terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Que Será do Haiti?



Eu sei que é o momento de se condoer com a tragédia do Haiti, vitimado por um terremoto de 7 graus Richter, cujas consequências, amplificadas pela debilidade da infra-estrutura local, fazem-no o pior evento sísmico em dois séculos. É hora de o mundo desenvolvido, principalmente, assumir o protagonismo no esforço humanitário de salvar os soterrados, enterrar os mortos e garantir um mínimo de dignidade aos sobreviventes. Mas podemos nos permitir analisar a resposta à catástrofe, e especular sobre o futuro próximo do país mais pobre do hemisfério ocidental - embora uma coisa seja certa: o que era ruim vai ficar pior e por muito tempo. 

Antes de mais nada, há que se recapitular brevemente a triste História do Haiti, repleta de golpes e intervenções externas. Possessão colonial francesa, e bastante produtiva, o país viu a primeira revolta escrava bem sucedida, em 1803, estabelecer o primeiro país independente da América Latina e do Caribe. Após um período de grande instabilidade (mais regra que exceção), foi a vez dos EUA ocuparem o país, em 1915, lá restando até 1934, mas nunca afrouxando muito o torniquete imperialista. Em 57, François Duvalier foi eleito, com suspeitas de fraude e interferência do exército. Os EUA, reticentes por sua brutalidade, findaram por apoiá-lo como uma barreira ao comunismo que tomou a ilha vizinha em 59. Foi o reino de terror de Papa Doc e seu filho Baby Doc, e seus temíveis Tonton Macoutes. Em 86, até os EUA temiam a revolta total de defenestraram Jean-Claude (Baby Doc). Jean-Bertrand Aristide, padre, foi o primeiro presidente eleito, em 90, derrubado em 91; voltaria em 94 (com interferência americana), terminando o mandato em 96; vencendo eleições controversas, voltou ao posto em 2001, e em 2004, após denúncias de corrupção e rebeliões populares (a insatisfação com o governo é obviamente crônica), foi sacado de lá por EUA/França e enviado ao exílio na África do Sul. Lá está até hoje, e seu partido foi banido das eleições programadas para este ano, que não devem ocorrer. Sem julgar sua figura (eu não teria elementos para tanto), cumpre dizer que há manifestações por sua volta, duramente reprimidas, inclusive por nós, tapuias.

O Brasil, que chefia a Minustah - força de "pacificação" pós-golpe - fez bem em anunciar esforços consistentes de ajuda - ainda que seja em parte para reforçar seu papel subimperialista. Ocorre que quando os patrões desembarcam dez mil marines, sem qualquer preocupação de coordenação, ou seja, passando por cima da ONU com a arrogância costumeira, ao Brasil - e a seu ridículo ministro fardado - só resta fazer beicinho. Podemos pensar, colonizados que somos, que eles são muito mais eficientes, e é apenas natural que controlem o aeroporto, dando preferência a voos norteamericanos. Não é o que diz este artigo, do MediaChannel, espécie de Observatório da Impreensa gringo: as 72 horas cruciais após o desastre estariam sendo desperdiçadas em "avaliar a situação", e enquanto a "América" manda armamento, países como Islândia e China foram muito mais eficientes em enviar suprimentos necessários.

A preocupação maior dos americanos é "garantir a segurança", ou seja: impedir saques, ou eventualmente revoltas populares. As tropas mobilizadas vão ajudar no esforço humanitário sim, mas já sairam com o carimbo de "tropa de ocupação". Lembra quando eu disse que as eleições serão canceladas? Pois será alçado ao poder, pelos imperialistas acostumados a tanto, um "grande líder", "livre de ideologias perigosas" (como aumentar os salários), para coordenar os esforços de reconstrução (a ser tocada pelas corporações ianques). Um títere, pois para efeitos práticos, o Haiti será - e já é - um protetorado americano. Já está nítido o tom "paternalista" da "ajuda", que impede qualquer autonomia aos haitianos.

Mas o que podem querer os EUA de um país tão pobre? Simples: que sigam pobres e trabalhem quase de graça. Faça a experiência: pegue aquele bichinho de pelúcia da Disney da sua irmã - ou seu - estará lá "Made in Haiti". São as famosas sweatshops - como as hondurenhas, vejam só -, fábricas de trabalho degradante e pagamento quase fictício, que garantem que produtos intensivos em mão de obra cheguem baratinhos e rendam bons lucros aos empresários americanos. Resulta que para além do jogo de cena humanitário - um país veramente preocupado com sofrimento, mortes e destruição não os provocaria tanto - há interesses imperialistas e econômicos inevitáveis. Inevitáveis mesmo, pois nada os conterá. Monroe deve estar satisfeito, onde estiver. Pobre Haiti pobre. Passado o pior, volta o muito ruim.

P.S.: Para mais sobre o "capitalismo de desastre", sugiro a moça aí embaixo, Naomi Klein e sua Doutrina do Choque. Ela já deu declarações de temor pelo Haiti, revelando um comunicado da Heritage Foundation ressaltando as "oportunidades" após a calamidade - que ficou poucas horas no ar, sendo substituído por um de tom menos entusiasta.

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