segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Invenção do Segredo

Foi na Escola de Comunicação que Firmino aprendeu as técnicas de enfiar verdades fabricadas nas cabeças de gentes sem instrução - ou, pior ainda, com instrução mas sem senso crítico.

Antes mesmo de concluir o curso de Jornalismo, foi selecionado em um programa de treineiro. Era um bom texto, tecnicamente, mas - prestando atenção - havia ali sempre um eco de sua cosmovisão etnocêntrica.

Fez questão de se pavonear frente aos "amigos" da faculdade; e até mesmo aqueles do Ensino Médio, que enchiam seu saco chamando-o de Batuque, apelido que ele detestava. Primeiro porque associava a palavra a manifestações culturais e religiosas "inferiores", depois porque era uma tiração de sarro com seu sobrenome - coisa que valorizava por demais.

Firmino Battochio progrediu na corporação: pela competência sim, mas também por trabalhar mais do que aquilo por que era pago, e bajular as pessoas certas.

Chegou à seção de jornalismo investigativo; em uma de suas primeiras reportagens tocou em um ponto nevrálgico para os interesses do jornal, e por algum descuido foi publicado. Depois de muito alvoroço, sendo que por vaidade insistia em prosseguir no assunto, a direção do jornal resolveu dar uma "geladeira" nele: mandaram-no ao Acre, para investigar uma suposta trama de biopirataria.

Do bimotor que saiu de Rio Branco, ele pôde ver: primeiro, enormes fazendas, pastagens escandalosamente extensas; depois, um tapete verde cortado por sinuosidades barrentas; por fim, um traço ocre, como se um tijolo coberto de musgo houvesse sido riscado com um prego.

Era a pista de pouso, única alternativa ao barco (ou voadeira, como é chamada) para chegar a Cidade Alves. Para quem cresceu em Higienópolis, foi um choque. Cidade Alves tinha duas ruas de terra, e quatro vielas interligando-as. Não havia hotel ou pousada, mas não demorou nada para que uma família de ribeirinhos o acolhesse. Ele ofereceu dinheiro, mas os acolhedores só pediram em troca que ele lhes explicasse como usar sua câmera digital. Brincaram um bocado com ela, e suas fotos ficaram lindas. O que é óbvio, já que estavam em plena Amazônia.

Passou então a percorrer a vila perguntando pela presença de estrangeiros. Tudo que ouvia era "num sei de nada não, seu moço" ou algo assim. Já estava ficando irritado com aquela "gente atrasada" e um dia tomou umas a mais no boteco local e saiu xingando a tudo e a todos, vociferando que ele tinha canudo da USP enquanto eles eram um bando de analfabetos.

Um senhor negro se aproximou dele com um sorriso tão beatífico que o desarmou na hora. Apresentaram-se e depois de trocar algumas banalidades, como comentários sobre o tempo, Silvano - era esse seu nome - convidou Batuque para participar, no dia seguinte, de uma cerimônia religiosa em que se consome uma bebida conhecida, dentre outros nomes, como Santo Daime.

Uma vez tomado o Daime, Firmino passou muito mal. Vomitou e borrou-se todo, mas sentia-se ao mesmo tempo muito bem. Viu de repente, no olho da mente, Horácio: justamente seu "inimigo" em tempos de escola, aquele que lhe pôs o indesejado apelido. Sentiu uma vontade súbita de reencontrá-lo e abraçá-lo. Sorria como uma criança, ao som contagiante dos tambores e maracás, e mirando caleidoscópicos mosaicos coloridos.

E o trabalho foi até o romper da aurora, o cansaço e o êxtase se digladiando. Decretado o fim do ritual, Firmino já se convertera em Batuque: era outra pessoa. Podia perceber a sabedoria de um modo de vida diverso do seu. Talvez sua epifania fosse incompleta, mas tinha a impressão de ter aprendido muito.

Já esquecera por completo a biopirataria, e quando retornou à redação, sem bem saber por quê, disse ao chefe (que na verdade nada esperava): "eu descobri tudo, mas é segredo".

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