quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Diplomacia Brasileira e o Nobel


O Brasil sob Lula criou uma nova inserção para si na seara diplomática. Firmar parcerias comerciais Sul-Sul e extrapolar nosso papel de potência média regional para potência média global (fazendo por merecer a inclusão no BRIC) é apenas um exemplo, fomentar a integração regional da américa Latina é outro, e tudo sem romper relações com a Águia Norteamericana, relações estas que só estremeceram com a visita de Ahmadinejad.

Setores da mídia não fazem questão de ressaltar que esta fez parte de uma série de três recepções estratégicas, sendo as outras duas a do israelense Perez (que, aliás, merecia muito mais protestos) e do desmoralizado presidente da ANP, Abbas. Não é que Lula se ofereça para mediar o conflito mais espinhoso do planeta (mas sua declaração de que a ONU deveria substituir a Águia, parte interessada, foi brilhante); os líderes em questão é buscam o porta-voz dos emergentes para que ele se envolva. A imprensa estrangeira discorda da local, e vê em Lula um estadista respeitado e admirado no mundo todo. Voltando ao chefe-de-estado iraniano e a cobertura jornalística, tentaram dar a impressão de que Lula apoiaria o "pária" em tudo, quando na verdade o discurso do nosso presidente questionou a falta de respeito à liberdade e à diversidade, reafirmou a legitimidade de Israel (posição histórica do país, ainda que eu pense mais como Ahmadinejad, em princípio apenas), e falou corajosamente em desarmamento nuclear, em especial na região, questionando a hipocrisia das potências nucleares que querem encrencar com seu programa - por ora, ao menos - pacífico. Tudo com muita sutileza, e elegância. Amorim é um craque. Mas também pisa na bola e ratificar a controversa reeleição de Ahmadinejad açodadamente foi no mínimo desnecessário.

Agora, outro dia, elogiei a chancelaria de Lula e ouvi que "a diplomacia brasileira sempre foi a melhor do mundo" ou algo nesse tom. Respondi que alinhamento automátcio com os EUA não é boa diplomacia, mas aí me lembrei de um caso particularmente emblemático, que li no Blog do Argemiro: O Itamarty entrou em campo para IMPEDIR que o religioso Dom Helder Câmara, célebre pela preocupação social e pela luta contra a ditadura militar, recebesse o Prêmio Nobel da Paz em 1970, quando a repressão era máxima e a propaganda estupidamente nacionalista. Mas essa não era uma honraria que agradasse ao regime, não seria um orgulho nacional como a conquista futebolística: seria combustível para seus opositores.

Para digredir só um pouco mais, o laureado de fato foi Norman Borlaug, um dos responsáveis pela chamada Revolução Verde, processo que trouxe ao campo novas técnicas: mecanização, defensivos venenosos, e a inevitável concentração fundiária, responsável pelo sofrimento e pelo êxodo de milhões de camponeses; tal processo apenas se intensificou nos anos 60, iniciara-se nos EUA lá pelos anos 30, como descreve com lírica maestria John Steinbeck em romances como As Vinhas da Ira, que estou a ler.

Bem, eu de minha parte não precisava de mais este motivo para não levar o Nobel da Paz a sério. Basta dizer que Henry Kissinger recebeu um, com extensa ficha corrida de maldades como o 11 de setembro - o do Chile, o do WTC ele apenas ficou encarregado de engavetar; Obama, sem ter feito nada e preparando-se para fazer - caca, é claro - acaba de receber um. Mas Mahatma Ghandi, que levaria o prêmio definitivo por escolha democrática, nunca recebeu um. Adivinha por quê? Porque se opunha à criação de Israel. Mas se Lula insistir em brincar de fazer a paz no Oriente Médio - e sem necessariamente mostrar mais resultados que uma partida de futebol - arrisca-se a ganhar essa dúbia homenagem.

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