terça-feira, 27 de outubro de 2009

Evandro Silva do AfroReggae


A cobertura jornalística do caso Evandro Silva, o líder do Afroreggae assassinado no Rio semana passada, é assaz curiosa. Consta que o ativista foi morto por assaltantes, teve o socorro negado por policiais que chegaram ao local imediatamente após o crime e apoderaram-se de seus pertences roubados. Ora, tratam-se os policiais apenas como elementos deturpados da corporação, insensíveis e corruptos. Quando uma sequência tão nítida de acontecimentos sugere por si só a hipótese de cumplicidade. Ou os policiais foram cúmplices, mandantes eventualmente, do assassinato, o que explicaria a leniência para com os executores, ou então se trata de uma prática corriqueira da polícia de roubar o produto de roubos, pouco se importando com a vida da vítima ou a prisão dos ladrões, e só agora - pela relevância da vítima e pela prova audiovisual - isso vem à tona; isso explicaria a apropriação, mas se eu conheço a polícia, os bandidos sem farda iriam tomar ao menos um "corretivo". E, mais uma vez, a quase simultaneidade da ação dos marginais e dos milicianos sugere uma ação concertada.

Alguém se preocupou em investigar quais eram as ações sociais do grupo que Evandro coordenava e em que instâncias essas ações poderiam se chocar com interesses estabelecidos? O tráfico teria interesse em eliminá-lo, uma vez que ele estaria doutrinando os jovens a não se juntarem às fileiras do crime (des)organizado? Talvez, ainda que eu acredite que a atração do dinheiro - e dos sonhos de consumo aí pertinentes - brilhe mais que o bom-mocismo oferecido como alternativa, de modo que o "movimento" não teria problema para recrutar os "bois-de-piranha" do varejo de narcóticos. E quanto às milícias? Por que pouco se ouve a respeito dessas máfias que vendem segurança, ou antes proteção, extorquindo os cidadãos - que ainda as apoiam em grande medida, compreensivelmente: querem qualquer ordem possível, se o governo não a traz, que seja a máfia. É apenas uma hipótese, mas e se eventualmente o Afroreggae estava incomodando uma determinada milícia, contestando seu poder e seus métodos? Confesso que é um tiro longo (má metáfora...), mas de qualquer forma a hipótese de crime encomendado, dados os indícios das imagens, e ainda mais se tratando de uma liderança envolvida com direitos humanos, classe afeita a morrer de morte matada, deveria estar pelo menos ao par com versão de latrocínio aceita e disseminada sem contestação.

Leonardo Afonso, 29, Servidor Público Federal
Brasília, DF

Nenhum comentário: