sábado, 30 de janeiro de 2010

Vandermark 5: The New Acrylic

O saxofonista americano Ken Vandermark é o maior expoente da chamada Cena de Chicago, um clube de jazzistas extremos na crista da vanguarda, e tem íntima associação com a contraparte europeia. Como é característico do jazz e particularmente dos hodiernos experimentalistas, Vandermark integrou e liderou dezenas de projetos diferentes. Tive o prazer de vê-lo integrando o Chicago Tentet de Peter Brötzmann, praticamente um quem-é-quem do jazz avantgarde dos dois lados do atlântico norte, no Jazz em Agosto 2008, em Lisboa (inesquecível evento que contou ainda com John Zorn/Fred Frith), na companhia do companheiro de Coquetel do Mingus, Pedro - quem me apresentou a essas maluquices todas.

Aqui Vandermark toca com um de seus grupos mais ativos, o Vandermark 5. O disco é Beat Reader, de 2008. Acompanham-no o cellista Fred Lonberg-Holm, o saxofonista Dave Rempis, e a cozinha com Tim Daisy na batera e Kent Kessler no baixo. A música, bem "roqueira", é The New Acrylic. Aproveitem!

Macbeth (Polanski, 71): Visita às Três Bruxas

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Testando o MP3 Incorporado

Se funcionar, vocês se deliciarão (espero) com Derek Bailey, a música é Moment, do extraordinário álbum Mirakle. Se tiver visita chata na sala, é tiro certo!






Bailey na Wiki (inglês)

De Chicana em Chicana


O escândalo do Arruda, que ganhou diversos nomes, como Mensalão do DEM, Panetonegate ou Chuleduto, cumpriu sua sina: causou estardalhaço na mídia, com farto material audiovisual, depois arrefeceu - a pedido de Serra, segundo certas línguas, não sei se más ou boas. Todo mundo comeu seus chésteres, suas rabanadas, e - por que não - seus panetones; virou o ano e cá estamos: hora de retomar tudo.

Previsivelmente, o assunto ficou velho, chocho, sem graça. Aqui em Brasília ainda há quem proteste e se revolte, desgaste desnecessário ante uma situação de impotência: os tentáculos de Arruda são infinitos. Mas a maior parte de nós já se conformou em apenas acompanhar - se muito - os rocambolescos (ou panetonescos) desdobramentos da crise. Desafio a quem quiser que saia por aí e ache alguém que acredita que Arruda será impedido antes de concluir o mandato. Nem a galera do PSol e similares deve levar isso muito a sério, mas fazem o que lhes está ao alcance: barulho.

Eis que assistimos à convocação extraordinária, fim do recesso, e já ia se desenhando uma comissão abertamente chapa-branca quando... gol! Medida de iniciativa popular afasta todos os suspeitos da investigação. O que devia ser o óbvio, aqui precisa de uma liminar. E aí temos a renúncia do presidente da Assembleia, meu infame xará que, de tão prudente, guarda a propina na meia. À primeira vista poderia parecer positivo, mas foi mera manobra para embolar o meio de campo. Introduz a etapa da eleição, que vai protelando as "investigações", e evita a presidência do suplente Cabo Patrício, da oposição. Enquanto isso, o personagem-chave do imbróglio, o cagueta-premiado Durval Barbosa, protela também seu depoimento, dizendo-se ameaçado e alegando desorganização da Assembleia. Na data de hoje deveria haver a eleição para a definição do novo presidente que deve ser ou do DEM ou do DEM: Wilson Lima ou Eliane Pedrosa. O DEM que já afagou Arruda, afastado espontaneamente do partido no tradicional jogo de cena. Que fazer? A oposição não tem espaço, já que a situação é bem remunerada. E não foi justamente a denúncia de que Arruda prometera 4 millones a cada deputado que votasse por sua absolvição que melou a eleição? É panetone para dar dor de barriga.

Não sei bem se é uma consequência boa ou ruim da crise a revelação do modo sórdido como é praticada a política em nossas terras (denúncias e "investigação" inclusive). Não que seja muito diferente em qualquer lugar do mundo, aliás, mas geralmente - tome-se os EUA - a corrupção é no atacado, é tráfico de influência; aqui, é no varejo, é verba pública indo pro ralo o tempo todo, e estas tristes e patéticas figuras embolsando o seu a cada contrato.

Para coroar a situação barroca da futurista Brasília, o "coroné" que inventou todo o esquema que Arruda só continuou, o infame Joaquim Roriz, tem tudo para voltar ao Buritis em janeiro próximo. Obedeça quem tem juízo. Enquanto isso, de chicana em chicana, Arruda está tão certo de que terminará o mandato que em uma de suas poucas aparições pós-escândalo afirmou "perdoar seus adversários", para que pudesse "pedir perdão por seus pecados". É uma confissão tácita, que deve ser formalizada não ao padre, mas à Polícia Federal, se lhe sobrasse um pingo de vergonha naquela cara-de-pau.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Olhe Sempre o Lado Bom da Vida


Esbarrei nesta imagem em um blogue, que dava a ela uma conotação negativa, ou pelo menos via nela um motivo para atacar o governo paulista. Tentarei exergá-la fora do espírito de disputa político-partidária (a famosa briga de torcida).

É um belo instantâneo de alegria em meio à adversidade: a menina exibe um belo sorriso enquanto brinca com seu cãozinho flutuante, que parece posar para a câmera; em segundo plano, pelo menos um dos rapazes é visto sorrindo, contagiado pela singela brincadeira. E a água da enchente nas canelas.

Uma das mais recentes postagens tinha um tom cético em relação ao Brasil, mas apenas para criticar o ufanismo irrealista dos que acreditam tanto no potencial que o Brasil de fato tem que pensam que já chegamos lá, ou estamos muito perto. Um chamado de alerta, por assim dizer. De qualquer forma, acho de bom tom (se é que alguém vai ler isto, não importa) soltar uma postagem mais otimista.

Quero falar sobre a fibra do brasileiro. No módulo sociológico do meu doutorado em Palpitologia, aprendemos que é característica dos povos latino-americanos, pertencentes às sociedades mais injustas do mundo, não se abater, conservar o bom humor e seguir batalhando mesmo expostos a realidades tão duras. Imagine um francês, que mesmo com todas condições materiais, um Estado operante e basicamente idôneo, mesmo com educação e acesso à cultura, permite-se sentir um vazio existencial e exibir um já tradicional mau humor. Será o marasmo de não ter nada a resolver a raiz do problema, assim como as sociedades "perfeitas demais" da escandinávia supostamente levariam tanta gente ao suicídio? Agora imagine-se no interior de algum estado nordestino: talvez os que ainda vivam em penúria extrema levem a existência acabrunhada de Fabiano e Sinhá Vitória, retratados por Graciliano. Mas a experiência que eu tive foi com gente que tem muito pouco, mas não passa aperto, e está sempre alegre e fazendo piada - se der para assar um bode e tomar cerveja, melhor ainda. Pense então na Amazônia, onde sorrisos são tão espontâneos, onde a confiança no semelhante não desapareceu, em meio a condições apenas dignas, se não precárias. Como ignorar o fenômeno antropológico do Rio de Janeiro com suas manifestações culturais antropofágicas e anárquicas que a elite conservadora insiste em associar exclusivamente à criminalidade e à perversão (enquanto seus filhos aderem)? Não nos equeçamos dos gregários mineiros, e de seus vizinhos goianos; ou dos vilarejos de imigrantes no Sul e no Espírito Santo, com suas tradições. E por aí vai...

É um argumento válido o de que essa alegria não mostra de fato fibra, mas uma resignação ante a injustiça; que se se mobilizassem poderiam mudar seu curso de vida. Bem, exemplos de luta popular há vários, e não convém os arrolarmos aqui, mas como constante são criminalizados e combatidos pelo "Brasil opressor" (tome o exemplo, ficando nas enchentes, dos recentes protestos na Zona Leste). Então vejamos: se quem pertence a classes favorecidas se sente desenganado pelo modo como é conduzida a política no país e se entrega a uma (às vezes hipócrita) descrença, imagine os que são historicamente tratados como insignificantes, ganhando algum "valor" apenas nas eleições: tenderão mesmo a crer que "pobre não tem valor, pobre é sofredor; e quem ajuda é o Senhor do Bonfim" e farão o possível para se alegrar, pois afinal para isso só é preciso gente, talvez uma "vitrola", um pandeiro ou um violão.

Creio que temos um belo povo, ou mosaico de povos. Obviamente a "democracia racial" é um mito, há um grande esforço pela frente para eliminar a discriminação contra o negro - mas muito já se avançou - e um impasse nunca suficientemente enfrentado é a maneira como o índio deve (ou não deve) se integrar à sociedade maluca que surgiu nestas terras da Coroa Portuguesa. O imigrante europeu, e japonês, foi um enxerto com fins de "branqueamento", e sua integração foi pacífica; incomoda a mim é que esse "enxerto" acabou adotado como padrão de beleza, mas isso já é outra discussão.

A nota incômoda é que toda nossa riqueza étnica e cultural é sistematicamente ameaçada pela cultura de massa extrangeira, principalmente norteamericana. Não sugiro a xenofobia cultural: gosto muito de música americana (rock, jazz) e tendo a chance de visitar um museu na Europa, farei-o com gosto. Sem deixar de apreciar um Chorinho ou um Maracatu. Na verdade, confesso que já fui mais "colonizado". Refiro-me por exemplo à televisão por assinatura, que despeja centenas de enlatados em nossas casas, ou à naufragante indústria do disco, que inventa de quando em quando um "fenômeno pop".

Mas voltando afinal à foto da garotinha com sua balsa de isopor e seu cãozinho: é um bálsamo para alguém como eu que se revolta e se encoleriza com nossas mazelas parece que insanáveis. Vem à mente a musiquinha do Monty Python no fim de A Vida de Brian: "Olhe Sempre o Lado Bom da Vida".

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Muda e a Liberdade Radiofônica


Como está aqui no meu perfil, sou três quartos de engenheiro eletricista, embora não saiba como isso resolva alguma coisa. Nem juntando com um quarto de geógrafo dá um "canudo". Não importa, o que queria dizer é que estudei Elétrica na Unicamp, onde meu aprendizado foi, digamos, mais social que acadêmico. Trocando em miúdos, foi mais farra que estudo. Uma atividade extra-acadêmica, entretanto, era coisa muito séria: a Rádio Muda. Muito séria talvez seja exagero, mas foi certamente uma poderosa e edificante experiência. Se alguém me oferecesse trocar a experiência mudeira pelos créditos que me faltaram, juro que recusaria.

Desde que entrei, lá pelos idos de 1998, ouvia falar na rádio, mas não tinha noção do quão democrático é o projeto, parecia não ser para mim; minha bagagem musical então também não era lá essas coisas. Mas tornei-me amigo de uns caras que faziam um programa, e fui me aproximando aos poucos: era o Coquetel do Mingus, capitaneado basicamente pelo Cabelo, mas outros malucos do Vale do Paraíba, como Trujillos e Covil, além do Estevam, participavam basicamente passeando de skate. Comecei a descobrir aí o Rock Progressivo e um bocado mais de Jazz, e levava minha humilde contribuição. O programa foi passando por fases com diferentes programadores, que iam também evoluindo e diversificando seus gostos. O Miguel foi um grande camarada que passou por lá, o "cabuloso" Chapéu foi outro. O Cabelo foi o mais longevo programador, embora com sua ida para Vitória o bastão tenha ficado comigo; chegaram o Pedro e suas maluquices, trazendo ainda o alemão Peter, Ricardinho e eventualmente a Ângela ou o Daniel Daniel. Os vizinhos de horário também sempre, ou quase sempre, foram um barato. Desde o punk Ratitu, passando pelo zapatista Gui (que visitei há pouco), a gracinha da Dani, o chato do Delfin e o babaca do Camilo, foi uma convivência rica. E todo o processo ampliou muito meu universo sonoro. Basta dizer que o programa começou com Beatles, rock setentista, progressivo, jazz, foi entando fusion, sempre tinha algo brasuca, as ambiências do Miguelito, os Stones do Chapéu, até que com o Pedro foi virando para o progressivo extremo do Rock In Opposition, ou os jazzistas anárquicos da improvisação livre. O Coquetel existiu de 1998 até 2006, certamente um dos mais tradicionais da Muda. Acredito que tenhamos cativado alguns ouvintes, e um bom indicador foi saber que um aluno da Música nos elegera o melhor programa da rádio.

Com a experiência mudeira, passei a me interessar pelo tema da democratização da comunicação, ainda que nunca tenha sido muito engajado. A Muda tem uma proposta formidável: é gerida horizontalmente por um coletivo; ocorre que alguns assumem um protagonismo, seja no bom sentido, fazendo os "corres" necessários, seja no mau sentido de postar-se como "estrelas". E isso podia ser um belo pé no saco. As reuniões se perdiam por discussões infrutíferas e achei melhor apenas fazer o programa. Já em Brasília, fiz parte da Radiola por algum tempo (com o Antena Menos 1), mas simplesmente não tinha a mesma mágica - e a rádio fechou. Estou timidamente me aproximando da RalaCoCo da UnB, mas ouvi dizer que estão sem transmissor. Quando soube que haveria a Confecom, fiz questão de participar, mas também foi um pouco frustrante. Realmente eu gostaria de participar ativamente do movimento de Rádio Livre, e já pensei em comprar um transmissor algumas vezes. Mas não faz sentido montar uma Rádio Eu, isso precisa ser feito coletivamente, daí a necessidade de me integrar aos grupos já existentes. Falta criar coragem.

Bem, relatos pessoais à parte, discutamos um pouco o próprio marco legal da democratização radiofônica. A Muda, como Livre, sempre foi pela liberdade: não preciso de concessão e ponto. Creio que enquanto a lei for tão injusta, as concessões sejam moeda fisiológica e as emissoras instrumentos políticos das oligarquias, acho que é este mesmo o caminho: desobediência civil pura e simples. Há que se estar preparado para a repressão: a Muda foi expropriada de seus equipamentos no início do ano passado (mas voltou mais forte que nunca). E quanto às comunitárias? Foram uma "concessão" do monopólio: é melhor aprovarmos uma lei que aparentemente permita maior participação, mas que na verdade seja uma camisa de força, garantindo comunitárias nanicas (25W, 1km de raio, 1 por cidade) e fornecendo ainda mais argumento para descer o sarrafo em quem não obtiver uma concessão comunitária, o que aliás será dificílimo. Para piorar, há quem faça mau uso delas: proselitismo religioso ou político, ou ainda, como em Inquérito Civil Público que passou em minhas mãos (também sou agente infiltrado no governo), venda de espaço publicitário. As propostas da Confecom me parecem muito genéricas: distribuir o espectro 40/40/20 entre setores privado, público e estatal; mas como? tomando concessões de volta? ampliando o número delas? e onde não couber mais nada? Qual critério para o setor público? Tem que ser uma entidade social de esquerda? Um grupo de universitários ou mesmo amigos pode? A posição da Muda sempre me pareceu "não queremos concessão, queremos seguir livres". É complicado: de fato, se tiver que abrir CNPJ e ter presidente, já desvirtuou tudo; mas não seria uma vitória por outro lado?

Eu de minha parte, como sei que a democratização dependeria de um Congresso progressista, e não este que além de conservador é parte interessada, sendo a perspectiva de uma mudança significativa nas eleições deste ano bastante remota, o mais provável é siga tudo basicamente como está (talvez com alterações cosméticas, lampedusianas). Portanto, digo e repito: desobediência civil, Rádio Livre. Vá até a Santa Ifigênia em Sampa, Capital das Antenas, lá pelos 500 se não me engano. Ou busque na internet. O Gui recomendou a marca MoTel, parece que são transmissores de baixa potência, mas verdadeiros "fuscas": resistentes e fáceis de consertar caso quebrem. E, antes que me esqueça, visitem a página da Muda: (é possível ouvir, se o servidor estiver de pé). Se estiver em Campinas, não esqueça: 105,7MHz FM Livre!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ninguém Segura Este País?


