domingo, 29 de novembro de 2009

O Correio Arrudense


José Roberto Gargamel (na imagem), governador do DF pelos Demos, é pego, em investigação da PF que vazou para a imprensa, dividindo dinheiro de propina. Fala-se abertamente em pagamento à base aliada no legislativo. É o maior assunto do Distrito Federal, confere?

O Correio Braziliense é o maior jornal de Brasília, em termos quantitativos pela pujança do grupo herdeiro de Chatô, e em termos qualitativos apenas pela total indigência de seus concorrentes. É uma publicação cheia de erros e impropriedades, tendenciosa como de costume, mas que aspira ao posto de "jornalão".

Bem, a manchete de sábado era bem peculiar. Sem nomear Gargamel, ou o crime, dizia que "GDF e distritais são alvo de investigação." Mas a foto - e a maior parte - da capa eram dedicadas a uma série de demonização do usuário de drogas, metiê favorito do diário. Por que não uma foto de Gargamel com maços de dinheiro na mão? Bem, vem o domingo e temos na capa... drogas de novo. Uns 5cm da página vão para o caso, mais uma vez sem citar Gargamel. A manchete interna era um singelo "Pedido de Explicações". Engraçado é que, dependendo do partido dos envolvidos, o veículo pularia - mesmo sem provas cabais como estas - de cabeça no sensacionalismo o mais irresponsável, para sangrá-lo politicamente a todo custo.

O Jornal Nacional entrou com tudo no caso, espetacular que é, não amaciou pela coloração política do acusado (que é verde mas não tem nada com o PV). E com algum constrangimento elogio a atitude da emissora, que nada mais é do que a obrigação jornalística ante provas tão contundentes, audiovisuais, contra um governador de uma unidade federada. Mas pairam suspeitas sobre a cruzada midiática: seria preciso incinerar o Gargamel antes que ele contagie o Conde Drácula, de quem seria certamente o vice. Estratégia arriscada. Talvez seja o gosto do sensacionalismo. Mas... e o Detran-SP, o Roubanel e o Saresp, que nunca respingam no Vampiro? Enfim, o Correio é pior que a Globo (em todos sentidos). Na gestão de Roriz, teve o mesmo comportamento. É mais realista que o rei, na mão de quem come. Sérgio Motta que o diga...

A Confecom é repleta de boas intenções, mas nossa realidade é que a mídia local é só mais um capataz dos coroneis de sempre. E isso não muda por decreto. Em tempo de declínio do jornal impresso, é de se perguntar se vale a pena lutar nessa seara. Talvez seja o caso de criar portais jornalísticos locais independentes, é bem mais barato que qualquer outro medium.

sábado, 28 de novembro de 2009

Folha: Não dá mais para ler


Eu confesso que, como muita gente, andei iludido. Achei que podia confiar, cheguei a acreditar mesmo, mas estou cada vez mais decepcionado. Revoltado até. Não, não falo de nosso governador Arruda - em quem não votei -, aquele que no mesmo dia em que é pego com a boca na botija deflagra uma campanha de marketing em bares, com um exército de Papais-Noéis verdes e os malditos panfletos. Não me refiro tampouco ao presidente, em quem votei em 1998 e 2002 e que me decepcionou no mensalão, mas principalmente por fazer um governo cor-de-rosa bem pálido, quase transparente; mas cujos resultados, livrando-me do coro à minha volta e das garras da mídia, passei a admirar.

Estou decepcionado, revoltado e muito puto mesmo com um veículo o qual eu sabia ter um viés, mas com algum espaço para pluralidade, e acima de tudo seriedade, integridade jornalística. Um jornal que eu comprava, cheguei a assinar um bom tempo. E que agora desmorona: a Folha de São Paulo; ou, como eu gosto de chamar spooneristicamente, Lhofa de Pão Saulo. A Folha resolveu seguir a trilha da Veja: ofensa, baixaria, apelação: mentira enfim. Ocorre que só quem embarca nessa é quem já está espumando, contra o Lula no caso; os críticos moderados, sensatos, do governo (eu seria um) e seus apoiadores, que porventura reputassem ainda o jornal, vão deixar de assiná-lo ou comprá-lo. E as vendas da Lhofa já estão ridículas, tomara que os Frias fechem a bodega.

Um tempo atrás houve um caso menor, mas sintomático. Colunista econômico, Alexandre Schwartzman - devidamente identificado, em letras minúsculas, como funcionário do Santander, portanto parte interessada - escreveu um artigo grosseiro em que não explicou fundamentos de economia ao público, ou sequer defendeu uma tese ou proposta, envolto em jargão que fosse: partia para a desmoralização debochada de qualquer posicionamento econômico diferente do seu (a ortodoxia que atende aos bancos, é claro). Insinuou que economistas heterodoxos teriam fumado maconha para formular suas teses. Não deveria ser um insulto, mas em nossa sociedade é.

Depois foi a questão blecaute, em que a "grande" mídia em uníssono quis sangrar o governo, e nada obteve. Mas acompanhar as manchetes da Folha em linha foi até engraçado. Manchetes como "Caos Urbano: pessoas não conseguem atravessar a rua", "Polícia nega onda de saques" - manchete negativa, mas é sempre a manchete que cola, e a parte do impacto -, "Ligações para 190 duplicam" e lá dentro você descobre que a maior parte das ligações eram pedidos de informação, e que as ocorrências de fato caíram. Na Band, o Bóris falava (a quem tinha energia): "Não saiam de casa!" Foi um circo.

Outros absurdos certamente foram publicados sem que eu (que não compro esta porcaria mais) tenha ficado sabendo. Mas o exemplar (nada exemplar) de ontem foi ao zênite do disparate. Em dois momentos. Primeiro ao comentar uma peça publicitária que usaria as vozes de Lula e Dilma para anunciar um papel higiênico (que supostamente deixara de ser para os ricos para ser para todos). O mau gosto da campanha à parte, só mesmo alguém muito mal intencionado - já que estúpidos eu sei que não são - poderia por a culpa no presidente, que teria jogado "a liturgia do cargo pela privada". Não foi o pior.

