quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Natureza, Política, Mídia e Blogosfera


Há uns 100 ou 200 mil anos surgiu (a menos que você seja criacionista) na face deste formidável planeta uma espécie que tinha algo diferente: através de suas inéditas faculdades como linguagem e polegar opositor, o ser humano foi-se espalhando, dominou a agricultura e domesticou animais e enfim veio a acreditar que tudo em volta foi feito para ele morar, servir-lhe de alimento e fonte de energia.

Mas por muito tempo houve enorme respeito, veneração mesmo, pelas forças da natureza - identificadas como divindades. Foi o triunfo da civilização racional cartesiana que trouxe a visão da humanidade como centro de tudo, e da natureza como algo externo. Por isso temos que ouvir hoje a tremenda bobagem que é a expressão "a fúria da natureza". É a manchete preferencial quando ocorre qualquer desastre natural: furacão, enchente, vulcão, maremoto... tudo é creditado ao voluntarismo da Natureza, numa espécie de reminiscência panteísta inconsciente.

Mas todo esse preâmbulo é na verdade para discutir o modo como nós - em especial os brasileiros "bem informados" - lidamos com esse tipo de fenômeno. Estando quase todo na faixa tropical, nosso país - ao contrário do que se alardeia - está sempre sujeito a eventos naturais de monta, especialmente chuvas de grande intensidade com as inevitáveis enchentes.

E eis que mais uma vez, em mais um verão, há fortes chuvas com alagamentos e desabrigados, quedas de encostas, e mortes. E dá-se início a disputas políticas, ou melhor dizendo, comportamentos espúrios na mídia tradicional e na blogosfera. Justamente o que me incomodou e me impeliu a escrever este mal-ajambrado artigo: ver gente celebrando as mortes por acontecerem em estados ou cidades administradas por políticos do campo ideológico (se é que podemos usar essa palavra) contrário. Reitero aqui uma crítica aos ambientes opinativos da rede: viram uma briga de torcida estúpida; este é só um sintoma.

Creio que se trate de um assunto complexo, em que cada caso deve ser analisado dsapaixonadamente. Mas, em linhas gerais, penso assim: as causas primárias - o fenômeno metereológico - estão além do controle humano, mas nem por isso podem ser ditas imprevisíveis; o impacto do fenômeno na população humana, esse sim, pode ser previsto, e pelo menos minorado por ações preventivas; por fim, acontecido o pior, a ação do governante para amenizar o sofrimento é indicadora de seu respeito aos governados.

Tomemos três casos desta temporada de chuvas. Os alagamentos em Sampa: a "grande mídia" de fato fez tudo para poupar Serra, mas a dada altura alguém comemorou por SP ter ultrapassado o RS em mortes; ora! Circula também na esquerdosfera a denúncia de que o Governo do Estado optou, fechando ou deixando de fechar uma comporta, por alagar a Zona Leste, poupando as marginais. Isso é gravíssimo, e ou é leviana a "grande mídia" ao ignorar o assunto ou é leviana a denúncia mesma. Entre o fogo cruzado da disputa político-midiática, sofrem os moradores com uma inundação que já dura mais de um mês. Uma hipótese, bem crível, que se aventa, é que a intenção da administração seja expulsar os moradores pobres, como na área destinada ao Parque Várzeas do Tietê. É um comportamento comum na Terra de Vera Cruz, e a Revolta da Vacina no Rio foi em grande parte pela "reengenharia" urbanística que impunham à cidade. Mais uma vez, a mídia é cúmplice, repetindo a cantilena que criminaliza as pessoas que foram morar em determinada área - quando deviam salientar que nunca houve política habitacional -, silenciando sobre o mau uso do terreno para obras viárias, isto é, as marginais, e endossando a política de expulsão cuja contrapartida são discutíveis benefícios pecuniários.

Já quanto à tragédia em Angra dos Reis, tivemos - até pelo período de "recesso" de notícias - o maior sensacionalismo de todos: repetição das imagens ad nauseum, sentimentalismo barato... Eu disse Angra? Troque por Ilha Grande, o caso da pousada para gente com grana - as quedas de encosta no continente foram quase esquecidas. Que dizer aqui, é um caso emblemático: é preciso que aconteça um desastre para repetirem que "é área de risco", "a estrutura geológica é frágil"... ora, não se sabia isso antes? O que foi feito? Uma lei para abrir as pernas no licenciamento ambiental, sem falar nas maracutaias que foram alvo de recente operação da Polícia Federal; ou seja: interesses capitalistas de um lado, e uma premente necessidade de outro, levam a edificar em áreas sabidamente de risco, e isso é tudo culpa (por omissão) dos governantes - e não só os atuais, obviamente. É uma cultura, uma lógica instaurada; pode-se tentar colar o problema no Sérgio Cabral - e parece que a mídia está disposta a fazê-lo - mas daqui a dez ou vinte anos aposto que teremos o mesmo problema.

Tenho especial carinho por São Luís do Paraitinga, onde passei a virada do ano passada: cidade simpática, caipira e moderna a um tempo, lugar de tradição, cultura, natureza e história. Terra do Saci (embora isso seja um enxerto recente), do carnaval de marchinhas, do rafting e do exuberante Parque da Serra do Mar (Núcleo Santa Virgínia). Pois, se parece que não houve vítimas fatais, a tragédia de São Luís é enorme, e mesmo quando o rio baixar e as pessoas retomarem suas rotinas, a igreja matriz e outros prédios históricos foram perdidos. Não tenho conhecimento tácnico para dizer se a tragédia podia ser evitada. Há que se considerar (o mesmo valendo para Angra) que a Serra do Mar é a zona de maior pluviosidade do país. Mas se sabemos disso - e em 2008 já houvera enchente - duvido que a engenharia não seja capaz de dar uma resposta ao problema, até porque o Paraitinga também é represado (há uma usina em Paraibuna, se não me engano). O governador apareceu para fazer marquetingue político, e cometeu a indelicadeza de prometer o Carnaval, além de não assinar o decreto de calamidade pública. A mídia ficou sobrevoando de helicóptero para a revolta dos locais. O destaque ficou para o pessoal do rafting, que com sua prestatividade fez o contraste a este festival de insensibilidade.

Enfim: muitos sofrem, alguns morrem, entra ano, sai ano, e segue a mesma caravana, até os cães já são previsíveis. Vai continuar chovendo muito nos lugares e nas épocas onde soi chover muito. O que resta saber é se um dia teremos dirigentes que se ocupem de fato dos problemas da população, e não apenas dos interesses próprios e de suas camarilhas; e também se teremos direito a meios de comunicação sérios, dispostos a passar informação aprofundada e isenta, objetiva e sem sensacionalismos ou sentimentalismos contraproducentes; por fim, espero que a blogosfera - ou seja, nós - se comporte de maneira mais madura (obviamente me refiro apenas a alguns).

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