O Brasil é caracterizado, dentre outras coisas, pela memória curta. Nos anos 70, o crédito externo fácil e o empenho dos militares em criar um ambiente propício para corporações estrangeiras nos brindou com um pujante "milagre econômico". Bastou os EUA elevarem os juros no que ficou conhecido como Choque Volcker, além de uma segunda crise do petróleo, para que entendêssemos o significado de "ninguém segura este país": despencamos das alturas do "milagre" para as profundezas da "década perdida", sem rede.

Eis que agora se reedita o mesmo roteiro de ufanismo, ainda que a trama seja ligeiramente diferente. Não sendo economista, mesmo assim estudei o assunto (e todos os demais) no meu doutorado em Palpitologia Avançada. Concordo de certa forma com a mídia internacional (The Economist, Newsweek etc.) quando dizem que o bom momento (dependendo do ponto de vista) brasileiro começou com FHC. Como teórico da dependência, soube pô-la em prática: preteriu seu povo em favor de grandes empresas estrangeiras (loucas para lucrar no Brasil, mas reticentes ante a instabilidade) e novos grupos nacionais que ativamente ajudava a criar. Acreditava sinceramente que o grande capital prosperando levaria o país a reboque. Praticou um irresponsável populismo cambial - que quebrou o país reiteradas vezes -, apenas o suficiente para garantir sua adventícia reeleição, depois da qual sentou-se em uma colina para ver Roma queimar. Ainda assim, criou exitosamente condições favoráveis às corporações, e a seus "banqueiros sem capital", como diz o Nassif (mesmo precisando ir ao "limite da irresponsabilidade") e com isso modernizou o capitalismo brasileiro.

Lula enfrentou o terrorismo do Deus Mercado mesmo antes de vencer as eleições; aceitou a intimidação e manteve o mesmo comportamento dos monetaristas, obcecados com metas de inflação e pagamento da dívida, em prejuízo dos investimentos necessários. Ainda assim, uma nova farra de crédito mundial, e o preço das comódites, garantiram boas taxas de crescimento. O ingrediente realmente novo da fórmula foi o impacto indireto que a política de renda mínima (essencialmente social) teve sobre a economia, fortalecendo o mercado interno. A crise política do assim-chamado mensalão (e adjacências) foi um mal que veio para bem, permitindo defenestrar Palocci et caterva, para dar vez aos desenvolvimentistas como Mantega e Coutinho. Bastou garantir um segundo termo para, ao contrário do antecessor, passar a investir. Graças ao impacto do PAC, à inércia do Bolsa Família e aos ganhos do mínimo, aos apelos ao consumo e aos cortes de impostos, o Brasil lidou bem com uma crise mundial de grandes proporções, não superada até hoje.

Pois se a economia vai bem, e os indicadores sociais dão sinais de reação (o que diferencia este do outro milagre), é motivo de celebrar, mas certamente não é conveniente deixar-se levar pela euforia, que a própria publicidade oficial anda estimulando ("o país do futuro virou o país do presente"). Um momento de prosperidade como este tem a propriedade de ofuscar as mazelas estruturais. Corro sem constrangimento o risco de ser tachado de pessimista, e já consigo ouvir a expressão "síndrome de vira-lata", mas acho saudável lembrar aos partidários do "Brasil-Potência" que:

* Um novo tombo da economia mundial pode atrapalhar nosso avanço.
* O Brasil depende de produtos primários, cujos preços podem e vão oscilar.
* Nunca produzimos um único transistor, e ser dependente em alta tecnologia é ser subalterno.
* Há o gargalo da infra-estrutura, o chamado "custo-Brasil", a emperrar uma real pujança capitalista.
* A falta de ferrovias e hidrovias, com dependência do modal rodoviário é belo exemplo.
* A burocracia é talvez a herança lusa que mais se faz sentir, e desestimula o investimento
* Grandes empresas conseguem "facilidades", enquanto os micro, pequenos e médios penam para sobreviver.
* A corrupção é de fato endêmica (adjetivo que já gerou mal-estar com os gringos) e não dá mostras de cansaço. É bem verdade que a investigação tem avançado, mas a punição ainda é virtualmente nula.
* Os setores conservadores da sociedade, que lucram com sua injustiça e não querem nem pensar em democratizar de fato o país, são ainda muito poderosos e eficientes "formadores de opinião".
* O Brasil deixou de ser o segundo país mais desigual: é o sétimo.
* No que diz respeito a Terra, ainda somos o segundo lugar em concentração, primeiro em uso de agrotóxicos, e ainda exultam o agronegócio como motor de nossa economia.
* Estamos na posição 75 da lista de Índice de Desenvolvimento Humano: mesmo sendo considerado alto, o IDH 0,813 é menor do que o de Trinidad e Tobago, ou o de Cuba sob embargo, ou o dos vecinos do cone-sul Argentina, Uruguai e Chile e mesmo o da atrasada Venezuela. E não consta que sejam potências.
* Temos, quase sem exceção, uma polícia ineficiente, corrupta e violenta, em especial contra os mais pobres.
* A violência urbana não é mais exclusividade das grandes metrópoles, onde se transformou em deflagração aberta. 
* O pior de tudo, a educação brasileira vai de mal a pior. Uma lista recente põe o Brasil em 88º, e estão no ensino médio menos da metade dos que deveriam.

Um estudo, nada desinteressado, do Ipea, apontou que por volta de 2016, poderemos ter indicadores sociais a ombrear com os países desenvolvidos, a se manter o ritmo atual de redução da desigualdade. É bom saber, e resta esperar que se cumpra. Eu acredito que podemos, mas a renda mínima uma hora se esgota: dependemos de geração de empregos e escolaridade para aproveitá-los. Os recursos do pré-sal, quando começarem a pingar, podem ajudar muito ou atarpalhar um bocado: podem anestesiar o ímpeto produtivo (como na Venezuela ou na Nigéria, mal comparando), e podem ser desviados para o enriquecimento ilícito; além disso, não se pode saber em que ritmo se dará a extração. Quanto aos dois eventos internaconais que gostam de usar para ilustrar a "década do Brasil" - Copa e Olimpíada -, serão puro circo, com elevado risco de vexame internacional  - ao se revelar nossa crônica desorganização-, e garantia de dinheiro público indo pelo ralo; mas ainda é bacana tê-los por aqui, mesmo não deixando impactos duradouros significativos - um trenzinho aqui, um estádio acolá.

Enfim, será uma década interessante de acompanhar, e pode ser que ao fim dela estejamos no primeiro time das nações mundiais, ainda que me pareça um tiro longo. Mais uma vez, tudo que peço é cautela, e atenção com a defesa pois o jogo não está ganho. Aliás, o famoso "já-ganhou" foi o que derrotou a seleção tantas vezes, a última Copa é só um exemplo; e vai representar um papel importante, ao que tudo indica, na sucessão presidencial. Afinal, como o governo em fim de mandato lança uma segunda versão do PAC?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Que Será do Haiti?



Eu sei que é o momento de se condoer com a tragédia do Haiti, vitimado por um terremoto de 7 graus Richter, cujas consequências, amplificadas pela debilidade da infra-estrutura local, fazem-no o pior evento sísmico em dois séculos. É hora de o mundo desenvolvido, principalmente, assumir o protagonismo no esforço humanitário de salvar os soterrados, enterrar os mortos e garantir um mínimo de dignidade aos sobreviventes. Mas podemos nos permitir analisar a resposta à catástrofe, e especular sobre o futuro próximo do país mais pobre do hemisfério ocidental - embora uma coisa seja certa: o que era ruim vai ficar pior e por muito tempo. 