O pior foi reservar duas ou três páginas (que, ao contrário do papel higiênico, para nada servem) para atacar o filme sobre o Lula, e colocar uma nefasta cereja no topo do sândei: uma entrevista com Cesar Benjamin, esquerdista que participara da campanha lulista em 1994, e que solta, displicentemente, uma acusação seriíssima contra Lula. Conta de uma conversa em que Lula teria puxado assunto sobre a prisão e, após dizer que "não aguentaria ficar sem boceta", teria narrado uma tentativa de estuprar um rapaz, quando preso no DOPS. O DOPS da "ditabranda" de Otavinho. Bem, hoje parece que veio o desmentido, o contraditório, ao menos, bem escondido, depois da blogosfera pescar vários depoimentos negando tal absurdo: Paulo de Tarso desmente o teor da conversa e nega que Benjamin lá estivesse, o que confirma Sílvio Tendler (o publicitário de quem "não se lembrava" Benjamin), acrescentando a versão (para mim) definitiva: foi só uma piada, e todos sabiam que rea uma piada. De certo mau gosto, no melhor estilo "machão" brasileiro (onde o ativo não é homossexual), mas uma piada.

Pois não deveria nem me indignar, isso é ótimo para derrubar de uma vez a credibilidade do diário da Barão de Limeira. Pena é que o Estado, que é sério, seja conservador demais, que o Globo, já sendo dos Marinho, esteja escorregando a mesma ladeira da Folha. E o que sobra? Os tabloides de esquerda, que nem são vendidos aqui em Brasília? A porcaria do Correio Braziliense? Não sobra nada. Mas temos os blogues, onde é preciso também filtrar com cuidado, pois há muito de espírito de "briga de torcida". Mas aquilo de sentar na praça e abrir um jornal está em extinção. Aliás, em Brasília nem tem praça direito, mas isso é outra conversa.

O blogue do Nassif tem trazido discussões mais aprofundadas, que recomendo: Um jornal sem rumo.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Caetano Redux, ou Stalin vs. Roosevelt


Caetano tem uma outra canção digna de nota, mas nunca fui com sua fuça. Muito antes de ele assumir um protagonismo Anti-Lula que lhe vai custar qualquer credibilidade que lhe pudesse restar. Não faz muito, disse do presidente-operário que ele seria analfabeto e grosseiro. Na última entrevista de Lula, com Kennedy Alencar (Folha/Rede TV), o presidente usou palavras como "abdicar", "liturgia" ou "introjetar", e deu um espetáculo; não é um erudito, e não precisa sê-lo, mas não há nada que o desabone linguisticamente. Aliás, Caetano já recebeu umas bordoadas do linguista Marcos Bagno por seu elitismo estúpido.

Pois agora Caetano embarca na falácia do "culto à personalidade". E o compara aos malvados ditadores da esquerda, esquecendo o pluripartidarismo e a liberdade de imprensa (que serve exatamente para que setores abonados, como os Marinho que lhe deram voz desta feita, vilipendiem atabalhoadamente o supremo mandatário); esquece ainda que se há publicidade oficial, ela é sempre dos projetos, e nunca vinculada à efígie do ex-metalúrgico. Eis a pérola:

"Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior."

Ele parece que não lê os jornais onde dá seus pitacos, nem assiste à TV. Ou sabe o que acontece e é cínico bastante para ir adiante, que é o mais provável. Mas pouco me importa. O que quero aqui levantar é a comparação - esdrúxula, sabemos - de Lula com Stalin. Talvez seja uma boa comparação, se escolhermos o quesito "mortes e campos de trabalho" vs. "vidas salvas da miséria absoluta e geração de emprego". E - cá entre nós - os que acusam Stálin, com bons motivos, de ser um assassino, não deveriam esquecer que seu Exército Vermelho derrotou Hitler... mas eu digrido.

Eu gostaria mesmo de propor outra comparação: de Lula com Franklin D. Roosevelt, ficando assim na mesma época. Como Roosevelt, Lula se viu obrigado a enfrentar uma crise cíclica do capitalismo, um estouro de bolha especulativa. Ambos socorreram o setor financeiro e adotaram medidas para aquecer a economia e gerar empregos. E tiveram êxito reconhecido globalmente. A diplomacia do americano foi acertada, entrando para a II Guerra apenas quando era impossível manter-se neutro ante o fortalecimento de Hitler e do Japão no Pacífico. A política externa do brasileiro foi extremamente benéfica, foratalecendo laços com países no mesmo patamar, e mantendo uma neutralidade salutar ante anos de submissão à Potência (ver postagem anterior). FDR, por fim, era extremamente popular nos EUA, como Lula o é aqui; a diferença é o tratamento dispensado pela imprensa. Isso é porque Roosevelt não representava forças desde sempre alijadas do poder, a incomodar os tradicionais mandarins que se refugiaram na imprensa, impotentes no campo político.

Por fim, Roosevelt quebrou uma regra não-escrita da democracia americana e governou por três mandatos, morrendo no início do quarto. Falou-se um bocado, por aqui, em quebrar uma regra (há pouco) escrita para permitir um terceiro mandato. Um referendo popular, se se permitisse que fosse realizado, facilmente garantiria a extensão da Era Lula. Mas ele optou por não seguir o exemplo do antecessor (mesmo consideradas as diferenças de lisura no processo) que mudou a Constituição para alterar a regra eleitoral. Agora, Lula querendo, dificilmente algo impede seu retorno em 2014.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Diplomacia Brasileira e o Nobel


O Brasil sob Lula criou uma nova inserção para si na seara diplomática. Firmar parcerias comerciais Sul-Sul e extrapolar nosso papel de potência média regional para potência média global (fazendo por merecer a inclusão no BRIC) é apenas um exemplo, fomentar a integração regional da américa Latina é outro, e tudo sem romper relações com a Águia Norteamericana, relações estas que só estremeceram com a visita de Ahmadinejad.

