sábado, 5 de dezembro de 2009

Jornalismo: Crise é Mundial

Lula e comitiva estiveram por esses dias na Alemanha, onde encontraram a chanceler mais azeda da Alemanha - de qualquer sexo - de que tenho notícia. Além de fazer o coro da "comunidade internacional" contra o Irã, o que define mesmo Merkel é o ativismo no Milenarismo Climático, do qual sou cético de carteirinha. Enfim, na conferência conjunta, a tônica foi a divergência a respeito do Irã.

Merkel, já disse, alinha-se com a Águia Imperialista ao pressionar o regime dos Aiatolás em função de seu programa nuclear supostamente pacífico. Acredito que Ahmadinejad construiria sim a bomba, tão logo tenha tecnologia para tanto, mas que está a muitos anos de fazê-lo - um relatório da CIA de 2006 concluiu que o Irã desistira da bomba.

Lula, de sua parte, recebeu recentemente o controverso governante persa, e defendeu seu direito a um programa pacífico, como é o nosso. A cobertura nacional e estrangeira destacou o apoio, ignorando nuances do discurso de Lula que sutilmente criticou a falta de liberdade e tolerância no Irã, seu apoio ao Hamas, e sua condenação à própria existência de Israel; ignoraram ainda a afirmativa de que "não-proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos".

Na Alemanha, Luiz Inácio foi mais enfático. Enérgico mesmo:

“Não sei se sou ingênuo, se sou muito otimista, mas acredito muito na capacidade de convencimento e de diálogo nas pessoas. Estamos tentando dar a nossa contribuição. Espero que aconteça o melhor, que não tenha arma nuclear no Irã e que não tenha arma nuclear em nenhum país do mundo, que os Estados Unidos desativem as suas, que a Rússia desative as suas. Autoridade moral para pedir que os outros não tenham, é não ter. É importante. Sou um país que assinou na Constituição a não proliferação das armas nucleares, portanto estou tranquilo para dizer. É importante que os que têm comecem a desmontar os arsenais, que a gente tenha mais argumentos para convencer os outros”.



Não é ingenuidade, e também não é bravata: ainda que a declaração não vá convencer EUA e Rússia, ou o posto avançado do Ocidente no Oriente-Médio, que Lula prudentemente evitou citar, a desativarem suas ogivas, é uma tomada de posição muito corajosa. E que qualquer pacifista ou pessoa de bom senso endossaria: Lula injeta esse discurso na esfera da diplomacia. Bravo. Ao mesmo tempo, insiste em paciência e negociações, contra as ameaças e sanções que só podem indicar uma invasão iminente. Bravo de novo.

Que faz a imprensa, local e estrangeira? Mais uma vez pinta Lula como aliado de Ahmadinejad, optando por ignorar sua audácia. A Globo o culpa de "causar constrangimento". A Bloomberg parece querer jogar nosso país no Eixo-do-Mal, truncando a mensagem como já foi explicado. CNN, BBC e afins simplesmente ignoraram o encontro - mesmo que não houvesse outra notícia internacional relevante. Independent e Guardian, supostamente dissidentes, também silenciam. Le Monde nada, Monde Diplomatique, esse sim dissidente, nada até agora. Achei matérias na China e no Irã (óbvio) e nada mais.

Não se trata de exagerar a importância das declarações, puxando o saco de Lula. O brasileiro tem hoje grande inserção no mundo, como nunca antes na História deste país, por que não dizer? E cobrar o desarmamento nuclear, denunciando a hipocrisia americana, não é pouco.

Pois então: alguém ainda faz jornalismo sério no mundo? Ou isso nunca existiu?

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