terça-feira, 22 de dezembro de 2009

De volta a Rondônia



Morei em Porto Velho de 84 a 94, época em que as coisas aqui eram ainda mais precárias; mas fora as constantes quedas de energia - que suavizaram com o advento da usina de Samuel - reconheço que não tinha razão de me queixar por não ter os deslumbres sulistas. Tudo bem que nunca me acostumei ao calor, mas isso é o pensamento do colono: era como se estivesse ali por sacrifício, um dia votaria à "minha terra". Ironicamente foi o que veio a acontecer: depois de passar por Vitória (da qual gostei muito) e Campinas (da qual só falava mal), voltei à capital federal (com a qual tenho minhas questões). Mas digo que sinto orgulho de meu período amazônico.

A última vez que voltara foi em 2002, numa breve inserção em uma viagem para o Acre e o Peru. Desta feita, foi um corolário quase acidental à visita ao Amazonas (a opção inicial era conhecer o monte Roraima). Diziam que Porto Velho mudara muito, o que me pareceu um exagero à primeira vista: a esbórnia urbanística (gostou da aliteração?) segue a mesma: calçadas detonadas, lixo acumulado e água empoçada... Mas a cidade cresceu sim, e melhorou um pouco; só se fala no novo xopincênter, e alguns prédios já ameaçam o império das três caixas d'água (símbolos da cidade) na silhueta da capital. Tudo em função da construção da controversa Usina de Santo Antônio, que acabou com o marco inaugural de Porto Velho, a cachoeira (corredeira, na verdade) de Santo Antônio. Quando concluírem a saída para o Pacífico e a estrada para Manaus, aí sim que o "progresso" capitalista vai tomar isto aqui de assalto.

Tinha por meta conhecer o Forte Príncipe da beira, pois em todos anos que aqui vivi, não conheci nada do interior, fora os eventuais "pousos" em Vilhena, a caminho, ou de regresso, do "Brasil". Então fomos meus tios Edmilson (meu anfitrião), Edinaldo (que de quebra é historiador) e eu rumo a Costa Marques, cidade na fronteira com a Bolívia, aonde não chega o asfalto. No caminho entramos em Ariquemes, para ver o posto do telégrafo do Marechal Rondon: tudo depredado, eu nunca adivinharia não fosse meu tio conhecer o lugar. Entramos ainda em Ouro Preto do Oeste, que se não é nada especial, posso apostar que deu um salto quântico em relação à minha época; pareceu interessante um salto de parapente (que meu tio disse custar R$60) no meio de uma reserva florestal. De fato há apenas manchas de floresta ao longo da estrada, e o boi já tomou tudo. Erramos o caminho e pegamos mais terra do que necessário, viemos pousar em São Miguel do Guaporé. Outra novidade de Rondônia é a proliferação de municípios: Cerejeiras não parecia ter mais que cinquenta casas. Uma farra de cargos e verbas. No dia seguinte chegamos a Costa Marques, uma currutela. Segundo Edinaldo, a povoação original, do tempo do Brasil-Colônia (enquanto a colonização prossegue até hoje) fica na beira do Rio Guaporé, e está deteriorando; a cidade de fato se instalou mais acima - a salvo das recorrentes cheias. O Forte ficava ainda a uns vinte minutos dali, onde há um quartel, e foi um soldado o nosso guia.

A construção foi idealizada e encomendada pelo Marquês de Pombal, o déspota "ilustrado" de Portugal que quis reerguer o combalido Estado português arrochando mais a colonização no Brasil, e garantindo as fronteiras amazônicas com fortificações como esta. Impressiona pela extensão, mas não pela altura. É como um quadrado central com um losango em cada vértice, onde ficavam uma guarita e os canhões. Consegui subir na plataforma de um canhão voltado para o rio, e dava para imaginar um praça de El-Rey defendendo a colônia dos espanhois, no fim do século XVIII. No centro, de paredes bem menos sólidas que as externas (compostas de monólitos de tamanho irregular) havia as ruínas da igreja e da casa do governador; bem na entrada havia uma cadeia, em que um padre ficara preso (e um dos motivos do abandono do forte foi a crença de que a praga do padre, e não as doenças tropicais, estava matando a todos). Diz-se que todos que lá trabalhavam por lá morriam, assim como foi com a Madeira-Mamoré.

A volta teve direito a um inusitado almoço na rodoviária de Rolim de Moura (homenagem ao primeiro titular da Capitania do Mato-Grosso, que incluía a atual Rondônia, e terra do bandidaço Ivo Cassol, governador cassado que se segura ao cargo com muito $$$): cada um ligava sua publicidade no último volume, mais os carros com música... Deu também para perceber como vieram para o estado muitos alemães - e a cultura pomerana também sobrevive aqui. De modo geral, Rondônia foi mais "embranquecida" que o Amazonas, certamente.

Para finalizar, ainda visitei a Cachoeira do Teotônio, que também é na verdade uma corredeira, e com o rio cheio também não dá para ver as pedras, mas ainda é um belo espetáculo; e depois a do santo Antonio, quer dizer, o canteiro de obras da usina. Depois fomos ao cemitério da Candelária, onde foram enterrados alguns das centenas de mortos na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, da qual participaram mais de 50 nacionalidades. Chega-se até lá andando sobre os trilhos e ao lado de várias locomotivas abandonadas, apodrecendo. No cemitério, alguns espertos passaram a usar a terra para plantio, e o patrimônio histórico tem muito pouca atenção: uma cruz feita de trilhos ajudou a designar o local, e algumas sepulturas - às vezes com uma tosca cruz de ferro - foram delimitadas; bem conservadas, apenas as lápides judias, com inscrições em hebraico e português, sobre mármore. No dia seguinte, também na candelária, onde vivem remanescentes dos barbadianos, comemos a tradicional peixada do Ray. Dentres as promessas da usina está reativar o trecho da ferrovia, que funcionou de 1981 a 2000, de Porto Velho (a estação estava fechada para obras) ao Santo Antônio: vamos ver em que sentido será transformado este território, temo que se livrem dos pobres para dar lugar a uma área valorizada.

Um comentário:

LEU LEUTRAIX disse...
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