeira (corredeira, na verdade) de Santo Antônio. Quando concluírem a saída para o Pacífico e a estrada para Manaus, aí sim que o "progresso" capitalista vai tomar isto aqui de assalto.

Tinha por meta conhecer o Forte Príncipe da beira, pois em todos anos que aqui vivi, não conheci nada do interior, fora os eventuais "pousos" em Vilhena, a caminho, ou de regresso, do "Brasil". Então fomos meus tios Edmilson (meu anfitrião), Edinaldo (que de quebra é historiador) e eu rumo a Costa Marques, cidade na fronteira com a Bolívia, aonde não chega o asfalto. No caminho entramos em Ariquemes, para ver o posto do telégrafo do Marechal Rondon: tudo depredado, eu nunca adivinharia não fosse meu tio conhecer o lugar. Entramos ainda em Ouro Preto do Oeste, que se não é nada especial, posso apostar que deu um salto quântico em relação à minha época; pareceu interessante um salto de parapente (que meu tio disse custar R$60) no meio de uma reserva florestal. De fato há apenas manchas de floresta ao longo da estrada, e o boi já tomou tudo. Erramos o caminho e pegamos mais terra do que necessário, viemos pousar em São Miguel do Guaporé. Outra novidade de Rondônia é a proliferação de municípios: Cerejeiras não parecia ter mais que cinquenta casas. Uma farra de cargos e verbas. No dia seguinte chegamos a Costa Marques, uma currutela. Segundo Edinaldo, a povoação original, do tempo do Brasil-Colônia (enquanto a colonização prossegue até hoje) fica na beira do Rio Guaporé, e está deteriorando; a cidade de fato se instalou mais acima - a salvo das recorrentes cheias. O Forte ficava ainda a uns vinte minutos dali, onde há um quartel, e foi um soldado o nosso guia.

A construção foi idealizada e encomendada pelo Marquês de Pombal, o déspota "ilustrado" de Portugal que quis reerguer o combalido Estado português arrochando mais a colonização no Brasil, e garantindo as fronteiras amazônicas com fortificações como esta. Impressiona pela extensão, mas não pela altura. É como um quadrado central com um losango em cada vértice, onde ficavam uma guarita e os canhões. Consegui subir na plataforma de um canhão voltado para o rio, e dava para imaginar um praça de El-Rey defendendo a colônia dos espanhois, no fim do século XVIII. No centro, de paredes bem menos sólidas que as externas (compostas de monólitos de tamanho irregular) havia as ruínas da igreja e da casa do governador; bem na entrada havia uma cadeia, em que um padre ficara preso (e um dos motivos do abandono do forte foi a crença de que a praga do padre, e não as doenças tropicais, estava matando a todos). Diz-se que todos que lá trabalhavam por lá morriam, assim como foi com a Madeira-Mamoré.

A volta teve direito a um inusitado almoço na rodoviária de Rolim de Moura (homenagem ao primeiro titular da Capitania do Mato-Grosso, que incluía a atual Rondônia, e terra do bandidaço Ivo Cassol, governador cassado que se segura ao cargo com muito $$$): cada um ligava sua publicidade no último volume, mais os carros com música... Deu também para perceber como vieram para o estado muitos alemães - e a cultura pomerana também sobrevive aqui. De modo geral, Rondônia foi mais "embranquecida" que o Amazonas, certamente.

Para finalizar, ainda visitei a Cachoeira do Teotônio, que também é na verdade uma corredeira, e com o rio cheio também não dá para ver as pedras, mas ainda é um belo espetáculo; e depois a do santo Antonio, quer dizer, o canteiro de obras da usina. Depois fomos ao cemitério da Candelária, onde foram enterrados alguns das centenas de mortos na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, da qual participaram mais de 50 nacionalidades. Chega-se até lá andando sobre os trilhos e ao lado de várias locomotivas abandonadas, apodrecendo. No cemitério, alguns espertos passaram a usar a terra para plantio, e o patrimônio histórico tem muito pouca atenção: uma cruz feita de trilhos ajudou a designar o local, e algumas sepulturas - às vezes com uma tosca cruz de ferro - foram delimitadas; bem conservadas, apenas as lápides judias, com inscrições em hebraico e português, sobre mármore. No dia seguinte, também na candelária, onde vivem remanescentes dos barbadianos, comemos a tradicional peixada do Ray. Dentres as promessas da usina está reativar o trecho da ferrovia, que funcionou de 1981 a 2000, de Porto Velho (a estação estava fechada para obras) ao Santo Antônio: vamos ver em que sentido será transformado este território, temo que se livrem dos pobres para dar lugar a uma área valorizada.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Ainda o Aquecimento Global


Tudo bem, assumamamos que, se o mundo não acabar em 2012 com a profecia maia, acabará no máximo até a metade do século, como parecem querer nos fazer crer os milenaristas climáticos.

Nenhuma destas medidas anunciadas, mesmo as mais ambiciosas - portanto impossíveis de atingir - deteria o tal aquecimento. A menos que se invente a usina de fusão nuclear, que o petróleo acabe (para que mudemos na marra), ou ainda que tomemos o bom exemplo dos indígenas sulamericanos, passando a viver em pequenas sociedades autóctones, sustentáveis e comunistas, é absolutamente impossível reduzir as emissões de gás carbônico pela metade até 2050, em relação a 1990, o último objetivo declarado. A população cresce, seus setores marginais ganham crescente acesso ao modo de vida "civilizado", e vamos precisar de energia que as fazendas de vento não conseguirão suprir.

Aí é que está: já vi um cientista maluco destes falando em "conter o crescimento populacional na Somália" para lidar com o Aquecimento Global. É o velho malthusianismo reeditado. Eu aposto meus dois testículos como o estilo de vida dos ricos - em especial o norteamericano - não vai mudar nada. Mas vão impedir que os países pobres se "desenvolvam" - como apontou Celso Furtado, esse desenvolvimento é um mito; mas enquanto não se mudam as regras do jogo, é o ideal de todos. O Blogue Festival de Besteiras da Imprensa colocou bem: o que está em questão é a velha Divisão Internacional do Trabalho.

Você dirá: como? eles prometeram centenas de bilhões para os pobres. É aonde queria chegar. Esses países pobres o são por um bom motivo: foram vítimas do colonialismo europeu, e mesmo após a independência, foram mantidos em condição subalterna, como fonte de alimento, matéria prima e mão de obra barata. O mundo rico nunca se preocupou - para além das tradicionais boas intenções - em resolver os problemas mais prementes desses países: desnutrição, mortalidade infantil, analfabetismo são apenas alguns deles. Pois agora prometem despejar bilhões para que se adaptem à mudança climática. Não esclarecem bem: é para ajudar a "aguentar o tranco" quando o céu desabar sobre eles (ou o mar os submergir), é para desenvolver uma "economia de baixo carbono", proibir que desmatem e ampliem a agricultura, instalar as caras fontes limpas para que consumam eletrodomésticos importados? Porque esses países não têm indústria, o consumo energético é baixo e também as emissões. Se é urgente "salvar o planeta", não são os industrializados que precisam se adaptar?

Sim, algo está mesmo podre na conferência da Dinamarca. Em uma próxima postagem, tentarei desenvolver o que eu acho que de fato deveria ser feito. É um desafio e tanto, mas não posso também ficar apenas desconfiando e criticando.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Mais Verde Estado



Já havia dito que não queria transformar esta página em um diário pessoal, quanto mais de uma vida tão desinteressante. De corriqueiro, porque às vezes posso fazer coisas, se não extraordinárias, pelo menos merecedoras de serem blogadas.

Voei até Manaus na terça. Na quarta fui até Presidente Figueiredo, a 105km da capital - não ligue para o nome, é ótimo. Comi um delicioso pirarucu fresco - peixe que só conhecia salgado - ao tucupi, um molho amarelo de uma planta amazônica, com uma farofinha de farinha d'água (só falta arrebentar o dente) com banana, e arroz. Fui então de mototaxi até a Cachoeira do Santuário. Você talvez vá lembrar das aulas de geografia e perguntar "mas a Amazônia não é toda plana?" Não é tão simples: também é uma bacia sedimentar, mas lá havia um grande afloramento de basalto (vulcânico). Enfim, só conhecendo um lugar para saber de verdade como é. A cachoeira fica em um imenso vale; depois de um barzinho, desce-se por pontes de tábua até uma calma lagoa com uma prainha de areia, e à esquerda há uma queda d'água que abordamos pelo lado, ao longo de um paredão basáltico; é possível ficar sob a ducha, que deve ser (assim como o conjunto todo) mais impressionante na época da cheia; mais adiante há uma queda ainda mais vigosrosa e turbulenta, que não me pareceu possível alcançar. Vale a pena, para quem tiver a chance, há várias outras cachoeiras, e uma gruta que parece muito bonita pela foto, algo como aquela da Chapada Diamantina. De volta a Manaus, a novidade era a prisão do vice-prefeito, por associação para o tráfico. Mas o taxista garantiu que o titular Amazonino Mendes é "gente boa". "Nunca matou ninguém sem motivo", atalhei.

Na quinta o dia foi reservado para a viagem de "a jato", as lanchas rápidas que fazem o trajeto subindo o Solimões até Tefé. Atingindo até 50km/h, levam treze horas e meia para chegar ao destino com paradas pelo caminho, como Coari, onde a Petrobras tem o projeto Urucu, de extração de petróleo e gás. Afora os filmes bobocas que passam, e os bêbados chatos que entraram em Coari, a viagem é até agradável: passa logo de cara no encontro das águas; o Solimões é um colosso de quilômetros de largura (não achei o dado exato), que forma ilhas fluviais; é ladeado de barrancos, onde é possível ver comunidades ribeirinhas, e mesmo casas bem isoladas; o rio quando sobe vai desbastando os barrancos, e - imagino - depositando nas ilhas os sedimentos; a floresta é um espetáculo de verde, emaranhado de árvores, arbustos, palmeiras.

Um dia de bobeira resolvendo detalhes: não havia passagem de volta para Manaus no domingo; docemente constrangido, fico em Tefé mais dois dias, e mais um dia em Manaus. Infelizmente, a passagem para Porto Velho vai custar o dobro ou mais.


Sábado fui com meu anfitrião Guilherme, professor de antropologia da Estadual do Amazonas e vizinho de Rádio Muda em Campinas (por um tempo, seu Morte a Fatídica veio antes do nosso Coquetel do Mingus), até a comunidade indígena Barreira da Missão do Meio - acabo de voltar. Não é uma aldeia com ocas, são casas de madeira sobre palafitas (devido às cheias do rio), e eles falam português - mas há aulas de Tikuna, a língua de uma das três etnias lá representadas. A visita era parte de um projeto chamado Nova Cartografia Social, e a ideia era ensiná-los a usar o GPS para elaborar o mapa da comunidade. O pobre cartógrafo, o Luís, levou quase 24h para vir de Manaus - problemas com a lancha duas vezes - e comandou a oficina sem descanso. Mas, infelizmente, ocorrera a morte de uma liderança deles, em Manaus, e o corpo ia chegar dali a pouco, então ficamos apenas com a explicação do sistema GPS e do uso do receptor.