Antes de mais nada, há que se recapitular brevemente a triste História do Haiti, repleta de golpes e intervenções externas. Possessão colonial francesa, e bastante produtiva, o país viu a primeira revolta escrava bem sucedida, em 1803, estabelecer o primeiro país independente da América Latina e do Caribe. Após um período de grande instabilidade (mais regra que exceção), foi a vez dos EUA ocuparem o país, em 1915, lá restando até 1934, mas nunca afrouxando muito o torniquete imperialista. Em 57, François Duvalier foi eleito, com suspeitas de fraude e interferência do exército. Os EUA, reticentes por sua brutalidade, findaram por apoiá-lo como uma barreira ao comunismo que tomou a ilha vizinha em 59. Foi o reino de terror de Papa Doc e seu filho Baby Doc, e seus temíveis Tonton Macoutes. Em 86, até os EUA temiam a revolta total de defenestraram Jean-Claude (Baby Doc). Jean-Bertrand Aristide, padre, foi o primeiro presidente eleito, em 90, derrubado em 91; voltaria em 94 (com interferência americana), terminando o mandato em 96; vencendo eleições controversas, voltou ao posto em 2001, e em 2004, após denúncias de corrupção e rebeliões populares (a insatisfação com o governo é obviamente crônica), foi sacado de lá por EUA/França e enviado ao exílio na África do Sul. Lá está até hoje, e seu partido foi banido das eleições programadas para este ano, que não devem ocorrer. Sem julgar sua figura (eu não teria elementos para tanto), cumpre dizer que há manifestações por sua volta, duramente reprimidas, inclusive por nós, tapuias.

O Brasil, que chefia a Minustah - força de "pacificação" pós-golpe - fez bem em anunciar esforços consistentes de ajuda - ainda que seja em parte para reforçar seu papel subimperialista. Ocorre que quando os patrões desembarcam dez mil marines, sem qualquer preocupação de coordenação, ou seja, passando por cima da ONU com a arrogância costumeira, ao Brasil - e a seu ridículo ministro fardado - só resta fazer beicinho. Podemos pensar, colonizados que somos, que eles são muito mais eficientes, e é apenas natural que controlem o aeroporto, dando preferência a voos norteamericanos. Não é o que diz este artigo, do MediaChannel, espécie de Observatório da Impreensa gringo: as 72 horas cruciais após o desastre estariam sendo desperdiçadas em "avaliar a situação", e enquanto a "América" manda armamento, países como Islândia e China foram muito mais eficientes em enviar suprimentos necessários.

A preocupação maior dos americanos é "garantir a segurança", ou seja: impedir saques, ou eventualmente revoltas populares. As tropas mobilizadas vão ajudar no esforço humanitário sim, mas já sairam com o carimbo de "tropa de ocupação". Lembra quando eu disse que as eleições serão canceladas? Pois será alçado ao poder, pelos imperialistas acostumados a tanto, um "grande líder", "livre de ideologias perigosas" (como aumentar os salários), para coordenar os esforços de reconstrução (a ser tocada pelas corporações ianques). Um títere, pois para efeitos práticos, o Haiti será - e já é - um protetorado americano. Já está nítido o tom "paternalista" da "ajuda", que impede qualquer autonomia aos haitianos.

Mas o que podem querer os EUA de um país tão pobre? Simples: que sigam pobres e trabalhem quase de graça. Faça a experiência: pegue aquele bichinho de pelúcia da Disney da sua irmã - ou seu - estará lá "Made in Haiti". São as famosas sweatshops - como as hondurenhas, vejam só -, fábricas de trabalho degradante e pagamento quase fictício, que garantem que produtos intensivos em mão de obra cheguem baratinhos e rendam bons lucros aos empresários americanos. Resulta que para além do jogo de cena humanitário - um país veramente preocupado com sofrimento, mortes e destruição não os provocaria tanto - há interesses imperialistas e econômicos inevitáveis. Inevitáveis mesmo, pois nada os conterá. Monroe deve estar satisfeito, onde estiver. Pobre Haiti pobre. Passado o pior, volta o muito ruim.

P.S.: Para mais sobre o "capitalismo de desastre", sugiro a moça aí embaixo, Naomi Klein e sua Doutrina do Choque. Ela já deu declarações de temor pelo Haiti, revelando um comunicado da Heritage Foundation ressaltando as "oportunidades" após a calamidade - que ficou poucas horas no ar, sendo substituído por um de tom menos entusiasta.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Naomi Klein: Perfeito Equilíbrio


Descansando um pouco das agruras da política e da politicagem tupiniquins, trago àqueles que ainda não a conhecem a escritora e ativista canadense Naomi Klein. Crítica ferrenha do capitalismo e da assim-chamada globalização, Naomi nasceu em Montreal, em uma família com tradição de ativismo esquerdista. Por ocasião dos protestos de Seattle em 1999, na reunião da OMC, ganhou destaque como uma espécie de "musa anti-globalização" - termo ao mesmo tempo apropriado e inapropriado, pois ela participava com suas ideias, ainda que seja também bem bonita; além disso, esses manifestantes recusam a pecha de anti-globalização, pois apenas questionam a mundialização dos negócios a despeito das pessoas.

Naomi, no meu modo de ver, representa o equilíbrio perfeito entre um esquerdismo acadêmico, científico mas sisudo, e uma contestação ao capitalismo espetacularizada, por isso acessível. Ou seja, um cruzamento entre Noam Chomsky e Michael Moore, com a seriedade daquele e o apelo deste (para evitar o chiste de Bernard Shaw). Seus livros são muito bem escritos, com fartura de citações e referências a suas fontes, e os documentários a partir deles realizados, com sua participação, estão perfeitamente ao alcance dos mais "preguiçosos".

Ela se notabilizou por No Logo, uma contestação do poder das grandes corporações, corporificadas (perdão do trocadilho) em logomarcas que vemos por toda parte. O da Nike é certamente o caso mais emblemático: uma empresa que só investe em desenho e marquetingue, enquanto encomenda seus produtos de empresas chinesas que subcontratam a confecção a fabriquetas pouco comprometidas com direitos trabalhistas ou salários dignos, ou mesmo com uma idade mínima de seus escravos. Eu mesmo, não li o livro, só vi o filme, que é bom sim, mas nada espetacular: não traz nada essencialmente novo - o livro deve ser melhor. Também dela é The Take, sobre fábricas na Argentina que foram expropriadas pelos empregados quando falidas. Acho. Nem li nem assisti ao filme, embora já tenha baixado (mea culpa).


Mas o que posso mesmo encher a boca para falar é A Doutrina do Choque - A Ascenção do Capitalismo do Disastre, em que ela começa por descrever os experimentos de um psiquiatra maluco (ou nem tanto), que submetia os pacientes a diferentes tipos de tortura, choque inclusive, para regredi-las a uma "távola rasa" sobre a qual imprimir uma nova personalidade. A CIA apoiou abertamente, financeiramente até, a perversa ciência praticada, e aplica os métodos bárbaros até hoje. O paralelo que ela traça é entre essa prática na suposta cura de loucos e a "curra" ideológica de países inteiros, nos quais os partidários de Milton Friedman, o guru do neoliberalismo, e às vezes o próprio, implementavam políticas de livre mercado aproveitando-se de momentos de fraqueza após desastres naturais ou provocados, como o tsunami ou o golpe pinochetista. Nem o estado americano da Lousiana escapou, perdendo moradia e educação públicas com o Katrina. Fala sobre o Iraque e a guerra privatizada, sobre a Bolívia e seus sucessivos golpes, a Polônia e a queda do socialismo real; é um panorama amplo. É claro que ela evita contra-exemplos, teria que admitir um quadro bem mais complexo; e a teia de exemplos é tão extensa que esgarça: às vezes parece um pouco forçação de barra. Mas o livro é ótimo, e como dizem na babação-de-ovo introdutória, ajuda mesmo a entender o mundo de hoje. Descobri que existe um curta-metragem que resume o filme, experimente. Há ainda um trailer com legendas em português.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Considerações sobre o Resgate Histórico


