quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

De Chicana em Chicana


O escândalo do Arruda, que ganhou diversos nomes, como Mensalão do DEM, Panetonegate ou Chuleduto, cumpriu sua sina: causou estardalhaço na mídia, com farto material audiovisual, depois arrefeceu - a pedido de Serra, segundo certas línguas, não sei se más ou boas. Todo mundo comeu seus chésteres, suas rabanadas, e - por que não - seus panetones; virou o ano e cá estamos: hora de retomar tudo.

Previsivelmente, o assunto ficou velho, chocho, sem graça. Aqui em Brasília ainda há quem proteste e se revolte, desgaste desnecessário ante uma situação de impotência: os tentáculos de Arruda são infinitos. Mas a maior parte de nós já se conformou em apenas acompanhar - se muito - os rocambolescos (ou panetonescos) desdobramentos da crise. Desafio a quem quiser que saia por aí e ache alguém que acredita que Arruda será impedido antes de concluir o mandato. Nem a galera do PSol e similares deve levar isso muito a sério, mas fazem o que lhes está ao alcance: barulho.

Eis que assistimos à convocação extraordinária, fim do recesso, e já ia se desenhando uma comissão abertamente chapa-branca quando... gol! Medida de iniciativa popular afasta todos os suspeitos da investigação. O que devia ser o óbvio, aqui precisa de uma liminar. E aí temos a renúncia do presidente da Assembleia, meu infame xará que, de tão prudente, guarda a propina na meia. À primeira vista poderia parecer positivo, mas foi mera manobra para embolar o meio de campo. Introduz a etapa da eleição, que vai protelando as "investigações", e evita a presidência do suplente Cabo Patrício, da oposição. Enquanto isso, o personagem-chave do imbróglio, o cagueta-premiado Durval Barbosa, protela também seu depoimento, dizendo-se ameaçado e alegando desorganização da Assembleia. Na data de hoje deveria haver a eleição para a definição do novo presidente que deve ser ou do DEM ou do DEM: Wilson Lima ou Eliane Pedrosa. O DEM que já afagou Arruda, afastado espontaneamente do partido no tradicional jogo de cena. Que fazer? A oposição não tem espaço, já que a situação é bem remunerada. E não foi justamente a denúncia de que Arruda prometera 4 millones a cada deputado que votasse por sua absolvição que melou a eleição? É panetone para dar dor de barriga.

Não sei bem se é uma consequência boa ou ruim da crise a revelação do modo sórdido como é praticada a política em nossas terras (denúncias e "investigação" inclusive). Não que seja muito diferente em qualquer lugar do mundo, aliás, mas geralmente - tome-se os EUA - a corrupção é no atacado, é tráfico de influência; aqui, é no varejo, é verba pública indo pro ralo o tempo todo, e estas tristes e patéticas figuras embolsando o seu a cada contrato.

Para coroar a situação barroca da futurista Brasília, o "coroné" que inventou todo o esquema que Arruda só continuou, o infame Joaquim Roriz, tem tudo para voltar ao Buritis em janeiro próximo. Obedeça quem tem juízo. Enquanto isso, de chicana em chicana, Arruda está tão certo de que terminará o mandato que em uma de suas poucas aparições pós-escândalo afirmou "perdoar seus adversários", para que pudesse "pedir perdão por seus pecados". É uma confissão tácita, que deve ser formalizada não ao padre, mas à Polícia Federal, se lhe sobrasse um pingo de vergonha naquela cara-de-pau.

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