De volta a Manaus, nova visita ao Teatro Amazonas, testemunho do explendor do ciclo da borracha, em estilo belle époque. Afora as cadeiras e alguns detalhes, tudo é original e sem restauro, o que é impressionante no clima hostil da floresta - quente e úmido como não se pode imaginar não sentindo na pele. Bustos de Carlos Gomes por todos os lados e mesmo a madeira, que é daqui, ia à Europa para ser beneficiada e voltava. Enfim, um desbunde dos barões da borracha, e a pior etapa das tournées das companhias europeias, que tinham que subir o Amazonas.

Visita ao Rêmulos, apenas um de vários bordeis do centro de Manaus, mas muito bem recomendado. Não decepcionou: primeiro, os preços, R$10 para entrar, R$3 por uma cerveja e R$10 poe um uísque; há primas fazendo estripe o tempo todo, e se o nível das profissionais pode variar, há muitas de cair o queixo. Meu cicerone explicou que o sistema da casa é também formidável: elas não são exploradas pela casa; a casa cobra entrada e vende bebidas além de cobrar pelos quartos (apenas R$15!!!), enquanto elas ficam com todo o cachê (módicos R$60!). Logo ao chegar vi uma morenaça, que me perguntou se eu era hippie (eu usava roupas meio extravagantes), seu nome artístico: Érica. Disse que estava chagando mas que voltaria a falar com ela. Tomando um uisquinho, assistindo aos shows - detalhe, elas também escolhem a música, uma loira muito boa dançou com Nirvana e Audioslave - e quando o cicerone resolve ir (encontraria uma garota), a Érica tinha "sumido". Fiquei chateado, mas não muito tempo, "surgiu" outra morena linda, de olhos rasgados e misteriosos, e um corpão lindo. Seu nome? Érica. Parece sacanagem, meu amor de infância tinha esse nome. Enfim, foi uma boa e revigorante trepada. Recomendo: Rêmulos.

O Método Estatístico do Ibope



A Globo detesta cotas de políticas afirmativas.

Mas seu método estatístico para "pesquisas de opinião" é o de cotas.

Veja o que dizem dois estatísticos da Unicamp (José Ferreira de Carvalho e Cristiano Ferraz):

Apenas um trecho, que diz tudo, sobre um teste desse método realizado na Inglaterra:

"Em que pese a natureza descritiva deste procedimento, os dados relativos aos homens mostraram que, das doze estimativas geradas pelo método de quotas, sete diferiam significativamente dos dados do censo, enquanto que nenhuma das três estimativas geradas pelo método probabilístico apresentou discrepância notável dos valores censitários. Os dados referentes às mulheres não deixam por menos: das doze estimativas geradas pelo método de quotas, onze produziram números diferindo significativamente do censo, ao passo que em apenas uma das estimativas produzidas pelo método probabilístico observou-se discrepância significativa.

Em relação à variável educação, os autores se sentiram à vontade em indicar que os resultados obtidos via amostragem por quotas tendem a captar indivíduos com melhor nível de educação. Observaram ainda que, dos quatro tipos de amostragem por quotas estudados, três produziam valores discrepantes das observações censitárias por mais de dois desvios-padrões, enquanto os valores produzidos pelo método probabilístico estavam bastante próximos dos observados pelo censo."

Ah, esses "indivíduos com melhor nível de educação"!

Fala Kish:

● o método não é científico, o que torna sua avaliação impossível
● o método é artístico (sic)
● tipicamente, não se faz uma tentativa de calcular a variância adequadamente, e a expressão pq/n é audaciosamente (sic) assumida e apresentada...
● O assunto importante continua: ninguém sabe quão bom é o desempenho de amostragem por quotas. Afinal de contas, os métodos mais pobres podem produzir bons resultados para variáveis que são aleatorizadas sobre a população. As pesquisas do Literary Digest foram sucessos por anos. Em muitos outros casos não há como verificar-se o desempenho. Devemos deixar de lado as tentativas ingênuas de usar os controles de quotas, como idade, sexo e região, como provas de desempenho da amostragem. Verificações em variáveis que não são usadas nas quotas freqüentemente revelam grandes discrepâncias. Além disso, predições eleitorais freqüentemente falham, algumas vezes por larga margem. Muitas dessas são convenientemente esquecidas. Algumas transformam-se em escândalos gritantes; então trata-se de explicar os fracassos com explanações e desculpas, as quais são ignoradas enquanto não são necessárias.

Ah, quer dizer que a amostragem é falha... e que pesquisas eleitorais costumam falhar, inclusive por larga margem? Então dá pra "errar" como se queira manipulando a amostragem? E não ser pego porque o método não é científico?

Como diriam nos filmes de tribunal americanos: I rest my case.

Carta Capital Persegue Battisti: A Troco de Quê?


Na imagem, o amigo do Lula e do Berlusconi.

A Carta, que parecia se salvar no terreno das revistas semanais de (des)informação, não apenas por ser "esquerda", parece fazer por merecer a vala comum de Veja e IstoÉ.

Mino, italiano, deve ter alguma razão pessoal para não reconhecer que a perseguição a Battisti é política, pouco importando as circunstâncias reais dos crimes atribuídos a ele por companheiros de uma ORGANIZAÇÃO POLÍTICA em delação premiada, e julgados à revelia (só um idiota voltaria à Itália para ser "julgado").

Mas mesmo sem entrar no mérito, o artigo perde qualquer credibilidade ao chamar Battisti de ex-terrorista. Antes de mais nada, ou essa palavra é abandonada, ou deve ser estendida a pessoas como Ehud Barak, que liderou a IDF na chacina de 1400 gazeus em claro "uso [ou ameaça de uso] de violência com fins políticos, ideológicos ou religiosos"; ou quem sabe Garrastazu Médici? Henry Kissinger? Vladimir Putin? Ou o Stroessner, que asilamos? Por que não são terroristas esses? O Mandela não era assim considerado, até outro dia, quando - vendido aos racistas - virou heroi?

Eu, de minha parte, prefiro a resistência pacífica, mas isso é um tanto ingênuo. A ação de Battisti, como a da luta armada brasileira, foi um erro mais pela limitada chance de êxito do que pelo aspecto moral. O direito à insurreição é assegurado nos países democráticos. Era um governo legítimo que se combatia? Discutível: um país que viveu (e criou) o fascismo deveria ser cioso da volta da extrema-direita. E o atual premiê é prova de que não aprenderam nada!

Por fim, pouco me importa se Battisti for extraditado, o que se afigura como o mais provável. Gostaria de acreditar que seria tratado com dignidade, em caso afirmativo, mas tenho sérias dúvidas.

O que me incomoda é o comportamento da "comunidade internacional" e da "opinião pública" de adotar dois pesos e duas medidas, dependendo da posição ideológica, étnica ou social de um criminoso.

Al Gore Podre no Reino da Dinamarca


"Something is rotten in the State of Denmark"

Post no Luís Nassif:

A batalha mundial do aquecimento

Nassif:

Independentemente dos argumentos de lado a lado, chamo a atenção para a tentativa dos defensores do IPCC (os estudos que levaram à tese do aquecimento) de interditar o debate.

Com a tese do aquecimento, o Brasil tem mais a ganhar do que a perder. Os países desenvolvidos terão que bancar projetos em emergentes. O Brasil tem mais condições do que qualquer outro país de consolidar espaço no mercado da agricultura sustentável.

Leosfera:

Não consigo assimilar como “preservar a natureza” pode deixar muita gente, em seus escritórios na Madison Ave, milionários ou bilionários – como o sinistro Al Gory.

Nossa agricultura latifundiária, monocultora e extremamente poluente tem que comer (ou plantar) muito arroz-com-feijão antes de ser sustentável. Mais argumento para a reforma agrária. Mas se o Brasil cumprir suas promessas quanto a conter o desmatamento, já é bom sim. Mas e o parque industrial, que tem espaço para crescer, ao contrário do euamericano, não vai encontrar uma barreira?

E não são os céticos que têm o ônus da prova. O AG é uma tese (com mais de um século!) que tem que ser comprovada e não aceita como dogma. Os céticos apontam os furos dessa má ciência que confessadamente manipula os dados. Não só o declínio da temperatura desde 98, mas o fato de que antes de 57, quando iniciam os dados de concentração de carbono do IPCC, esse nível já fora bem maior que hoje (+ de 400 ppm, contra 380 atuais, em 1942!).

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A verdadeira história dos níveis de gás carbônico (em inglês)

Curva dos alarmistas: começando em 1957



Curva sensata: de 1826 a 1960



Como é que a concentração subiu tanto de 1920 a 1940, quando a indústria ainda chupava chupeta, e caiu vertiginosamente durante o boom pós-guerra? Dica: temperatura dos oceanos. Se eles se aquecem, absorvem menos CO2.

Excertos do artigo de Ernst-Georg Beck:

Desde 1812, a concentração de CO2 no ar do Hemisfério Norte tem flutuado. exibindo três níveis de pico máximos por volta de 1825, 1857, e 1942 - o último exibindo mais de 400 ppm.

Uma grande questão quanto à abordagem do IPCC de relacionar clima e CO2 é premissa de que antes da revolução industrial o nível de CO2 atmosférico esteve em um estado de equilíbrio por volta de 280 ppm, em torno do qual pouca ou nenhuma variação ocorria. Esta presunção de constância e equilíbrio é baseada em uma revisão crítica da literatura mais antiga sobre o conteúdo atmosférico de CO2 por Callendar e Keeling. Entre 1800 e 1961, mais de 380 artigos técnicos que foram publicados sobre a análise de gases do ar continham dados sobre concentração atmosférica de CO2. Callender, Keeling e o IPCC não forneceram uma avaliação minuciosa desses artigos e os métodos químicos padrão que eles aplicavam. Ao contrário, eles desacreditaram essas técnicas e dados geralmente como falhos ou altamente inacurados. Embora eles reconheçam o conceito de "nível histórico impoluto" para o CO2, esses autores examinaram apenas 10% da literatura disponível, asseverando daí que apenas 1% dos dados anteriores poderiam ser vistos como acurados.

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Para o correspondente do Estadão, o clã dos “climatocéticos” é virulento. Desqualificar o oponente é tática cara a quem foge de um debate argumentativo. Eu não sou, Monsieur Lapouge, virulento: há meses não pego nem gripe. Nem vou cobrar bom jornalismo do Estadão, que deve estar considerando descer a ladeira no rastro de Folha e Veja.

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"[Sarkozy] com seu ministro da Ecologia, Jean-Louis Borloo, apresentará um relatório explosivo. Esse relatório não esconde que o salvamento do planeta custará muito caro porque será preciso investir muito dinheiro nos países pobres para ajudá-los a lutar contra o CO2: 500 bilhões de euros logo de cara."

Como assim, camarada? Onde é que se emite mais CO2? Na Namíbia ou na sua França? No Butão ou nos EEUU? Olha o golpe... depois que ouvi falar em "conter o crescimento demográfico na Somália", o AG ficou desmoralizado definitivamente; não duvido de mais nada. Esse dinheiro a ser investido, palpite meu que parece se confirmar, vai preparar o terreno para a expansão das corporações no mundo mais pobre - pois os emergentes incomodam.

