domingo, 10 de janeiro de 2010

Caçando Encrenca


Geralmente o período que vai da metade de dezembro à metade de fevereiro é morno e sem graça, sem notícias. Esta virada foi atípica e cheia de escândalos, crises ou pseudocrises, além dos tradicionais desastres naturais. Bem, abordei boa parte desses assuntos, acho que só falta falar sobre a encrenca dos caças.

Fica difícil escrever sabendo tão pouco sobre cada projeto (ou sobre qualquer outro assunto) e desconhecendo as razões e os critérios da Aeronáutica; resta lançar mão do que li por aí e de meus dotes reconhecidos de palpitologia.

Primeiro: o projeto de modernizar a frota da FAB (e do submarino nuclear, que deixo por ora de lado) é antigo, tem ao menos dez anos, e apenas tomou corpo agora - sejam quais forem as motivações políticas ou geopolíticas de Lula. A necessidade das compras é, obviamente, uma unanimidade no meio militar. Portanto, não se trata de megalomania presidencial ou síndrome de potência.

O projeto americano, F-18 Super Hornet, deve ser tecnicamente muito bom, mas certamente de escalão inferior no impressionante aparato militar dos godemes. Ele é uma reformulação já meio antiga de um projeto ainda mais antigo, o F-14 Tomcat, e já foi suplantado pelo F-35C. É óbvio que representa o interesse imperialista ianque, e não sei como parece não haver lobby mais forte por sua adoção: é visto como carta fora do baralho desde o início. Talvez por uma das múltiplas faces de Lula ser anti-EUA.

O francês Rafale é o queridinho do Planalto, e foi imprudentemente anunciado vencedor antes da hora. Seu trunfo é a promessa de transferência de tecnologia, o que tem aspectos muito bons: é interessante reduzir o fosso tecnológico em todas as áreas, e geraria emprego. A parceria com a França é considerada uma boa opção geopolítica: é potência mas não a superpotência. Pessoalmente, não me agrada a ideia de ver o Brasil exportando armas de guerra para os vecinos. Pesa contra ele o preço, e o curioso fato de não ter vendido uma única unidade: só os Emirados Árabes Unidos e a terra dos Brusundangas se interessaram.

Já o sueco Gripen NG foi o selecionado pela Aeronáutica, o suficiente para que a mídia instaurasse uma "crise" no governo: o Planalto se indispôs com as Forças Armadas mais uma vez, ou Lula prefere o Rafale por "capricho". O que já se disse: a aeronave é um frankenstein com fornecedores em diversos países, inclusive com turbinas GE (segue a dependência dos EUA); aliás, uma só, e eu aqui não ando de monomotor; o avião é um projeto e nunca saiu do papel, o que é grave; e também o preço considerado - e deu-se grande peso a esse quesito - não incluiria os armamentos. Talvez o lobby gringo desistiu do F-18 e viu no Gripen um bom plano B, pois aparentemente não dá para entender a opção da caserna.

Posso dizer que minha opinião aqui é a mesma dos pontos de vista principista e pragmatista. Por princípio, um pacifista só pode ser contra a compra de armamento; e pragmaticamente parece óbvio que, além de haver coisas muito mais importantes, e mesmo estratégicas, que poderiam ser feitas com essa grana - como ferrovias, por exemplo - e não se vislumbrar nenhuma ameaça iminente a nosso território, o quadro que se oferece é que não há nenhum bom concorrente: um representa submissão à Águia, outro é caro e duvidoso e outro é muito duvidoso. Não é boa hora de comprar; já que é necessário, que se aguarde a grana do pré-sal e uma opção viável e segura. Sugiro a Lula que opte por ora pelos caça-palavras: dá uma turbinada no vocabulário (que não é nada mau) e ainda serve, depois de completo, para confeccionar simpáticos aviõezinhos de papel para defender os jardins do Palácio da Alvorada.

Nenhum comentário: