sábado, 28 de novembro de 2009

Folha: Não dá mais para ler


Eu confesso que, como muita gente, andei iludido. Achei que podia confiar, cheguei a acreditar mesmo, mas estou cada vez mais decepcionado. Revoltado até. Não, não falo de nosso governador Arruda - em quem não votei -, aquele que no mesmo dia em que é pego com a boca na botija deflagra uma campanha de marketing em bares, com um exército de Papais-Noéis verdes e os malditos panfletos. Não me refiro tampouco ao presidente, em quem votei em 1998 e 2002 e que me decepcionou no mensalão, mas principalmente por fazer um governo cor-de-rosa bem pálido, quase transparente; mas cujos resultados, livrando-me do coro à minha volta e das garras da mídia, passei a admirar.

Estou decepcionado, revoltado e muito puto mesmo com um veículo o qual eu sabia ter um viés, mas com algum espaço para pluralidade, e acima de tudo seriedade, integridade jornalística. Um jornal que eu comprava, cheguei a assinar um bom tempo. E que agora desmorona: a Folha de São Paulo; ou, como eu gosto de chamar spooneristicamente, Lhofa de Pão Saulo. A Folha resolveu seguir a trilha da Veja: ofensa, baixaria, apelação: mentira enfim. Ocorre que só quem embarca nessa é quem já está espumando, contra o Lula no caso; os críticos moderados, sensatos, do governo (eu seria um) e seus apoiadores, que porventura reputassem ainda o jornal, vão deixar de assiná-lo ou comprá-lo. E as vendas da Lhofa já estão ridículas, tomara que os Frias fechem a bodega.

Um tempo atrás houve um caso menor, mas sintomático. Colunista econômico, Alexandre Schwartzman - devidamente identificado, em letras minúsculas, como funcionário do Santander, portanto parte interessada - escreveu um artigo grosseiro em que não explicou fundamentos de economia ao público, ou sequer defendeu uma tese ou proposta, envolto em jargão que fosse: partia para a desmoralização debochada de qualquer posicionamento econômico diferente do seu (a ortodoxia que atende aos bancos, é claro). Insinuou que economistas heterodoxos teriam fumado maconha para formular suas teses. Não deveria ser um insulto, mas em nossa sociedade é.

Depois foi a questão blecaute, em que a "grande" mídia em uníssono quis sangrar o governo, e nada obteve. Mas acompanhar as manchetes da Folha em linha foi até engraçado. Manchetes como "Caos Urbano: pessoas não conseguem atravessar a rua", "Polícia nega onda de saques" - manchete negativa, mas é sempre a manchete que cola, e a parte do impacto -, "Ligações para 190 duplicam" e lá dentro você descobre que a maior parte das ligações eram pedidos de informação, e que as ocorrências de fato caíram. Na Band, o Bóris falava (a quem tinha energia): "Não saiam de casa!" Foi um circo.

Outros absurdos certamente foram publicados sem que eu (que não compro esta porcaria mais) tenha ficado sabendo. Mas o exemplar (nada exemplar) de ontem foi ao zênite do disparate. Em dois momentos. Primeiro ao comentar uma peça publicitária que usaria as vozes de Lula e Dilma para anunciar um papel higiênico (que supostamente deixara de ser para os ricos para ser para todos). O mau gosto da campanha à parte, só mesmo alguém muito mal intencionado - já que estúpidos eu sei que não são - poderia por a culpa no presidente, que teria jogado "a liturgia do cargo pela privada". Não foi o pior.

O pior foi reservar duas ou três páginas (que, ao contrário do papel higiênico, para nada servem) para atacar o filme sobre o Lula, e colocar uma nefasta cereja no topo do sândei: uma entrevista com Cesar Benjamin, esquerdista que participara da campanha lulista em 1994, e que solta, displicentemente, uma acusação seriíssima contra Lula. Conta de uma conversa em que Lula teria puxado assunto sobre a prisão e, após dizer que "não aguentaria ficar sem boceta", teria narrado uma tentativa de estuprar um rapaz, quando preso no DOPS. O DOPS da "ditabranda" de Otavinho. Bem, hoje parece que veio o desmentido, o contraditório, ao menos, bem escondido, depois da blogosfera pescar vários depoimentos negando tal absurdo: Paulo de Tarso desmente o teor da conversa e nega que Benjamin lá estivesse, o que confirma Sílvio Tendler (o publicitário de quem "não se lembrava" Benjamin), acrescentando a versão (para mim) definitiva: foi só uma piada, e todos sabiam que rea uma piada. De certo mau gosto, no melhor estilo "machão" brasileiro (onde o ativo não é homossexual), mas uma piada.

Pois não deveria nem me indignar, isso é ótimo para derrubar de uma vez a credibilidade do diário da Barão de Limeira. Pena é que o Estado, que é sério, seja conservador demais, que o Globo, já sendo dos Marinho, esteja escorregando a mesma ladeira da Folha. E o que sobra? Os tabloides de esquerda, que nem são vendidos aqui em Brasília? A porcaria do Correio Braziliense? Não sobra nada. Mas temos os blogues, onde é preciso também filtrar com cuidado, pois há muito de espírito de "briga de torcida". Mas aquilo de sentar na praça e abrir um jornal está em extinção. Aliás, em Brasília nem tem praça direito, mas isso é outra conversa.

O blogue do Nassif tem trazido discussões mais aprofundadas, que recomendo: Um jornal sem rumo.

Nenhum comentário: