sábado, 16 de janeiro de 2010

Naomi Klein: Perfeito Equilíbrio


Descansando um pouco das agruras da política e da politicagem tupiniquins, trago àqueles que ainda não a conhecem a escritora e ativista canadense Naomi Klein. Crítica ferrenha do capitalismo e da assim-chamada globalização, Naomi nasceu em Montreal, em uma família com tradição de ativismo esquerdista. Por ocasião dos protestos de Seattle em 1999, na reunião da OMC, ganhou destaque como uma espécie de "musa anti-globalização" - termo ao mesmo tempo apropriado e inapropriado, pois ela participava com suas ideias, ainda que seja também bem bonita; além disso, esses manifestantes recusam a pecha de anti-globalização, pois apenas questionam a mundialização dos negócios a despeito das pessoas.

Naomi, no meu modo de ver, representa o equilíbrio perfeito entre um esquerdismo acadêmico, científico mas sisudo, e uma contestação ao capitalismo espetacularizada, por isso acessível. Ou seja, um cruzamento entre Noam Chomsky e Michael Moore, com a seriedade daquele e o apelo deste (para evitar o chiste de Bernard Shaw). Seus livros são muito bem escritos, com fartura de citações e referências a suas fontes, e os documentários a partir deles realizados, com sua participação, estão perfeitamente ao alcance dos mais "preguiçosos".

Ela se notabilizou por No Logo, uma contestação do poder das grandes corporações, corporificadas (perdão do trocadilho) em logomarcas que vemos por toda parte. O da Nike é certamente o caso mais emblemático: uma empresa que só investe em desenho e marquetingue, enquanto encomenda seus produtos de empresas chinesas que subcontratam a confecção a fabriquetas pouco comprometidas com direitos trabalhistas ou salários dignos, ou mesmo com uma idade mínima de seus escravos. Eu mesmo, não li o livro, só vi o filme, que é bom sim, mas nada espetacular: não traz nada essencialmente novo - o livro deve ser melhor. Também dela é The Take, sobre fábricas na Argentina que foram expropriadas pelos empregados quando falidas. Acho. Nem li nem assisti ao filme, embora já tenha baixado (mea culpa).


Mas o que posso mesmo encher a boca para falar é A Doutrina do Choque - A Ascenção do Capitalismo do Disastre, em que ela começa por descrever os experimentos de um psiquiatra maluco (ou nem tanto), que submetia os pacientes a diferentes tipos de tortura, choque inclusive, para regredi-las a uma "távola rasa" sobre a qual imprimir uma nova personalidade. A CIA apoiou abertamente, financeiramente até, a perversa ciência praticada, e aplica os métodos bárbaros até hoje. O paralelo que ela traça é entre essa prática na suposta cura de loucos e a "curra" ideológica de países inteiros, nos quais os partidários de Milton Friedman, o guru do neoliberalismo, e às vezes o próprio, implementavam políticas de livre mercado aproveitando-se de momentos de fraqueza após desastres naturais ou provocados, como o tsunami ou o golpe pinochetista. Nem o estado americano da Lousiana escapou, perdendo moradia e educação públicas com o Katrina. Fala sobre o Iraque e a guerra privatizada, sobre a Bolívia e seus sucessivos golpes, a Polônia e a queda do socialismo real; é um panorama amplo. É claro que ela evita contra-exemplos, teria que admitir um quadro bem mais complexo; e a teia de exemplos é tão extensa que esgarça: às vezes parece um pouco forçação de barra. Mas o livro é ótimo, e como dizem na babação-de-ovo introdutória, ajuda mesmo a entender o mundo de hoje. Descobri que existe um curta-metragem que resume o filme, experimente. Há ainda um trailer com legendas em português.

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