sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Quem tem medo do Vannucchi?


Uma coisa que me agrada no Brasil de uns anos para cá: o debate. Tudo bem, é mais briga de torcida do que debate, mas considere que estivemos seriamente ameaçados com o discurso único, quando os descontentes gritavam sozinhos e batiam cabeça. Concordo que Lula não rompeu com quase nada do Estado neoliberal que herdou do sociólogo da boca-mole - ainda que agora no finzinho do segundo mandato pareça dar uma entortada à esquerda -, mas foi com a ascenção do PT, e o concomitante progresso da blogosfera, que a sociedade se revelou nitidamente dividida em dois campos, aos quais podemos ainda chamar de direita e esquerda (termos cujo significado já esmaecia), mas que são melhor descritos como lulismo e antilulismo, com os independentes no meio do fogo cruzado, o que é meu caso.

Pois se Lula não foi nada parecido com um bolchevique, o que fez a chapa esquentar assim? Ora, o espernear dos setores hegemônicos de sempre, não tanto pelo temor por seus interesses capitalistas, mas por serem como aquele filho único de quem tiram um brinquedo. Ocorre que esses setores, minoritários, da sociedade, sempre dispuseram de uma poderosa ferramenta: os meios de comunicação. Foi então - e ainda é - um festival de ataques da mídia, quase sempre sem fundamentação, ao governo, beirando muita vez o ridículo (enquanto as críticas que devem ser feitas não o são); enquanto isso, com a nova ferramenta que permitiu maior democratização e participatividade no jogo da informação - a internet - o outro campo dedicava-se - e ainda o faz - a expor as manipulações enviesadas. Escusado dizer que, além de trabalho sério, a internet também serviu para disseminar gracinhas e mesmo insultos, então um chama o outro de petralha (termo depreciativo para petista) e o outro aponta o dedo para o PIG (Partido da Imprensa Golpista). De minha parte, não gosto deste último termo, ainda que entenda se tratar de um chiste: não creio que tivemos qualquer ameaça à ordem democrática (ou plutocrática), nem que a imprensa agiu com isso em mente, ou ainda que alcançasse, por si só, tal intento. Por fim, outra característica dessa guerra é que ela é travada no varejo, sobre pequenos fatos ou factoides e dificilmente se vê a discussão mais ampla e aprofundada - mas isso nunca foi diferente, foi?

Eis que um episódio, atualíssimo, aparece para - a meu ver emblematicamente - escancarar essa salutar clivagem ideológica da sociedade, ou ao menos jogar uma luz que revelasse nitidamente os contornos de grupos que conseguiram exibir por muito tempo a pantomima de patrióticos progressistas. Falo, como está óbvio desde o título, do Plano Nacional de Direitos Humanos, elaborado democraticamente sob a batuta do secretário especial Paulo Vannucchi. O item mais polêmico, que toca em ponto nevrálgico e alçado a tabu maior da nação, é a instituição de uma Comissão de Verdade e Justiça para apurar e trazer a claro os crimes de tortura da ditadura militar. Aplaudi a iniciativa desde o início, reservando-me um desenganado ceticismo: o brasileiro é aquele cara bonachão, o homem cordial, para quem o deixa-isso-pra-lá faz muito mais sentido que um brio cívico ou uma sede de justiça; ademais, tirando uma parcela politizada que combateu de algum modo o regime de exceção, a maioria ou o endossava, ou engoliu a propaganda oficial de que os dissidentes eram terroristas (e preocupava-se mais com o preço do frango do que com a tortura) ou tinha plena consciência da gravidade do que ocorria, mas pensava que o certo seria cuidar de seus interesses e manter sua integridade física; não vejo motivo para mudarem de ideia justo agora. As novas gerações? Em sua maioria acham o assunto uma chatice. E uma abertura como essa - rotulada pateticamente de revanchismo - precisaria de amplo apoio e pressão poplulares; arrisco dizer que se a proposta fosse a referendo - com auxílio da mídia, claro - seria derrotada. Enfim, a grita dos militares foi imediata e foi ecoada pelo ridículo ministro da defesa; a imprensa aproveitou para inventar uma crise institucional e tentar desgastar o governo - alinhando-se tacitamente, ou nem tanto, com o lado ao qual na época serviu de instrumento de propaganda (nem tão coagidos assim).

Bem, mas aí não há surpresa alguma, não se poderia esperar nada diferente da caserna. Mas não tardou a um plano pelos direitos humanos suscitar mais reações hidrófobas. Aliás, o Brasil tem verdadeiro desprezo por eles: quantas vezes você já ouviu "direitos humanos para bandido?", quantos de nós realmente acha absurdo que trabalhadores braçais sejam tratados como são? São graves sintomas em uma sociedade que agora celebra (e é celebrado por) sua democracia sólida, sua economia pujante, e bota fumos de potência. Se bem que - e juro que digrido só mais um pouco - a China é o grande fenômeno do começo de século mesmo os desrespeitando aberta e sistematicamente. Pois então: quase arranquei os cabelos ao ver no Jornal Nacional (foi casual, não costumo fazer isso) a matéria que dizia que depois dos militares, agora eram a "agricultura" - leia-se latifundiários - e a imprensa - golpista ou não - que reagiam ao Plano. Então aparece aquela senhora senadora pelo Tocantins em tom de franca ameaça para dizer que a introdução de audiências para mediar conflitos em invasões de terra serviria para "dificultar a reintegração de posse". Depreende-se que o diálogo é inaceitável: o Estado serve para expulsar (ou exterminar, quem sabe) os "bandidos" que ousarem questionar a segunda maior concentração de terra do mundo. Mas, veja bem, não é verdade que Kátia Abreu represente o atraso: há poucos anos, seria impensável uma "coronela".

Para terminar, a Globo reporta sua visão como sendo a de toda uma classe profissional: o Plano traz a censura. É incrível como viram tudo de cabeça para baixo: apoiaram e apoiam até hoje a ditadura, mas qualquer controle sobre sua atividade é censura. Imaginem um médico que esquece uma tesoura na barriga de alguém alegando que sua atividade não pode ser cerceada. Tudo o que o plano diz é que se deve monitorar o comportamento dos meios no que diz respeito aos direitos humanos, e cai na besteira de falar em cancelamento de concessão. Ora, concessão é algo sagrado, a mesma coisa que um latifúndio: é meu, eu vou fazer o que quiser e se chegar perto é bala; são as duas reformas primordais que precisasm ser e talvez nunca sejam feitas: agrária e eletromagnética.

A alegraia do palhaço é ver o circo arder, e eu aqui dou risada ao ver a elite brasileira se comportar de forma mais caricata do que aquela retratada em filmes brasileiros politizados (desses que não existem mais). Talvez eu seja muito cético e pessimista, resta ainda ficar na torcida pelo Plano de Direitos Humanos, pela Comissão da Verdade e Justiça, e pela Confecom. Imagina os torturadores ao menos identificados e expostos, os meios de comunicação, e a terra, democratizados? Aí sim eu me junto à euforia do Brasil-potência!

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