domingo, 6 de dezembro de 2009

A História do Bom Brâmane

Tradução que fiz de um "conto exemplar" de Voltaire



Conheci em minhas viagens um bom brâmane, assaz sábio, cheio de espírito e muito culto; ademais, era ele rico, e, portanto, era assim ainda mais sábio: porque, não lhe faltando nada, ele não tinha necessidade de enganar a ninguém. Sua família era muito bem governada por três belas mulheres que se dedicavam a lhe agradar; e, quando não se entretinha com suas mulheres, ocupava-se de filosofar.

Perto de sua casa, que era bela, ornada e cercada de jardins encantadores, habitava uma velha Indiana, devota, imbecil e bastante pobre.

O brâmane me disse um dia: “Eu desjaria jamais ter nascido.” Perguntei-lhe por quê. Ele me respondeu: “Eu estudo há quarenta anos, são quarenta anos perdidos; eu ensino aos outros, e tudo ignoro; este estado enche minha alma de tanta humilhação e desgosto que a vida me é insuportável. Eu nasci, vivo no tempo, e não sei o que o tempo é; eu me acho em um ponto entre duas eternidades, como dizem nossos sábios, e não tenho a mínima idéia da eternidade. Eu sou composto de matéria; eu penso, não pude nunca me instruir sobre o que produz o pensamento; eu ignoro se meu entendimento é em mim uma simples faculdade, como aquela de andar, de digerir, e se penso com minha cabeça como pego com minhas mãos. Não somente o princípio de meu pensamento me é desconhecido, mas o princípio de meus movimentos me é igualmente secreto: eu não sei por que existo. Enquanto isto, fazem-me a cada dia perguntas sobre todos esses pontos; é preciso responder; eu não tenho nada de bom a dizer; eu falo muito, e me torno confuso e envergonhado de mim mesmo depois de ter falado.

“É bem pior quando me perguntam se Brahma foi produzido por Vishnu [N.doT.:Na verdade foi pela Ambev] ou se são ambos eternos. Deus me serve de testemunha de que não sei disso uma palavra, e ele lá está ele em minhas respostas. 'Ah! Meu reverendo pai, dizem-me, ensine-nos como o mal invade toda a Terra' Eu estou tão preocupado quanto os que me fazem essa questão. Eu lhes digo por vezes que tudo é o melhor do mundo; mas aqueles que têm pedras nos rins, aqueles que foram arruinados e mutilados na guerra não crêem em nada nisso, nem eu tampouco; eu me retiro para casa arrasado por minha curiosdade e por minha ignorância. Eu leio nossos livros antigos, e eles redobram minhas trevas. Eu converso com meus companheiros, uns me respondem que se deve fruir a vida, e troçar dos homens; outros crêem saber algma coisa, e se perdem em idéias extravagantes; tudo aumenta o sentimento doloroso que experimento. Às vezes fico prestes a cair em desespero, quando vislumbro que após todas minhas pesquisas não sei nem de onde venho, nem quem sou, nem aonde irei, nem o que me tornarei.” O estado deste bom homem me dava verdadeiro dó: ninguém era nem mais razoável, nem de mais boa-fé que ele. Concebi que quanto mais havia luzes em seu entendimento e sensibilidade em seu coração, mais ele era infeliz.

Vi no mesmo dia a velha que vivia em sua vizinhança: eu lhe perguntei se ela jamais havia se afligido de não saber como sua alma fora feita. Ela simplesmente não entendeu minha pergunta: ela não havia jamais refletido um momento sequer de sua vida sobre um só dos pontos que tormentavam o brâmane; ela acreditava nas metamorfoses de Vishnu de todo seu coração, e conquanto pudesse ter amiúde água do Ganges para se lavar, ela se cria a mais feliz das mulheres.

Tocado pela felicidade dessa pobre criatura, voltei ao meu filósofo, e lhe disse: “Tu não te envergonhas de ser infeliz, ao tempo em que à tua porta há uma velha autômata que não pensa em nada, e que vive contente? - Tu tens razão, ele me respondeu; já me disse cem vezes que seria feliz se fosse tão estúpido quanto minha vizinha, e mesmo assim não desejaria tal felicidade.”

Essa resposta do brâmane me fez uma impressão maior do que todo o resto; eu examinei a mim mesmo, e vi que de fato eu não quereria ser feliz à condição de ser imbecil.

Propus a coisa a filósofos, e eles foram do mesmo entendimento. “Existe, entretanto, uma furiosa contradição neste modo de pensar: porque enfim de que se trata? De ser feliz. Que importa ser brilhante ou idiota? Há bem mais: os que estão contentes de o ser são bem certos de serem contentes; os que raciocinam não estão tão certos de bem raciocinar. Está claro então, dizia eu, que se deveria escolher não ter senso comum, por pouco que esse senso comum contribua ao nosso mal estar.” Todo mundo concordou, e no entanto não achei pessoa que quisesse aceitar o negócio de se tornar estúpido para se tornar contente. Daí concluí eu que, se fazemos questão da felicidade, fazemos mais ainda questão da razão.

Mas depois de ter refletido, pareceu que preferir a razão à felicidade é uma insensatez. Como então essa contradição se pode explicar? Como todas as outras. Há aí muito a ser dito.

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