segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Mais Verde Estado



Já havia dito que não queria transformar esta página em um diário pessoal, quanto mais de uma vida tão desinteressante. De corriqueiro, porque às vezes posso fazer coisas, se não extraordinárias, pelo menos merecedoras de serem blogadas.

Voei até Manaus na terça. Na quarta fui até Presidente Figueiredo, a 105km da capital - não ligue para o nome, é ótimo. Comi um delicioso pirarucu fresco - peixe que só conhecia salgado - ao tucupi, um molho amarelo de uma planta amazônica, com uma farofinha de farinha d'água (só falta arrebentar o dente) com banana, e arroz. Fui então de mototaxi até a Cachoeira do Santuário. Você talvez vá lembrar das aulas de geografia e perguntar "mas a Amazônia não é toda plana?" Não é tão simples: também é uma bacia sedimentar, mas lá havia um grande afloramento de basalto (vulcânico). Enfim, só conhecendo um lugar para saber de verdade como é. A cachoeira fica em um imenso vale; depois de um barzinho, desce-se por pontes de tábua até uma calma lagoa com uma prainha de areia, e à esquerda há uma queda d'água que abordamos pelo lado, ao longo de um paredão basáltico; é possível ficar sob a ducha, que deve ser (assim como o conjunto todo) mais impressionante na época da cheia; mais adiante há uma queda ainda mais vigosrosa e turbulenta, que não me pareceu possível alcançar. Vale a pena, para quem tiver a chance, há várias outras cachoeiras, e uma gruta que parece muito bonita pela foto, algo como aquela da Chapada Diamantina. De volta a Manaus, a novidade era a prisão do vice-prefeito, por associação para o tráfico. Mas o taxista garantiu que o titular Amazonino Mendes é "gente boa". "Nunca matou ninguém sem motivo", atalhei.

Na quinta o dia foi reservado para a viagem de "a jato", as lanchas rápidas que fazem o trajeto subindo o Solimões até Tefé. Atingindo até 50km/h, levam treze horas e meia para chegar ao destino com paradas pelo caminho, como Coari, onde a Petrobras tem o projeto Urucu, de extração de petróleo e gás. Afora os filmes bobocas que passam, e os bêbados chatos que entraram em Coari, a viagem é até agradável: passa logo de cara no encontro das águas; o Solimões é um colosso de quilômetros de largura (não achei o dado exato), que forma ilhas fluviais; é ladeado de barrancos, onde é possível ver comunidades ribeirinhas, e mesmo casas bem isoladas; o rio quando sobe vai desbastando os barrancos, e - imagino - depositando nas ilhas os sedimentos; a floresta é um espetáculo de verde, emaranhado de árvores, arbustos, palmeiras.

Um dia de bobeira resolvendo detalhes: não havia passagem de volta para Manaus no domingo; docemente constrangido, fico em Tefé mais dois dias, e mais um dia em Manaus. Infelizmente, a passagem para Porto Velho vai custar o dobro ou mais.


Sábado fui com meu anfitrião Guilherme, professor de antropologia da Estadual do Amazonas e vizinho de Rádio Muda em Campinas (por um tempo, seu Morte a Fatídica veio antes do nosso Coquetel do Mingus), até a comunidade indígena Barreira da Missão do Meio - acabo de voltar. Não é uma aldeia com ocas, são casas de madeira sobre palafitas (devido às cheias do rio), e eles falam português - mas há aulas de Tikuna, a língua de uma das três etnias lá representadas. A visita era parte de um projeto chamado Nova Cartografia Social, e a ideia era ensiná-los a usar o GPS para elaborar o mapa da comunidade. O pobre cartógrafo, o Luís, levou quase 24h para vir de Manaus - problemas com a lancha duas vezes - e comandou a oficina sem descanso. Mas, infelizmente, ocorrera a morte de uma liderança deles, em Manaus, e o corpo ia chegar dali a pouco, então ficamos apenas com a explicação do sistema GPS e do uso do receptor.


De volta a Manaus, nova visita ao Teatro Amazonas, testemunho do explendor do ciclo da borracha, em estilo belle époque. Afora as cadeiras e alguns detalhes, tudo é original e sem restauro, o que é impressionante no clima hostil da floresta - quente e úmido como não se pode imaginar não sentindo na pele. Bustos de Carlos Gomes por todos os lados e mesmo a madeira, que é daqui, ia à Europa para ser beneficiada e voltava. Enfim, um desbunde dos barões da borracha, e a pior etapa das tournées das companhias europeias, que tinham que subir o Amazonas.

Visita ao Rêmulos, apenas um de vários bordeis do centro de Manaus, mas muito bem recomendado. Não decepcionou: primeiro, os preços, R$10 para entrar, R$3 por uma cerveja e R$10 poe um uísque; há primas fazendo estripe o tempo todo, e se o nível das profissionais pode variar, há muitas de cair o queixo. Meu cicerone explicou que o sistema da casa é também formidável: elas não são exploradas pela casa; a casa cobra entrada e vende bebidas além de cobrar pelos quartos (apenas R$15!!!), enquanto elas ficam com todo o cachê (módicos R$60!). Logo ao chegar vi uma morenaça, que me perguntou se eu era hippie (eu usava roupas meio extravagantes), seu nome artístico: Érica. Disse que estava chagando mas que voltaria a falar com ela. Tomando um uisquinho, assistindo aos shows - detalhe, elas também escolhem a música, uma loira muito boa dançou com Nirvana e Audioslave - e quando o cicerone resolve ir (encontraria uma garota), a Érica tinha "sumido". Fiquei chateado, mas não muito tempo, "surgiu" outra morena linda, de olhos rasgados e misteriosos, e um corpão lindo. Seu nome? Érica. Parece sacanagem, meu amor de infância tinha esse nome. Enfim, foi uma boa e revigorante trepada. Recomendo: Rêmulos.

Um comentário:

Miguel disse...

Um hippie na zona...só no Brasil mesmo.

Grande abraço.