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No fim, não sai porra nenhuma para conter o suposto Aquecimento. Mesmo um sucesso estrondoso, com redução de 20% das emissões, não conteria, a julgar verdadeira a tese. Mas as oportunidades de negócio no Mercado do Carbono certamente serão criadas. Agora, se alguns vão ganhar muita grana, quem exatamente vai perder?

domingo, 6 de dezembro de 2009

Resenha Sobre Tratado da Terra do Brasil

Os portugueses que chegaram na frota de Pedro Álvares Cabral – dentre os quais o primeiro “escritor brasileiro”, Pero Vaz de Caminha –, e nas primeiras expedições até 1530, cumpriam a tarefa de um um verdadeiro reconhecimento do terreno. Não à toa, o trabalho de Pero de Magalhães Gândavo e do pioneiro seu xará são classificadas como Literatura de Informação. Informavam a Coroa sobre a paisagem, os habitantes originais, a fauna e a flora, mas principalmente sobre as riquezas e potencialidades da “Terra de Santa Cruz – a que vulgarmente chamamos Brasil”. E assim preparavam a empresa colonial: exploração mercantilista associada à justificativa oficial de catequização dos gentios. Gândavo produziu uma peça de propaganda. Assim, essa Literatura de Informação brasileira é controversa, tanto quanto a seu caráter literário quanto a seu caráter brasileiro.
Gândavo dedica o Tratado da Terra... [do] Brasil ao “mui Alto e Sereníssimo Príncipe Dom Henrique, Cardeal, Infante de Portugal”, o que era normal a qualquer obra nos padrões da época, mas especialmente verdadeiro para a Literatura de Informação. E seu objetivo declarado, já no Prólogo ao Leitor é “denunciar em breves palavras a fertilidade e abundância da terra do Brasil”, conclamando os pobres de Portugal a adotá-la como sua terra (muitos “aceitariam” o convite forçosamente: para cá foram degredados). Mas o Tratado Primeiro parece muito um panfleto turístico: descreve as Capitanias de Tamaracá, Pernambuco, a da Bahia de Todos os Santos – a mais populosa então, e que receberia a primeira capital, Salvador -, e a dos Ilhéus; sempre cuidando de descrever os rios (como bom estrategista militar). Passa (com a mesma intenção) a descrever os hostis Aymorés, diferentes dos demais índios (os tupinambás a que estavam acostumados), e que se estendiam daquela capitania (Ilhéus) até o Espírito Santo. Segue descrevendo Porto Seguro, Espírito Santo, Rio de Janeiro e por fim, São Vicente. Sua propaganda é persuasiva: “E por tempo hão se de fazer nelas grandes fazendas: e os que lá forem viver com esta esperança não se acharão enganados”, diz sobre o Rio.

No Tratado Segundo, versa sobre “as coisas que são gerais por toda Costa do Brasil”: sobre as fazendas da terra, assevera que “os moradores... todos têm terras de Sesmarias”, e lamenta que as fugas de escravos, e os índios “fugitivos e mudáveis” impeçam maior prosperidade. Fala da abundância de bois e vacas, e da falta de cavalos. É mais um homem de negócios que um literato. Sobre “os Costumes da Terra”, garante que com dois pares de escravos faz-se seu sustento; informa que se dorme em redes, costume dos índios; que aqui se gosta de ajudar aos pobres e fazer obras pias (a semente do homem cordial do Sérgio Buarque). Debruça-se sobre a geografia local, a qualidade da terra (que a cana esgotaria), e os frondosos arvoredos sempre verdes. Avisa que não se planta trigo, e come-se farinha de mandioca; mas que há muito veados e porcos a se caçar, além dos tatus, a melhor das caças; descreve as “fruitas”, em especial os ananases (abacaxi), os “cajuis”, as bananas com que se sustêm os escravos, e a infinidade de laranjas e limões. Passa a descrever os “bárbaros gentios” e seus costumes: são contrários uns aos outros, graças a Deus, pois sem isso não poderiam os portugueses conquistar a terra; mataram-se muitos, muitos fugiram e ficaram na costa apenas os “de paz”; não têm as letras L, R, ou F, portanto não teriam Lei, Rei ou Fé, vivendo desordenadamente (escusado comentar o etnocentrismo e a falácia do pseudo-argumento); andam nus, vivem em aldeias, obedecem ao líder por vontade e não por força, nada adoram, nem creem em outra vida; são belicosos e vivem em guerra, usam arco-e-flecha, e tomam prisioneiros; Gândavo descreve em detalhes o ritual antropofágico (dos tupinambás); menciona seus adornos; descreve o (que parece ser) homossexualismo feminino, que é aceito (e o “civilizado” Ocidente luta por aceitá-lo até hoje). Gândavo guarda o melhor para o fim, informando a el-Rei da existência de esmeraldas e ouro na Capitania de Porto Seguro.

Como vemos, o Tratado é uma peça de propaganda aos colonos em potencial, e também uma de estratégia militar: descreve o terreno e o inimigo. É uma ferramenta do imperialismo português, e essa visão não apenas invade e permeia uma obra literária: ela engendra e justifica uma obra utilitária.

A História do Bom Brâmane

Tradução que fiz de um "conto exemplar" de Voltaire



Conheci em minhas viagens um bom brâmane, assaz sábio, cheio de espírito e muito culto; ademais, era ele rico, e, portanto, era assim ainda mais sábio: porque, não lhe faltando nada, ele não tinha necessidade de enganar a ninguém. Sua família era muito bem governada por três belas mulheres que se dedicavam a lhe agradar; e, quando não se entretinha com suas mulheres, ocupava-se de filosofar.

Perto de sua casa, que era bela, ornada e cercada de jardins encantadores, habitava uma velha Indiana, devota, imbecil e bastante pobre.

O brâmane me disse um dia: “Eu desjaria jamais ter nascido.” Perguntei-lhe por quê. Ele me respondeu: “Eu estudo há quarenta anos, são quarenta anos perdidos; eu ensino aos outros, e tudo ignoro; este estado enche minha alma de tanta humilhação e desgosto que a vida me é insuportável. Eu nasci, vivo no tempo, e não sei o que o tempo é; eu me acho em um ponto entre duas eternidades, como dizem nossos sábios, e não tenho a mínima idéia da eternidade. Eu sou composto de matéria; eu penso, não pude nunca me instruir sobre o que produz o pensamento; eu ignoro se meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como aquela de andar, de digerir, e se penso com minha cabeça como pego com minhas mãos. Não somente o princípio de meu pensamento me é desconhecido, mas o princípio de meus movimentos me é igualmente secreto: eu não sei por que existo. Enquanto isto, fazem-me a cada dia perguntas sobre todos esses pontos; é preciso responder; eu não tenho nada de bom a dizer; eu falo muito, e me torno confuso e envergonhado de mim mesmo depois de ter falado.

“É bem pior quando me perguntam se Brahma foi produzido por Vishnu [N.doT.:Na verdade foi pela Ambev] ou se são ambos eternos. Deus me serve de testemunha de que não sei disso uma palavra, e ele lá está ele em minhas respostas. 'Ah! Meu reverendo pai, dizem-me, ensine-nos como o mal invade toda a Terra' Eu estou tão preocupado quanto os que me fazem essa questão. Eu lhes digo por vezes que tudo é o melhor do mundo; mas aqueles que têm pedras nos rins, aqueles que foram arruinados e mutilados na guerra não crêem em nada nisso, nem eu tampouco; eu me retiro para casa arrasado por minha curiosdade e por minha ignorância. Eu leio nossos livros antigos, e eles redobram minhas trevas. Eu converso com meus companheiros, uns me respondem que se deve fruir a vida, e troçar dos homens; outros crêem saber algma coisa, e se perdem em idéias extravagantes; tudo aumenta o sentimento doloroso que experimento. Às vezes fico prestes a cair em desespero, quando vislumbro que após todas minhas pesquisas não sei nem de onde venho, nem quem sou, nem aonde irei, nem o que me tornarei.” O estado deste bom homem me dava verdadeiro dó: ninguém era nem mais razoável, nem de mais boa-fé que ele. Concebi que quanto mais havia luzes em seu entendimento e sensibilidade em seu coração, mais ele era infeliz.

Vi no mesmo dia a velha que vivia em sua vizinhança: eu lhe perguntei se ela jamais havia se afligido de não saber como sua alma fora feita. Ela simplesmente não entendeu minha pergunta: ela não havia jamais refletido um momento sequer de sua vida sobre um só dos pontos que tormentavam o brâmane; ela acreditava nas metamorfoses de Vishnu de todo seu coração, e conquanto pudesse ter amiúde água do Ganges para se lavar, ela se cria a mais feliz das mulheres.

Tocado pela felicidade dessa pobre criatura, voltei ao meu filósofo, e lhe disse: “Tu não te envergonhas de ser infeliz, ao tempo em que à tua porta há uma velha autômata que não pensa em nada, e que vive contente? - Tu tens razão, ele me respondeu; já me disse cem vezes que seria feliz se fosse tão estúpido quanto minha vizinha, e mesmo assim não desejaria tal felicidade.”

Essa resposta do brâmane me fez uma impressão maior do que todo o resto; eu examinei a mim mesmo, e vi que de fato eu não quereria ser feliz à condição de ser imbecil.

Propus a coisa a filósofos, e eles foram do mesmo entendimento. “Existe, entretanto, uma furiosa contradição neste modo de pensar: porque enfim de que se trata? De ser feliz. Que importa ser brilhante ou idiota? Há bem mais: os que estão contentes de o ser são bem certos de serem contentes; os que raciocinam não estão tão certos de bem raciocinar. Está claro então, dizia eu, que se deveria escolher não ter senso comum, por pouco que esse senso comum contribua ao nosso mal estar.” Todo mundo concordou, e no entanto não achei pessoa que quisesse aceitar o negócio de se tornar estúpido para se tornar contente. Daí concluí eu que, se fazemos questão da felicidade, fazemos mais ainda questão da razão.

Mas depois de ter refletido, pareceu que preferir a razão à felicidade é uma insensatez. Como então essa contradição se pode explicar? Como todas as outras. Há aí muito a ser dito.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Hamlet: O Fantasma do Pai


* Hamlet. Aonde queres me levar? Fala, eu não irei mais longe.

* Fantasma. Escuta-me.

* Hamlet. Assim farei.

* Fantasma. É quase chegada minha hora em que às sulfúreas e torturantes chamas eu devo me entregar.

* Hamlet. Ai-de-ti, pobre fantasma!

* Fantasma. Não me tenhas pena, mas empresta tua séria audição para o que revelarei.

* Hamlet. Fala, estou disposto a ouvir.

* Fantasma. E também a vingar-te, quando escutares.

* Hamlet. O quê?

* Fantasma. Eu sou o espírito do teu pai, condenado, por um certo prazo, a vagar à noite, e durante o dia confinado, a jejuar no fogo, até que os torpes crimes cometidos em meus dias de vida sejam queimados e expurgados. Não me fosse proibido relatar os segredos de minha prisão, eu poderia um conto revelar do qual a mais leve palavra rasgaria-te a alma, congelaria teu sangue jovem, faria teus dois olhos, como estrelas, saltarem de suas esferas, teus cachos alinhados e compostos se desfazerem e cada um dos cabelos eriçar-se como as cerdas do porco-espinho irascível. Mas este trombetear eterno não pode ser para ouvidos de carne e osso. Escuta! Escuta! Oh, escuta! Se tu amaste, em algum tempo, a teu querido pai...

