quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Caetano Redux, ou Stalin vs. Roosevelt


Caetano tem uma outra canção digna de nota, mas nunca fui com sua fuça. Muito antes de ele assumir um protagonismo Anti-Lula que lhe vai custar qualquer credibilidade que lhe pudesse restar. Não faz muito, disse do presidente-operário que ele seria analfabeto e grosseiro. Na última entrevista de Lula, com Kennedy Alencar (Folha/Rede TV), o presidente usou palavras como "abdicar", "liturgia" ou "introjetar", e deu um espetáculo; não é um erudito, e não precisa sê-lo, mas não há nada que o desabone linguisticamente. Aliás, Caetano já recebeu umas bordoadas do linguista Marcos Bagno por seu elitismo estúpido.

Pois agora Caetano embarca na falácia do "culto à personalidade". E o compara aos malvados ditadores da esquerda, esquecendo o pluripartidarismo e a liberdade de imprensa (que serve exatamente para que setores abonados, como os Marinho que lhe deram voz desta feita, vilipendiem atabalhoadamente o supremo mandatário); esquece ainda que se há publicidade oficial, ela é sempre dos projetos, e nunca vinculada à efígie do ex-metalúrgico. Eis a pérola:

"Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior."

Ele parece que não lê os jornais onde dá seus pitacos, nem assiste à TV. Ou sabe o que acontece e é cínico bastante para ir adiante, que é o mais provável. Mas pouco me importa. O que quero aqui levantar é a comparação - esdrúxula, sabemos - de Lula com Stalin. Talvez seja uma boa comparação, se escolhermos o quesito "mortes e campos de trabalho" vs. "vidas salvas da miséria absoluta e geração de emprego". E - cá entre nós - os que acusam Stálin, com bons motivos, de ser um assassino, não deveriam esquecer que seu Exército Vermelho derrotou Hitler... mas eu digrido.

Eu gostaria mesmo de propor outra comparação: de Lula com Franklin D. Roosevelt, ficando assim na mesma época. Como Roosevelt, Lula se viu obrigado a enfrentar uma crise cíclica do capitalismo, um estouro de bolha especulativa. Ambos socorreram o setor financeiro e adotaram medidas para aquecer a economia e gerar empregos. E tiveram êxito reconhecido globalmente. A diplomacia do americano foi acertada, entrando para a II Guerra apenas quando era impossível manter-se neutro ante o fortalecimento de Hitler e do Japão no Pacífico. A política externa do brasileiro foi extremamente benéfica, foratalecendo laços com países no mesmo patamar, e mantendo uma neutralidade salutar ante anos de submissão à Potência (ver postagem anterior). FDR, por fim, era extremamente popular nos EUA, como Lula o é aqui; a diferença é o tratamento dispensado pela imprensa. Isso é porque Roosevelt não representava forças desde sempre alijadas do poder, a incomodar os tradicionais mandarins que se refugiaram na imprensa, impotentes no campo político.

Por fim, Roosevelt quebrou uma regra não-escrita da democracia americana e governou por três mandatos, morrendo no início do quarto. Falou-se um bocado, por aqui, em quebrar uma regra (há pouco) escrita para permitir um terceiro mandato. Um referendo popular, se se permitisse que fosse realizado, facilmente garantiria a extensão da Era Lula. Mas ele optou por não seguir o exemplo do antecessor (mesmo consideradas as diferenças de lisura no processo) que mudou a Constituição para alterar a regra eleitoral. Agora, Lula querendo, dificilmente algo impede seu retorno em 2014.

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