Setores da mídia não fazem questão de ressaltar que esta fez parte de uma série de três recepções estratégicas, sendo as outras duas a do israelense Perez (que, aliás, merecia muito mais protestos) e do desmoralizado presidente da ANP, Abbas. Não é que Lula se ofereça para mediar o conflito mais espinhoso do planeta (mas sua declaração de que a ONU deveria substituir a Águia, parte interessada, foi brilhante); os líderes em questão é buscam o porta-voz dos emergentes para que ele se envolva. A imprensa estrangeira discorda da local, e vê em Lula um estadista respeitado e admirado no mundo todo. Voltando ao chefe-de-estado iraniano e a cobertura jornalística, tentaram dar a impressão de que Lula apoiaria o "pária" em tudo, quando na verdade o discurso do nosso presidente questionou a falta de respeito à liberdade e à diversidade, reafirmou a legitimidade de Israel (posição histórica do país, ainda que eu pense mais como Ahmadinejad, em princípio apenas), e falou corajosamente em desarmamento nuclear, em especial na região, questionando a hipocrisia das potências nucleares que querem encrencar com seu programa - por ora, ao menos - pacífico. Tudo com muita sutileza, e elegância. Amorim é um craque. Mas também pisa na bola e ratificar a controversa reeleição de Ahmadinejad açodadamente foi no mínimo desnecessário.

Agora, outro dia, elogiei a chancelaria de Lula e ouvi que "a diplomacia brasileira sempre foi a melhor do mundo" ou algo nesse tom. Respondi que alinhamento automátcio com os EUA não é boa diplomacia, mas aí me lembrei de um caso particularmente emblemático, que li no Blog do Argemiro: O Itamarty entrou em campo para IMPEDIR que o religioso Dom Helder Câmara, célebre pela preocupação social e pela luta contra a ditadura militar, recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 1970, quando a repressão era máxima e a propaganda estupidamente nacionalista. Mas essa não era uma honraria que agradasse ao regime, não seria um orgulho nacional como a conquista futebolística: seria combustível para seus opositores.

Para digredir só um pouco mais, o laureado de fato foi Norman Borlaug, um dos responsáveis pela chamada Revolução Verde, processo que trouxe ao campo novas técnicas: mecanização, defensivos venenosos, e a inevitável concentração fundiária, responsável pelo sofrimento e pelo êxodo de milhões de camponeses; tal processo apenas se intensificou nos anos 60, iniciara-se nos EUA lá pelos anos 30, como descreve com lírica maestria John Steinbeck em romances como As Vinhas da Ira, que estou a ler.

Bem, eu de minha parte não precisava de mais este motivo para não levar o Nobel da Paz a sério. Basta dizer que Henry Kissinger recebeu um, com extensa ficha corrida de maldades como o 11 de setembro - o do Chile, o do WTC ele apenas ficou encarregado de engavetar; Obama, sem ter feito nada e preparando-se para fazer - caca, é claro - acaba de receber um. Mas Mahatma Ghandi, que levaria o prêmio definitivo por escolha democrática, nunca recebeu um. Adivinha por quê? Porque se opunha à criação de Israel. Mas se Lula insistir em brincar de fazer a paz no Oriente Médio - e sem necessariamente mostrar mais resultados que uma partida de futebol - arrisca-se a ganhar essa dúbia homenagem.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Invenção do Segredo

Foi na Escola de Comunicação que Firmino aprendeu as técnicas de enfiar verdades fabricadas nas cabeças de gentes sem instrução - ou, pior ainda, com instrução mas sem senso crítico.

Antes mesmo de concluir o curso de Jornalismo, foi selecionado em um programa de treineiro. Era um bom texto, tecnicamente, mas - prestando atenção - havia ali sempre um eco de sua cosmovisão etnocêntrica.

Fez questão de se pavonear frente aos "amigos" da faculdade; e até mesmo aqueles do Ensino Médio, que enchiam seu saco chamando-o de Batuque, apelido que ele detestava. Primeiro porque associava a palavra a manifestações culturais e religiosas "inferiores", depois porque era uma tiração de sarro com seu sobrenome - coisa que valorizava por demais.

Firmino Battochio progrediu na corporação: pela competência sim, mas também por trabalhar mais do que aquilo por que era pago, e bajular as pessoas certas.

Chegou à seção de jornalismo investigativo; em uma de suas primeiras reportagens tocou em um ponto nevrálgico para os interesses do jornal, e por algum descuido foi publicado. Depois de muito alvoroço, sendo que por vaidade insistia em prosseguir no assunto, a direção do jornal resolveu dar uma "geladeira" nele: mandaram-no ao Acre, para investigar uma suposta trama de biopirataria.

Do bimotor que saiu de Rio Branco, ele pôde ver: primeiro, enormes fazendas, pastagens escandalosamente extensas; depois, um tapete verde cortado por sinuosidades barrentas; por fim, um traço ocre, como se um tijolo coberto de musgo houvesse sido riscado com um prego.

Era a pista de pouso, única alternativa ao barco (ou voadeira, como é chamada) para chegar a Cidade Alves. Para quem cresceu em Higienópolis, foi um choque. Cidade Alves tinha duas ruas de terra, e quatro vielas interligando-as. Não havia hotel ou pousada, mas não demorou nada para que uma família de ribeirinhos o acolhesse. Ele ofereceu dinheiro, mas os acolhedores só pediram em troca que ele lhes explicasse como usar sua câmera digital. Brincaram um bocado com ela, e suas fotos ficaram lindas. O que é óbvio, já que estavam em plena Amazônia.

