quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Depois da Bobalização, Aquecimento Bobal


Há cientistas céticos com respeito ao aquecimento global. Com bons argumentos. Essa tendência de aceitarmos a posição "oficial" da "inteligentzia" científica porque não entendemos aquele assunto - sendo que as explicações oferecidas são sempre simplistas, toscas - pode ser muito perigosa. E no caso em questão, se questionamos o aquecimento global somos taxados de inimigos da natureza.

Quantas vezes a destruição da natureza é ligada ao modo de produção capitalista e à nossa sociedade de consumo e desperdício? Quanto se tem falado sobre os milhares de produtos tóxicos expelidos pela indústria, que impactam a vida humana muito mais que um aumento de um grau na tempetartura média da terra, desde que o grande vilão da natureza é... o gás carbônico? Mais um pouco vão chegar à brilhante conclusão de que NÓS emitimos gás carbônico e, se infelizmente o "marketing ecológico" não vai lançar a campanha PARE DE RESPIRAR!, não duvido que proponham CONTROLE DE NATALIDADE; dos pobres sem dúvida.

Um mercado do carbono? Vai existir especulação? Já existe? Reduções percentuais lineares só vão garantir que os industrializados ou defequem e caminhem solenemente ou mantenham sua atividade intacta recorrendo a novas tecnologia (vide as esferas de cerâmica da UFMG) e nós outros "em desenvolvimento" vamos sofrer um sério entrave econômico. Nunca os alcançaremos no terreno deles.

O perigo da ação antrópica é seu impacto na vida aqui mesmo, vida dos animaizinhos e plantinhas e do bicho mais besta, nós, que nos vemos separados da natureza. É duvidoso se nossa ação afeta o clima, porque o clima é um sistema caótico (ligeiras mudanças de entrada podem levar a grandes alterações na saída) que não se presta a esse determinismo, essa causalidade direta, sem condicionantes, de que nossa emissão de CO2, tá aqui provado, vai ter este efeito sobre o clima. Para além dessa falha científica conceitual óbvia, há a escassez de dados: as séries estatística sobre clima são recentes, e os múltiplos processos determinantes do clima funcionam em ciclos longos demais para permitir qualquer afirmação tão categórica quanto esta que virou um truísmo: aquecimento global.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Evandro Silva do AfroReggae


A cobertura jornalística do caso Evandro Silva, o líder do Afroreggae assassinado no Rio semana passada, é assaz curiosa. Consta que o ativista foi morto por assaltantes, teve o socorro negado por policiais que chegaram ao local imediatamente após o crime e apoderaram-se de seus pertences roubados. Ora, tratam-se os policiais apenas como elementos deturpados da corporação, insensíveis e corruptos. Quando uma sequência tão nítida de acontecimentos sugere por si só a hipótese de cumplicidade. Ou os policiais foram cúmplices, mandantes eventualmente, do assassinato, o que explicaria a leniência para com os executores, ou então se trata de uma prática corriqueira da polícia de roubar o produto de roubos, pouco se importando com a vida da vítima ou a prisão dos ladrões, e só agora - pela relevância da vítima e pela prova audiovisual - isso vem à tona; isso explicaria a apropriação, mas se eu conheço a polícia, os bandidos sem farda iriam tomar ao menos um "corretivo". E, mais uma vez, a quase simultaneidade da ação dos marginais e dos milicianos sugere uma ação concertada.

Alguém se preocupou em investigar quais eram as ações sociais do grupo que Evandro coordenava e em que instâncias essas ações poderiam se chocar com interesses estabelecidos? O tráfico teria interesse em eliminá-lo, uma vez que ele estaria doutrinando os jovens a não se juntarem às fileiras do crime (des)organizado? Talvez, ainda que eu acredite que a atração do dinheiro - e dos sonhos de consumo aí pertinentes - brilhe mais que o bom-mocismo oferecido como alternativa, de modo que o "movimento" não teria problema para recrutar os "bois-de-piranha" do varejo de narcóticos. E quanto às milícias? Por que pouco se ouve a respeito dessas máfias que vendem segurança, ou antes proteção, extorquindo os cidadãos - que ainda as apoiam em grande medida, compreensivelmente: querem qualquer ordem possível, se o governo não a traz, que seja a máfia. É apenas uma hipótese, mas e se eventualmente o Afroreggae estava incomodando uma determinada milícia, contestando seu poder e seus métodos? Confesso que é um tiro longo (má metáfora...), mas de qualquer forma a hipótese de crime encomendado, dados os indícios das imagens, e ainda mais se tratando de uma liderança envolvida com direitos humanos, classe afeita a morrer de morte matada, deveria estar pelo menos ao par com versão de latrocínio aceita e disseminada sem contestação.

