sábado, 23 de janeiro de 2010

Olhe Sempre o Lado Bom da Vida


Esbarrei nesta imagem em um blogue, que dava a ela uma conotação negativa, ou pelo menos via nela um motivo para atacar o governo paulista. Tentarei exergá-la fora do espírito de disputa político-partidária (a famosa briga de torcida).

É um belo instantâneo de alegria em meio à adversidade: a menina exibe um belo sorriso enquanto brinca com seu cãozinho flutuante, que parece posar para a câmera; em segundo plano, pelo menos um dos rapazes é visto sorrindo, contagiado pela singela brincadeira. E a água da enchente nas canelas.

Uma das mais recentes postagens tinha um tom cético em relação ao Brasil, mas apenas para criticar o ufanismo irrealista dos que acreditam tanto no potencial que o Brasil de fato tem que pensam que já chegamos lá, ou estamos muito perto. Um chamado de alerta, por assim dizer. De qualquer forma, acho de bom tom (se é que alguém vai ler isto, não importa) soltar uma postagem mais otimista.

Quero falar sobre a fibra do brasileiro. No módulo sociológico do meu doutorado em Palpitologia, aprendemos que é característica dos povos latino-americanos, pertencentes às sociedades mais injustas do mundo, não se abater, conservar o bom humor e seguir batalhando mesmo expostos a realidades tão duras. Imagine um francês, que mesmo com todas condições materiais, um Estado operante e basicamente idôneo, mesmo com educação e acesso à cultura, permite-se sentir um vazio existencial e exibir um já tradicional mau humor. Será o marasmo de não ter nada a resolver a raiz do problema, assim como as sociedades "perfeitas demais" da escandinávia supostamente levariam tanta gente ao suicídio? Agora imagine-se no interior de algum estado nordestino: talvez os que ainda vivam em penúria extrema levem a existência acabrunhada de Fabiano e Sinhá Vitória, retratados por Graciliano. Mas a experiência que eu tive foi com gente que tem muito pouco, mas não passa aperto, e está sempre alegre e fazendo piada - se der para assar um bode e tomar cerveja, melhor ainda. Pense então na Amazônia, onde sorrisos são tão espontâneos, onde a confiança no semelhante não desapareceu, em meio a condições apenas dignas, se não precárias. Como ignorar o fenômeno antropológico do Rio de Janeiro com suas manifestações culturais antropofágicas e anárquicas que a elite conservadora insiste em associar exclusivamente à criminalidade e à perversão (enquanto seus filhos aderem)? Não nos equeçamos dos gregários mineiros, e de seus vizinhos goianos; ou dos vilarejos de imigrantes no Sul e no Espírito Santo, com suas tradições. E por aí vai...

É um argumento válido o de que essa alegria não mostra de fato fibra, mas uma resignação ante a injustiça; que se se mobilizassem poderiam mudar seu curso de vida. Bem, exemplos de luta popular há vários, e não convém os arrolarmos aqui, mas como constante são criminalizados e combatidos pelo "Brasil opressor" (tome o exemplo, ficando nas enchentes, dos recentes protestos na Zona Leste). Então vejamos: se quem pertence a classes favorecidas se sente desenganado pelo modo como é conduzida a política no país e se entrega a uma (às vezes hipócrita) descrença, imagine os que são historicamente tratados como insignificantes, ganhando algum "valor" apenas nas eleições: tenderão mesmo a crer que "pobre não tem valor, pobre é sofredor; e quem ajuda é o Senhor do Bonfim" e farão o possível para se alegrar, pois afinal para isso só é preciso gente, talvez uma "vitrola", um pandeiro ou um violão.

Creio que temos um belo povo, ou mosaico de povos. Obviamente a "democracia racial" é um mito, há um grande esforço pela frente para eliminar a discriminação contra o negro - mas muito já se avançou - e um impasse nunca suficientemente enfrentado é a maneira como o índio deve (ou não deve) se integrar à sociedade maluca que surgiu nestas terras da Coroa Portuguesa. O imigrante europeu, e japonês, foi um enxerto com fins de "branqueamento", e sua integração foi pacífica; incomoda a mim é que esse "enxerto" acabou adotado como padrão de beleza, mas isso já é outra discussão.

A nota incômoda é que toda nossa riqueza étnica e cultural é sistematicamente ameaçada pela cultura de massa extrangeira, principalmente norteamericana. Não sugiro a xenofobia cultural: gosto muito de música americana (rock, jazz) e tendo a chance de visitar um museu na Europa, farei-o com gosto. Sem deixar de apreciar um Chorinho ou um Maracatu. Na verdade, confesso que já fui mais "colonizado". Refiro-me por exemplo à televisão por assinatura, que despeja centenas de enlatados em nossas casas, ou à naufragante indústria do disco, que inventa de quando em quando um "fenômeno pop".

Mas voltando afinal à foto da garotinha com sua balsa de isopor e seu cãozinho: é um bálsamo para alguém como eu que se revolta e se encoleriza com nossas mazelas parece que insanáveis. Vem à mente a musiquinha do Monty Python no fim de A Vida de Brian: "Olhe Sempre o Lado Bom da Vida".

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