quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O Problema Ambiental


Tenho escrito sobre meu ceticismo em relação ao Aquecimento Global e temor quanto aos "mecanismos" que pretendem adotar para mitigá-lo. Fique claro que penso que pode mesmo haver um Aquecimento Global Antropogênico em curso (ainda que haja uma década que o planeta esfria); mas me parece que há alguns sinais de alerta de desonestidade científica. Não inventaram uma conspiração, apenas truncaram os dados, simplificaram o fenômeno e chegaram a uma conclusão perfeitamente "científica".

Mas mesmo a aceitar como verdadeira e inquestionável a tese, o que acho absurdo é que toda a energia humana para proteger o meio ambiente - coisa muito recente e incipiente até agora - volte-se de repente para medir (ou estimar, antes) quanto de carbono está sendo emitido, para daí estabelecer um mercado.

E cometi, na última postagem a respeito, a imprudência de prometer escrever sobre o que eu achava que deveria de fato ser feito. Ainda bem que ninguém leu, mas resolvi arriscar mesmo assim algumas elucubrações. Para opiniões confiáveis sobre o assunto, procure (pelo menos) um especialista.

A primeira assertiva que proponho é que o capitalismo é nocivo, ou induz a um modo nocivo de relação com a Terra, mas essa constatação sozinha é insuficiente, e superficial. Obviamente, a lógica do lucro máximo a qualquer custo e a necessidade de acumulação incessante submeterão sempre a integridade dos recursos hídricos, da cobertura vegetal e por aí a fora.

Mas se voltarmos até o século XVII, muito antes da Revolução Industrial, e mesmo do capitalismo, René Descartes já afirmava ser preciso conhecer a Terra para pô-la a nosso dispor; portanto é também uma questão de uma mentalidade cartesiana-liberal-burguesa, e podemos dizer até judaico-cristã, que vê a Terra como um presente de Deus, para ser usada a seu dispor. Outra questão a ser considerada é a demográfica, associada à dos aos modos de vida. A população mundial, que em 1800 não chegava a um bilhão, há meio século era pouco menos que três, já é quase sete e deve ser de nove bilhões na metade deste século, impõe uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais. Mas se fôssemos sete bilhões de bolivianos não haveria tal pressão: volta a questão do capitalismo, cujo modo de vida - que se dissemina rapidamente - exige quantidades absurdas de recursos naturais, pressupõe processos fabris poluentes e gera montanhas de lixo. Ou seja, o problema é menos o crescimento da população que a disseminação de um modo de vida insustentável, enqunto aquele que durou 8 mil anos, da revolução agrícola até a II Guerra (Hobsbawn) é tachado de atrasado. Também não se trata de manter-nos no privilégio e proibir os demais de "progredir". Penso que o modelo deveria ser tirar o foco de grandes cidades, e do latifúndio monocultor industrial, estabelecendo pequenas cidades prósperas com grau de autonomia maior, e produção local - por gente local - dos alimentos, pequenas indústrias e serviços, tudo descentralizado. Se utilizarmos permacultura e energia renovável e limpa, melhor ainda. E se os meios de produção fossem socializados, seria perfeito.

Agora, bastaria trocar o capitalismo pelo socialismo? Certamente não, ainda mais se considerarmos o "socialismo real", que não era mais que um capitalismo estatal sob um regime totalitário. E como então superar o capitalismo? Isso deveria ser a preocupação primeira dos chamados intelectuais de esquerda, que em sua maioria vivem ou da capitulação frente ao capitalismo liberal - sob alguma forma de reformismo - ou da nostalgia das tentativas frustradas - e da visão de um capitalismo que já não existe. O que é preciso é resgatar o que há de bom em Marx, principalmente o sonho de uma sociedade igualitária, e ter em mente o novo determinante que está em pauta, o ambiental, no forjamento não de uma utopia - a ser imposta a ferro e fogo, transformando-se em utopia -, mas de uma mentalidade que questione as tolas necessidades do capitalismo e mire em uma relação harmônica dos humanos entre si e com as naturezas - primeira e segunda. Ainda que uma sociedade igualitária e sustentável soe mais utópico do que qualquer outra coisa.

Enquanto seu lobo não vem, só resta esperar que os governos ajam com veemência, aprovando e fazendo cumprir legislações duras, e sobretudo evitando o dano antes que ele aconteça. Aquecimento Global? Bem, se as emissões de gás carbônico são um problema de fato, a tônica deveria ser agir sobre os maiores emissores, e limitar a emissão per capita em um valor razoável, obrigando os industrializados a reduzir emissões; instituindo também um fundo (custeado pelo imposto financeiro global) que pagasse bônus sobre a "cota não utilizada" aos países pobres; e sem possibilidade de comprar "cotas de carbono". Quanto ao desmatamento, seu combate não deve depender de outra casa que não ele mesmo; e mais uma vez, incomoda muito a ideia de floresta como um negócio (o que já é, em grande medida).

Eu ainda acho que, se a tese do AGA for correta, nem a mais exitosa campanha de redução de emissões (20% digamos) mudará nada: estaríamos fritos. Ceteris Paribus, obviamente. Ainda creio que a humanidade ainda pode, e deve, tomar as rédeas de seu destino e evitar uma condição limite de deterioração da vida nos próximos séculos. Mas parece não saber como. O Aquecimento Global é um risco hipotético, uma ação antrópica indireta; os riscos palpáveis de ação antrópica direta - contaminação do ar e da água, desequilíbrio de ecossistemas - já se fazem sentir, e com rapidez crescente.

2 comentários:

CrápulaMor disse...

Desconfio muito da tese da superpopulação, mas é evidente que o Paradigma Moderno nos trouxe a esta situação limite, em que o Planeta demonstra sintomas de esgotamento. Descartes foi um dos pais deste Paradigma. A lógica cartesiana, aliada ao Projeto Iluminista da burguesia, entendiam que o homem era centro e medida de todas as coisas. Portanto, nada mais natural do que explorar todos os recursos disponíveis, em nome do Progresso humano, em nome da expansão da Civilização.

Ainda hoje, a direita defende que este é o melhor caminho para a humanidade. Quem prefere viver em uma Colômbia? Mas pra ser Estados Unidos é necessário desenvolver-se, ainda que isso implique sacrifício ambiental. A direita atropela, negligencia o debate sobre o clima. A esquerda não tem mesmo como substituir o capitalismo, precisa apresentar formas de compensação, amenização dos efeitos nocivos- praticadas por meio do Estado.

Parabéns pelo texto! Abraços!

Leonardo Afonso disse...

Como disse, o problema é menos o crescimento da população que a disseminação de um modo de vida insustentável, enqunto aquele que durou 8 mil anos, da revolução agrícola até a II Guerra (Hobsbawn) é tachado de atrasado. Também não se trata de manter-nos no privilégio e proibir os demais de "progredir". Penso que o modelo deveria ser tirar o foco de grandes cidades, e do latifúndio monocultor industrial, estabelecendo pequenas cidades prósperas com grau de autonomia maior, e produção local - por gente local - dos alimentos, pequenas indústrias e serviços, tudo descentralizado. Se utilizarmos permacultura e energia renovável e limpa, melhor ainda. E se os meios de produção fossem socializados, seria perfeito.