quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Ninguém Segura Este País?


O Brasil é caracterizado, dentre outras coisas, pela memória curta. Nos anos 70, o crédito externo fácil e o empenho dos militares em criar um ambiente propício para corporações estrangeiras nos brindou com um pujante "milagre econômico". Bastou os EUA elevarem os juros no que ficou conhecido como Choque Volcker, além de uma segunda crise do petróleo, para que entendêssemos o significado de "ninguém segura este país": despencamos das alturas do "milagre" para as profundezas da "década perdida", sem rede.

Eis que agora se reedita o mesmo roteiro de ufanismo, ainda que a trama seja ligeiramente diferente. Não sendo economista, mesmo assim estudei o assunto (e todos os demais) no meu doutorado em Palpitologia Avançada. Concordo de certa forma com a mídia internacional (The Economist, Newsweek etc.) quando dizem que o bom momento (dependendo do ponto de vista) brasileiro começou com FHC. Como teórico da dependência, soube pô-la em prática: preteriu seu povo em favor de grandes empresas estrangeiras (loucas para lucrar no Brasil, mas reticentes ante a instabilidade) e novos grupos nacionais que ativamente ajudava a criar. Acreditava sinceramente que o grande capital prosperando levaria o país a reboque. Praticou um irresponsável populismo cambial - que quebrou o país reiteradas vezes -, apenas o suficiente para garantir sua adventícia reeleição, depois da qual sentou-se em uma colina para ver Roma queimar. Ainda assim, criou exitosamente condições favoráveis às corporações, e a seus "banqueiros sem capital", como diz o Nassif (mesmo precisando ir ao "limite da irresponsabilidade") e com isso modernizou o capitalismo brasileiro.

Lula enfrentou o terrorismo do Deus Mercado mesmo antes de vencer as eleições; aceitou a intimidação e manteve o mesmo comportamento dos monetaristas, obcecados com metas de inflação e pagamento da dívida, em prejuízo dos investimentos necessários. Ainda assim, uma nova farra de crédito mundial, e o preço das comódites, garantiram boas taxas de crescimento. O ingrediente realmente novo da fórmula foi o impacto indireto que a política de renda mínima (essencialmente social) teve sobre a economia, fortalecendo o mercado interno. A crise política do assim-chamado mensalão (e adjacências) foi um mal que veio para bem, permitindo defenestrar Palocci et caterva, para dar vez aos desenvolvimentistas como Mantega e Coutinho. Bastou garantir um segundo termo para, ao contrário do antecessor, passar a investir. Graças ao impacto do PAC, à inércia do Bolsa Família e aos ganhos do mínimo, aos apelos ao consumo e aos cortes de impostos, o Brasil lidou bem com uma crise mundial de grandes proporções, não superada até hoje.

Pois se a economia vai bem, e os indicadores sociais dão sinais de reação (o que diferencia este do outro milagre), é motivo de celebrar, mas certamente não é conveniente deixar-se levar pela euforia, que a própria publicidade oficial anda estimulando ("o país do futuro virou o país do presente"). Um momento de prosperidade como este tem a propriedade de ofuscar as mazelas estruturais. Corro sem constrangimento o risco de ser tachado de pessimista, e já consigo ouvir a expressão "síndrome de vira-lata", mas acho saudável lembrar aos partidários do "Brasil-Potência" que:

* Um novo tombo da economia mundial pode atrapalhar nosso avanço.
* O Brasil depende de produtos primários, cujos preços podem e vão oscilar.
* Nunca produzimos um único transistor, e ser dependente em alta tecnologia é ser subalterno.
* Há o gargalo da infra-estrutura, o chamado "custo-Brasil", a emperrar uma real pujança capitalista.
* A falta de ferrovias e hidrovias, com dependência do modal rodoviário é belo exemplo.
* A burocracia é talvez a herança lusa que mais se faz sentir, e desestimula o investimento
* Grandes empresas conseguem "facilidades", enquanto os micro, pequenos e médios penam para sobreviver.
* A corrupção é de fato endêmica (adjetivo que já gerou mal-estar com os gringos) e não dá mostras de cansaço. É bem verdade que a investigação tem avançado, mas a punição ainda é virtualmente nula.
* Os setores conservadores da sociedade, que lucram com sua injustiça e não querem nem pensar em democratizar de fato o país, são ainda muito poderosos e eficientes "formadores de opinião".
* O Brasil deixou de ser o segundo país mais desigual: é o sétimo.
* No que diz respeito a Terra, ainda somos o segundo lugar em concentração, primeiro em uso de agrotóxicos, e ainda exultam o agronegócio como motor de nossa economia.
* Estamos na posição 75 da lista de Índice de Desenvolvimento Humano: mesmo sendo considerado alto, o IDH 0,813 é menor do que o de Trinidad e Tobago, ou o de Cuba sob embargo, ou o dos vecinos do cone-sul Argentina, Uruguai e Chile e mesmo o da atrasada Venezuela. E não consta que sejam potências.
* Temos, quase sem exceção, uma polícia ineficiente, corrupta e violenta, em especial contra os mais pobres.
* A violência urbana não é mais exclusividade das grandes metrópoles, onde se transformou em deflagração aberta. 
* O pior de tudo, a educação brasileira vai de mal a pior. Uma lista recente põe o Brasil em 88º, e estão no ensino médio menos da metade dos que deveriam.

Um estudo, nada desinteressado, do Ipea, apontou que por volta de 2016, poderemos ter indicadores sociais a ombrear com os países desenvolvidos, a se manter o ritmo atual de redução da desigualdade. É bom saber, e resta esperar que se cumpra. Eu acredito que podemos, mas a renda mínima uma hora se esgota: dependemos de geração de empregos e escolaridade para aproveitá-los. Os recursos do pré-sal, quando começarem a pingar, podem ajudar muito ou atarpalhar um bocado: podem anestesiar o ímpeto produtivo (como na Venezuela ou na Nigéria, mal comparando), e podem ser desviados para o enriquecimento ilícito; além disso, não se pode saber em que ritmo se dará a extração. Quanto aos dois eventos internaconais que gostam de usar para ilustrar a "década do Brasil" - Copa e Olimpíada -, serão puro circo, com elevado risco de vexame internacional  - ao se revelar nossa crônica desorganização-, e garantia de dinheiro público indo pelo ralo; mas ainda é bacana tê-los por aqui, mesmo não deixando impactos duradouros significativos - um trenzinho aqui, um estádio acolá.

Enfim, será uma década interessante de acompanhar, e pode ser que ao fim dela estejamos no primeiro time das nações mundiais, ainda que me pareça um tiro longo. Mais uma vez, tudo que peço é cautela, e atenção com a defesa pois o jogo não está ganho. Aliás, o famoso "já-ganhou" foi o que derrotou a seleção tantas vezes, a última Copa é só um exemplo; e vai representar um papel importante, ao que tudo indica, na sucessão presidencial. Afinal, como o governo em fim de mandato lança uma segunda versão do PAC?

Um comentário:

EngajArte disse...

Leonardo, ótimo artigo, traça bem o perfil do Brasil.
Também tenho a mesma visão do benefício do mensalão para nos livrar do Paloci, mas também vejo que como o Ciro Gomes comentou, com a fragilização do governo por aquele episódio, a saída política foi a absorção pelo governo de grupos obscurantistas, mas que trazem estabilidade política, assim como a saída econômica do populismo cambial, tudo isto são vagalhões que levam a nau brasilis a rumos incertos.
A fragilidade que a política de juros altos e moeda supervalorizada e défcits gigantes na balança comercial não ficará impune, ou pagaremos com atraso de desenvolvimento, pobreza, ou outros sofrimentos mais. Desativar esta bomba é que é o nó, agora que deixou inflar, se segura quando estourar.
http://engajarte-blog.blogspot.com/