* Hamlet. Oh, Deus!

* Fantasma. Vinga-te de seu torpe e mui inusitado assassínio.

* Hamlet. Assassínio!

* Fantasma. Assassínio o mais torpe, como mesmo o melhor é, mas este, em especial,
torpe, estranho e desusado.

* Hamlet. Conta-mo logo, para que eu, com asas ligeiras como o pensamento e os amores, me atire à minha vingança.

* Fantasma. Eu o considero apto, e tu serias mais apático do que a erva gorda que se enraíza à vontade à margem do Lete, se isto não te incitar. Agora, Hamlet, escuta. Fizeram crer que, dormindo em meu pomar, uma serpente me picou, assim todo o ouvido da Dinamarca é, com uma versão forjada de minha morte, sordidamente ultrajado. Mas sabe tu, nobre jovem, a serpente
que deveras tirou a vida de teu pai agora usa sua coroa.

* Hamlet. Oh, minha alma profética! Meu tio!

* Fantasma. Sim, aquele incestuoso, aquele adúltero animal, com sortilégio de sua astúcia, com pérfidos presentes, oh, malditos astúcia e presentes,
que tanto poder têm de seduzir! conquistou para sua vergonhosa luxúria
a vontade da minha aparentemente tão virtuosa rainha! Oh, Hamlet... Que decandência se deu! De mim, cujo amor era de tal dignidade que ia de mãos dadas com o voto que a ela fiz no casamento, e submeter-se a um mau-caráter cujos dotes naturais eram parcos ante os meus! Mas se a virtude é ínamovível, mesmo que a lascívia a corteje com celeste aspecto, a luxúria, mesmo a um anjo radiante unida, sacia-se num leito celestial e sai à caça de lixo. Mas basta! Acho que sinto o cheiro do ar matinal, que eu seja breve. Dormia eu em meu pomar, meu costume de todas as tardes, e na hora insuspeita veio teu tio, furtivo, com tintura do amaldiçoado meimendro num frasco, e nos pórticos de meus ouvidos despejou o destilado leproso cujo efeito tem tal inimizade com sangue humano que, ligeiro como azougue, ele percorre as portas e caminhos naturais do corpo, e com um súbito vigor
coagula e talha, como gotas ácidas ao leite, o sangue fino e saudável, e assim fez com o meu, e uma erupção instantânea cobriu, com uma vil e abominável crosta, assaz lazarenta, todo meu corpo liso. Assim eu fui, dormindo, pela mão de um irmão, da vida, da coroa, da rainha, de uma só vez privado: ceifado em plena floração de meus pecados, sem sacramento,
despreparado, sem unção, sem ter meu cômputo feito, mas levado a prestar contas com todas minhas imperfeições na cabeça. Oh, é horrível! Horrível!
Horrível por demais! Se carregas em ti a natureza, não o toleres! Não permita que o leito real da Dinamarca seja leito da concupiscência e do incesto maldito. Mas, como quer que realizes este ato, não manches tua mente, nem deixes tua alma engedrar contra tua mãe coisa alguma: deixa-a aos céus, e àqueles espinhos que lhe cravam o peito a pungi-la e aguilhoá-la.
Adeus agora mesmo! O vaga-lume indica a aurora iminente, e começa a minguar seu fogo equívoco. Adieu, adieu! Hamlet. Lembra-te de mim!

* Hamlet. Oh, por toda legião dos céus! Oh, terra! Que mais? E esposarei eu o inferno? Oh, raios! Aguenta, aguenta, meu coração, e vós, meus tendões, não ficai instantaneamente velhos, mas mantende-me firmemente ereto. Lembrar-me de ti! Sim, oh pobre fantasma, enquanto a memória mantiver
assento neste globo distraído. Lembrar-me de ti! Sim, da mesa de minha memória limparei todos triviais doces registros, todos resquícios de livros, todas formas, todas impressões passadas, que a juventude e a observação lá copiaram, e teu mandamento de todo só viverá no livro e volume de meu cérebro, sem mistura de mais chã matéria: sim, pelos céus! Oh, quão perniciosa mulher! Oh, vilã, vilã, sorridente, maldita vilã! Minhas mesas, apropriado é que eu ponha no papel, que alguém pode sorrir, e sorrir, e ser um vilão, pelo menos, estou certo, pode ser assim na Dinamarca. Então, tio, ei-lo. Agora à minha palavra. É "Adieu, adieu! Lembra-te de mim". Assim jurei.

Jornalismo: Crise é Mundial

Lula e comitiva estiveram por esses dias na Alemanha, onde encontraram a chanceler mais azeda da Alemanha - de qualquer sexo - de que tenho notícia. Além de fazer o coro da "comunidade internacional" contra o Irã, o que define mesmo Merkel é o ativismo no Milenarismo Climático, do qual sou cético de carteirinha. Enfim, na conferência conjunta, a tônica foi a divergência a respeito do Irã.

Merkel, já disse, alinha-se com a Águia Imperialista ao pressionar o regime dos Aiatolás em função de seu programa nuclear supostamente pacífico. Acredito que Ahmadinejad construiria sim a bomba, tão logo tenha tecnologia para tanto, mas que está a muitos anos de fazê-lo - um relatório da CIA de 2006 concluiu que o Irã desistira da bomba.

Lula, de sua parte, recebeu recentemente o controverso governante persa, e defendeu seu direito a um programa pacífico, como é o nosso. A cobertura nacional e estrangeira destacou o apoio, ignorando nuances do discurso de Lula que sutilmente criticou a falta de liberdade e tolerância no Irã, seu apoio ao Hamas, e sua condenação à própria existência de Israel; ignoraram ainda a afirmativa de que "não-proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos".

Na Alemanha, Luiz Inácio foi mais enfático. Enérgico mesmo:

“Não sei se sou ingênuo, se sou muito otimista, mas acredito muito na capacidade de convencimento e de diálogo nas pessoas. Estamos tentando dar a nossa contribuição. Espero que aconteça o melhor, que não tenha arma nuclear no Irã e que não tenha arma nuclear em nenhum país do mundo, que os Estados Unidos desativem as suas, que a Rússia desative as suas. Autoridade moral para pedir que os outros não tenham, é não ter. É importante. Sou um país que assinou na Constituição a não proliferação das armas nucleares, portanto estou tranquilo para dizer. É importante que os que têm comecem a desmontar os arsenais, que a gente tenha mais argumentos para convencer os outros”.



Não é ingenuidade, e também não é bravata: ainda que a declaração não vá convencer EUA e Rússia, ou o posto avançado do Ocidente no Oriente-Médio, que Lula prudentemente evitou citar, a desativarem suas ogivas, é uma tomada de posição muito corajosa. E que qualquer pacifista ou pessoa de bom senso endossaria: Lula injeta esse discurso na esfera da diplomacia. Bravo. Ao mesmo tempo, insiste em paciência e negociações, contra as ameaças e sanções que só podem indicar uma invasão iminente. Bravo de novo.

Que faz a imprensa, local e estrangeira? Mais uma vez pinta Lula como aliado de Ahmadinejad, optando por ignorar sua audácia. A Globo o culpa de "causar constrangimento". A Bloomberg parece querer jogar nosso país no Eixo-do-Mal, truncando a mensagem como já foi explicado. CNN, BBC e afins simplesmente ignoraram o encontro - mesmo que não houvesse outra notícia internacional relevante. Independent e Guardian, supostamente dissidentes, também silenciam. Le Monde nada, Monde Diplomatique, esse sim dissidente, nada até agora. Achei matérias na China e no Irã (óbvio) e nada mais.

Não se trata de exagerar a importância das declarações, puxando o saco de Lula. O brasileiro tem hoje grande inserção no mundo, como nunca antes na História deste país, por que não dizer? E cobrar o desarmamento nuclear, denunciando a hipocrisia americana, não é pouco.

Pois então: alguém ainda faz jornalismo sério no mundo? Ou isso nunca existiu?

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Água é Tóxico?


Que não se torne costume, mas aqui vai mais um relato pessoal. Até demais, mas já que comecei, vamos lá.

Meu psiquiatra (sim, sou louco de carteirinha) me pediu um exame toxicológico (sim, sou usuário de cannabis, e daí?) do qual eu tentava fugir de todo jeito. Que meu pai não visite o blogue... Resolvi topar a parada enfim: exame de urina é moleza, basta "diluir" a urina se entupindo de água.

Mas em vez de me informar, dirigi-me direto à padaria perto de casa e do laboratório que eu sabia que faz - ou cria fazer - o exame em questão. Peguei uma garrafa de litro e meio d'água (seriam duas), pedi um café duplo (é diurético, deve ajudar) e abri o Grapes of Wrath do Steinbeck - uma distração de luxo. Copo depois de copo até a primeira micção. A meta é que o intervalo entre elas seja de vinte minutos. (Crianças, não tentem isto em casa). Atingida a recomendação, atravessei a rua até o laboratório. O problema é que como dizia Paracelso, tudo é remédio ou veneno dependendo da dose; e intoxicação por água não é bolinho: tontura, mal-estar e mesmo uma ligeira distorção das cores. Mas nada tem de agradável (crianças, já sabem!).

Chego passando mal para descobrir que o exame não é feito naquela unidade, apenas na central da 716 Sul. Mas a besta aqui ouviu 16 e associou à unidade da 516 Norte. Então fui até a ponta da Asa Norte, bebi mais água, e descobri que... era do outro lado do Plano (ou Esboço) que eu deveria ir, e rápido, antes das 18h. Dirigi até lá, errei o caminho, peguei trânsito... mais água (e o tempo inteiro fazendo mágica para conseguir um banheiro), e cheguei à porcaria da Central. Peguei uma senha e continuei bebendo água, e passando mal. Nada de chamarem. Perguntei uma vez, e na segunda descobri que já era. Fiquei muito puto. E menti a meu pai dizendo que colhera o material, já que acreditava que o faria no dia seguinte.

Repeti o truque: 3 litros d'água em 40 minutos, intoxicação, senha, balcão e a pergunta: "É o exame de urina que vocês fazem, não?", "Não, é o de fio de cabelo".

Agora, estou em maus lençois, menos com o médico do que com o coroa. Quer saber? Dofa-se. Não escondo nada de ninguém (ou quase), sou maior e não devo satisfação nenhuma. Nem a vocês, que devem estranhar este texto ainda pior que os demais.

Baguete de Acúcar compra as Casas Polônia

Portal Exame, 04/05/2005

Grupo francês vai compartilhar controle do grupo Pão de Açúcar
A partir de 2013, o grupo Casino terá o direito de nomear o presidente do conselho de administração da holding que vai controlar a Companhia Brasileira de Distribuição


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O Casino vai investir 407 milhões de euros para ampliar sua fatia na estrutura acionária da CBD, através da criação de uma holding em sociedade com os Diniz. Um novo acordo de acionistas, válido por 40 anos, define as regras para o exercício do controle conjunto e da governança corporativa da companhia.

Abilio Diniz continuará presidente do conselho de administração da CBD e será o presidente do conselho da holding de controle. Diniz terá a palavra final na supervisão geral do negócio, com "voto de qualidade (desempate) em caso de impasse no tocante à deliberação de matérias relativas ao curso normal dos negócios da CBD", segundo o fato relevante publicado pela empresa brasileira. Augusto Marques continua diretor-presidente do Pão de Açúcar.

Através de uma troca de ações ordinárias e preferenciais, entre outras operações feitas entre os Diniz e o Casino, a nova holding terá 65,6% das ações ordinárias (ONs) da CBD. Os franceses ficarão diretamente com 28,7% das ONs, Abilio Diniz, com 2,8%, e Valentim e Lucília Diniz, também com 2,8% das ONs.

Wikipedia:

Samuel Klein (Zaklików, Polônia, 15 de novembro de 1923) é um empresário judeu polonês dono da conhecida rede de lojas de departamento brasileira Casas Bahia.

"Eu não tehno loja, tenho banco" (atribuída a Samuel Klein)

"Fazemos qualquer negócio" (outro Samuel, o Blaustein, na Escolinha do Professor Raimundo)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O que ando lendo por aí

Chomsky fala sobre o Irã .

Destaque para apérola de Kissinger:

Noam Chomsky: O ponto fundamental foi explicado com franqueza por Henry Kissinger. O Washington Post perguntou-lhe por que razão ele agora afirma que o Irã não necessita da energia nuclear e que, por conseguinte, deve estar a trabalhar para construir uma bomba, enquanto em 1970 insistiu que o Irã necessitava de ter energia nuclear e que os Estados Unidos deviam prover o xá com os meios necessários para o conseguir. Foi uma resposta típica à Kissinger. Era um país aliado e, por isso, precisava de energia nuclear. Agora, que já não era um país aliado, não necessitava de energia nuclear. Israel, pelo seu lado, é um país aliado, mais precisamente um estado-cliente. Por isso, herda do amo o direito a fazer o que quer.

É dos Carecas que Elas Gostam Mais?



Sempre que se arma um circo político, os palhaços como eu adoram vê-lo pegar fogo. Serra está desesperado com medo de que o Arrudagate respingue nele. Dever de quem teme o Vampiro no Planalto é espalhar estas coisas o máximo possível. Há que se colar o escândalo no Roriz também: o esquema vem do governo dele. Só a TV Brasil (o melhor noticiário) se deu o trabalho até agora. Porque esse coroné voltar é talvez pior que a (já defunta) reeleição do Gargamel do DEM.

Em tempo: acabo de ver um punguista ser preso por duas viaturas e meia dúzia de canas. Ele deveria negar as acusações e se dizer vítima de persegução política (ou social, no que teria um quê de razão). O flagrante de Arruda et caterva é gritante, revoltante (ainda que nada surpreendente) e poderia servir ao menos para revermos a imunidade de que gozam tais "honoráveis bandidos". Comprei o livro com esse título sobre o aliado maranhense do Lula, vai aguardar sua vez ao lado de "memória das trevas", sobre o colega de Arruda na violação do painel do Senado.

É tanta meleca!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Esboço Piloto


Eu moro em Brasília. Não sei se moro muito bem ou muito mal.

Tomo de empréstimo os versos de Seu Jorge (então ainda no Farofa Carioca) apenas para produzir efeito. Por todos os critérios usados, moro muito bem: moro no Setor Sudoeste. Raramente um vizinho me cumprimenta, e se falam comigo é para quebrar o constrangimento de compartilhar o elevador calado. Por isso meu projeto é me mudar para a Vila Planalto. Uma cidade pequena dentro do Plano Piloto.

Mas a ninguém interessa minha vida. O artigo é sobre a capital. Que foi construída de forma açodada; na melhor das hipóteses foi projetada, sobre uma premissa absurda - o império do automóvel; e o máximo de planejamento foi este: terá meio milhão de habitantes para sempre.

Não faltam as polianas a dizer que é um sucesso; não sei se concordaria quem mora fora do DF e vem trabalhar aqui todos os dias. Pois não há uma única habitação popular no Plano (Esboço, doravante), há cidades-dormitório que insistem em chamar de satélites (que teriam relativa autonomia, por definição).

Irônico é que na cabeça do "comunista" - ingênuo, para dizer o menos - Lúcio Costa, as quadras 400, de apartamentos menores, seriam para os serviçais dos burocratas. Hoje um imóvel desses vale uma fortuna, e as pessoas moram em caixas de sapato, às vezes no subsolo e sem luz ou ventilação apropriadas.

Sem qualquer atividade econômica primária ou secundária significativa, a cidade depende basicamente do Estado e do comércio, além de serviços básicos, para gerar sua renda - que é a maior do país, considerado apenas o Esboço. Nós outros ganhamos bem no funcionalismo, não?

E o transporte? Já disse que o maior erro na concepção de Brasília foi pensar tudo em função do automóvel. Em verdade acreditavam mesmo os ingênuos da época que os burocratas como eu se locomoveriam de ônibus. Se eu morasse em Munique, não teria um carro. Só mesmo alguém muito abnegado o faria aqui, pois o sistema de transporte público é no mínimo precário, com linhas insuficientes, ônibus velhos (recentemente a frota foi promovida de matusalênica a decrépita); e controlado por uma máfia recentemente pega mais uma vez com a boca na botija, por ação de um tocador de apito insatisfeito por qualquer motivo (trata-se do maior bandido de todos). Foi construído um metrô, ligando algumas satélites/dormitório ao Esboço, mas sua abrangência é limitada e, dentro do plano, ajuda nada ou muito pouco: são duas ou três estações ao longo do Eixão, na Asa Sul apenas. Não é preciso dizer que os congestionamentos se avolumam e vaga de estacionamento é sovaco de cobra, como diz meu pai. Em uma década ou menos a cidade trava e a capital vai se mudar pra Amazônia.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ainda à Caça do Kiffa: 2014

Há uns quatro anos, propus algumas siglas que poderiam figurar no cenário eleitoral em 2010 após um "realinhamento" das nossas forças políticas. Infelizmente nenhuma delas vingou: não disputarão a presidência o Partido Careta ou a Esquerda Hidrófoba, tampouco o Partido do Subsolo - que pena - e sim as mesmas caras mais ou menos previsíveis, à exceção do barbudo que esteve em todas desde 89 e agora se faz notar pela ausência. Ainda que seu espectro possa vir a ser o fator decisivo.

Nesse intervalo, não saiu reforma política alguma, eu me juntei à Esquerda Hidrófoba (carteirinha nº001) e a luta política passou a se dar na esfera dos meios de comunicação: os mesmos de sempre, mas também - e cada vez mais - espaços como este, apenas muito mais acessados. Cada um adere a um lado, com raras e imparciais exceções (visite o primeiro elo na coluna à direita), no clima generalizado de briga de torcida: muito insulto e pouca substância. O mercadejar político deve estar perplexo: vão-se limitar a tentar colar qualquer imagem no candidato, produzir os programas de tevê, e mandar imprimir aqueles excomungados que são os santinhos, que tanto emporcalham as vias. Mas a informação vai circular de fato, e toda ela, inclusive o que se queria esconder, na blogosfera. Geralmente repercutindo as sandices da moribunda grande mídia. E o pau vai comer.

Mesmo assim, na tola esperança de uma reforma política e partidária que garanta uma representatividade mais coerente e franca das forças constitutivas de Hy Brazyl, eis uma nova proposta a ser considerada, já que o TSE nem me respondeu quanto à última.

UPN - União dos Partidos Nanicos. Chegando à óbvia conclusão de que nunca iriam a lugar algum, nossos partidos nanicos - que nunca tiveram aliás ideologia alguma - resolveram se unir em um consórcio, na esperança de obter mais tempo na TV e reajustar o aluguel da legenda. Ideal para funcionários públicos que apenas querem a licença remunerada a que fazem jus sendo candidatos.

PE - Partido das Empreiteiras. Sem mais homens-do-meio ao custo de uns porcentos! Se sabemos que eles têm mais poder do que qualquer governante, pois atuam em todos os entes federados, e com quaisquer partidos, os empreiteiros devem logo garantir assentos confortáveis no parlamento e demais assembleias. Prefeririam ficar na penumbra representativa a alçar voos mais altos no executivo, uma vez que seus passados são algo comprometedores. Mas com os cala-bocas adequados, pode-se pensar.

PFCR - Partido Feudalista da Contra Reforma. Até quando a bancada ruralista vai se satisfazer em ser apenas um grupo republicano e progressista com moderada influência no Congresso? Não trarão nunca a transformação social sem precedentes no país (quiça no mundo!) que propõem. Precisam constituir um partido independente, forte, para construir alianças, e mesmo reconstruir, já que a Igreja resolveu ficar do lado dos comunistas (que horror!). Seu projeto de implantar o feudalismo através de uma reforma agrária às avessas, além da plataforma moralizante para acabar com a pouca-vergonha que grassa na Cabrália, geram um bocado de votos!

RTSDB - Repartido dos Trabalhadores Social-Democratas e Bundões. Este não é novo. Não é invenção minha, ao menos; mas é um peculiar produto da realpolitik tupiniquim. Com 700 facções internas, e no fim apenas uma, um determinado partido trabalhista de determinado país da América Latina - que prefiro não nomear - chegou ao poder fazendo umas coisas estranhas. As facções hidrófobas desertaram, ou antes foram expelidas em corte marcial sumária. Com o tempo, o governo apresentou um aceitável Estado do Bem-Estar, e ficou claro que roubava a sigla da Social Democracia (do Belize, acredito). Uns ficaram encabulados, outros parece que nasceram para aquilo; de qualquer sorte, não são muito mais que bundões.

Hamlet: Ser ou não Ser

Ser ou não ser, eis a questão:
será mais nobre na mente sofrer
as pedras e setas da fortuna enfurecida
ou tomar de amas contra um mar de provações
e em combate pô-las a têrmo?
Morrer, dormir, não mais,
e supor que com um sono
eliminemos a dor no coração
e as mil mazelas naturais
de que a carne é herdeira;
é uma consumação a ser
devotamente desejada.
Morrer, dormir...
Dormir! Porventura sonhar:
sim, eis o problema,
já que os sonhos que possam sobrevir
nesse sono mortal,
quando já livres deste turbilhão da existência,
nos devem fazem hesitar:
eis o respeito que dá vida
tão longa à calamidade.
Pois quem suportaria o açoite
e o escárnio do Tempo,
o agravo do opressor,
a arrogância do orgulhoso,
as chagas do amor desprezado,
a tardeza da Lei,
a insolência da autoridade e o desdém
que têm os indignos
pelo mérito paciente,
quando ele próprio poderia seu repouso
engendrar, com um simples furador?
Quem carregaria tais fardos,
grunhindo e suando sob uma vida fatigante,
não fosse o pavor
de algo após a morte!
- a terra inexplorada de cujas
raias viajante algum retorna -
a confundir a resolução,
e fazer-nos antes suportar
as dores que temos
que voar até outras
as quais ignoramos?
Assim faz a consciência
de todos nós covardes, e assim
o matiz saudável da determinação
é acometido pelo pálido
verniz da cogitação
e empresas de grande vigor e
imporância, com tal consideração,
desviam-se do rumo,
e perdem o nome
de ação.