A chamada Realpolitik é a arte de obter o melhor resultado possível, mandando às favas se necessário suas convicções ideológicas. Lula vai entrar para a História como um de seus mestres. O que pergunto é: deve-se insistir na punição dos torturadores, ou se conseguirmos arrancar a liberação de arquivos e a mera exposição dos criminosos já seria suficiente? Penso que o ideal seria encontrá-los e puni-los, com prisão domiciliar que seja; lavaria a alma do país. Mas vimos a reação das Forças Armadas - que não só não se envergonham em sua atual geração, mas glorificam o regime de exceção - rechaçando qualquer menção ao assunto e insubordinando-se abertamente; ou a reação da direitona histórica, que caçou encrenca com pontos do Plano (nada inéditos) em grande medida para desmoralizá-lo por completo e evitar que se exponha a participação de capitalistas, ruralistas e imprensa na engrenagem perversa da tortura. São forças hegemônicas no país, e apenas uma mobilização popular muito grande - que não deve ocorrer - daria combustível para o córner de Vannuchi. Pois voto na realpolitik: que ao menos os arquivos (que restam inteiros), venham à luz.

Imagine um irmão de dez anos que espancou covardemente o irmão de cinco; quando o pai resolve punir o agressor (tirando o picolé, ou o vidiogueime), o pestinha argumenta: "mas ele me cuspiu!". Pois é isso que os defensores dos torturadores "argumentam": há que se punir o que tiveram a audácia de chamar de "torturadores de esquerda". A luta armada cometeu crimes, sim; alguns espetaculares como o sequestro do embaixador norteamericano (te cuida, Gabeira!). Mas a mesma tradição iluminista-liberal-burguesa, que os direitoides enchem a boca para dizer que defendem da ameaça comunista - como ocorreu no golpe, por exemplo -, reconhece o direito à insurreição contra um governo tirânico. Além do quê, é um desrespeito a quem já tanto sofreu sob os arrogantes representantes de um aparato estatal criminoso (e crime estatal é muito mais grave), e à memória dos que foram mortos e desaparecidos. Vão interrogar as ossadas de Perus? Se a Comissão for só investigativa, não há por que se opor ao esclarecimento das ações armadas, mas o risco de inverter a intenção original, dependendo de quem coordená-la, ou influenciá-la, não é desprezível.

A Lei de Anistia de 1979 foi escrita para encerrar a repressão política, isso é claro e indiscutível. Mas eles marotamente enfiaram a expressão "e crimes conexos" que de tão vaga pode se referir a uma lesão corporal suscitada por uma discussão política acalorada ou às multas de trânsito do carro do MR-8 durante um assalto a banco; mas foi enxertada para conceder uma auto-anistia, o que simplesmente não existe, e assim se pensou nos vecinos do cone sul. Então pode o Direito aceitar que um criminoso brutal perdoe a si mesmo com uma canetada? Fica para o pessoal que voltou de Coimbra: Brossard (que não quis o golpe, mas o julgava inevitável) diz que sim, Comparato (comprometido com a democracia e com os direitos humanos) garante que não. Mas ninguém se iluda: a disputa não é doutrinária, é política. E vale a correlação de forças que apontei acima.

Apenas um aparte: é louvável a iniciativa da Comissão, fico feliz que isso seja ao menos posto na mesa depois de tanto tempo de "esquecimento". Mas o Estado deve dedicar energia ainda maior a detectar e punir os torturadores de hoje: em milhares de delegacia de polícia Brasil a dentro a prática é corriqueira, e - não bastasse a crueldade indizível do ato em si - manda inclusive inocentes para a cadeia, "por engano". Ou talvez patrões metidos a escravocratas, no campo e na cidade; o atual diretor da PF, L.Fernando Corrêa, por exemplo, é acusado de torturar até a cegueira uma doméstica. As vítimas da tortura hodierna (e odiosa) não são jornalistas ou idealistas de classe média, pertencem à população "invisível" que não saberia começar a cobrar seus direitos. O problema é conhecido, e certamente está contemplado no Plano, mas a disposição em combatê-lo ainda parece tímida; num país que tem comissões parlamentares para apurar desde o desaparecimento do último croquete até a anomalia na precessão de saturno, este assunto nunca foi por elas abordado.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Grunhindo Alto


O termo PIG (Partido da Imprensa Golpista) foi propalado por Paulo Henrique Amorim - contra quem tenho algumas reservas - e fez sucesso na esquerdofera. Foi "dicionarizado" na wikipedia e parece que querem tirar; justo, é parcial ao extremo. Enfim, virou um código universal em algumas dezenas de blogues (pelo menos). É um sucesso.

Uns artigos atrás disse que não gostava da expressão "Imprensa Golpista": manipulação e tendenciosidade são tão velhos quanto a imprensa brasileira, com ilhas de seriedade; eles só intensificaram a tendência, por ser o partido no poder (nominalmente) de esquerda, e inverteram o sinal (atacar em vez de acobertar). Mais importante, nunca houve a menor ameaça de um golpe. Quanto a "Partido", é uma bela metáfora, pois andam em bloco, representam interesses; porém, os media não agem concertadamente, apenas sabem o que fazer. Partido pressupõe reuniões, assembleias. Mas acho que estou cobrando demais de uma boa blague. Se aceitarmos que desgastar o govermo é um golpe a prestação, o termo é bom.

Não é, contudo, por essa pífia argumentação que resolvi aderir. E sim pelo comportamento cada vez mais absurdo dos meios de comunicação criando (ou ajudando a criar) a bomba H dos factoides: a reação ao Plano Nacional de Direitos Humanos III. Não vou me dar o trabalho de comentar pela centésima vez esta ou aquela matéria de telejornal (embora a da Band se destaque) ou o editorial deste ou daquele jornal (que aliás, não li). É um escarcéu tétrico (sobre uma peça informativa) no qual não tenho estômago de mexer. Vou-me ater às insinuações (para usar um eufemismo) de que Lula e seu plano ameaçassem a democracia e - o que ficou desde implícito até escancarado - estivessem instituindo o comunismo ateu e comedor de criancinha por decreto.

Tentam reeditar a Guerra Fria vinte anos depois. Querem talvez jogar a centelha e esperar a repercussão da tese, uma eventual aderência dos "cansados" de sempre e, quem sabe, recriar a Marcha com Deus pela Puta que Pariu, o preâmbulo da Revolução Gloriosa de 64, a Redentora que instituiu a ditabranda. O exército poderia eventualmente, nunca se sabe, ser docemente constrangido a endossar o pleito daqueles preocupados com a segurança da civilização ocidental cristã e... sabeis muito bem o quê.

São contextos diferentes? Muito. E ao mesmo tempo, nem tanto. Os conservadores têm medo, mais postiço que fundamentado, do que uma esquerda reticente poderia fazer - mas não há a "ameaça soviética" que lá havia, ao menos como retórica; os EUA não intervêm abertamente, mas hipócrita e dissimuladamente (vide Honduras), e se Lula "é o cara", e o capitalismo aqui nunca foi tão forte, algumas opções como a parceria com a França, a interferência em Honduras e o, tímido que seja, apoio ao bloco vermelho latino incomodam Washington. Ainda sigo crendo que uma quartelada é muito improvável hoje. De qualquer sorte, a imprensa, ou os media de modo geral (já que os impressos já não apitam nada), fizeram sua parte jogando o verde, ou o fósforo; vão colher ao menos o maduro de sangrar o governo, e poderiam hipoteticamente atingir um tanque de gasolina.

