quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Chomsky: Brasil e América Latina (traduzido)


Leosfera:
O Brasil é agora reconhecido como uma espécie de líder do mundo em desenvolvimento, e o presidente Lula - que acaba de receber um prêmio de Estadista do Ano - como uma espécie de porta-voz dos BRICs, muito embora a imprensa local adira às elites históricas (das quisl é parte inseparável) e abertamente tenta desestabilizar seu governo. À luz desta nova posição, é justificado, a seu ver, o anúncio da compra de caças e submarinos atômicos para "defender a Amazônia e as reservas de petróleo em mar profundo" como alega Lula, quando os mesmos fundos poderiam melhorar o padrão de vida se investido em infraestrutura básica tal como saneamento e transporte (as ferrovias brasileiras são virtualmente inexistentes)? Parece-me um tanto absurdo pensar que a Marinha dos EUA, por exemplo, viria e roubaria nosso petróleo, ou que a Amazônia possa ser defendida de cima quando ela é ameaçada por biopiratas e extração ilegal de madeira (problemas mais chão-a-chão, sem trocadilho). E quanto a outros no continente se juntando, em menor grau, à corrida armamentista - iniciada há muito por Chávez? Seria uma reação ao fato de ser a Colômbia um títere dos EUA e ao anúncio das sete novas bases? Mas afinal, poderia qualquer país resistir a uma invasão americana se as coisas chegarem um dia a esse ponto?

E quanto ao papel de protagonista na missão de paz do Haiti, o sr. o vê como um importante e efetivo esforço em ajudar o país mais pobre das Américas, ou uma legitimação de um golpe levado a cabo pelos EUA? Os grupos que nossas forças devem desarmar, não são eles movimentos de resistência popular e não apenas criminosos? Finalmente, sobre Honduras. A imprensa local apoiou a ditadura quando Lula abrigou Zelaya na embaixada brasileira: nosso maior jornal [Folha] publicou a visão de [John] Negroponte (que, segundo relatos, encontrou-se com Micheletti dias antes do golpe). E me parece que sua proposta de esperar as eleições "para que um terceiro nome assuma e tudo se resolva" é em boa medida a política americana, apesar da posição oficial de não ratificar eleições sob o regime. Recentemente os acordos se mostraram muito instáveis e fracassaram - nenhum ditador simplesmente pede desculpas e se retira. O que o sr. vê como o desfecho mais provável?

Noam Chomsky:

Uma má escolha em minha opinião, embora os temores não cheguem a ser paranoia. Há, afinal, uma história, que não pode ser simplesmente apagada, e os EUA estão incrementando sua militarização na região, continuando sob Obama.

O Haiti foi sujeito a um golpe de parte de seus torturadores habituais, França e EUA. Deixou-se uma situação tão horrenda que alguma intervenção internacional era provavelmente legítima. O registro brasileiro tem sido horrível, a julgar pelos relatórios de monitores de direitos humanos.

Não me surpreende a posição da imprensa brasileira, a julgar por minha exposição limitada. Os EUA se põem agora em isolamento com o resto do hemisfério, e a Europa, ao efetivamente endossar as eleições mesmo com o presidente eleito removido por um golpe e forças populares sub intenso ataque. Citar Negroponte é digno de nota. Ele é um proeminente terrorista internacional e apoiador da espécie de crimes viciosos dos quais os brasileiros podem facilmente se lembrar de sua ditadura apoiada pelos EUA.

Penso que o desfecho mais provável é que a posição de EUA-Micheletti sairá vencedora, a menos que haja forte oposição dentro da America Latina. Improvável nos EUA, infelizmente, onde o assunto é pouco conhecido.

NC

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