Leonardo Afonso, 29, Servidor Público Federal
Brasília, DF

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

China, Brasil e o Novo Paradigma


(Comentário no blog do Nassif)
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/10/26/a-estrategia-chinesa-do-yuan-desvalorizado/

É importante lembrar que o sucesso econômico da China não se deve apenas ao câmbio depreciado. Sua maior "vantagem comparativa" é a mão de obra virtualmente escrava, algo como os primórdios da Revolução Industrial na Inglaterra. Portanto, tal sucesso é antiético do ponto de vista dos direitos humanos.

Também o é do ponto de vista ecológico, porque a China é paradigmática do momento atual do capitalismo: uma sociedade de laboradores e consumidores (Arendt, 1958) - com a ressalva de que quem mais trabalha, fabricando produtos para exportação, menos consome. E esse capitalismo acelerado pressupõe o que se tornou sinônimo da China: produtos baratos sem qualquer pretensão de durabilidade; ora, o impacto ambiental do processo fabril e do lixo que fica garantem a insustentabilidade desse modelo em que se fabricam items a serem consumidos e não usados.

O Brasil tem condições, ao menos as físicas, de capitanear uma transição do modo de vida, produção e consumo atual para uma nova concepção que priorize as bases materiais de nossa própria sobrevivência, em vez de uma alucinada acumulação - com a inevitável concentração - de riqueza à custa do que quer que seja. Um modelo de organização social pautado na pluralidade, tolerância e solidariedade e não do individualismo como única ideologia possível. Um protagonismo como foi o inglês ao nos brindar com a Revolução Industrial - para o bem e para o mal. A preocupação ecológica precisa ir muito além de preocupações tópicas e medidas mitigadoras como reciclagem e cotas de emissão: a mudança precisa ser mais radical.

E se as condições físicas estão aí - natureza em boa medida preservada, matriz energética consideravelmente renovável, recursos hídricos incomparáveis - as bases humanas estão muito aquém. Uma intelectualidade atabalhoada, uma imprensa no mínimo questionável, a pesquisa, descoordenada, avançando, não por obra, mas quase a despeito do governo, uma mentalidade reacionária bem disseminada... enfim, um quadro desalentador que torna piada nosso mote favorito, "o país do futuro". No entanto, tal expressão seria real, bem real, se apenas tirássemos as lentes do ufanismo irrefletido e superficial suscitado pelo recente aquecimento da economia advindo da inclusão social - tímida que seja - proporcionada pelo Bolsa Família, além de... isso mesmo, o petróleo do pré-sal.

Quem quer perceber que estamos avançando sim, mas num caminho sem saída? Quem se lembra de Milton Santos? Imagino que apenas sua obra, desprestigiada injustamente como toda Geografia, bastaria para repensar o modelo de organização do espaço. E ainda temos Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e alguns outros na algibeira... Pois quem estará às mãos e aos pés, no coração e no cérebro do Gigante Gentil quando ele acordar para sair do berço explêndido para ensejar seus primeiros passos?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os Mansos Herdarão a Terra II - Trampo Ainda em Progresso


We were but stones, Your Light has made us stars.
Light Years, Pearl Jam

Os hereges da sociedade ocidental são bem expressivos de seus valores, principalmente de seus medos, e podem ajudar a retraçar o que é que parece que escondem de nós.

Sejamos breves com Galileo, pela obviedade: um universo que não está em função da Terra não cola com os mitos do gênesis, que esquecemos de ver como mitos, representações simbólicas da realidade, e ora os aceitamos como verdade factual, ora os rechaçamos como pura baboseira.

Darwin: ainda mais óbvio, não há como sermos símios falantes se somos a imagem e semelhança de Deus. Interessante o recrudescimento do criacionismo, mais de um século depois da teoria, com tantas evidências como os fósseis e a semelhança genômica com os chipanzés. Lembremos com Hannah Arendt como o processo biológico é negado, escondido, na civilização ocidental, desde a Grécia, e como os povos "primitivos" não só não rejeitavam sua essência animal, mas sacralizavam (e ainda o fazem) toda a natureza que lhes permitia a vida. O homem "civilizado" até hoje se vê destacado da natureza.

