quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Esboço Piloto


Eu moro em Brasília. Não sei se moro muito bem ou muito mal.

Tomo de empréstimo os versos de Seu Jorge (então ainda no Farofa Carioca) apenas para produzir efeito. Por todos os critérios usados, moro muito bem: moro no Setor Sudoeste. Raramente um vizinho me cumprimenta, e se falam comigo é para quebrar o constrangimento de compartilhar o elevador calado. Por isso meu projeto é me mudar para a Vila Planalto. Uma cidade pequena dentro do Plano Piloto.

Mas a ninguém interessa minha vida. O artigo é sobre a capital. Que foi construída de forma açodada; na melhor das hipóteses foi projetada, sobre uma premissa absurda - o império do automóvel; e o máximo de planejamento foi este: terá meio milhão de habitantes para sempre.

Não faltam as polianas a dizer que é um sucesso; não sei se concordaria quem mora fora do DF e vem trabalhar aqui todos os dias. Pois não há uma única habitação popular no Plano (Esboço, doravante), há cidades-dormitório que insistem em chamar de satélites (que teriam relativa autonomia, por definição).

Irônico é que na cabeça do "comunista" - ingênuo, para dizer o menos - Lúcio Costa, as quadras 400, de apartamentos menores, seriam para os serviçais dos burocratas. Hoje um imóvel desses vale uma fortuna, e as pessoas moram em caixas de sapato, às vezes no subsolo e sem luz ou ventilação apropriadas.

Sem qualquer atividade econômica primária ou secundária significativa, a cidade depende basicamente do Estado e do comércio, além de serviços básicos, para gerar sua renda - que é a maior do país, considerado apenas o Esboço. Nós outros ganhamos bem no funcionalismo, não?

E o transporte? Já disse que o maior erro na concepção de Brasília foi pensar tudo em função do automóvel. Em verdade acreditavam mesmo os ingênuos da época que os burocratas como eu se locomoveriam de ônibus. Se eu morasse em Munique, não teria um carro. Só mesmo alguém muito abnegado o faria aqui, pois o sistema de transporte público é no mínimo precário, com linhas insuficientes, ônibus velhos (recentemente a frota foi promovida de matusalênica a decrépita); e controlado por uma máfia recentemente pega mais uma vez com a boca na botija, por ação de um tocador de apito insatisfeito por qualquer motivo (trata-se do maior bandido de todos). Foi construído um metrô, ligando algumas satélites/dormitório ao Esboço, mas sua abrangência é limitada e, dentro do plano, ajuda nada ou muito pouco: são duas ou três estações ao longo do Eixão, na Asa Sul apenas. Não é preciso dizer que os congestionamentos se avolumam e vaga de estacionamento é sovaco de cobra, como diz meu pai. Em uma década ou menos a cidade trava e a capital vai se mudar pra Amazônia.

Nenhum comentário: