terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Chomsky no Democracy Now - parte 1 - Integral

Esta página recentemente está saturada de Noam Chomsky. Eu mesmo não vejo problema algum nisso, e já que a mantenho para mim mesmo - agradecendo ao eventual leitor por aí -, vai continuar assim mais um tempo. É que tomei agora a tarefa de legendar a primeira parte da entrevista de Chomsky no programa Democracy Now! O que andei publicando aqui em cinco (sub)partes foi a segunda. Sem mais conversa, Noam Chomsky no Democracy Now! - parte 1.
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Chomsky no Democracy Now - parte 2 - Integral

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cala a Boca, Magda!

Lula é incensado como hábil negociador, e deve ser verdade pois até FHC o reconhece - ainda que me pareça que essa "virtude" seja mais, como aponta o mesmo FHC, a de aquiescer ante a reação conservadora. Enfim, espera-se de um interlocutor político hábil que suas declarações públicas sejam igualmente hábeis, livrando-se dos espinhos e mesmo somando pontos a seu capital político, qualquer que seja a situação. E se imagina que não apenas o homem público tenha esse tino, mas (pelo menos) que se cerque de assessores que analisarão a situação e aconselharão a linha a ser adotada - ainda que um "ventríloquo" como Obama não seja a imagem ideal de estadista. Pois às vezes Lula se trai e fala o que não deve.

Lula já havia soltado uma declaração infeliz quando eclodiu o escândalo do governador do Distrito Federal, José Roberto Gargamel, e eis que agora com o advento de sua prisão preventiva, aprovada por virtual unanimidade pelo pleno do STJ, Lula mete os pés pelas mãos de novo e é mais criticado pela imprensa do que o criminoso em si (ou seja, dá combustível aos tanques de guerra da velha mídia). Nas duas situações, é possível perceber as motivações do presidente, pode-se concordar com o que tentou dizer, mas mesmo seu mais fervoroso correligionário há que reconhecer que pecou na formulação das frases. Na melhor das hipóteses; na pior, escapa ao meu alcance por que diabos Lula iria defender um conspícuo corrupto, e do campo adversário (cotado inclusive para vice na chapa da oposição), e nem o episódio do "mensalão" em seu próprio quintal explicaria qualquer coisa.

Quando estourou o "panetonegate", com o vídeo de Arruda, então candidato, recebendo um maço polpudo de dinheiro - repetido ad nauseum pela Rede Globo - além de outros vídeos e áudios de menor repercussão, o presidente operário estava na simpática Cascais, para uma "cimeira" ibero-americana. Entende-se que tenha tentado contemporizar, pois não lhe cabia - em seu papel de chefe do Executivo Federal - partir para a execração pública de um chefe de Executivo Estadual (ou Distrital) no exercício do cargo. Afirmou, com toda propriedade, que as investigações deveriam prosseguir, que Polícia Federal e Ministério Público deveriam fazer seu trabalho, e competia ao Judiciário julgar, ou algo assim. Mas quando disso isso, já tinha feito a declaração infeliz: "imagem não fala por si". Por mais que seja uma verdade - sabemos que há mil trucagens possíveis, ainda mais em tempos de computação gráfica -, no caso da fita (para usar um termo obsoleto) de Arruda, não havia muito espaço para acreditar em manipulação, até por que as denúncias eram corroboradas não apenas por aquela peça, mas por farto material audiovisual. Parece que Lula, do lado de lá do Atlântico, em nossa antiga metrópole, não havia assistido a nada - então bastaria dizê-lo, ora! - e fez questão de dizer depois - que seja para minimizar o impacto da declaração anterior - que havia visto as imagens e que "eram graves".

Depois que ontem o STJ anunciou a prisão de Arruda, a velha mídia noticiou ao mesmo tempo que o próprio se entregara à PF, e que o presidente Lula teria ficado "chocado", "desolado", que acharia o fato "lamentável", tudo em meio à euforia da opinião pública pela prisão do careca - que foi de fato um marco histórico no combate à corrupção. Bem, como não houve uma declaração pública, tratou-se de "fofoca" de um "assessor próximo", fica difícil saber o que Lula de fato disse. Em grande medida, trata-se de manipulação da mídia de sempre - em especial os veículos mais engajados contra Lula  - para colar Arruda nele e desgastá-lo. Mas é óbvio que Lula deve ter de algum modo expressado seu pesar por ver o triste destino de um colega de profissão com quem tinha uma relação cordial. É aliás esse aspecto humano que dá a nota peculiar a Lula. Talvez tenha sido essa consternação solidária que foi amplificada pelos ruidosos canais do jornalismo tapuia.

Hoje, Lula percebeu a repercussão do boato e foi firme: disse que se sentia chocado mesmo é com as cenas de Arruda recebendo a grana (que agora falam por si); lembrou o projeto que enviou ao Congresso tornando corrupção crime hediondo; e assumiu mesmo o tom moralizante ao proferir o clichezão "que isso sirva de exemplo". Bem, ou é o que pensa e a culpa é toda da mídia "golpista", ou foi orientado a assumir essa aparentemente nova postura. De qualquer forma, o que se percebeu nas duas ocasiões foi que ele não tinha a frase certa na ponta da língua, e acabou usando frases ambíguas que fizeram a festa da mídia sensacionalista. Não senti em nenhum momento que ele defendesse a corrupção ou a liberdade do governador apenas por ser governador. Crédito seja dado a ele por não aproveitar o episódio no embate partidário-eleitoral: passa a imagem de distância do pega-pra-capar. Mas nesse caso não faria sentido outra incontinência presidencial, essa com sinal trocado e longe da grandeza de estadista ou da prudência (exagerada) aqui demonstrada: a ocasião em que chamou o presidente do principal partido de oposição de "babaca".

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Chomsky: Dedo Americano na Reação ao PNDH-3? Traduzido



 Leosfera:

Caro Professor Chomsky,

Entendo que a mídia americana não se importa muito com assuntos internos brasileiros, então pensei que podia partilhar com o senhor alguns acontecimentos que talvez sejam de seu interesse e eventualmente ter sua opinião a respeito.

Em dezembro último, o governo lançou um Plano Nacional de Direitos Humanos, um documento propositivo que reflete preocupações liberais globais, assuntos internos, e propunha uma Comissão da Verdade, para investigar e eventualmente punir torturadores do regime de 64-85.

Houve enorme reação da Direita, não apenas dos militares – o que era óbvio – mas também de diversos setores conservadores, que se opuseram veementemente a outros tópicos que ironicamente já estavam presentes em edições anteriores do planos, lançadas sob o ex-presidente Cardoso. Então o agronegócio se opôs a audiências judiciais prévias à expulsão de trabalhadores sem terra, a Igreja se opôs a casamentos e adoções homossexuais, abortos e banimento de símbolos religiosos em espaços governamentais, e a mídia é um capítulo à parte.

Não apenas ela atacou a ideia de monitorar o respeito dos veículos pelos Direitos Humanos, com eventuais sanções, mas faz fez um esforço para, nem sempre discretamente, acusar o governo de estabelecer o comunismo por decreto. Um “jornalista” chegou a perguntar “onde estão os militares?” O público, excetuados apoiadores informados e engajados de Lula, engoliram as conspícuas mentiras, então tivemos que ouvir declarações mais apropriadas à guerra fria.

É surpreendentemente baixa a consciência do regime de terror entre nós. É um tabu de nossa sociedade, que prefere fingir que ele nunca existiu (ao contrário do Chile ou da Argentina). Muitos estão agora difamando os militantes de esquerda (a candidata de Lula, Dilma Rousseff, foi uma deles), e a reação de Lula, mudando o documento, aparentemente deixa espaço para investigá-los também.

Entendo que haja uma tendência mundial de extrema-direita, mas aqui eu vejo muito mais uma estratégia para recobrar o poder. Agora que as mais recentes pesquisas mostram os dois candidatos, Serra (PSDB, direita) e Dilma (PT, centro-esquerda), virtualmente empatados, a tendência é que a virulência cresça (e as questões desapareçam). É o último recurso do PSDB, já que o PT vai se concentrar em comparar o tactherismo de Cardoso com a social-democracia de Lula.

Minha pergunta é: seu argumento é que a mídia “fabrica o consenso” nos EUA, um país de partido único, aqui eles de fato fabricaram consenso durante a ditadura, como o fizeram nos anos neoliberais, agora ela tenta fabricar um golpe (na Venezuela muito mais do que aqui). Qualquer expectador atento perceberá que a grande mídia representa o interesse americano aqui, não apenas defendendo posições de direita (o que se explica por interesses comuns), mas na cobertura de guerras dos EUA ou a questão Israel-Palestina. O senhor pensa que poderia haver intervenção direta americana ou trata-se de comportamento corporativista? Afinal, a Rede Globo, o maior conglomerado de mídia tem uma participação de 30% da Time-Life.
Muito obrigado pela paciência.
Cordialmente,
Leonardo Afonso.  




Noam Chomsky:

Obrigado pela atualização, estou parcialmente a par mas não inteiramente. É uma pena, para dizer o menos. Pode muito bem haver interferência dos EUA. Dificilmente seria inusitado. Mas suspeito que a razão primária é o que você sugere. É um fenômeno mundial, em variados graus, e a América Latina tem há muito sido notória pela voracidade e pela violência de elites tradicionais com elevada consciência de classe, que em grade medida possuem a imprensa – ainda que não em toda parte. O único diário realmente independente e muito bem sucedido de que eu saiba no hemisfério é o La Jornada, no México.

NC

Chomsky: Dedo Americano na Reação ao PNDH-3?


Leosfera:

Dear Professor Chomsky,

I realize american media do not care much about Brazilian internal affairs, so I thought I might share with you a few happenings which might be of your interest and eventually have your opinion on them.

Last december, the government released a Natonal Plan for Human Rights, a propositive document that reflects global liberal concerns, domestic issues, and called for a Commission of Thuth, to investigate and eventually punish torturers from the 64-85 regime.

There was a huge right-wing backlash, not only from the military - which was obvious - but also from several conservative sectors that opposed vehemently other topics that ironically were already present in earlier editions of the Plan, issued under former president Cardoso. So agribusiness opposed judicial hearings before landless workers evictions, the Church opposed gay weddings and adoptions, abortions and banishment of religious symbols from governmental spaces, and the media is a chapter by itself.

Not only they attacked the idea of monitoring the outlets' respect for human rights, with eventual sanctions, but they made an effort to, not always very discreetly, accuse the government of establishing communism by decree. One "journalist" went so far as asking "where are the military?" The public, apart from informed and engaged Lula supporters, bought the conspicuous lies, so we had to hear statements better suited to the cold war.

It's surprising how low is the conscience of the terror regime among us. It is a taboo of our society, that prefers to pretend it never happened (unlike Chile or Argentina). Many are now defamating left-wing militants (Lula's candidate, Dilma Rousseff, was one of them), and Lula's reaction, changing the document, apparently leaves space to investigate them as well.

I realize there's a world-wide extreme-right tendency, but here I see it much more as a strategy to regain power. Now the latest polls show the two candidates, Serra (right-wing PSDB) and Dilma (center-left Workers Party-PT), virtually tied, the tendency is that virulence should grow (and issues disappear). It's the last resort for PSDB, as PT will focus on comparing Cardoso's tatcherism with Lula's social-democracy.

My question is, your point is that media "manufacture consent" in the US, a one-party sate, here they did manufacture consent during the dictatorship, as they did in neoliberal years, now they try to manufcture a coup (in Venezuela much more than here). Any attentive viewer will realize that mainstream media represent US interest here, not only defending right-wing views (which is explained by shared interests) but in the coverage of US wars or the Israel-Palestine issue. Do you think there could be direct US intervention or is it a corporatist behaviour? After all, Rede Globo, the biggest media conglomerate has a 30% Time-Life participation.

Thanks so much for your patience.

Best regards,

Leonardo Afonso.

Noam Chomsky:

Thanks for the update, partially familiar to me but not entirely.  It's unfortunate, to say the least.  There might well be US interference.  It would hardly be unusual.  But I suspect the primary reason is what you suggest.  It's a worldwide phenomenon, in varying degrees, and Latin America has long been notorious for the rapacity and violence of the highly class-conscious traditional elites, who largely own the press -- though not everywhere. The one really independent and very successful daily I know of in the hemisphere is la Jornada, in Mexico.



NC

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Duvidosa Polarização Ideológica

Episódios recentes têm sugerido uma aparente polarização ideológica do debate político brasileiro. Obviamente, desde muito cada um dos campos majoritários - a situação lulopetista e a oposição demotucana - apontam o dedo para o oponente brandindo acusações, quando não ofensas, com variados níveis de respaldo na realidade. Pois se é difícil negar que o PSDB no poder seguiu a cartilha neoliberal do Consenso de Washington, perseguindo alguma preocupação social muito tímida e tardiamente, também há que se dar muita pirueta para enxergar a presidência petista como esquerdista de fato: fora a ação social mais ousada - que de fato virou referência mundial para uma atônita esquerda - o trato com o Estado seguiu basicamente o mais do mesmo, centrado em metas macroeconômicas que num primeiro momento asfixiaram o investimento e um BNDES privilegiando abertamente a formação de grandes grupos econômicos. Eu particularmente cheguei à conclusão de que Lula não tinha outra escolha a não ser um governo de coalizão, pois sabemos que mandato não se iguala a poder: o executivo não faz nada sozinho, e o poder econômico de certa forma governa nos bastidores. Só não precisava ser tão acanhado.

Afinal, foram iguais então? De modo algum. Creio que Lula e sua equipe tenham absorvido a parte "responsável" do discurso hegemônico: não há muito espaço para voluntarismos em política econômica afinal - ainda que, de novo, possa ter exagerado na ortodoxia no começo. Mas não partiu para a privatização, não arrochou os salários, não se endividou para garantir um populismo cambial. E não entregou o pré-sal de bandeja para os gringos. A "moderação" garantiu bons resultados na economia, e agradou a Davos, que inventou um prêmio ad hoc para Lula, ao passo que a inclusão social (e em grande medida também o bom desempenho da economia) que a renda mínima propiciou foi algo espantoso, agradando Porto Alegre. Vinte milhões deixando a pobreza extrema é algo certamente inédito, e bastante para caracterizar um bom governo. Além disso, no que fez de "igual", Lula foi melhor que o antecessor; não sei muito de economia, mas qualquer observador isento dirá que o manejo das contas públicas foi mais responsável.

Enfim, toda essa comparação dos dois governos vai dar pano pra manga na campanha e nem vou me estender. Mas o resumo da ópera é bem irônico: o partido da social-democracia dedica-se ao tatcherismo selvagem e o partido operário "limita-se" à social-democracia.

Resolvi escrever, como já indiquei lá em cima, sobre fatos recentes que elevaram o tom (ou baixaram o nível) da campanha - que obviamente já vai de vento em popa, o que é ótimo, pois com a Copa tende a arrefecer. Posso estar esquecendo alguma coisa, mas quero falar de dois episódios mais óbvios. O primeiro foi o 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, virulentamente atacado pelos setores conservadores. Por mais que o agronegócio normalmente se opusesse às audiências prévias às reintegrações de posse; que a Igreja naturalmente reagisse a qualquer menção ao direito de aborto, uniões e adoções homoafetivas, e banimento de símbolos religiosos dos recintos do Estado assim-dito laico; ou que a mídia corporativa não admita qualquer acompanhamento que seja, julgando suas concessões títulos nobiliárquicos de origem divina e transmissão hereditária, o que incomodou de verdade foi a Comissão da Verdade. Os militares reagiram como se esperava deles (e Lula deveria simplesmente aceitar a demissão coletiva de ministro e chefes das forças), mas a reação da direitona, que foi ao zênite da desfaçatez de tachar o plano de comunista, reeditando a Guerra Fria, visava um objetivo: evitar ser associada aos bárbaros crimes que as gerações mais recentes sabem apenas vagamente que aconteceram, a maioria ignorando o papel que neles desempenharam empresários, imprensa e anticomunistas em geral, Igreja inclusive. É melhor não remexer nisso. Pois a ação em concerto desses setores foi um sucesso: os media aplicaram sua tradicional lavagem cerebral, pintando o plano, propositivo, como um decreto que instituía o comunismo, ou no mínimo a censura; a população mais desinformada, como sempre, engoliu as mentiras, Lula pôs os panos quentes de sempre e alterou o texto - dando margem para investigar os militantes - e, mais do que isso, deu uma geladeira indefinida ao texto, que não será discutido este ano e talvez não o seja nunca mais pois Serra o trituraria e Dilma não teria metade do capital político que Lula tem. O que o episódio revela é que na população brasileira de modo geral não há um vivo sentimento de indignação contra o terrorismo de Estado da ditadura militar, que ainda há boa dose de anticomunismo e, voltando às eleições, que a tentação de atacar Dilma por ter sido militante, ainda que arriscada, tem seu apelo. E tem tudo para ser uma patética cartada final se Dilma consolidar uma dianteira.

Bem, essa foi a Direita mostrando suas garras. Já o pré-programa de governo da candidata palaciana foi "interpretado" pelos media como uma guinada à esquerda. Esse é o padrão hoje: a interpretação enviesada da "imprensa" vira verdade, e importa muito mais que o fato ou o texto original. Tudo que o pré-programa prevê é uma maior atuação do Estado na promoção do desenvolvimento, o que é uma continuação de certa forma do Lula dos últimos dias, que "ameaça" reabrir a Telebras para espalhar a banda larga pelo país. Isso é aparentemente o bom e velho keynesianismo, que está ou deveria estar novamente em voga com o colapso econômico fruto das estripulias neoclássicas. Há que lembrar, e foi ressaltado pelo PT, que o texto ainda vai passar por conversas com o PMDB. O que nos traz ao que queria enfim ressaltar: um eventual governo Dilma seria a continuação do governo de coalizão conhecido como Era Lula.

Então vemos setores conservadores insuflando uma suposta polarização ideológica que é unilateral: apenas a direita radicaliza o discurso, revivendo a guerra fria, enquanto sabemos que, se esse campo vencer, nem em sonho acabaria com o Bolsa Família, nem tampouco paralisaria a transposição do São Francisco, e pensaria várias vezes antes de privatizar BB ou Petrobras. Ou seja, não há polarização de fato: no que toca a políticas, as diferenças entre Serra e Dilma seriam praticamente tópicas (com o BC independente garantindo o interesse da Banca). A polarização se traduz assim: a Direita quer vencer no grito. E tem os meios de comunicação para tanto. É esperar para ver. Devemos considerar que nossas eleições são mais mercadológicas que ideológicas, e que se polarização há, é entre os setores hegemônicos tradicionais e o fenômeno Lula, portanto o embate se dará entre a máquina de propaganda do PSDB (aí incluída a extra-oficial), em cima de um nome conhecido de outros carnavais, e uma política neófita com seu super-cabo-eleitoral. E o bicho vai pegar aqui, na rede.

PS: Não estamos como nos EUA onde há um só partido com duas facções, mas estamos caminhando perigosamente para isso.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Captain Beefheart - Trout Mask Replica

Don Von Vliet, amigo e parceiro de Frank Zappa (em Willie the Pimp, por exemplo), entrou para a história da música popular sob o pseudênimo Captain Beefheart. Seu antológico disco de 1969, Trout Mask Replica, é o mais anárquico do roquenrou - embora tenha sido concebido e gravado sob férrea disciplina. Matt Groening, criador dos Simpsons e fã de carteirinha de Frank Zappa conta sua experiência com Trout Mask Replica: era um disco duplo, sete dólares, mas tinha o nome do Zappa (que produziu o disco), então resolveu comprar. Na primeira ou segunda audição, pensou "mas eles não estão sequer tentando!" Na terceira ou quarta percebeu que "OK, é horrível, mas é de propósito". Na quinta ou na sexta começou a gostar, e na sétima ou oitava "chegou à conclusão que era o melhor disco jamais feito - e ainda pensa assim". Aqui vai uma faixa (não deu certo adicionar várias, que pena), tirem suas próprias conclusões. Se agradar, recomendo fortemente baixar o disco todo.
Neon Meate Dream of a Octafish

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Utopia Calling

I

Do outro lado da linha, Agemiro mal cria que Pablo conseguira completar uma ligação: os dois amigos não se falavam havia já três anos. A conexão transatlântica entretanto era péssima, e não foi sem dificuldade que Pablo narrou sua desventura. Agemiro se contentou em ouvir; em seu íntimo, o amigo já não lhe despertava compaixão alguma.

Haviam estudado juntos, desde o início do fundamental até o fim do médio. Talvez não fossem o melhor amigo um do outro, inseparáveis; mas tanto melhor, pois relações intensas são geralmente mais instáveis, ainda assim, os dois eram sempre da mesma patota, e não aprontaram poucas. Chegados à adolescência, calharam de disputar uma garota, o que parece tê-los feito - ironicamente - mais próximos. Agemiro pouco pôde comemorar sua conquista, Fabiana não chegou a ficar dois meses com ele, e o caso certamente ajudou a moldar seu temperamento cético das mulheres e da vida.

Para piorar, Pablo pela mesma época começou a namorar a garota mais bonita da escola, dois anos mais jovem que os dois. Érica se destacava de fato das colegas: aproximava-se muito mais do padrão de beleza europeu imposto pela televisão que as demais; era descendente de italianos e seu pai era um industrial tão pão-duro que não a matriculava em escolas particulares, fazendo-a uma alienígena dentre os matizes raciais endêmicos na Escola Estadual Jairo Pedrosa, em Botafogo.

Pablo, assim como Agemiro, não vivia na penúria, mas também não estudava em escola pública por opção. E desde novo se mostrou afeito a dinheiro e boa vida, de modo que mesmo percebendo em Érica um gênio difícil, fez tudo para mantê-la, incluindo (e principalmente) bajular seu pai. Seus sonhos foram pouco a pouco se realizando: ficou noivo, casou-se e, com a morte do insuportável sogro, herdou uma fortuna e uma fábrica de aneis vedantes.

Agemiro, por sua vez, ao passo que ia falando cada vez menos com o amigo, ia se aproximando cada vez mais da boemia; de uma forma amargurada de boemia aliás. Ia sozinho a bares ou espetáculos, ou antes com um livro por companheiro. Cometia seus versos, mas não se incomodava em apresentá-los a ninguém. Com as mulheres teve mais duas ou três desventuras e simplesmente desisitiu: todo aquele ritual da corte lhe parecia ridículo e como as pessoas não eram, e não pareciam dispostas a ser, francas, era apenas justo que ele se resignasse à misantropia e à solidão.

II

Continuaram se falando com frequência variável, mais pela nostalgia dos tempos da escola do que por um verdadeiro laço; mas eram amigos, de certa forma. Pablo assumiu integralmente os negócios do finado sogro, e Agemiro era gerente de uma empresa de material de escritório. Pablo o visitava às vezes em Duque de Caxias, mas nunca o convidava para sua cobertura na Vieira Souto, até que um dia Érica viajou para visitar parentes em Santa Catarina, e Pablo ousou enfim recebê-lo.

Agemiro não tinha nenhuma novidade para contar, mas Pablo sim - e uma bem inusitada. Começou por destilar a velha cantilena de que a violência está insuportável, que lhe haviam roubado o relógio, que o Brasil não tem mais jeito e tudo mais. Então passou a descrever um projeto magnífico, revolucionário, de um novo país que seria fundado, um oásis de segurança e prosperidade, sem marginais, sem congestionamentos, sem corrupção e mesmo sem políticos, e seguiu descrevendo esse paraíso, que não teria nem mesmo mosquitos ou doenças tropicais. Tudo graças à tecnologia e à eficiência de uma empresa privada. Agemiro arqueava cada vez mais as sobrancelhas.

Era uma iniciativa de gente endinheirada dos Estados Unidos, que em boa parte já vivia em cidades privatizadas, e obviamente, das empresas que geriam tais cidades, que se uniram em um consórcio chamado de Utopia Inc. Este seria o nome do país, nada origina: Utopia. Agemiro, aceitando a caipirinha que o amigo lhe oferecia, pensou consigo mesmo: será que alguém dessa empresa, ou dos futuros moradores se deu o trabalho de ler Thomas More? Perguntou: onde ficaria afinal esse eldorado? Pois é, respondeu Pablo, será arrendada metade de um país africano, que é perfeitamente ociosa hoje; e com a receita, a metade remanescente poderá enfim se desenvolver! Todos ganham!

III

Agemiro desistiu de arregalar os olhos e coçou o topo da cabeça com uma expressão resignada. Perguntou: e onde é que você entra nisso? Simples, retomou Pablo, eles estão vendendo cotas a qualquer um que queira emigrar. Emigrar? (não gosto dessa conversa... pensou) Sim! Serei acionista do meu próprio país, não é formidável? Nem um pouco, disse Agemiro quase a si mesmo; e em voz alta: escuta, não estão aceitando latinos apenas para varrer as ruas? Latino? Quem é latino aqui? Tá me chamando de cucaracha? protestou em tom semi-debochado Pablo, e seguiu: não, todo trabalho braçal será terceirizado, dizem que serão do leste europeu. Não querem negros por perto? - ironizou Agemiro - é apartheid assim mesmo, sabia? Agemiro, você não é meu amigo, porra? Fica com essas ideias de comunista, caralho, isso já saiu de moda! Olha, posso fumar um cigarro? - Agemiro desconversou irritado. Claro, vamos até a cobertura.

Subiram e a linda vista do Rio de Janeiro acalmou o amigo estupefato. O outro prosseguiu. Não quer saber o que vou fazer com a fábrica? Não tinha pensado nisso... Aí é que estamos: não tenho nenhum parente mais no Rio; não quero chamá-los também, não me dou com nenhum. Agemiro interrompeu: porque ainda são pobres? Pablo encarou o interlocutor e quase soltou vapor pelas ventas; afastando-se do parapeito, indicou uma cadeira de vime ao amigo, sentando-se em outra: porque são incompetentes e preguiçosos, só isso. Mesmo sua irmã? - Agemiro lembrou-se do cigarro e acendeu um. Esquece minha irmã, é ela quem não gosta de mim. Hum... não a culpo. Agemiro, quero que você cuide da fábrica.

Ele se engasgou com a caipirinha e a cuspiu fora num jato. Como? Que absurdo é esse? Nada absurdo, você é gerente, não? é de confiança, é meu amigo, qual é o problema? Pablo, isso não é pra mim, é uma péssima ideia. Por que não a vende? Nem pensar, eu preciso lavar... preciso levar adiante meu sonho! A fábrica é da Érica, caramba, que sonho? A fábrica é nossa, e vai ser um pouco sua também: você terá uma participação. Não dá certo, o olho do dono é que engorda o porco. Tá bom, mas pense a respeito? Por mim?

O resto da conversa foi desajeitado, trocaram reminiscências sem grande entusiasmo. Agemiro falava sem pensar, consumido pela dúvida. Gostava de sua vida humilde e pacata de classe média baixa, mas vinha tendo dificuldade para pagar todas as contas e nada conseguia economizar. A reforma na casa que precisava fazer era sempre adiada, e seu plano de saúde era um autêntico cobertor curto. Despediu-se quase decidido.

IV

Pablo só esperou que fosse construído o aeroporto em Utopia. Foi até lá cuidar da construção de sua mansão de cinema. Não que precisasse, ele confiava plenamente na Utopia Inc., mas estava tão entusiasmado que não queria ficar de fora. Pablo travava negociações duras com a agência de emprego da Utopia Inc., as melhores posições pareciam estar tomadas, e acabou conseguindo um posto de burocrata na universidade que seria construída. Por ora, torrava a herança e confiava na renda da fábrica; ou pelo menos assim parecia. O país foi mesmo sendo construído: a infra-estrutura se erguia em velocidade espantosa; a produção agrícola, que já vicejava, era terceirizada, mas temia-se o fato de as fontes principais de água ficarem do lado de lá da fronteira. Fronteira que era aliás fortemente vigiada, por uma outra empresa com experiência em guerras no Oriente Médio. Foi bem depois que optaram por construir um muro.

As redes de televisão transmitidas por cabo e em alta definição traziam os noticiários do ocidente, que falavam em tom entusiasta da empreitada: as ações da Utopia Inc. eram dentre as de melhor desempenho, as pessoas já haviam se adaptado e viviam prósperas vidas. Até a mão-de-obra terceirizada parecia ir muito bem, escolheram até um brasileiro para entrevistar: dizia que o salário de camareiro era bom, estava aprendendo algum inglês - viera através de um agência - e era até divertido viver no dormitório; era branco e de classe média, no Brasil. Apenas alguns veículos independentes denunciavam uma suposta usurpação do território do pequeno país, como uma quantidade razoável de camponeses fora expulsa, às vezes comprados bem barato, às vezes ameaçados - e circulavam suspeitas de mortes.

Foi do seu computador de última geração que Pablo videofonou para Érica, dizendo que estava tudo bem, estaria trabalhando em breve, apenas as coisas eram muito caras. Ouviu mil banalidades e declarou que ligava para dizer que era hora de ela se juntar a ele; Érica ainda fez charme, comentou sobre a tia-avó doente e tudo, mas sabia que aquele era seu destino (gostava demais de Pablo) e na semana seguinte já partia. Chegando, tudo lhe pareceu artificial demais, mas tinha certeza de que se acostumaria.