Passou então a percorrer a vila perguntando pela presença de estrangeiros. Tudo que ouvia era "num sei de nada não, seu moço" ou algo assim. Já estava ficando irritado com aquela "gente atrasada" e um dia tomou umas a mais no boteco local e saiu xingando a tudo e a todos, vociferando que ele tinha canudo da USP enquanto eles eram um bando de analfabetos.

Um senhor negro se aproximou dele com um sorriso tão beatífico que o desarmou na hora. Apresentaram-se e depois de trocar algumas banalidades, como comentários sobre o tempo, Silvano - era esse seu nome - convidou Batuque para participar, no dia seguinte, de uma cerimônia religiosa em que se consome uma bebida conhecida, dentre outros nomes, como Santo Daime.

Uma vez tomado o Daime, Firmino passou muito mal. Vomitou e borrou-se todo, mas sentia-se ao mesmo tempo muito bem. Viu de repente, no olho da mente, Horácio: justamente seu "inimigo" em tempos de escola, aquele que lhe pôs o indesejado apelido. Sentiu uma vontade súbita de reencontrá-lo e abraçá-lo. Sorria como uma criança, ao som contagiante dos tambores e maracás, e mirando caleidoscópicos mosaicos coloridos.

E o trabalho foi até o romper da aurora, o cansaço e o êxtase se digladiando. Decretado o fim do ritual, Firmino já se convertera em Batuque: era outra pessoa. Podia perceber a sabedoria de um modo de vida diverso do seu. Talvez sua epifania fosse incompleta, mas tinha a impressão de ter aprendido muito.

Já esquecera por completo a biopirataria, e quando retornou à redação, sem bem saber por quê, disse ao chefe (que na verdade nada esperava): "eu descobri tudo, mas é segredo".

domingo, 22 de novembro de 2009

A Confecom e Eu


Caros três leitores, este é dificilmente um blogue no sentido mais restrito, de diário virtual. Mas hoje é exatamente o que faço: narro minha experiência na etapa candanga da Conferência Nacional de Comunicação. Então voilà: querido diário...

Na sexta feira fui até a ENAP, órgão de educação do GDF, onde ocorreria a abertura da etapa da Confecom no DF. Bagunça no cadastramento, normal; pouca gente no auditório, previsível; discursos protocolares, enfadonhos. Saí de lá para conferir o Festival de Cultura Popular na Funarte: maracatu e as gatinhas "alternativas" de Brasília.

No sábado, não consegui chegar cedo como gostaria, mas o evento estava atrasado. Eram eixos temáticos, os três principais: Produção de Conteúdo, Meios de Distribuição e (salvo engano) Direitos e Deveres. Aí onde havia algo a ser dito de fato, as falas foram tolhidas pelo tempo; e não não houve embate entre pontos de vistas conflitantes. Intervenções que não iam além do óbvio por parte do público, com honroso destaque para meu colega de P-Sol, Índio, que cutucou o representante da Band quanto à criminalização do MST (um editorial do telejornal ameaçava até o "gabinete do presidente" de uma "reação dos produtores"). Mas foi uma liberação de cólera que não se traduziu em pergunta, argumento usado pelo pusilânime para não responder nada - e a claque da Band o aplaudiu!. Eu mesmo tentei ter a palavra para falar sobre temas que não vi contemplados: o jabá (pagamento à emissora pela gravadora para fabricar sucessos), a propriedade cruzada de vários meios por um mesmo grupo, e ainda para cutucar o representantes das teles, que vinha com o jargão técnico "tucanizado" para discretamente atacar o projeto governamental de ampliação da rede Banda Larga em nome da "livre concorrência", da "convergência", em prol das gigantes do setor, basicamente estrangeiras. Não me passaram o microfone, OK.

À tarde, ocorreriam os grupos de trabalho. Eu estava inscrito no Tema II: Meios de Distribuição, interessado que sou na radiodifusão livre (pertenci por anos à Rádio Muda, de Campinas). Mas fui me decepcionando aos poucos ao perceber que estavam ali apenas passando a limpo as propostas das entidades: CUT e Intervozes principalmente. Surgiu uma polêmica sobre uma proposta apresentada pelo Movimento GLBT de "garantir a laicidade no processo de outorga". A discussão primeira é óbvia: a redação é clara? Que significa isso? Que igreja não pode ter meio de comunicação? Ou que o processo não pode preterir ou beneficiar uma determinada confissão? Pedi a palavra para dizer que: não, o texto não é claro; que o provável sentido desejado (proibição total) é irreal, vai encontrar uma barreira, mas que poderia-se propor um limite percentual em relação ao total de canais para conteúdo/propriedade religiosos, assim como para qualquer setor da sociedade. E afinal, por que banir igrejas? As outras emissoras também não teriam um viés? "Vamos tomar o lado da Globo?", eu poderia ter dito. Enfim, seguiu a proposta original, com um acréscimo boboca de "garantir a pluralidade bla-bla-bla". E assim foi, mudando uma vírgula aqui, outra ali. Outra discussão: reserva do espectro, com 40% para setor público, 40% para setor privado e 20% estatal. Propôs-se 33% para cada um. Agora eu penso: primeiro, o que exatamente vai diferenciar o público do privado? Uma emissora pública de televisão não vai precisar de um bocado de dinheiro? Esse dinheiro, se não viria do Estado, não seria então dinheiro particular? Estamos falando de quê? TV MST ou TV FIESP? É tudo tão abstrato! E mais: passar um decreto não cria condições materiais para que surjam essas emissoras, e argumentou-se mesmo isto: pretende-se aumentar a reserva para o Estado, que não tem bala na agulha nem para manter sua atual estrutura de comunicação (10%) com qualidade. Por fim, a poderosa ABERT (Emissoras de Rádio e TV) vai simplesmente falar "vem, pode ir entrando, tem espaço para todos..." se hoje abocanha 90% do mercado?

Por isso digo: que lutem então com suas propostas pré-fabricadas, mas não me deem a ilusão de que eu posso participar. E tomara que consigam pelo menos os Conselhos de Comunicação, que seriam (ou poderiam ser) instâncias participativas (para as entidades, não para o cidadão) com poder de se posicionar ante os temas relacionados à comunicação. Mas podem também virar peças acessórias, decorativas. O projeto da Banda Larga também pode ganhar contornos mais democráticos, mas as teles são poderosas e têm o presidente em sua mão (vide a fusão BrT-Oi), além do temível Ministro da Globo, é claro. Quanto a uma real transformação no panorama eletromagnético, sou bem cético.

O que me deixa puto é que se eles elaborassem propostas mais chão-a-chão, como criminalizar o jabá e descriminalizar a radiodifusão sem concessão, poderia haver alguma chance. Espero que algum estado leve essas ideias à rodada nacional. Eu desisto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Soltando Foguetes!


Mandei um poemelho pro Luís Nassif. E não é que ele publicou? Confira:
Os poetas do Blog

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Alô, Marina!

Sobre a postagem Os céticos em relação ao aquecimento, no Nassif.

Eu só acho uns palhaços aqueles que associam o Milenarismo Climático ao socialismo. Ora! São os capitalistas de sempre que querem frear a expansão dos emergentes, é óbvio! A atividade industrial nos países ricos está saturada, as corporações (por vários motivos, legislação ambiental permissiva, por exemplo) produzem na periferia. Aí a China começa a incomodar... e vêm com essa patranha. que vai acontecer? Expandirá a industrialização em países sem meta! Vão-se "lembrar" da África. Quer apostar?

O socialismo é condizente com um ambientalismo sério, porque o modo de produção e os hábitos de consumo do capitalismo (e sua disseminação, a globalização) são insustentáveis. Se todos no planeta consumissem como um americano, seria preciso uns 5 planetas. Por isso querem frear o processo que eles mesmos iniciaram, para manterem seu privilégio. Com uma sociedade socialista (ideal, não as reais), não haveria por que comprar um utilitário esporte para competir, mostrar "sucesso", não se consumiriam tantas bobagens supérfluas, e a produção seria ditada pela racionalidade das legítimas necessidades humanas. O socialismo sustentável, ou ecossocialismo, talvez, é o caminho mais sensato. Creio eu.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Este blogue se solidariza com o Festival de Besteiras na Imprensa, que foi vítima de um hacker. Dificilmente alguém vai ser punido por isso, mas sabemos os prováveis mandantes do crime. Lamentável.

sábado, 14 de novembro de 2009

Ter Grana é Antiético?


Em artigo recente, apontava como uma contradição em termos a caridade das pessoas ricas e conservadoras. Pois, se querem ajudar os pobres, não podem ser pela manutenção do quadro social.

Mas eu mesmo sou frequentemente "acusado" de contradição parecida. Que sejam meus 3 leitores, se muito, os juízes. Usem a caixa de comentários: inocente ou culpado. O crime que me atribuem: pensar à esquerda e ter grana.

A acusação não pode ser descartada com desprezo. Quem pensa que é injusto alguns privilegiados abocanharem a maior parte da renda, entra em contradição se é exatamente um deles. E isso é o bastante para gerar um conflito interno na mente do esquerdista rico.

Mas a argumentação é falaciosa. Se nossa sociedade prega o sucesso pessoal como meta, e funciona na base do cada um por si, quem é que pode ser cobrado por conquistar um bom nível de vida, tendo sido a conquista honesta? Só mesmo um asceta vai escolher a pobreza deliberadamente. Mas, diferente de ganhar bem, e ter um automóvel, um imóvel, é viver no desperdício e na ostentação, no mundo frívolo que é disseminado como o ideal, pela televisão. Isso complicaria a situação do réu. Como o faria, por exemplo, detestar guardador de carro e pedinte, coonestar o extermínio policial e parapolicial em nome da faxina etnossocial. Finalmente, ninguém deve ser obrigado a adotar o ideário adequado à camada social (ou estamento) em que nasceu e vive. Talvez isso fosse até bom no Brasil - onde, já dizia Tim Maia, pobre é direita; teríamos rapidamente uma revolução, coisa que nunca ocorreu nos tristes trópicos, apesar do abuso da palavra.

Uma esquerda deve ser composta de inúmeras tendências necessariamente: enquanto a direita diz "concordo", quem diz "discordo" deve propor alternativas, que são virtualmente ilimitadas. Por isso a pluralidade é marca da esquerda e a representatividade de diversos setores da sociedade - e o grau de concerto entre eles - são o segredo da mudança. Obviamente, uma esquerda só de operários seria melhor que uma só de intelectuais, mas nenhuma delas vicejaria.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Chomsky: Brasil e América Latina (traduzido)


Leosfera:
O Brasil é agora reconhecido como uma espécie de líder do mundo em desenvolvimento, e o presidente Lula - que acaba de receber um prêmio de Estadista do Ano - como uma espécie de porta-voz dos BRICs, muito embora a imprensa local adira às elites históricas (das quisl é parte inseparável) e abertamente tenta desestabilizar seu governo. À luz desta nova posição, é justificado, a seu ver, o anúncio da compra de caças e submarinos atômicos para "defender a Amazônia e as reservas de petróleo em mar profundo" como alega Lula, quando os mesmos fundos poderiam melhorar o padrão de vida se investido em infraestrutura básica tal como saneamento e transporte (as ferrovias brasileiras são virtualmente inexistentes)? Parece-me um tanto absurdo pensar que a Marinha dos EUA, por exemplo, viria e roubaria nosso petróleo, ou que a Amazônia possa ser defendida de cima quando ela é ameaçada por biopiratas e extração ilegal de madeira (problemas mais chão-a-chão, sem trocadilho). E quanto a outros no continente se juntando, em menor grau, à corrida armamentista - iniciada há muito por Chávez? Seria uma reação ao fato de ser a Colômbia um títere dos EUA e ao anúncio das sete novas bases? Mas afinal, poderia qualquer país resistir a uma invasão americana se as coisas chegarem um dia a esse ponto?

