sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A Muda e a Liberdade Radiofônica


Como está aqui no meu perfil, sou três quartos de engenheiro eletricista, embora não saiba como isso resolva alguma coisa. Nem juntando com um quarto de geógrafo dá um "canudo". Não importa, o que queria dizer é que estudei Elétrica na Unicamp, onde meu aprendizado foi, digamos, mais social que acadêmico. Trocando em miúdos, foi mais farra que estudo. Uma atividade extra-acadêmica, entretanto, era coisa muito séria: a Rádio Muda. Muito séria talvez seja exagero, mas foi certamente uma poderosa e edificante experiência. Se alguém me oferecesse trocar a experiência mudeira pelos créditos que me faltaram, juro que recusaria.

Desde que entrei, lá pelos idos de 1998, ouvia falar na rádio, mas não tinha noção do quão democrático é o projeto, parecia não ser para mim; minha bagagem musical então também não era lá essas coisas. Mas tornei-me amigo de uns caras que faziam um programa, e fui me aproximando aos poucos: era o Coquetel do Mingus, capitaneado basicamente pelo Cabelo, mas outros malucos do Vale do Paraíba, como Trujillos e Covil, além do Estevam, participavam basicamente passeando de skate. Comecei a descobrir aí o Rock Progressivo e um bocado mais de Jazz, e levava minha humilde contribuição. O programa foi passando por fases com diferentes programadores, que iam também evoluindo e diversificando seus gostos. O Miguel foi um grande camarada que passou por lá, o "cabuloso" Chapéu foi outro. O Cabelo foi o mais longevo programador, embora com sua ida para Vitória o bastão tenha ficado comigo; chegaram o Pedro e suas maluquices, trazendo ainda o alemão Peter, Ricardinho e eventualmente a Ângela ou o Daniel Daniel. Os vizinhos de horário também sempre, ou quase sempre, foram um barato. Desde o punk Ratitu, passando pelo zapatista Gui (que visitei há pouco), a gracinha da Dani, o chato do Delfin e o babaca do Camilo, foi uma convivência rica. E todo o processo ampliou muito meu universo sonoro. Basta dizer que o programa começou com Beatles, rock setentista, progressivo, jazz, foi entando fusion, sempre tinha algo brasuca, as ambiências do Miguelito, os Stones do Chapéu, até que com o Pedro foi virando para o progressivo extremo do Rock In Opposition, ou os jazzistas anárquicos da improvisação livre. O Coquetel existiu de 1998 até 2006, certamente um dos mais tradicionais da Muda. Acredito que tenhamos cativado alguns ouvintes, e um bom indicador foi saber que um aluno da Música nos elegera o melhor programa da rádio.

Com a experiência mudeira, passei a me interessar pelo tema da democratização da comunicação, ainda que nunca tenha sido muito engajado. A Muda tem uma proposta formidável: é gerida horizontalmente por um coletivo; ocorre que alguns assumem um protagonismo, seja no bom sentido, fazendo os "corres" necessários, seja no mau sentido de postar-se como "estrelas". E isso podia ser um belo pé no saco. As reuniões se perdiam por discussões infrutíferas e achei melhor apenas fazer o programa. Já em Brasília, fiz parte da Radiola por algum tempo (com o Antena Menos 1), mas simplesmente não tinha a mesma mágica - e a rádio fechou. Estou timidamente me aproximando da RalaCoCo da UnB, mas ouvi dizer que estão sem transmissor. Quando soube que haveria a Confecom, fiz questão de participar, mas também foi um pouco frustrante. Realmente eu gostaria de participar ativamente do movimento de Rádio Livre, e já pensei em comprar um transmissor algumas vezes. Mas não faz sentido montar uma Rádio Eu, isso precisa ser feito coletivamente, daí a necessidade de me integrar aos grupos já existentes. Falta criar coragem.

Bem, relatos pessoais à parte, discutamos um pouco o próprio marco legal da democratização radiofônica. A Muda, como Livre, sempre foi pela liberdade: não preciso de concessão e ponto. Creio que enquanto a lei for tão injusta, as concessões sejam moeda fisiológica e as emissoras instrumentos políticos das oligarquias, acho que é este mesmo o caminho: desobediência civil pura e simples. Há que se estar preparado para a repressão: a Muda foi expropriada de seus equipamentos no início do ano passado (mas voltou mais forte que nunca). E quanto às comunitárias? Foram uma "concessão" do monopólio: é melhor aprovarmos uma lei que aparentemente permita maior participação, mas que na verdade seja uma camisa de força, garantindo comunitárias nanicas (25W, 1km de raio, 1 por cidade) e fornecendo ainda mais argumento para descer o sarrafo em quem não obtiver uma concessão comunitária, o que aliás será dificílimo. Para piorar, há quem faça mau uso delas: proselitismo religioso ou político, ou ainda, como em Inquérito Civil Público que passou em minhas mãos (também sou agente infiltrado no governo), venda de espaço publicitário. As propostas da Confecom me parecem muito genéricas: distribuir o espectro 40/40/20 entre setores privado, público e estatal; mas como? tomando concessões de volta? ampliando o número delas? e onde não couber mais nada? Qual critério para o setor público? Tem que ser uma entidade social de esquerda? Um grupo de universitários ou mesmo amigos pode? A posição da Muda sempre me pareceu "não queremos concessão, queremos seguir livres". É complicado: de fato, se tiver que abrir CNPJ e ter presidente, já desvirtuou tudo; mas não seria uma vitória por outro lado?

Eu de minha parte, como sei que a democratização dependeria de um Congresso progressista, e não este que além de conservador é parte interessada, sendo a perspectiva de uma mudança significativa nas eleições deste ano bastante remota, o mais provável é siga tudo basicamente como está (talvez com alterações cosméticas, lampedusianas). Portanto, digo e repito: desobediência civil, Rádio Livre. Vá até a Santa Ifigênia em Sampa, Capital das Antenas, lá pelos 500 se não me engano. Ou busque na internet. O Gui recomendou a marca MoTel, parece que são transmissores de baixa potência, mas verdadeiros "fuscas": resistentes e fáceis de consertar caso quebrem. E, antes que me esqueça, visitem a página da Muda: (é possível ouvir, se o servidor estiver de pé). Se estiver em Campinas, não esqueça: 105,7MHz FM Livre!

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