segunda-feira, 26 de outubro de 2009

China, Brasil e o Novo Paradigma


(Comentário no blog do Nassif)
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/10/26/a-estrategia-chinesa-do-yuan-desvalorizado/

É importante lembrar que o sucesso econômico da China não se deve apenas ao câmbio depreciado. Sua maior "vantagem comparativa" é a mão de obra virtualmente escrava, algo como os primórdios da Revolução Industrial na Inglaterra. Portanto, tal sucesso é antiético do ponto de vista dos direitos humanos.

Também o é do ponto de vista ecológico, porque a China é paradigmática do momento atual do capitalismo: uma sociedade de laboradores e consumidores (Arendt, 1958) - com a ressalva de que quem mais trabalha, fabricando produtos para exportação, menos consome. E esse capitalismo acelerado pressupõe o que se tornou sinônimo da China: produtos baratos sem qualquer pretensão de durabilidade; ora, o impacto ambiental do processo fabril e do lixo que fica garantem a insustentabilidade desse modelo em que se fabricam items a serem consumidos e não usados.

O Brasil tem condições, ao menos as físicas, de capitanear uma transição do modo de vida, produção e consumo atual para uma nova concepção que priorize as bases materiais de nossa própria sobrevivência, em vez de uma alucinada acumulação - com a inevitável concentração - de riqueza à custa do que quer que seja. Um modelo de organização social pautado na pluralidade, tolerância e solidariedade e não do individualismo como única ideologia possível. Um protagonismo como foi o inglês ao nos brindar com a Revolução Industrial - para o bem e para o mal. A preocupação ecológica precisa ir muito além de preocupações tópicas e medidas mitigadoras como reciclagem e cotas de emissão: a mudança precisa ser mais radical.

E se as condições físicas estão aí - natureza em boa medida preservada, matriz energética consideravelmente renovável, recursos hídricos incomparáveis - as bases humanas estão muito aquém. Uma intelectualidade atabalhoada, uma imprensa no mínimo questionável, a pesquisa, descoordenada, avançando, não por obra, mas quase a despeito do governo, uma mentalidade reacionária bem disseminada... enfim, um quadro desalentador que torna piada nosso mote favorito, "o país do futuro". No entanto, tal expressão seria real, bem real, se apenas tirássemos as lentes do ufanismo irrefletido e superficial suscitado pelo recente aquecimento da economia advindo da inclusão social - tímida que seja - proporcionada pelo Bolsa Família, além de... isso mesmo, o petróleo do pré-sal.

Quem quer perceber que estamos avançando sim, mas num caminho sem saída? Quem se lembra de Milton Santos? Imagino que apenas sua obra, desprestigiada injustamente como toda Geografia, bastaria para repensar o modelo de organização do espaço. E ainda temos Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes e alguns outros na algibeira... Pois quem estará às mãos e aos pés, no coração e no cérebro do Gigante Gentil quando ele acordar para sair do berço explêndido para ensejar seus primeiros passos?

Um comentário:

Felipe Coutinho disse...

Rapaz, você escreve muito bem e faz análises bem pertinentes em relação a estrutura econômica chinesa e seu paradoxal capitalismo autoritário. O que é necessário considerar também que este controle ideológico repercute também na economia chinesa. O Estado Chinês é sócio em todas as empresas que se instalam em seu território. Esta onipresença política e econômica é um fator significativo da forte economia chinesa.