segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Os Mansos Herdarão a Terra II - Trampo Ainda em Progresso


We were but stones, Your Light has made us stars.
Light Years, Pearl Jam

Os hereges da sociedade ocidental são bem expressivos de seus valores, principalmente de seus medos, e podem ajudar a retraçar o que é que parece que escondem de nós.

Sejamos breves com Galileo, pela obviedade: um universo que não está em função da Terra não cola com os mitos do gênesis, que esquecemos de ver como mitos, representações simbólicas da realidade, e ora os aceitamos como verdade factual, ora os rechaçamos como pura baboseira.

Darwin: ainda mais óbvio, não há como sermos símios falantes se somos a imagem e semelhança de Deus. Interessante o recrudescimento do criacionismo, mais de um século depois da teoria, com tantas evidências como os fósseis e a semelhança genômica com os chipanzés. Lembremos com Hannah Arendt como o processo biológico é negado, escondido, na civilização ocidental, desde a Grécia, e como os povos "primitivos" não só não rejeitavam sua essência animal, mas sacralizavam (e ainda o fazem) toda a natureza que lhes permitia a vida. O homem "civilizado" até hoje se vê destacado da natureza.

Freud: na minha humilde opinião de leigo, Freud pagou o preço do pioneirismo, e boa parte de sua teoria é mero chute. Mas a proposição de que a tentativa de suprimir o desejo sexual nos faz doentes é, para mim, central. É mais uma vez a negação de nossa essência animal, uma moral absurda destinada a controlar a sociedade e que não consegue mais que deturpá-la. Coibir o sexo é uma preocupação demográfica: é mais fácil concentrar riqueza se nascerem menos bocas a alimentar.

Marx: este alemão disputa com um austríaco o título de personalidade mais detestada no Ocidente. Não fez mais que coligir o pensamento econômico moderno e dar um salto adiante: formulou o conceito de força de trabalho; o trabalho mantenedor do ciclo vital, desprezado desde a Grécia, foi alçado à mais alta categoria: era o que fazia o mundo girar. E como um ser humano é capaz de gerar mais do que necessita para seu sustento, resulta que o trabalho de alguns garante a subsistência de todos e, mais ainda, a acumulação de riqueza, capital. Expôs o mecanismo da injustiça brilhantemente. O socialismo é o único caminho não só para as relações sociais, mas também para a sustentabilidade, por eliminar - cumpridas todas suas promessas - a exploração do homem (e do meio) pelo homem, para o acúmulo de riquezas, elimina o caráter artificial do que chamamos dinheiro, e a cultura envolvida de consumismo. Os fisiocratas estavam certíssimos: riqueza vem da natureza, no mais das vezes, da tração animal empregada até hoje para produzir qualquer coisa: a força de trabalho - físico e intelectual - humana. A mercadoria mais valiosa de todas, e a menos retribuída.

Cristo: guardei para o fim. Tomemos por históricas as fontes do evangelho - um risco calculado. Jesus disse, entre outras coisas, que é mais fácil passar um camelo (corda) pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus. No meio de uma turma até hoje chegada ao vil metal - e quem quiser me chamar de antissemita fique à vontade, ainda que não seja verdade. A atividade de empréstimo a juros, a usura que o catolicismo condenou, atividade tradicional deles (e boa parte da explicação do ódio de que foram vítimas), é peça fundamental da engrenagem do capitalismo. Uma forma de especulação de risco zero: se ele pagar eu recebo tudo mais um pouco, se não pagar, executo a garantia ou ainda, tenho ao devedor preso a uma obrigação. A atividade bancária foi um corolário e a especulação com papéis sua evolução: continua-se a criar riqueza a partir da riqueza, nada se produz.

Enfim, nem era disso que estava falando: dizia que a mensagem de Cristo é análoga ao socialismo. Nada novo nisso, vide O Evangelho Segundo Mateus, do marxista Pier Paolo Pasolini, e vide a Teologia da Libertação, pela qual Leonardo Boff sofreu a perseguição do cardeal Ratzinger, que nada tem de Bento. Infelizmente o cristianismo que surgira como instrumento de libertação, foi se infiltrando no poder e se converteu (sem trocadilho) em instrumento de dominação.

A Reforma que veio depois foi uma necessidade burguesa: Roma agarrava-se aos farrapos do feudalismo, enquanto os povos do norte europeu já tinham outra mentalidade. Decidiram que não era pecado ficar rico, e sim um indício de predestinação; e ao mesmo tempo, convenientemente - à medida em que se ampliavam os horizontes do assim chamado mundo conhecido - decidiram que alguns não eram eleitos. Católicos e Protestantes saíram para saquear o mundo com a Bíblia debaixo do braço, e as igrejas comiam o seu bocado, abençoavam o dreno de metais preciosos e lucros de atividades agrícolas para a Europa. No sul, essa riqueza fortaleceu uma aristocracia que deu trabalho pra eliminar; no norte, impulsionou a Revolução Industrial. E sabemos até onde ela nos trouxe. Um modo de vida insustentável, exploração em escala global, por uma dúzia de corporações, de recursos e principalmente braços; atmosfera, água, solo, tudo: estamos acabando com nossa fonte de vida para que essa riqueza flua para o Norte, para contas em Paraísos Fiscais. E em pleno século XXI ainda se usa a fé para legitimar agressões bélicas com objetivos econômicos.

Agora, imaginando que uma sociedade socialista global levaria, a partir de hoje e havendo um desejo razoavelmente disseminado, uns cinco séculos para se concretizar, pergunto-me: quem serão os herois e os mártires desse período? E, mais importante, quem serão os hereges?

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