sábado, 14 de novembro de 2009

Ter Grana é Antiético?


Em artigo recente, apontava como uma contradição em termos a caridade das pessoas ricas e conservadoras. Pois, se querem ajudar os pobres, não podem ser pela manutenção do quadro social.

Mas eu mesmo sou frequentemente "acusado" de contradição parecida. Que sejam meus 3 leitores, se muito, os juízes. Usem a caixa de comentários: inocente ou culpado. O crime que me atribuem: pensar à esquerda e ter grana.

A acusação não pode ser descartada com desprezo. Quem pensa que é injusto alguns privilegiados abocanharem a maior parte da renda, entra em contradição se é exatamente um deles. E isso é o bastante para gerar um conflito interno na mente do esquerdista rico.

Mas a argumentação é falaciosa. Se nossa sociedade prega o sucesso pessoal como meta, e funciona na base do cada um por si, quem é que pode ser cobrado por conquistar um bom nível de vida, tendo sido a conquista honesta? Só mesmo um asceta vai escolher a pobreza deliberadamente. Mas, diferente de ganhar bem, e ter um automóvel, um imóvel, é viver no desperdício e na ostentação, no mundo frívolo que é disseminado como o ideal, pela televisão. Isso complicaria a situação do réu. Como o faria, por exemplo, detestar guardador de carro e pedinte, coonestar o extermínio policial e parapolicial em nome da faxina etnossocial. Finalmente, ninguém deve ser obrigado a adotar o ideário adequado à camada social (ou estamento) em que nasceu e vive. Talvez isso fosse até bom no Brasil - onde, já dizia Tim Maia, pobre é direita; teríamos rapidamente uma revolução, coisa que nunca ocorreu nos tristes trópicos, apesar do abuso da palavra.

Uma esquerda deve ser composta de inúmeras tendências necessariamente: enquanto a direita diz "concordo", quem diz "discordo" deve propor alternativas, que são virtualmente ilimitadas. Por isso a pluralidade é marca da esquerda e a representatividade de diversos setores da sociedade - e o grau de concerto entre eles - são o segredo da mudança. Obviamente, uma esquerda só de operários seria melhor que uma só de intelectuais, mas nenhuma delas vicejaria.

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