E quanto ao papel de protagonista na missão de paz do Haiti, o sr. o vê como um importante e efetivo esforço em ajudar o país mais pobre das Américas, ou uma legitimação de um golpe levado a cabo pelos EUA? Os grupos que nossas forças devem desarmar, não são eles movimentos de resistência popular e não apenas criminosos? Finalmente, sobre Honduras. A imprensa local apoiou a ditadura quando Lula abrigou Zelaya na embaixada brasileira: nosso maior jornal [Folha] publicou a visão de [John] Negroponte (que, segundo relatos, encontrou-se com Micheletti dias antes do golpe). E me parece que sua proposta de esperar as eleições "para que um terceiro nome assuma e tudo se resolva" é em boa medida a política americana, apesar da posição oficial de não ratificar eleições sob o regime. Recentemente os acordos se mostraram muito instáveis e fracassaram - nenhum ditador simplesmente pede desculpas e se retira. O que o sr. vê como o desfecho mais provável?

Noam Chomsky:

Uma má escolha em minha opinião, embora os temores não cheguem a ser paranoia. Há, afinal, uma história, que não pode ser simplesmente apagada, e os EUA estão incrementando sua militarização na região, continuando sob Obama.

O Haiti foi sujeito a um golpe de parte de seus torturadores habituais, França e EUA. Deixou-se uma situação tão horrenda que alguma intervenção internacional era provavelmente legítima. O registro brasileiro tem sido horrível, a julgar pelos relatórios de monitores de direitos humanos.

Não me surpreende a posição da imprensa brasileira, a julgar por minha exposição limitada. Os EUA se põem agora em isolamento com o resto do hemisfério, e a Europa, ao efetivamente endossar as eleições mesmo com o presidente eleito removido por um golpe e forças populares sub intenso ataque. Citar Negroponte é digno de nota. Ele é um proeminente terrorista internacional e apoiador da espécie de crimes viciosos dos quais os brasileiros podem facilmente se lembrar de sua ditadura apoiada pelos EUA.

Penso que o desfecho mais provável é que a posição de EUA-Micheletti sairá vencedora, a menos que haja forte oposição dentro da America Latina. Improvável nos EUA, infelizmente, onde o assunto é pouco conhecido.

NC

Chomsky: Brasil e América Latina


Leosfera:
Dear Professor Chomsky,

Brazil is now recognized as a sort of leader of the underdeveloped world, and president Lula - who has just received a "Statesman of the Year" award - as a sort of spokeperson for the BRICs, even though local press adheres to historical elites (of which is part and parcel) and openly tries to destabelize his government. In view of this new position, is it justified, in your view, to announce the purchase of fighter jets and atomic submarines to "defend the Amazon and the deep-ocean oil reserves" as Lula claims, when the same funds could improve life standards if invested in basic infrastructure such as sanitation and transportation (brazilian railways are virtually inexistent)? It seems a bit absurd to me to think that US Navy, for example, would come and rob us of our oil, or that the Amazon could be defended from above when it's threatened by biopirates and illegal lumber extraction (more down-to-earth problems, no pun intended). What about other countries in the continent joining, to a lesser extent, the arms race - initiated long ago by Chávez? Is it a reaction to Colombia's being a puppet of the U.S. and to the announcement of the seven new bases? But in the end, could any country resist an american invasion if things should ever come to this?

As for brazilian lead role in the Haiti peace mission, do you see it as an important and effective effort in aiding the most impoverished country of the Americas, or a legitimation of a coup led by the U.S.? The groups our troops are supposed to disarm, aren't they popular resistance movements, political in nature and not merely criminal? And finally about Honduras. Local press supported the dictatorship when Lula sheltered Zelaya in the Brazilian embassy: our major newspaper published Negroponte's (who was reported meeting Micheletti days before the coup) views. And it seems to me that his proposal of waiting for the elections "so a third name is sworn in and all is fine" is pretty much US policy, despite official position of nor ratifying elections under the regime. Recently the agreements proved too unstable and failed - no dictator simply apologizes and leaves. What do you see as the likeliest outcome?

Muito Obrigado.

Noam Chomsky:
A bad choice in my opinion, though the fears are hardly paranoia. There is, after all, a history, which can't just be wiped away, and the US is stepping up its militarization in the region, continuing under Obama.

Haiti was subjected to a coup by its traditional torturers, France and the US. It left such a horrendous situation that some international intervention was probably in order. The Brazilian record has been awful, judging by the reports of human rights monitors.

I'm not surprised at the stand of the Brazilian press, judging by my limited exposure. The US now stands in isolation from the rest of the hemisphere, and Europe, in effectively endorsing the elections even with the elected President removed by a coup and popular forces under sharp attack. Quoting Negroponte is quite remarkable. He is a leading international terrorist and supporter of the kind of vicious crimes that Brazilians can easily recall from their own US-backed dictatorship.

I think the likeliest outcome is that the US-Micheletti position will win out, unless there is strong opposition within Latin America. Unlikely in the US, unfortunately, where the matter is little known.

NC

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Caridade vs. Conservadorismo

Eu entendo que a caridade é uma virtude cristã muito prezada, e que quem a pratica geralmente o faz com ótimas intenções. E que há uma diversidade de circunstâncias em que a caridade é feita.

Mas falemos especificamente da caridade das pessoas ricas; as que têm dinheiro de sobra. Essa gente que dá roupas, calçados e brinquedos usados para "amenizar a penúria dos pobres", ou que doa a uma entidade assistencial, e repete o "não dê esmola" por aí. São pessoas geralmente (ou sempre) conservadoras. Pois bem, conservador é alguém que prefere que as coisas sigam como estão, com meia dúzia de mudanças lampedusianas; ocorre que se incluem nas coisas a conservar: a desigualdade de renda, a fome, o analfabetismo, o trabalho degradante... a pobreza enfim.