V

No Rio, Agemiro assumira a direção da fábrica e um naco da sociedade, tudo em cartório. Ia tudo muito bem, obrigado: nos dois primeiros anos que Pablo esteve fora, a empresa navegou tranquilamente o mar da bonança econômica. Agemiro não mudara muito seus hábitos, para além do terno exigido por sua posição. E foi em mais uma de suas noites na Lapa que acabou conhecendo uma morena linda, que agia e falava com muita espontaneidade, e sorria com uma graça singular. Achou prudente fornecer sua profissão antiga ante o questionário de Sílvia - esse era seu nome - em parte por desconfiança, em parte por timidez; mas arrependeu-se depois: ela não parecia ser mera interesseira, e ele se veria em maus lençois para desmentir a si mesmo - ainda que fosse uma revelação positiva. Sustentou a mentira indefinidamente, pois a partir daquele dia viam-se corriqueiramente. Ela, se não mentia, era pedagoga em uma escola, e batalhara muito para fazer faculdade trabalhando em casa de família e conseguir aquele emprego.

Começaram então a surgir os problemas na fábrica: um concorrente havia feito uma descoberta que revolucionava o mercado, com um produto melhor e mais barato. As vendas começaram a despencar, contratos eram cancelados ou não eram renovados. Agemiro ligou para Pablo, que não pareceu muito preocupado, mas disse que assim que pudesse tirar férias iria ao Rio. Não se falaram por um bom tempo após isso. Agemiro passou a se maldizer e repetir que sabia desde o início que aquilo não era boa ideia. Sílvia o achava preocupado e insistiu até arrancar dele a confissão de que era empresário por vias tortas, e o motivo de sua inquietação.

Pela mesma época, Agemiro viu uma notícia na TV dando conta de um escândalo financeiro envolvendo justamente a Utopia Inc. Especulação financeira, corrupção, métodos questionáveis... o bastante para reduzir a credibilidade da empresa a pó, e jogar suas ações no fosso. Mais uma vez sua cabeça martelava: "isso não vai dar boa coisa". Quando um país está na bolsa de valores e quebra, não é como um banco, não há quem lhe socorra. E o colapso é inevitável. Quando a imprensa passou a se interessar pelo caso, descobriu que não era bem vinda em Utopia, que já vivia de facto um regime de exceção. Eram divulgadas notas pela administração dando conta de que tudo estava às mil maravilhas, e tratava-se de combater a liberdade na internet. Eventualmente todas as comunicações foram cortadas. Bem-vindos à Distopia.  

VI

Pablo tentou minimizar os escândalos da Utopia Inc. - estava certo de que tudo daria certo. Mas ficou mais difícil acreditar nisso quando os serviçais terceirizados, antes coagidos a não se sindicalizarem, passaram a se organizar e, ao ficar um mês sem receber (a empresa tentava cobrir buracos os sacrificando), declararam greve geral e o caos começou a se instaurar. Os serviços públicos deixaram de ser prestados, o campo foi abandonado e a segurança foi comprometida; com isso, os vizinhos africanos, que vagamente invejavam o oásis de prosperidade que ali se instaurara, antes a eles vedado, passaram a inundar as três cidades utopianas, com as perspectivas de emprego abertas pela greve. Decidiu-se então canalizar os recursos e energias restantes a erguer um muro ao longo da fronteira - o que pode ter terminado de derrubar o combalido projeto.

O Estado funcionava em modo de emergência, e um burocrata acadêmico era necessariamente desnecessário. Pablo ficou desempregado e aí então começou a se preocupar. Ele se cria um dos pioneiros fundadores de um sonho, mas não passava de um inocente útil que ajudou a financiar um projeto duvidoso. E como a alta das ações e os aportes dos novos colonos cessaram, acelerou-se a debâcle. Os colonos lá instalados dividiam-se entre os que batalhavam para salvar a embarcação - e seus investimentos - e os que fugiam, primeiro por concorridos voos, depois por precárias estradas, quando as linhas aéreas foram suspensas. Pablo resistia o quanto podia, mas Érica não estava gostando de fazer serviço doméstico, os preços disparavam e sua renda virtualmente desaparecera, ou estava retida em paraísos fiscais.

Por essa época já havia episódios de violência entre brancos e negros, e mesmo entre eles, e o mundo tomava conhecimento do caos utopiano por mais que se tentasse barrar a informação. O governo central era tão frágil que já circulavam boastos de uma evacuação em massa. Mesmo antes que isso acontecesse, um corajoso engenheiro da companhia de comunicações, unido a um grupo de colonos enfurecidos, restabeleceu as linhas telefônicas para que se pudesse falar com o mundo externo. Foi aí que Pablo conseguiu estabelecer contato com Agemiro novamente.

VII

Pablo contou todas suas desventuras, todas agruras por que passava o país de seus sonhos, disse  que se arrependia de ter embarcado nessa e que na verdade o Rio era o melhor lugar do mundo. Adiantou a situação periclitante do país, que a qualquer momento implodiria, que o que restaria sobraria para os "pretos" e que ele mesmo fugiria em uma caravana na semana seguinte. Agemiro reafirmou a situação complicada da fábrica, cujo produto ficara de repente obsoleto, revelou que pretendia se casar com Sílvia e que queria sair da sociedade. Pablo pediu que ficasse tranquilo, que resolveriam tudo ele chegando ao Rio. Agemiro ainda arriscou um "é uma pena" não muito sincero.