P.S.: Meu pai levantou a possibilidade de que a oposição tenha criado aí uma bandeira para a eleição, duvido: se caírem nessa armadilha vão sair ridicularizados, pois, repetindo: acabou a Guerra Fria, o eleitor que vai decidir a eleição (não politizado, principalmente de baixa renda) não liga para este assunto (é a economia, estúpido!), e alguns que já se inclinavam à direita poderiam desertar. Serra ficou calado sobre o episódio, e como quer botar banca de esquerdista (foi exilado e tudo!), não poderia enveredar por esse caminho. Mas a cacicada que puxa seus cordames pode pensar diferente. Se ganharem com esse discurso ultrarreacionário, juro que me mudo pra Bolívia, para iniciar uma plantação de Pepsi.

P.S.2: Nêumane Pinto, no SBT, corrobora meus temores: "Os militares, cadê os militares?"

domingo, 10 de janeiro de 2010

Caçando Encrenca


Geralmente o período que vai da metade de dezembro à metade de fevereiro é morno e sem graça, sem notícias. Esta virada foi atípica e cheia de escândalos, crises ou pseudocrises, além dos tradicionais desastres naturais. Bem, abordei boa parte desses assuntos, acho que só falta falar sobre a encrenca dos caças.

Fica difícil escrever sabendo tão pouco sobre cada projeto (ou sobre qualquer outro assunto) e desconhecendo as razões e os critérios da Aeronáutica; resta lançar mão do que li por aí e de meus dotes reconhecidos de palpitologia.

Primeiro: o projeto de modernizar a frota da FAB (e do submarino nuclear, que deixo por ora de lado) é antigo, tem ao menos dez anos, e apenas tomou corpo agora - sejam quais forem as motivações políticas ou geopolíticas de Lula. A necessidade das compras é, obviamente, uma unanimidade no meio militar. Portanto, não se trata de megalomania presidencial ou síndrome de potência.

O projeto americano, F-18 Super Hornet, deve ser tecnicamente muito bom, mas certamente de escalão inferior no impressionante aparato militar dos godemes. Ele é uma reformulação já meio antiga de um projeto ainda mais antigo, o F-14 Tomcat, e já foi suplantado pelo F-35C. É óbvio que representa o interesse imperialista ianque, e não sei como parece não haver lobby mais forte por sua adoção: é visto como carta fora do baralho desde o início. Talvez por uma das múltiplas faces de Lula ser anti-EUA.

O francês Rafale é o queridinho do Planalto, e foi imprudentemente anunciado vencedor antes da hora. Seu trunfo é a promessa de transferência de tecnologia, o que tem aspectos muito bons: é interessante reduzir o fosso tecnológico em todas as áreas, e geraria emprego. A parceria com a França é considerada uma boa opção geopolítica: é potência mas não a superpotência. Pessoalmente, não me agrada a ideia de ver o Brasil exportando armas de guerra para os vecinos. Pesa contra ele o preço, e o curioso fato de não ter vendido uma única unidade: só os Emirados Árabes Unidos e a terra dos Brusundangas se interessaram.

Já o sueco Gripen NG foi o selecionado pela Aeronáutica, o suficiente para que a mídia instaurasse uma "crise" no governo: o Planalto se indispôs com as Forças Armadas mais uma vez, ou Lula prefere o Rafale por "capricho". O que já se disse: a aeronave é um frankenstein com fornecedores em diversos países, inclusive com turbinas GE (segue a dependência dos EUA); aliás, uma só, e eu aqui não ando de monomotor; o avião é um projeto e nunca saiu do papel, o que é grave; e também o preço considerado - e deu-se grande peso a esse quesito - não incluiria os armamentos. Talvez o lobby gringo desistiu do F-18 e viu no Gripen um bom plano B, pois aparentemente não dá para entender a opção da caserna.

Posso dizer que minha opinião aqui é a mesma dos pontos de vista principista e pragmatista. Por princípio, um pacifista só pode ser contra a compra de armamento; e pragmaticamente parece óbvio que, além de haver coisas muito mais importantes, e mesmo estratégicas, que poderiam ser feitas com essa grana - como ferrovias, por exemplo - e não se vislumbrar nenhuma ameaça iminente a nosso território, o quadro que se oferece é que não há nenhum bom concorrente: um representa submissão à Águia, outro é caro e duvidoso e outro é muito duvidoso. Não é boa hora de comprar; já que é necessário, que se aguarde a grana do pré-sal e uma opção viável e segura. Sugiro a Lula que opte por ora pelos caça-palavras: dá uma turbinada no vocabulário (que não é nada mau) e ainda serve, depois de completo, para confeccionar simpáticos aviõezinhos de papel para defender os jardins do Palácio da Alvorada.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Quem tem medo do Vannucchi?


Uma coisa que me agrada no Brasil de uns anos para cá: o debate. Tudo bem, é mais briga de torcida do que debate, mas considere que estivemos seriamente ameaçados com o discurso único, quando os descontentes gritavam sozinhos e batiam cabeça. Concordo que Lula não rompeu com quase nada do Estado neoliberal que herdou do sociólogo da boca-mole - ainda que agora no finzinho do segundo mandato pareça dar uma entortada à esquerda -, mas foi com a ascenção do PT, e o concomitante progresso da blogosfera, que a sociedade se revelou nitidamente dividida em dois campos, aos quais podemos ainda chamar de direita e esquerda (termos cujo significado já esmaecia), mas que são melhor descritos como lulismo e antilulismo, com os independentes no meio do fogo cruzado, o que é meu caso.

Pois se Lula não foi nada parecido com um bolchevique, o que fez a chapa esquentar assim? Ora, o espernear dos setores hegemônicos de sempre, não tanto pelo temor por seus interesses capitalistas, mas por serem como aquele filho único de quem tiram um brinquedo. Ocorre que esses setores, minoritários, da sociedade, sempre dispuseram de uma poderosa ferramenta: os meios de comunicação. Foi então - e ainda é - um festival de ataques da mídia, quase sempre sem fundamentação, ao governo, beirando muita vez o ridículo (enquanto as críticas que devem ser feitas não o são); enquanto isso, com a nova ferramenta que permitiu maior democratização e participatividade no jogo da informação - a internet - o outro campo dedicava-se - e ainda o faz - a expor as manipulações enviesadas. Escusado dizer que, além de trabalho sério, a internet também serviu para disseminar gracinhas e mesmo insultos, então um chama o outro de petralha (termo depreciativo para petista) e o outro aponta o dedo para o PIG (Partido da Imprensa Golpista). De minha parte, não gosto deste último termo, ainda que entenda se tratar de um chiste: não creio que tivemos qualquer ameaça à ordem democrática (ou plutocrática), nem que a imprensa agiu com isso em mente, ou ainda que alcançasse, por si só, tal intento. Por fim, outra característica dessa guerra é que ela é travada no varejo, sobre pequenos fatos ou factoides e dificilmente se vê a discussão mais ampla e aprofundada - mas isso nunca foi diferente, foi?

Eis que um episódio, atualíssimo, aparece para - a meu ver emblematicamente - escancarar essa salutar clivagem ideológica da sociedade, ou ao menos jogar uma luz que revelasse nitidamente os contornos de grupos que conseguiram exibir por muito tempo a pantomima de patrióticos progressistas. Falo, como está óbvio desde o título, do Plano Nacional de Direitos Humanos, elaborado democraticamente sob a batuta do secretário especial Paulo Vannucchi. O item mais polêmico, que toca em ponto nevrálgico e alçado a tabu maior da nação, é a instituição de uma Comissão de Verdade e Justiça para apurar e trazer a claro os crimes de tortura da ditadura militar. Aplaudi a iniciativa desde o início, reservando-me um desenganado ceticismo: o brasileiro é aquele cara bonachão, o homem cordial, para quem o deixa-isso-pra-lá faz muito mais sentido que um brio cívico ou uma sede de justiça; ademais, tirando uma parcela politizada que combateu de algum modo o regime de exceção, a maioria ou o endossava, ou engoliu a propaganda oficial de que os dissidentes eram terroristas (e preocupava-se mais com o preço do frango do que com a tortura) ou tinha plena consciência da gravidade do que ocorria, mas pensava que o certo seria cuidar de seus interesses e manter sua integridade física; não vejo motivo para mudarem de ideia justo agora. As novas gerações? Em sua maioria acham o assunto uma chatice. E uma abertura como essa - rotulada pateticamente de revanchismo - precisaria de amplo apoio e pressão poplulares; arrisco dizer que se a proposta fosse a referendo - com auxílio da mídia, claro - seria derrotada. Enfim, a grita dos militares foi imediata e foi ecoada pelo ridículo ministro da defesa; a imprensa aproveitou para inventar uma crise institucional e tentar desgastar o governo - alinhando-se tacitamente, ou nem tanto, com o lado ao qual na época serviu de instrumento de propaganda (nem tão coagidos assim).