Então os ricos caridosos são rematados hipócritas? Não por isso, a definição de hipócrita do evangelho não se aplica aqui: não se recusam a adotar para si critérios com que julgam os outros. São apenas contraditórios. Mas, ainda assim, seria melhor se passassem a reconhecer que apenas precisam se livrar da roupa velha, ou só doam porque podem abater do imposto. Sem esquecer o índice de picaretagem das entidades, nada desprezível.

Ou então, e fica a sugestão muito séria, reúnam-se todas as doações em fundos que invistam em escolas profissionalizantes, infra-estrutura para a população humilde (a partir de sua própria demanda), cooperativas que gerem emprego, e outros benefícios mais duradouros que uma camiseta furada.

Não basta dar o peixe, é certo; e não se trata de ensinar a pescar: eles não passam fome por incompetência. Há que se dar vara e anzol (qualquer um aprende a pescar) e é preciso que não haja alguém pescando com dinamite no rio.

Os Androides do Status Quo

Todos nós já vimos um. Eles estão em toda parte. Muitos de nós somos um deles, sem saber. E aqueles de nós que veem a realidade sem as lentes coloridas da mídia certamente já se enfureceu com um deles, enquanto eles mantinham uma calma suspeita.

São os androides do status quo. Essa é uma categoria de autômatos, programados para agir e pensar como seus programadores determinam. Um androide está pronto a repetir os mesmos proto-argumentos por toda a superfície do país e do mundo. Está pronto a repetir uma mesma frase sempre que ouvir determinada palavra. Androides são incapazes de diálogo, nunca consideram o interlocutor. Pior, foram programados para desmoralizar o interlocutor, bagunçando o debate - que é terreno hostil. O hardware dos androides trabalha com lógica positiva: eu estou, e sempre estarei, certo. Um sinal zero da variável dispara mecanismos de auto-defesa pró-ativos. Ou seja, mecanismos de ataque. Pessoal.

Os androides do status quo não necessariamente se beneficiam com ele, são muita vez suas vítimas, mas como não se cuidou para que fossem plenamente humanos, aderem à programação neuro-linguística do sistema operacional. Como apontou o sociólogo Sebastião Rodrigues Maia [Maia, 1983, pg.75].

Os androides são fabricados pelo método convencional (por enquanto), e crescem em sociedade, livres, normalmente, como um ser humano. Mas as técnicas do sistema operacional Capitalismo 2k9 fariam inveja ao Aldous Huxley: cada androide tem dois pares de receptores que captam ondas eletromagnéticas e/ou acústicas; essas ondas proveem de uma fantástica aparelhagem que, se não é o último grito da tecnologia, tem sua disseminação proibida por lei específica. Há hoje brechas na Matriz, e as forças leais ao status quo se viram obrigadas a combater no mesmo terreno o sinal pirata.

As últimas notícias dão conta do refluxo dos androides ante a resistência humana, e analistas acreditam que a reação do sistema operacional ainda é tímida. Teme-se a derramada de sangue, e dizem que o software da guerra civil está nos estágios finais de desenvolvimento, prestes a ir ao mercado. Alguns sinais de emissoras e repetidoras já trazem um marketing agressivo para o produto.

É a melhor hora de ser humano.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Fronteira Agrícola?

Do Nassif:O Brasil e o encontro de Copenhagem

“Exigem que renunciemos à expansão da fronteira agrícola, sem a garantia de que o aumento de produtividade será capaz de atender à demanda explosiva por comida numa sociedade em que, finalmente, os pobres começaram a comer direito.”

Espera aí, avançar com a fronteira agrícola para o latifúndio produzir commodities de exportação? Alimento é a pequena propriedade quem produz, e já foi devastada terra suficiente para garantir o abastecimento, basta zonear, e democratizar o acesso à terra.

Questionar as intenções e a própria integridade científica da cruzada milenarista do Aquecimento Global não pode servir para desmatar mais, em nome do “progresso” mais arcaico de todos, a monocultura exportadora, o plantation moderno.

Quanto de nossa terra é cultivada “para fora?” 40, 50, 60%? alguém conhece um dado assim? gerar divisas é importante, mas é por esse quadro de atraso, de país agroexportador, que se “justificam” os desmatadores na Amazônia, que precisa de um padrão de desenvolvimento voltado para o futuro, e não para nosso passado – e presente – semifeudal. Não à toa, é no Pará que a escravidão ainda campeia.

Walessa, Mandela e Lula

Lula não é Walesa, no PHA. Meu comentário:
O PT, ou Lula, se analisarmos, também escapou de virar o CNA, ou Mandela, que fizeram tantas concessões (por ingenuidade política e econômica ou por corrupção mesmo) que os racistas continuaram os explorando economicamente, garantindo um projeto neoliberal. Lula fez aliança com o retrógrado e oportunista PMDB, adotou medidas mais à direita, para não “sacodir o barco”, mas manteve uma diplomacia nova e acertada, uma política de renda básica que revela cada dia mais seu sucesso (o maior vai ser quando a molecada que não precisa mais trabalhar terminar o ensino médio), e garantiu crescimento econômico sem fugir da ortodoxia, saldou o compromisso no FMI e agora estamos bonitos na foto (lá fora). Mais recentemente, Lula (ou o PT) tem subido o tom esquerdista, apelando talvez aos decepcionados com seu pragmatismo irrestrito (não rompeu nem com práticas ilícitas), para garantir a continuidade através da ministra Dilma. Atrapalha o fato de Ciro (arrogante que é) ter mais carisma, até por ser homem e nordestino, junto ao eleitorado de Lula. Mas sendo Serra candidato, será bombardeado com o fantasma FHC, não terá nenhuma chance de levar no primeiro turno. Sendo Dilma ou Ciro seu adversário, será bom o embate, e qualquer destes, ganhando, terá Lula a seu lado. Se Serra apodrecer e disputarem Dilma e Ciro, será de novo bom embate, mas penso que Dilma leva. Mas o vampiro ainda tem muito sangue, e assusta até o Conde Drácula. Deus me livre!

domingo, 8 de novembro de 2009

A Madeira da Amazônia


A Folha hoje traz na manchete algo que até os mascates do Ver-O-Peso sabem: a madeira da Amazônia é extraída de forma ilegal. Se o objetivo do veículo é ferir a governadora petista do Pará, ou não, é outra discussão. Meu tio que morou no oeste do Maranhão dizia que "só o que se vê é caminhão de tora", e o que se diz é que, nos postos de controle, "o documento aparece". Então as manchetes deveriam ser "Corrupção está minando a Amazônia". Mas ora, se o tráfico de substâncias ilícitas corrompe porque é uma atividade muito lucrativa (tendo a vantagem de um volume muito menor a ser contrabandeado, e mais rotas), por que o mesmo não ocorreria com a madeira? Madeira nobre, que vale uma fortuna, e que o Brasil nem se tentasse consumiria no ritmo em que é extraída. Quem compra então, senão extrangeiros? Será tão difícil fazer um levantamento das madeireiras lá atuando? Ou não se quer descobrir que são as mesmas basicamente que devastaram a Indonésia? O consumidor norteamericano e europeu, exige madeira certificada? Botar a culpa nos ladrões de madeira que são meros peões de um sistema maior é muito fácil. Em Rondônia, todos sabem que o famigerado Ivo Cassol (governador cassado e descassado) lucra com a extração ilegal de madeira e diamantes (da maior jazida do mundo!). Não merece uma reportagem investigativa? O caso dos diamantes saiu na página 4 ou 5 da Folha, há tempos, e morreu de inanição.

Combate à corrupção, sistema eletrônico de autorizações, militarização da questão (ainda que um tanto perigosa), e a criação de uma estatal de manejo florestal e desenvolvimento sustentável, extrativista e includente (em vez de conceder áreas a grandes grupos privados ou permitir que latifundiários lucrem com a floresta), são o caminho, ou minhas sugestões. E um estudo sério de como, por quem, e para onde, a madeira está sendo escoada. Esta tarefa a imprensa poderia tomar para si. Se não fosse covarde.

sábado, 7 de novembro de 2009

O Tripé para o Brasil


Minha humilde sugestão é um tripé que ataque as principais deficiências do Brasil. 1- Reforma agrária, planejada estrategicamente, considerando potencialidades locais e o interesse nacional - aqui uma cooperativa de mamona, ali alimentos, acolá algodão e mais adiante caprinos, etc. É preciso: muita coragem, e grana do tesouro para indenizações. 2- Malha ferroviária: reduz o consumo de diesel, as emissões de CO2, os acidentes nas rodovias e sua necessidade de reparos constantes. É preciso: capital (público e privado) e tecnologia nacionais - o Brasil já fabricou vagões numa escala razoável, hoje está parado; não sei se fazemos locomotivas. 3- Microcomponentes. Um dos fatores de sucesso da China é que ela não apenas monta eletroeletrônicos como nós, lá se fabricam os chips, placas, processadores, dicos rígidos, etc. Há que se investir em pesquisa para diminuir a dependência tecnológica (detalhe: um projeto de fabricar microcomponentes brasileiros foi sabotado por mercado e governo nos anos de chumbo). Mas por ora atrair uma empresa estrangeira é o mais viável, portanto é preciso: capitais e tecnologia extrangeiros, e atrativos fiscais.
Cada uma das metas esbarra em interesses estabelecidos, resta saber a disposição do governo a entrar em 2011 em quebrar estruturas de privilégio para perseguir o máximo potencial desta enorme nação.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Vilão da Vez

O tema agora é o câmbio: a enxurrada de dólares invadindo o país que melhor resistiu à maior crise do capitalismo de 29 está bombando o Real a cotações que prejudicam as exportações. A taxação de 2% de IOF sobre capitais estrangeiros foi uma grande medida, mais num sentido de justiça (a ATTAC deve ter adorado) e de arrecadação do que de efeito cambial. Estamos atrativos demais!
No blog do Nassif, , o artigo (post, se quiser) Os Preparativos para a Guerra do Câmbio começa com a frase: "O último grande desafio do governo Lula será romper com a lógica da política monetária e cambial." Faz algum sentido porque Lula tem pouco mais de um ano. Mas o leitor Marcelo Pessoa argumenta: "Eu não concordo com essa lógica ufanista do “último grande desafio do governo Lula”. Houveram [sic] vários outros que não foram resolvidos e que ainda se configuram como “desafios” até o final deste governo." Ora, Nassif não disse que Lula havia resolvido tudo mais, não pode ser acusado de ufanista; mas esse é um perigo real.
Eis o meu palpite:
O maior desafio é evitar que desperdicemos esta formidável janela histórica porque a incompetência, a corrupção e os interesses estabelecidos venham a impedir a construção de um país mais justo, moderno e soberano. E Lula não quer desagradar a ninguém, por isso não faz uma reforma agrária mais ousada. Outro desafio, portanto, é a representatividade no Congresso das forças transformadoras. Outro desafio é implantar um modelo desenvolvimentista com uma preocupação de sustentabilidade, de minorar o impacto da atividade produtiva; manter a floresta em pé o máximo possível, e dando meios de susbsistência e renda aos locais, abandonados hoje ao arbítrio de coroneis locais... Os desafios são tantos que fazem as significativas conquistas alcançadas encolherem um pouco, lembrando-nos da importância de evitar o oba-oba.
O câmbio é uma questão de política econômica, crucial, mas outras dimensões econômicas, sociais, P&D, educação e tantas outras, constituem frentes, desafios, a serem enfrentados com ações concertadas, e não um conjunto de pacotes e programas com marketing político por cima.
E esta última crítica não vale apenas para o atual governo, obviamente.