Após atravessar três países, Pablo conseguiu voar para Madri e de lá para o Rio. Érica e ele já estavam estremecidos, ela pensava consigo que aquele aventureiro arruinara sua vida e destruíra a fortuna de seu pai. Mas quando um mês depois se separam ela recebeu um valor significativo. O apartamento da Vieira Souto ainda estava alugado, e os dois amigos se encontraram em Copacabana, perto do hotel de Pablo. Pessoalmente, Agemiro sentiu enfim alguma compaixão, e sentiu-se bobo de ver um triunfo no infortúnio do amigo que não se contentara em ser um membro afluente da sociedade carioca - queria viver longe da "gentalha" em um mundo inventado. Pablo era um homem arrasado. "O importante é que você voltou à Cidade Maravilhosa e tem a vida pela frente", tentou reanimá-lo. Combinaram que fechariam a fábrica, venderiam o prédio e o máquinário, dividindo as receitas. Trocaram mecanicamente as mesma reminiscências de sempre e se despediram.


Com o valor recebido, Agemiro e Sílvia montaram uma escola em Duque de Caxias, ela sendo coordenadora e ele professor de matemática. Vivem bem o bastante e costumam ir à praia ou à serra nos fins de semana. Não abandonaram também a Lapa onde se conheceram. Pablo às vezes os visitava, e não tinha mais pudor de recebê-los na cobertura. A diferença sendo que Pablo de certa forma agora invejava a vida simples do amigo. Seguiram se vendo amiúde, até a prisão de Pablo pela Polícia Federal. O (até há pouco) respeitável empresário era um dos mais altos postos de uma rede de tráfico internacional de drogas.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ah! brejeiro! ah! brejeiro!

Antes de qualquer coisa, preciso manifestar meu respeito ao povo israelense. Cada indivíduo é inocente até que se prove o contrário; ainda que a maior parte da população coadune com as posições racistas e militaristas de Israel, há uma dissidência que se esforça em combatê-las. É como com os EUA, posso detestar o imperialismo ianque, mas não tenho por que odiar os americanos, ou rechaçar as coisas boas de sua cultura.

O Estado de Israel ou, mesmo antes de sua existência, o sionismo, são dos maiores criminosos contra a humanidade - pelas décadas de continuidade e reincidência. E são amparados pelo beneplácito dos grandes meios de comunicação, para os quais cometem suas barbáries nome da defesa contra terroristas malvados. Isso é obtido pela proteção do império americano, para o qual Israel é um posto avançado no Oriente Médio, e da consequente campanha de Relações Públicas junto à mídia tradicional. Tome a nossa Globo, por exemplo: não é preciso ser muito perspicar para receber que ela representa o interesse americano aqui. Apoia o candidato favorito de Washington, cobre as guerras injustificáveis do Tio Sam do ponto de vista deles, nunca questionando a invasão em si, apoiam sem pudor o golpe de Honduras e condenaram o abrigo a Zelaya por parte do Brasil, demonizam a esquerda latino-americana e por aí vai. Sobre o "conflito" de Gaza - presente de fim-de-ano em 2008 aos palestinos - o plim-plim pintava uma guerra de igual pra igual, ou pior: sobre os guerrilheiros do Hamas, perguntava "como combater um inimigo que não se sabe onde está?" (sobre a imagem de um soldado israelense com binóculos). A resposta foi simples: matando ao menos mil civis e destruindo inclusive a Universidade Islâmica - e sem sucesso.

Afinal, a troco de quê escrever este artigo? Afora a falta de assunto - achei que escrever sobre as recentes pesquisas eleitorais seria chover no molhado - escrevo para comentar a "confissão" do governo de Israel que "quebrou o vaso": sim, foi um erro bombardear a ONU; ou sim, usamos fósforo branco - mas foi só para atrapalhar a visibilidade do inimigo. A assim-chamada "comunidade internacional" faz como o pai de Brás Cubas, e repete ao afagar-lhe a cabeça: "brejeiro, ah brejeiro...". E é melhor se acostumar: como disse, eles tem um império a os apoiar, e um com mais sede de sangue que eles. Além disso, Israel moveu-se tanto à Direita ultimamente que - como apontou Chomsky - Netanyahu se tornou moderado; com gente como Avigador Liberman no poder, só resta torcer. Torcer para que não concretizem as ameaças ao Líbano, ou a Gaza, ou - pior ainda - que não mostrem ao Irã por que armas nucleares não são brinquedos para muçulmanos radicais, usando uma. Não vai ser possível impedir que sigam os assentamentos na Cisjordânia, ou que sua água seja roubada, assim como o gás da costa de Gaza; é um sonho distante um Estado palestino. E afora um punhado de dissidentes que mal incomodam, o mundo assiste passivo à maior grilagem de terra do planeta, da mesma forma que passivo assiste (ou já ouviu falar) ao genocídio em Darfur. A ONU devia fechar e passar o ponto.