Freud: na minha humilde opinião de leigo, Freud pagou o preço do pioneirismo, e boa parte de sua teoria é mero chute. Mas a proposição de que a tentativa de suprimir o desejo sexual nos faz doentes é, para mim, central. É mais uma vez a negação de nossa essência animal, uma moral absurda destinada a controlar a sociedade e que não consegue mais que deturpá-la. Coibir o sexo é uma preocupação demográfica: é mais fácil concentrar riqueza se nascerem menos bocas a alimentar.

Marx: este alemão disputa com um austríaco o título de personalidade mais detestada no Ocidente. Não fez mais que coligir o pensamento econômico moderno e dar um salto adiante: formulou o conceito de força de trabalho; o trabalho mantenedor do ciclo vital, desprezado desde a Grécia, foi alçado à mais alta categoria: era o que fazia o mundo girar. E como um ser humano é capaz de gerar mais do que necessita para seu sustento, resulta que o trabalho de alguns garante a subsistência de todos e, mais ainda, a acumulação de riqueza, capital. Expôs o mecanismo da injustiça brilhantemente. O socialismo é o único caminho não só para as relações sociais, mas também para a sustentabilidade, por eliminar - cumpridas todas suas promessas - a exploração do homem (e do meio) pelo homem, para o acúmulo de riquezas, elimina o caráter artificial do que chamamos dinheiro, e a cultura envolvida de consumismo. Os fisiocratas estavam certíssimos: riqueza vem da natureza, no mais das vezes, da tração animal empregada até hoje para produzir qualquer coisa: a força de trabalho - físico e intelectual - humana. A mercadoria mais valiosa de todas, e a menos retribuída.

Cristo: guardei para o fim. Tomemos por históricas as fontes do evangelho - um risco calculado. Jesus disse, entre outras coisas, que é mais fácil passar um camelo (corda) pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. No meio de uma turma até hoje chegada ao vil metal - e quem quiser me chamar de antissemita fique à vontade, ainda que não seja verdade. A atividade de empréstimo a juros, a usura que o catolicismo condenou, atividade tradicional deles (e boa parte da explicação do ódio de que foram vítimas), é peça fundamental da engrenagem do capitalismo. Uma forma de especulação de risco zero: se ele pagar eu recebo tudo mais um pouco, se não pagar, executo a garantia ou ainda, tenho ao devedor preso a uma obrigação. A atividade bancária foi um corolário e a especulação com papéis sua evolução: continua-se a criar riqueza a partir da riqueza, nada se produz.

Enfim, nem era disso que estava falando: dizia que a mensagem de Cristo é análoga ao socialismo. Nada novo nisso, vide O Evangelho Segundo Mateus, do marxista Pier Paolo Pasolini, e vide a Teologia da Libertação, pela qual Leonardo Boff sofreu a perseguição do cardeal Ratzinger, que nada tem de Bento. Infelizmente o cristianismo que surgira como instrumento de libertação, foi se infiltrando no poder e se converteu (sem trocadilho) em instrumento de dominação.

A Reforma que veio depois foi uma necessidade burguesa: Roma agarrava-se aos farrapos do feudalismo, enquanto os povos do norte europeu já tinham outra mentalidade. Decidiram que não era pecado ficar rico, e sim um indício de predestinação; e ao mesmo tempo, convenientemente - à medida em que se ampliavam os horizontes do assim chamado mundo conhecido - decidiram que alguns não eram eleitos. Católicos e Protestantes saíram para saquear o mundo com a Bíblia debaixo do braço, e as igrejas comiam o seu bocado, abençoavam o dreno de metais preciosos e lucros de atividades agrícolas para a Europa. No sul, essa riqueza fortaleceu uma aristocracia que deu trabalho pra eliminar; no norte, impulsionou a Revolução Industrial. E sabemos até onde ela nos trouxe. Um modo de vida insustentável, exploração em escala global, por uma dúzia de corporações, de recursos e principalmente braços; atmosfera, água, solo, tudo: estamos acabando com nossa fonte de vida para que essa riqueza flua para o Norte, para contas em Paraísos Fiscais. E em pleno século XXI ainda se usa a fé para legitimar agressões bélicas com objetivos econômicos.

Agora, imaginando que uma sociedade socialista global levaria, a partir de hoje e havendo um desejo razoavelmente disseminado, uns cinco séculos para se concretizar, pergunto-me: quem serão os herois e os mártires desse período? E, mais importante, quem serão os hereges?