Bem, mas aí não há surpresa alguma, não se poderia esperar nada diferente da caserna. Mas não tardou a um plano pelos direitos humanos suscitar mais reações hidrófobas. Aliás, o Brasil tem verdadeiro desprezo por eles: quantas vezes você já ouviu "direitos humanos para bandido?", quantos de nós realmente acha absurdo que trabalhadores braçais sejam tratados como são? São graves sintomas em uma sociedade que agora celebra (e é celebrado por) sua democracia sólida, sua economia pujante, e bota fumos de potência. Se bem que - e juro que digrido só mais um pouco - a China é o grande fenômeno do começo de século mesmo os desrespeitando aberta e sistematicamente. Pois então: quase arranquei os cabelos ao ver no Jornal Nacional (foi casual, não costumo fazer isso) a matéria que dizia que depois dos militares, agora eram a "agricultura" - leia-se latifundiários - e a imprensa - golpista ou não - que reagiam ao Plano. Então aparece aquela senhora senadora pelo Tocantins em tom de franca ameaça para dizer que a introdução de audiências para mediar conflitos em invasões de terra serviria para "dificultar a reintegração de posse". Depreende-se que o diálogo é inaceitável: o Estado serve para expulsar (ou exterminar, quem sabe) os "bandidos" que ousarem questionar a segunda maior concentração de terra do mundo. Mas, veja bem, não é verdade que Kátia Abreu represente o atraso: há poucos anos, seria impensável uma "coronela".

Para terminar, a Globo reporta sua visão como sendo a de toda uma classe profissional: o Plano traz a censura. É incrível como viram tudo de cabeça para baixo: apoiaram e apoiam até hoje a ditadura, mas qualquer controle sobre sua atividade é censura. Imaginem um médico que esquece uma tesoura na barriga de alguém alegando que sua atividade não pode ser cerceada. Tudo o que o plano diz é que se deve monitorar o comportamento dos meios no que diz respeito aos direitos humanos, e cai na besteira de falar em cancelamento de concessão. Ora, concessão é algo sagrado, a mesma coisa que um latifúndio: é meu, eu vou fazer o que quiser e se chegar perto é bala; são as duas reformas primordais que precisasm ser e talvez nunca sejam feitas: agrária e eletromagnética.

A alegraia do palhaço é ver o circo arder, e eu aqui dou risada ao ver a elite brasileira se comportar de forma mais caricata do que aquela retratada em filmes brasileiros politizados (desses que não existem mais). Talvez eu seja muito cético e pessimista, resta ainda ficar na torcida pelo Plano de Direitos Humanos, pela Comissão da Verdade e Justiça, e pela Confecom. Imagina os torturadores ao menos identificados e expostos, os meios de comunicação, e a terra, democratizados? Aí sim eu me junto à euforia do Brasil-potência!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Natureza, Política, Mídia e Blogosfera


Há uns 100 ou 200 mil anos surgiu (a menos que você seja criacionista) na face deste formidável planeta uma espécie que tinha algo diferente: através de suas inéditas faculdades como linguagem e polegar opositor, o ser humano foi-se espalhando, dominou a agricultura e domesticou animais e enfim veio a acreditar que tudo em volta foi feito para ele morar, servir-lhe de alimento e fonte de energia.

Mas por muito tempo houve enorme respeito, veneração mesmo, pelas forças da natureza - identificadas como divindades. Foi o triunfo da civilização racional cartesiana que trouxe a visão da humanidade como centro de tudo, e da natureza como algo externo. Por isso temos que ouvir hoje a tremenda bobagem que é a expressão "a fúria da natureza". É a manchete preferencial quando ocorre qualquer desastre natural: furacão, enchente, vulcão, maremoto... tudo é creditado ao voluntarismo da Natureza, numa espécie de reminiscência panteísta inconsciente.

Mas todo esse preâmbulo é na verdade para discutir o modo como nós - em especial os brasileiros "bem informados" - lidamos com esse tipo de fenômeno. Estando quase todo na faixa tropical, nosso país - ao contrário do que se alardeia - está sempre sujeito a eventos naturais de monta, especialmente chuvas de grande intensidade com as inevitáveis enchentes.

E eis que mais uma vez, em mais um verão, há fortes chuvas com alagamentos e desabrigados, quedas de encostas, e mortes. E dá-se início a disputas políticas, ou melhor dizendo, comportamentos espúrios na mídia tradicional e na blogosfera. Justamente o que me incomodou e me impeliu a escrever este mal-ajambrado artigo: ver gente celebrando as mortes por acontecerem em estados ou cidades administradas por políticos do campo ideológico (se é que podemos usar essa palavra) contrário. Reitero aqui uma crítica aos ambientes opinativos da rede: viram uma briga de torcida estúpida; este é só um sintoma.

Creio que se trate de um assunto complexo, em que cada caso deve ser analisado dsapaixonadamente. Mas, em linhas gerais, penso assim: as causas primárias - o fenômeno metereológico - estão além do controle humano, mas nem por isso podem ser ditas imprevisíveis; o impacto do fenômeno na população humana, esse sim, pode ser previsto, e pelo menos minorado por ações preventivas; por fim, acontecido o pior, a ação do governante para amenizar o sofrimento é indicadora de seu respeito aos governados.

Tomemos três casos desta temporada de chuvas. Os alagamentos em Sampa: a "grande mídia" de fato fez tudo para poupar Serra, mas a dada altura alguém comemorou por SP ter ultrapassado o RS em mortes; ora! Circula também na esquerdosfera a denúncia de que o Governo do Estado optou, fechando ou deixando de fechar uma comporta, por alagar a Zona Leste, poupando as marginais. Isso é gravíssimo, e ou é leviana a "grande mídia" ao ignorar o assunto ou é leviana a denúncia mesma. Entre o fogo cruzado da disputa político-midiática, sofrem os moradores com uma inundação que já dura mais de um mês. Uma hipótese, bem crível, que se aventa, é que a intenção da administração seja expulsar os moradores pobres, como na área destinada ao Parque Várzeas do Tietê. É um comportamento comum na Terra de Vera Cruz, e a Revolta da Vacina no Rio foi em grande parte pela "reengenharia" urbanística que impunham à cidade. Mais uma vez, a mídia é cúmplice, repetindo a cantilena que criminaliza as pessoas que foram morar em determinada área - quando deviam salientar que nunca houve política habitacional -, silenciando sobre o mau uso do terreno para obras viárias, isto é, as marginais, e endossando a política de expulsão cuja contrapartida são discutíveis benefícios pecuniários.

Já quanto à tragédia em Angra dos Reis, tivemos - até pelo período de "recesso" de notícias - o maior sensacionalismo de todos: repetição das imagens ad nauseum, sentimentalismo barato... Eu disse Angra? Troque por Ilha Grande, o caso da pousada para gente com grana - as quedas de encosta no continente foram quase esquecidas. Que dizer aqui, é um caso emblemático: é preciso que aconteça um desastre para repetirem que "é área de risco", "a estrutura geológica é frágil"... ora, não se sabia isso antes? O que foi feito? Uma lei para abrir as pernas no licenciamento ambiental, sem falar nas maracutaias que foram alvo de recente operação da Polícia Federal; ou seja: interesses capitalistas de um lado, e uma premente necessidade de outro, levam a edificar em áreas sabidamente de risco, e isso é tudo culpa (por omissão) dos governantes - e não só os atuais, obviamente. É uma cultura, uma lógica instaurada; pode-se tentar colar o problema no Sérgio Cabral - e parece que a mídia está disposta a fazê-lo - mas daqui a dez ou vinte anos aposto que teremos o mesmo problema.