(Tradução minha)

Pandora Contemporânea


A operação da Polícia Federal contra a boa e velha corrupção nossa de cada dia no Distrito Federal foi batizada Caixa de Pandora. Já disse, e repito, que eu gostaria muito de ter este emprego de batizar as operações da PF. Pelo menos poderia mandar a mensagem para a Rádio Muda antes do bote, mas isso é tema para outra postagem. Enfim.

Sem chover no molhado, já que a Globo ocupa ao menos um terço da programação em causar escândalo - que dura uma semana e é esquecido -, vou-me permitir, puxando o gancho da erudita força policial, uma abordagem mitológica.

Pandora e sua caixa foram enviadas por Zeus a Epimeteu (irmão de prometeu e primo de Quentimeteu), como parte do pacote de maldades destinado a Prometeu por ter ele roubado o fogo olímpico e entregue aos mortais. A caixa foi aberta desavisadamente pela moça, escapando todos os males, e quando ela a conseguiu fechar, restou lá a esperança.

Pois que os males liberados pela atuação do cagueta-premiado Durval Barbosa se multipliquem mais e mais, resvalando em outros partidos, em outros estados, em verdadeiro efeito dominó. Não são inéditos ou surpreendentes afinal. E que fique dentro da caixa a esperança. Esperança de que o povo brasileiro não mais tolere estas práticas, que assuma a cidadania plena transformando o país em uma veraz democracia. Esperança de que sempre haja um Durval para trair seus colegas mafiosos, e que haja sempre uma Polícia Federal implacável, um Ministério Público atuante, e uma Justiça imparcial e célere. Podemos acrescer a esperança de que não haja vazamentos suspeitos a prejudicar as investigações: imagens circulando servem para a mídia se refestelar e para fomentar uma indignação difusa nas massas, mas prejudicam a coleta de provas decisivas.

Agora, se nos preocuparmos demais com Pandora, esqueceremos Prometeu acorrentado no Cáucaso. E eu penso que Háracles está demorando demais, uma vez que o titã não foi salvo ainda. E as Águias estão mais vorazes que nunca. Mas eu digrido...

Promíscuos


Hoje é o Dia Mundial de Combate à AIDS. Para celebrar, traduzo a letra de "Promiscuous", do (ótimo) álbum Broadway the Hardway, de Frank Zappa (baixe aqui).

Promiscuous

[Royal Oak Music Theatre, Detroit, Michigan February 26, 1988]

The Surgeon General, Doctor Koop
S'posed to give you all the poop
But when he's with P.M.R.C.
The poop he's scoopin'
Amazes me

C-Span showed him, all dressed up
In his phoney Doctor God get-up
He looked in the camera and fixed his specs
'N gave a fascinating lecture
'Bout anal sex
ANAL SEX
ANAL SEX
ANAL SEX
ANAL SEX

He says it is not good for us
We just can't be promiscuous
He's just a doctor - he should know
It's the work of the Devil, so
Girls, don't blow!
DON'T BLOW
DON'T BLOW

Don't blow Jimmy, don't blow Bobby
Get yourself another hobby
(If Jesus practiced medicine
I'm sure he'd do it
Just like him)

Is Doctor Koop a man to trust?
It seems at least that Reagan must
(And Ron's a trusting sort of guy -
He trusts Ed Meese
I wonder why?)
I WONDER WHY
WONDER WHY

The A.M.A. has just got caught
For doin' stuff they shouldn't ought
All they do is lie and lie
Where's Doctor Koop?
He's standin' by

Surgeon General? What's the deal?
Is your epidemic real?
Are we leaving something out?
Something we can't talk about?
A little green monkey over there
Kills a million people?
That's not fair!
Did it really go that way?
Did you ask the C.I.A.?
Would they take you serious,
Or have THEY been
Promiscuous
Have THEY been Promiscuous
Have THEY been Promiscuous
Have THEY been Promiscuous

_____________________________________________________


Promíscuos

O Cirurgião Geral, Doutor Koop
[Everett Koop, Cirurgião Geral 1982-1989]
Supostamente nos dá todo o serviço
Mas quando ele está com a PMRC
[Parents Music Resource Center, organização moralista protocensora]
O serviço que ele entrega
Me assombra

O C-Span mostrou ele, todo bem vestido
[Rede de TV de assuntos públicos, uma TV Senado americana]
Em sua beca fajuta de Doutor Deus
Ele olhou na câmera e ajeitou os óculos
E deu uma palestra fascinante
Sobre sexo anal
SEXO ANAL
SEXO ANAL
SEXO ANAL
SEXO ANAL

Ele diz que não é bom para nós
Nós simplesmente não podemos ser promíscuos
Ele é justamente um médico – ele deve saber
É obra do capeta, então
Garotas, não chupem!
NÃO CHUPEM
NÃO CHUPEM

Não chupe o Jimmy, não chupe o Bobby
Arranje para si um outro hobby
(Se Jesus praticasse a Medicina
Estou certo de que faria
Assim como ele)

É o Doutor Koop um homem em quem confiar?
Parece ao menos que o Reagan deve
(E Ron é um cara que confia –
Ele confia em Ed Meese
[Procurador-Geral neocon de Reagan]
Eu especulo por quê.
EU ESPECULO POR QUÊ
ESPECULO POR QUÊ

A A.M.A. acaba de ser pega
[Associação Médica Americana]
Por fazer coisas que não deveriam poder
Tudo que fazem é mentir e mentir
Cadê o Doutor Koop?
Ele está ratificando

Cirurgião Geral, qual é o lance?
É SUA EPIDEMIA REAL? [grifo meu]
Estamos deixando algo de fora?
Algo de que não podemos falar?
Um pequeno macaco verde lá longe
Mata um milhão de pessoas?
Isso não é justo!
Isso aconteceu mesmo assim?
Você perguntou à C.I.A.?
Eles o levariam a sério,
Ou foram ELES
Promíscuos?
Foram ELES Promíscuos?
Foram ELES Promíscuos?
Foram ELES Promíscuos?

domingo, 29 de novembro de 2009

O Correio Arrudense


José Roberto Gargamel (na imagem), governador do DF pelos Demos, é pego, em investigação da PF que vazou para a imprensa, dividindo dinheiro de propina. Fala-se abertamente em pagamento à base aliada no legislativo. É o maior assunto do Distrito Federal, confere?

O Correio Braziliense é o maior jornal de Brasília, em termos quantitativos pela pujança do grupo herdeiro de Chatô, e em termos qualitativos apenas pela total indigência de seus concorrentes. É uma publicação cheia de erros e impropriedades, tendenciosa como de costume, mas que aspira ao posto de "jornalão".

Bem, a manchete de sábado era bem peculiar. Sem nomear Gargamel, ou o crime, dizia que "GDF e distritais são alvo de investigação." Mas a foto - e a maior parte - da capa eram dedicadas a uma série de demonização do usuário de drogas, metiê favorito do diário. Por que não uma foto de Gargamel com maços de dinheiro na mão? Bem, vem o domingo e temos na capa... drogas de novo. Uns 5cm da página vão para o caso, mais uma vez sem citar Gargamel. A manchete interna era um singelo "Pedido de Explicações". Engraçado é que, dependendo do partido dos envolvidos, o veículo pularia - mesmo sem provas cabais como estas - de cabeça no sensacionalismo o mais irresponsável, para sangrá-lo politicamente a todo custo.

O Jornal Nacional entrou com tudo no caso, espetacular que é, não amaciou pela coloração política do acusado (que é verde mas não tem nada com o PV). E com algum constrangimento elogio a atitude da emissora, que nada mais é do que a obrigação jornalística ante provas tão contundentes, audiovisuais, contra um governador de uma unidade federada. Mas pairam suspeitas sobre a cruzada midiática: seria preciso incinerar o Gargamel antes que ele contagie o Conde Drácula, de quem seria certamente o vice. Estratégia arriscada. Talvez seja o gosto do sensacionalismo. Mas... e o Detran-SP, o Roubanel e o Saresp, que nunca respingam no Vampiro? Enfim, o Correio é pior que a Globo (em todos sentidos). Na gestão de Roriz, teve o mesmo comportamento. É mais realista que o rei, na mão de quem come. Sérgio Motta que o diga...

A Confecom é repleta de boas intenções, mas nossa realidade é que a mídia local é só mais um capataz dos coroneis de sempre. E isso não muda por decreto. Em tempo de declínio do jornal impresso, é de se perguntar se vale a pena lutar nessa seara. Talvez seja o caso de criar portais jornalísticos locais independentes, é bem mais barato que qualquer outro medium.

sábado, 28 de novembro de 2009

Folha: Não dá mais para ler


Eu confesso que, como muita gente, andei iludido. Achei que podia confiar, cheguei a acreditar mesmo, mas estou cada vez mais decepcionado. Revoltado até. Não, não falo de nosso governador Arruda - em quem não votei -, aquele que no mesmo dia em que é pego com a boca na botija deflagra uma campanha de marketing em bares, com um exército de Papais-Noéis verdes e os malditos panfletos. Não me refiro tampouco ao presidente, em quem votei em 1998 e 2002 e que me decepcionou no mensalão, mas principalmente por fazer um governo cor-de-rosa bem pálido, quase transparente; mas cujos resultados, livrando-me do coro à minha volta e das garras da mídia, passei a admirar.

Estou decepcionado, revoltado e muito puto mesmo com um veículo o qual eu sabia ter um viés, mas com algum espaço para pluralidade, e acima de tudo seriedade, integridade jornalística. Um jornal que eu comprava, cheguei a assinar um bom tempo. E que agora desmorona: a Folha de São Paulo; ou, como eu gosto de chamar spooneristicamente, Lhofa de Pão Saulo. A Folha resolveu seguir a trilha da Veja: ofensa, baixaria, apelação: mentira enfim. Ocorre que só quem embarca nessa é quem já está espumando, contra o Lula no caso; os críticos moderados, sensatos, do governo (eu seria um) e seus apoiadores, que porventura reputassem ainda o jornal, vão deixar de assiná-lo ou comprá-lo. E as vendas da Lhofa já estão ridículas, tomara que os Frias fechem a bodega.

Um tempo atrás houve um caso menor, mas sintomático. Colunista econômico, Alexandre Schwartzman - devidamente identificado, em letras minúsculas, como funcionário do Santander, portanto parte interessada - escreveu um artigo grosseiro em que não explicou fundamentos de economia ao público, ou sequer defendeu uma tese ou proposta, envolto em jargão que fosse: partia para a desmoralização debochada de qualquer posicionamento econômico diferente do seu (a ortodoxia que atende aos bancos, é claro). Insinuou que economistas heterodoxos teriam fumado maconha para formular suas teses. Não deveria ser um insulto, mas em nossa sociedade é.

Depois foi a questão blecaute, em que a "grande" mídia em uníssono quis sangrar o governo, e nada obteve. Mas acompanhar as manchetes da Folha em linha foi até engraçado. Manchetes como "Caos Urbano: pessoas não conseguem atravessar a rua", "Polícia nega onda de saques" - manchete negativa, mas é sempre a manchete que cola, e a parte do impacto -, "Ligações para 190 duplicam" e lá dentro você descobre que a maior parte das ligações eram pedidos de informação, e que as ocorrências de fato caíram. Na Band, o Bóris falava (a quem tinha energia): "Não saiam de casa!" Foi um circo.

