sábado, 5 de dezembro de 2009

Hamlet: O Fantasma do Pai

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* Hamlet. Aonde queres me levar? Fala, eu não irei mais longe.

* Fantasma. Escuta-me.

* Hamlet. Assim farei.

* Fantasma. É quase chegada minha hora em que às sulfúreas e torturantes chamas eu devo me entregar.

* Hamlet. Ai-de-ti, pobre fantasma!

* Fantasma. Não me tenhas pena, mas empresta tua séria audição para o que revelarei.

* Hamlet. Fala, estou disposto a ouvir.

* Fantasma. E também a vingar-te, quando escutares.

* Hamlet. O quê?

* Fantasma. Eu sou o espírito do teu pai, condenado, por um certo prazo, a vagar à noite, e durante o dia confinado, a jejuar no fogo, até que os torpes crimes cometidos em meus dias de vida sejam queimados e expurgados. Não me fosse proibido relatar os segredos de minha prisão, eu poderia um conto revelar do qual a mais leve palavra rasgaria-te a alma, congelaria teu sangue jovem, faria teus dois olhos, como estrelas, saltarem de suas esferas, teus cachos alinhados e compostos se desfazerem e cada um dos cabelos eriçar-se como as cerdas do porco-espinho irascível. Mas este trombetear eterno não pode ser para ouvidos de carne e osso. Escuta! Escuta! Oh, escuta! Se tu amaste, em algum tempo, a teu querido pai...

* Hamlet. Oh, Deus!

* Fantasma. Vinga-te de seu torpe e mui inusitado assassínio.

* Hamlet. Assassínio!

* Fantasma. Assassínio o mais torpe, como mesmo o melhor é, mas este, em especial,
torpe, estranho e desusado.

* Hamlet. Conta-mo logo, para que eu, com asas ligeiras como o pensamento e os amores, me atire à minha vingança.

* Fantasma. Eu o considero apto, e tu serias mais apático do que a erva gorda que se enraíza à vontade à margem do Lete, se isto não te incitar. Agora, Hamlet, escuta. Fizeram crer que, dormindo em meu pomar, uma serpente me picou, assim todo o ouvido da Dinamarca é, com uma versão forjada de minha morte, sordidamente ultrajado. Mas sabe tu, nobre jovem, a serpente
que deveras tirou a vida de teu pai agora usa sua coroa.

* Hamlet. Oh, minha alma profética! Meu tio!

* Fantasma. Sim, aquele incestuoso, aquele adúltero animal, com sortilégio de sua astúcia, com pérfidos presentes, oh, malditos astúcia e presentes,
que tanto poder têm de seduzir! conquistou para sua vergonhosa luxúria
a vontade da minha aparentemente tão virtuosa rainha! Oh, Hamlet... Que decandência se deu! De mim, cujo amor era de tal dignidade que ia de mãos dadas com o voto que a ela fiz no casamento, e submeter-se a um mau-caráter cujos dotes naturais eram parcos ante os meus! Mas se a virtude é ínamovível, mesmo que a lascívia a corteje com celeste aspecto, a luxúria, mesmo a um anjo radiante unida, sacia-se num leito celestial e sai à caça de lixo. Mas basta! Acho que sinto o cheiro do ar matinal, que eu seja breve. Dormia eu em meu pomar, meu costume de todas as tardes, e na hora insuspeita veio teu tio, furtivo, com tintura do amaldiçoado meimendro num frasco, e nos pórticos de meus ouvidos despejou o destilado leproso cujo efeito tem tal inimizade com sangue humano que, ligeiro como azougue, ele percorre as portas e caminhos naturais do corpo, e com um súbito vigor
coagula e talha, como gotas ácidas ao leite, o sangue fino e saudável, e assim fez com o meu, e uma erupção instantânea cobriu, com uma vil e abominável crosta, assaz lazarenta, todo meu corpo liso. Assim eu fui, dormindo, pela mão de um irmão, da vida, da coroa, da rainha, de uma só vez privado: ceifado em plena floração de meus pecados, sem sacramento,
despreparado, sem unção, sem ter meu cômputo feito, mas levado a prestar contas com todas minhas imperfeições na cabeça. Oh, é horrível! Horrível!
Horrível por demais! Se carregas em ti a natureza, não o toleres! Não permita que o leito real da Dinamarca seja leito da concupiscência e do incesto maldito. Mas, como quer que realizes este ato, não manches tua mente, nem deixes tua alma engedrar contra tua mãe coisa alguma: deixa-a aos céus, e àqueles espinhos que lhe cravam o peito a pungi-la e aguilhoá-la.
Adeus agora mesmo! O vaga-lume indica a aurora iminente, e começa a minguar seu fogo equívoco. Adieu, adieu! Hamlet. Lembra-te de mim!

* Hamlet. Oh, por toda legião dos céus! Oh, terra! Que mais? E esposarei eu o inferno? Oh, raios! Aguenta, aguenta, meu coração, e vós, meus tendões, não ficai instantaneamente velhos, mas mantende-me firmemente ereto. Lembrar-me de ti! Sim, oh pobre fantasma, enquanto a memória mantiver
assento neste globo distraído. Lembrar-me de ti! Sim, da mesa de minha memória limparei todos triviais doces registros, todos resquícios de livros, todas formas, todas impressões passadas, que a juventude e a observação lá copiaram, e teu mandamento de todo só viverá no livro e volume de meu cérebro, sem mistura de mais chã matéria: sim, pelos céus! Oh, quão perniciosa mulher! Oh, vilã, vilã, sorridente, maldita vilã! Minhas mesas, apropriado é que eu ponha no papel, que alguém pode sorrir, e sorrir, e ser um vilão, pelo menos, estou certo, pode ser assim na Dinamarca. Então, tio, ei-lo. Agora à minha palavra. É "Adieu, adieu! Lembra-te de mim". Assim jurei.

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