Tenho especial carinho por São Luís do Paraitinga, onde passei a virada do ano passada: cidade simpática, caipira e moderna a um tempo, lugar de tradição, cultura, natureza e história. Terra do Saci (embora isso seja um enxerto recente), do carnaval de marchinhas, do rafting e do exuberante Parque da Serra do Mar (Núcleo Santa Virgínia). Pois, se parece que não houve vítimas fatais, a tragédia de São Luís é enorme, e mesmo quando o rio baixar e as pessoas retomarem suas rotinas, a igreja matriz e outros prédios históricos foram perdidos. Não tenho conhecimento tácnico para dizer se a tragédia podia ser evitada. Há que se considerar (o mesmo valendo para Angra) que a Serra do Mar é a zona de maior pluviosidade do país. Mas se sabemos disso - e em 2008 já houvera enchente - duvido que a engenharia não seja capaz de dar uma resposta ao problema, até porque o Paraitinga também é represado (há uma usina em Paraibuna, se não me engano). O governador apareceu para fazer marquetingue político, e cometeu a indelicadeza de prometer o Carnaval, além de não assinar o decreto de calamidade pública. A mídia ficou sobrevoando de helicóptero para a revolta dos locais. O destaque ficou para o pessoal do rafting, que com sua prestatividade fez o contraste a este festival de insensibilidade.

Enfim: muitos sofrem, alguns morrem, entra ano, sai ano, e segue a mesma caravana, até os cães já são previsíveis. Vai continuar chovendo muito nos lugares e nas épocas onde soi chover muito. O que resta saber é se um dia teremos dirigentes que se ocupem de fato dos problemas da população, e não apenas dos interesses próprios e de suas camarilhas; e também se teremos direito a meios de comunicação sérios, dispostos a passar informação aprofundada e isenta, objetiva e sem sensacionalismos ou sentimentalismos contraproducentes; por fim, espero que a blogosfera - ou seja, nós - se comporte de maneira mais madura (obviamente me refiro apenas a alguns).

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Problema Ambiental


Tenho escrito sobre meu ceticismo em relação ao Aquecimento Global e temor quanto aos "mecanismos" que pretendem adotar para mitigá-lo. Fique claro que penso que pode mesmo haver um Aquecimento Global Antropogênico em curso (ainda que haja uma década que o planeta esfria); mas me parece que há alguns sinais de alerta de desonestidade científica. Não inventaram uma conspiração, apenas truncaram os dados, simplificaram o fenômeno e chegaram a uma conclusão perfeitamente "científica".

Mas mesmo a aceitar como verdadeira e inquestionável a tese, o que acho absurdo é que toda a energia humana para proteger o meio ambiente - coisa muito recente e incipiente até agora - volte-se de repente para medir (ou estimar, antes) quanto de carbono está sendo emitido, para daí estabelecer um mercado.

E cometi, na última postagem a respeito, a imprudência de prometer escrever sobre o que eu achava que deveria de fato ser feito. Ainda bem que ninguém leu, mas resolvi arriscar mesmo assim algumas elucubrações. Para opiniões confiáveis sobre o assunto, procure (pelo menos) um especialista.

A primeira assertiva que proponho é que o capitalismo é nocivo, ou induz a um modo nocivo de relação com a Terra, mas essa constatação sozinha é insuficiente, e superficial. Obviamente, a lógica do lucro máximo a qualquer custo e a necessidade de acumulação incessante submeterão sempre a integridade dos recursos hídricos, da cobertura vegetal e por aí a fora.

Mas se voltarmos até o século XVII, muito antes da Revolução Industrial, e mesmo do capitalismo, René Descartes já afirmava ser preciso conhecer a Terra para pô-la a nosso dispor; portanto é também uma questão de uma mentalidade cartesiana-liberal-burguesa, e podemos dizer até judaico-cristã, que vê a Terra como um presente de Deus, para ser usada a seu dispor. Outra questão a ser considerada é a demográfica, associada à dos aos modos de vida. A população mundial, que em 1800 não chegava a um bilhão, há meio século era pouco menos que três, já é quase sete e deve ser de nove bilhões na metade deste século, impõe uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais. Mas se fôssemos sete bilhões de bolivianos não haveria tal pressão: volta a questão do capitalismo, cujo modo de vida - que se dissemina rapidamente - exige quantidades absurdas de recursos naturais, pressupõe processos fabris poluentes e gera montanhas de lixo. Ou seja, o problema é menos o crescimento da população que a disseminação de um modo de vida insustentável, enqunto aquele que durou 8 mil anos, da revolução agrícola até a II Guerra (Hobsbawn) é tachado de atrasado. Também não se trata de manter-nos no privilégio e proibir os demais de "progredir". Penso que o modelo deveria ser tirar o foco de grandes cidades, e do latifúndio monocultor industrial, estabelecendo pequenas cidades prósperas com grau de autonomia maior, e produção local - por gente local - dos alimentos, pequenas indústrias e serviços, tudo descentralizado. Se utilizarmos permacultura e energia renovável e limpa, melhor ainda. E se os meios de produção fossem socializados, seria perfeito.

Agora, bastaria trocar o capitalismo pelo socialismo? Certamente não, ainda mais se considerarmos o "socialismo real", que não era mais que um capitalismo estatal sob um regime totalitário. E como então superar o capitalismo? Isso deveria ser a preocupação primeira dos chamados intelectuais de esquerda, que em sua maioria vivem ou da capitulação frente ao capitalismo liberal - sob alguma forma de reformismo - ou da nostalgia das tentativas frustradas - e da visão de um capitalismo que já não existe. O que é preciso é resgatar o que há de bom em Marx, principalmente o sonho de uma sociedade igualitária, e ter em mente o novo determinante que está em pauta, o ambiental, no forjamento não de uma utopia - a ser imposta a ferro e fogo, transformando-se em utopia -, mas de uma mentalidade que questione as tolas necessidades do capitalismo e mire em uma relação harmônica dos humanos entre si e com as naturezas - primeira e segunda. Ainda que uma sociedade igualitária e sustentável soe mais utópico do que qualquer outra coisa.

Enquanto seu lobo não vem, só resta esperar que os governos ajam com veemência, aprovando e fazendo cumprir legislações duras, e sobretudo evitando o dano antes que ele aconteça. Aquecimento Global? Bem, se as emissões de gás carbônico são um problema de fato, a tônica deveria ser agir sobre os maiores emissores, e limitar a emissão per capita em um valor razoável, obrigando os industrializados a reduzir emissões; instituindo também um fundo (custeado pelo imposto financeiro global) que pagasse bônus sobre a "cota não utilizada" aos países pobres; e sem possibilidade de comprar "cotas de carbono". Quanto ao desmatamento, seu combate não deve depender de outra casa que não ele mesmo; e mais uma vez, incomoda muito a ideia de floresta como um negócio (o que já é, em grande medida).

Eu ainda acho que, se a tese do AGA for correta, nem a mais exitosa campanha de redução de emissões (20% digamos) mudará nada: estaríamos fritos. Ceteris Paribus, obviamente. Ainda creio que a humanidade ainda pode, e deve, tomar as rédeas de seu destino e evitar uma condição limite de deterioração da vida nos próximos séculos. Mas parece não saber como. O Aquecimento Global é um risco hipotético, uma ação antrópica indireta; os riscos palpáveis de ação antrópica direta - contaminação do ar e da água, desequilíbrio de ecossistemas - já se fazem sentir, e com rapidez crescente.