Outros absurdos certamente foram publicados sem que eu (que não compro esta porcaria mais) tenha ficado sabendo. Mas o exemplar (nada exemplar) de ontem foi ao zênite do disparate. Em dois momentos. Primeiro ao comentar uma peça publicitária que usaria as vozes de Lula e Dilma para anunciar um papel higiênico (que supostamente deixara de ser para os ricos para ser para todos). O mau gosto da campanha à parte, só mesmo alguém muito mal intencionado - já que estúpidos eu sei que não são - poderia por a culpa no presidente, que teria jogado "a liturgia do cargo pela privada". Não foi o pior.

O pior foi reservar duas ou três páginas (que, ao contrário do papel higiênico, para nada servem) para atacar o filme sobre o Lula, e colocar uma nefasta cereja no topo do sândei: uma entrevista com Cesar Benjamin, esquerdista que participara da campanha lulista em 1994, e que solta, displicentemente, uma acusação seriíssima contra Lula. Conta de uma conversa em que Lula teria puxado assunto sobre a prisão e, após dizer que "não aguentaria ficar sem boceta", teria narrado uma tentativa de estuprar um rapaz, quando preso no DOPS. O DOPS da "ditabranda" de Otavinho. Bem, hoje parece que veio o desmentido, o contraditório, ao menos, bem escondido, depois da blogosfera pescar vários depoimentos negando tal absurdo: Paulo de Tarso desmente o teor da conversa e nega que Benjamin lá estivesse, o que confirma Sílvio Tendler (o publicitário de quem "não se lembrava" Benjamin), acrescentando a versão (para mim) definitiva: foi só uma piada, e todos sabiam que rea uma piada. De certo mau gosto, no melhor estilo "machão" brasileiro (onde o ativo não é homossexual), mas uma piada.

Pois não deveria nem me indignar, isso é ótimo para derrubar de uma vez a credibilidade do diário da Barão de Limeira. Pena é que o Estado, que é sério, seja conservador demais, que o Globo, já sendo dos Marinho, esteja escorregando a mesma ladeira da Folha. E o que sobra? Os tabloides de esquerda, que nem são vendidos aqui em Brasília? A porcaria do Correio Braziliense? Não sobra nada. Mas temos os blogues, onde é preciso também filtrar com cuidado, pois há muito de espírito de "briga de torcida". Mas aquilo de sentar na praça e abrir um jornal está em extinção. Aliás, em Brasília nem tem praça direito, mas isso é outra conversa.

O blogue do Nassif tem trazido discussões mais aprofundadas, que recomendo: Um jornal sem rumo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Caetano Redux, ou Stalin vs. Roosevelt


Caetano tem uma outra canção digna de nota, mas nunca fui com sua fuça. Muito antes de ele assumir um protagonismo Anti-Lula que lhe vai custar qualquer credibilidade que lhe pudesse restar. Não faz muito, disse do presidente-operário que ele seria analfabeto e grosseiro. Na última entrevista de Lula, com Kennedy Alencar (Folha/Rede TV), o presidente usou palavras como "abdicar", "liturgia" ou "introjetar", e deu um espetáculo; não é um erudito, e não precisa sê-lo, mas não há nada que o desabone linguisticamente. Aliás, Caetano já recebeu umas bordoadas do linguista Marcos Bagno por seu elitismo estúpido.

Pois agora Caetano embarca na falácia do "culto à personalidade". E o compara aos malvados ditadores da esquerda, esquecendo o pluripartidarismo e a liberdade de imprensa (que serve exatamente para que setores abonados, como os Marinho que lhe deram voz desta feita, vilipendiem atabalhoadamente o supremo mandatário); esquece ainda que se há publicidade oficial, ela é sempre dos projetos, e nunca vinculada à efígie do ex-metalúrgico. Eis a pérola:

"Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior."

Ele parece que não lê os jornais onde dá seus pitacos, nem assiste à TV. Ou sabe o que acontece e é cínico bastante para ir adiante, que é o mais provável. Mas pouco me importa. O que quero aqui levantar é a comparação - esdrúxula, sabemos - de Lula com Stalin. Talvez seja uma boa comparação, se escolhermos o quesito "mortes e campos de trabalho" vs. "vidas salvas da miséria absoluta e geração de emprego". E - cá entre nós - os que acusam Stálin, com bons motivos, de ser um assassino, não deveriam esquecer que seu Exército Vermelho derrotou Hitler... mas eu digrido.

Eu gostaria mesmo de propor outra comparação: de Lula com Franklin D. Roosevelt, ficando assim na mesma época. Como Roosevelt, Lula se viu obrigado a enfrentar uma crise cíclica do capitalismo, um estouro de bolha especulativa. Ambos socorreram o setor financeiro e adotaram medidas para aquecer a economia e gerar empregos. E tiveram êxito reconhecido globalmente. A diplomacia do americano foi acertada, entrando para a II Guerra apenas quando era impossível manter-se neutro ante o fortalecimento de Hitler e do Japão no Pacífico. A política externa do brasileiro foi extremamente benéfica, foratalecendo laços com países no mesmo patamar, e mantendo uma neutralidade salutar ante anos de submissão à Potência (ver postagem anterior). FDR, por fim, era extremamente popular nos EUA, como Lula o é aqui; a diferença é o tratamento dispensado pela imprensa. Isso é porque Roosevelt não representava forças desde sempre alijadas do poder, a incomodar os tradicionais mandarins que se refugiaram na imprensa, impotentes no campo político.

Por fim, Roosevelt quebrou uma regra não-escrita da democracia americana e governou por três mandatos, morrendo no início do quarto. Falou-se um bocado, por aqui, em quebrar uma regra (há pouco) escrita para permitir um terceiro mandato. Um referendo popular, se se permitisse que fosse realizado, facilmente garantiria a extensão da Era Lula. Mas ele optou por não seguir o exemplo do antecessor (mesmo consideradas as diferenças de lisura no processo) que mudou a Constituição para alterar a regra eleitoral. Agora, Lula querendo, dificilmente algo impede seu retorno em 2014.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Diplomacia Brasileira e o Nobel


O Brasil sob Lula criou uma nova inserção para si na seara diplomática. Firmar parcerias comerciais Sul-Sul e extrapolar nosso papel de potência média regional para potência média global (fazendo por merecer a inclusão no BRIC) é apenas um exemplo, fomentar a integração regional da américa Latina é outro, e tudo sem romper relações com a Águia Norteamericana, relações estas que só estremeceram com a visita de Ahmadinejad.

Setores da mídia não fazem questão de ressaltar que esta fez parte de uma série de três recepções estratégicas, sendo as outras duas a do israelense Perez (que, aliás, merecia muito mais protestos) e do desmoralizado presidente da ANP, Abbas. Não é que Lula se ofereça para mediar o conflito mais espinhoso do planeta (mas sua declaração de que a ONU deveria substituir a Águia, parte interessada, foi brilhante); os líderes em questão é buscam o porta-voz dos emergentes para que ele se envolva. A imprensa estrangeira discorda da local, e vê em Lula um estadista respeitado e admirado no mundo todo. Voltando ao chefe-de-estado iraniano e a cobertura jornalística, tentaram dar a impressão de que Lula apoiaria o "pária" em tudo, quando na verdade o discurso do nosso presidente questionou a falta de respeito à liberdade e à diversidade, reafirmou a legitimidade de Israel (posição histórica do país, ainda que eu pense mais como Ahmadinejad, em princípio apenas), e falou corajosamente em desarmamento nuclear, em especial na região, questionando a hipocrisia das potências nucleares que querem encrencar com seu programa - por ora, ao menos - pacífico. Tudo com muita sutileza, e elegância. Amorim é um craque. Mas também pisa na bola e ratificar a controversa reeleição de Ahmadinejad açodadamente foi no mínimo desnecessário.

Agora, outro dia, elogiei a chancelaria de Lula e ouvi que "a diplomacia brasileira sempre foi a melhor do mundo" ou algo nesse tom. Respondi que alinhamento automátcio com os EUA não é boa diplomacia, mas aí me lembrei de um caso particularmente emblemático, que li no Blog do Argemiro: O Itamarty entrou em campo para IMPEDIR que o religioso Dom Helder Câmara, célebre pela preocupação social e pela luta contra a ditadura militar, recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 1970, quando a repressão era máxima e a propaganda estupidamente nacionalista. Mas essa não era uma honraria que agradasse ao regime, não seria um orgulho nacional como a conquista futebolística: seria combustível para seus opositores.

Para digredir só um pouco mais, o laureado de fato foi Norman Borlaug, um dos responsáveis pela chamada Revolução Verde, processo que trouxe ao campo novas técnicas: mecanização, defensivos venenosos, e a inevitável concentração fundiária, responsável pelo sofrimento e pelo êxodo de milhões de camponeses; tal processo apenas se intensificou nos anos 60, iniciara-se nos EUA lá pelos anos 30, como descreve com lírica maestria John Steinbeck em romances como As Vinhas da Ira, que estou a ler.

Bem, eu de minha parte não precisava de mais este motivo para não levar o Nobel da Paz a sério. Basta dizer que Henry Kissinger recebeu um, com extensa ficha corrida de maldades como o 11 de setembro - o do Chile, o do WTC ele apenas ficou encarregado de engavetar; Obama, sem ter feito nada e preparando-se para fazer - caca, é claro - acaba de receber um. Mas Mahatma Ghandi, que levaria o prêmio definitivo por escolha democrática, nunca recebeu um. Adivinha por quê? Porque se opunha à criação de Israel. Mas se Lula insistir em brincar de fazer a paz no Oriente Médio - e sem necessariamente mostrar mais resultados que uma partida de futebol - arrisca-se a ganhar essa dúbia homenagem.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Invenção do Segredo

Foi na Escola de Comunicação que Firmino aprendeu as técnicas de enfiar verdades fabricadas nas cabeças de gentes sem instrução - ou, pior ainda, com instrução mas sem senso crítico.

Antes mesmo de concluir o curso de Jornalismo, foi selecionado em um programa de treineiro. Era um bom texto, tecnicamente, mas - prestando atenção - havia ali sempre um eco de sua cosmovisão etnocêntrica.

Fez questão de se pavonear frente aos "amigos" da faculdade; e até mesmo aqueles do Ensino Médio, que enchiam seu saco chamando-o de Batuque, apelido que ele detestava. Primeiro porque associava a palavra a manifestações culturais e religiosas "inferiores", depois porque era uma tiração de sarro com seu sobrenome - coisa que valorizava por demais.

Firmino Battochio progrediu na corporação: pela competência sim, mas também por trabalhar mais do que aquilo por que era pago, e bajular as pessoas certas.

Chegou à seção de jornalismo investigativo; em uma de suas primeiras reportagens tocou em um ponto nevrálgico para os interesses do jornal, e por algum descuido foi publicado. Depois de muito alvoroço, sendo que por vaidade insistia em prosseguir no assunto, a direção do jornal resolveu dar uma "geladeira" nele: mandaram-no ao Acre, para investigar uma suposta trama de biopirataria.

Do bimotor que saiu de Rio Branco, ele pôde ver: primeiro, enormes fazendas, pastagens escandalosamente extensas; depois, um tapete verde cortado por sinuosidades barrentas; por fim, um traço ocre, como se um tijolo coberto de musgo houvesse sido riscado com um prego.

Era a pista de pouso, única alternativa ao barco (ou voadeira, como é chamada) para chegar a Cidade Alves. Para quem cresceu em Higienópolis, foi um choque. Cidade Alves tinha duas ruas de terra, e quatro vielas interligando-as. Não havia hotel ou pousada, mas não demorou nada para que uma família de ribeirinhos o acolhesse. Ele ofereceu dinheiro, mas os acolhedores só pediram em troca que ele lhes explicasse como usar sua câmera digital. Brincaram um bocado com ela, e suas fotos ficaram lindas. O que é óbvio, já que estavam em plena Amazônia.

Passou então a percorrer a vila perguntando pela presença de estrangeiros. Tudo que ouvia era "num sei de nada não, seu moço" ou algo assim. Já estava ficando irritado com aquela "gente atrasada" e um dia tomou umas a mais no boteco local e saiu xingando a tudo e a todos, vociferando que ele tinha canudo da USP enquanto eles eram um bando de analfabetos.

Um senhor negro se aproximou dele com um sorriso tão beatífico que o desarmou na hora. Apresentaram-se e depois de trocar algumas banalidades, como comentários sobre o tempo, Silvano - era esse seu nome - convidou Batuque para participar, no dia seguinte, de uma cerimônia religiosa em que se consome uma bebida conhecida, dentre outros nomes, como Santo Daime.

Uma vez tomado o Daime, Firmino passou muito mal. Vomitou e borrou-se todo, mas sentia-se ao mesmo tempo muito bem. Viu de repente, no olho da mente, Horácio: justamente seu "inimigo" em tempos de escola, aquele que lhe pôs o indesejado apelido. Sentiu uma vontade súbita de reencontrá-lo e abraçá-lo. Sorria como uma criança, ao som contagiante dos tambores e maracás, e mirando caleidoscópicos mosaicos coloridos.

E o trabalho foi até o romper da aurora, o cansaço e o êxtase se digladiando. Decretado o fim do ritual, Firmino já se convertera em Batuque: era outra pessoa. Podia perceber a sabedoria de um modo de vida diverso do seu. Talvez sua epifania fosse incompleta, mas tinha a impressão de ter aprendido muito.

Já esquecera por completo a biopirataria, e quando retornou à redação, sem bem saber por quê, disse ao chefe (que na verdade nada esperava): "eu descobri tudo, mas é segredo".

domingo, 22 de novembro de 2009

A Confecom e Eu


Caros três leitores, este é dificilmente um blogue no sentido mais restrito, de diário virtual. Mas hoje é exatamente o que faço: narro minha experiência na etapa candanga da Conferência Nacional de Comunicação. Então voilà: querido diário...

Na sexta feira fui até a ENAP, órgão de educação do GDF, onde ocorreria a abertura da etapa da Confecom no DF. Bagunça no cadastramento, normal; pouca gente no auditório, previsível; discursos protocolares, enfadonhos. Saí de lá para conferir o Festival de Cultura Popular na Funarte: maracatu e as gatinhas "alternativas" de Brasília.

No sábado, não consegui chegar cedo como gostaria, mas o evento estava atrasado. Eram eixos temáticos, os três principais: Produção de Conteúdo, Meios de Distribuição e (salvo engano) Direitos e Deveres. Aí onde havia algo a ser dito de fato, as falas foram tolhidas pelo tempo; e não não houve embate entre pontos de vistas conflitantes. Intervenções que não iam além do óbvio por parte do público, com honroso destaque para meu colega de P-Sol, Índio, que cutucou o representante da Band quanto à criminalização do MST (um editorial do telejornal ameaçava até o "gabinete do presidente" de uma "reação dos produtores"). Mas foi uma liberação de cólera que não se traduziu em pergunta, argumento usado pelo pusilânime para não responder nada - e a claque da Band o aplaudiu!. Eu mesmo tentei ter a palavra para falar sobre temas que não vi contemplados: o jabá (pagamento à emissora pela gravadora para fabricar sucessos), a propriedade cruzada de vários meios por um mesmo grupo, e ainda para cutucar o representantes das teles, que vinha com o jargão técnico "tucanizado" para discretamente atacar o projeto governamental de ampliação da rede Banda Larga em nome da "livre concorrência", da "convergência", em prol das gigantes do setor, basicamente estrangeiras. Não me passaram o microfone, OK.

À tarde, ocorreriam os grupos de trabalho. Eu estava inscrito no Tema II: Meios de Distribuição, interessado que sou na radiodifusão livre (pertenci por anos à Rádio Muda, de Campinas). Mas fui me decepcionando aos poucos ao perceber que estavam ali apenas passando a limpo as propostas das entidades: CUT e Intervozes principalmente. Surgiu uma polêmica sobre uma proposta apresentada pelo Movimento GLBT de "garantir a laicidade no processo de outorga". A discussão primeira é óbvia: a redação é clara? Que significa isso? Que igreja não pode ter meio de comunicação? Ou que o processo não pode preterir ou beneficiar uma determinada confissão? Pedi a palavra para dizer que: não, o texto não é claro; que o provável sentido desejado (proibição total) é irreal, vai encontrar uma barreira, mas que poderia-se propor um limite percentual em relação ao total de canais para conteúdo/propriedade religiosos, assim como para qualquer setor da sociedade. E afinal, por que banir igrejas? As outras emissoras também não teriam um viés? "Vamos tomar o lado da Globo?", eu poderia ter dito. Enfim, seguiu a proposta original, com um acréscimo boboca de "garantir a pluralidade bla-bla-bla". E assim foi, mudando uma vírgula aqui, outra ali. Outra discussão: reserva do espectro, com 40% para setor público, 40% para setor privado e 20% estatal. Propôs-se 33% para cada um. Agora eu penso: primeiro, o que exatamente vai diferenciar o público do privado? Uma emissora pública de televisão não vai precisar de um bocado de dinheiro? Esse dinheiro, se não viria do Estado, não seria então dinheiro particular? Estamos falando de quê? TV MST ou TV FIESP? É tudo tão abstrato! E mais: passar um decreto não cria condições materiais para que surjam essas emissoras, e argumentou-se mesmo isto: pretende-se aumentar a reserva para o Estado, que não tem bala na agulha nem para manter sua atual estrutura de comunicação (10%) com qualidade. Por fim, a poderosa ABERT (Emissoras de Rádio e TV) vai simplesmente falar "vem, pode ir entrando, tem espaço para todos..." se hoje abocanha 90% do mercado?

Por isso digo: que lutem então com suas propostas pré-fabricadas, mas não me deem a ilusão de que eu posso participar. E tomara que consigam pelo menos os Conselhos de Comunicação, que seriam (ou poderiam ser) instâncias participativas (para as entidades, não para o cidadão) com poder de se posicionar ante os temas relacionados à comunicação. Mas podem também virar peças acessórias, decorativas. O projeto da Banda Larga também pode ganhar contornos mais democráticos, mas as teles são poderosas e têm o presidente em sua mão (vide a fusão BrT-Oi), além do temível Ministro da Globo, é claro. Quanto a uma real transformação no panorama eletromagnético, sou bem cético.

O que me deixa puto é que se eles elaborassem propostas mais chão-a-chão, como criminalizar o jabá e descriminalizar a radiodifusão sem concessão, poderia haver alguma chance. Espero que algum estado leve essas ideias à rodada nacional. Eu desisto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Soltando Foguetes!


Mandei um poemelho pro Luís Nassif. E não é que ele publicou? Confira:
Os poetas do Blog

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Alô, Marina!

Sobre a postagem Os céticos em relação ao aquecimento, no Nassif.

Eu só acho uns palhaços aqueles que associam o Milenarismo Climático ao socialismo. Ora! São os capitalistas de sempre que querem frear a expansão dos emergentes, é óbvio! A atividade industrial nos países ricos está saturada, as corporações (por vários motivos, legislação ambiental permissiva, por exemplo) produzem na periferia. Aí a China começa a incomodar... e vêm com essa patranha. que vai acontecer? Expandirá a industrialização em países sem meta! Vão-se "lembrar" da África. Quer apostar?

O socialismo é condizente com um ambientalismo sério, porque o modo de produção e os hábitos de consumo do capitalismo (e sua disseminação, a globalização) são insustentáveis. Se todos no planeta consumissem como um americano, seria preciso uns 5 planetas. Por isso querem frear o processo que eles mesmos iniciaram, para manterem seu privilégio. Com uma sociedade socialista (ideal, não as reais), não haveria por que comprar um utilitário esporte para competir, mostrar "sucesso", não se consumiriam tantas bobagens supérfluas, e a produção seria ditada pela racionalidade das legítimas necessidades humanas. O socialismo sustentável, ou ecossocialismo, talvez, é o caminho mais sensato. Creio eu.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Este blogue se solidariza com o Festival de Besteiras na Imprensa, que foi vítima de um hacker. Dificilmente alguém vai ser punido por isso, mas sabemos os prováveis mandantes do crime. Lamentável.

sábado, 14 de novembro de 2009

Ter Grana é Antiético?


Em artigo recente, apontava como uma contradição em termos a caridade das pessoas ricas e conservadoras. Pois, se querem ajudar os pobres, não podem ser pela manutenção do quadro social.

Mas eu mesmo sou frequentemente "acusado" de contradição parecida. Que sejam meus 3 leitores, se muito, os juízes. Usem a caixa de comentários: inocente ou culpado. O crime que me atribuem: pensar à esquerda e ter grana.

A acusação não pode ser descartada com desprezo. Quem pensa que é injusto alguns privilegiados abocanharem a maior parte da renda, entra em contradição se é exatamente um deles. E isso é o bastante para gerar um conflito interno na mente do esquerdista rico.

Mas a argumentação é falaciosa. Se nossa sociedade prega o sucesso pessoal como meta, e funciona na base do cada um por si, quem é que pode ser cobrado por conquistar um bom nível de vida, tendo sido a conquista honesta? Só mesmo um asceta vai escolher a pobreza deliberadamente. Mas, diferente de ganhar bem, e ter um automóvel, um imóvel, é viver no desperdício e na ostentação, no mundo frívolo que é disseminado como o ideal, pela televisão. Isso complicaria a situação do réu. Como o faria, por exemplo, detestar guardador de carro e pedinte, coonestar o extermínio policial e parapolicial em nome da faxina etnossocial. Finalmente, ninguém deve ser obrigado a adotar o ideário adequado à camada social (ou estamento) em que nasceu e vive. Talvez isso fosse até bom no Brasil - onde, já dizia Tim Maia, pobre é direita; teríamos rapidamente uma revolução, coisa que nunca ocorreu nos tristes trópicos, apesar do abuso da palavra.

Uma esquerda deve ser composta de inúmeras tendências necessariamente: enquanto a direita diz "concordo", quem diz "discordo" deve propor alternativas, que são virtualmente ilimitadas. Por isso a pluralidade é marca da esquerda e a representatividade de diversos setores da sociedade - e o grau de concerto entre eles - são o segredo da mudança. Obviamente, uma esquerda só de operários seria melhor que uma só de intelectuais, mas nenhuma delas vicejaria.