sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Cala a Boca, Magda!

Lula é incensado como hábil negociador, e deve ser verdade pois até FHC o reconhece - ainda que me pareça que essa "virtude" seja mais, como aponta o mesmo FHC, a de aquiescer ante a reação conservadora. Enfim, espera-se de um interlocutor político hábil que suas declarações públicas sejam igualmente hábeis, livrando-se dos espinhos e mesmo somando pontos a seu capital político, qualquer que seja a situação. E se imagina que não apenas o homem público tenha esse tino, mas (pelo menos) que se cerque de assessores que analisarão a situação e aconselharão a linha a ser adotada - ainda que um "ventríloquo" como Obama não seja a imagem ideal de estadista. Pois às vezes Lula se trai e fala o que não deve.

Lula já havia soltado uma declaração infeliz quando eclodiu o escândalo do governador do Distrito Federal, José Roberto Gargamel, e eis que agora com o advento de sua prisão preventiva, aprovada por virtual unanimidade pelo pleno do STJ, Lula mete os pés pelas mãos de novo e é mais criticado pela imprensa do que o criminoso em si (ou seja, dá combustível aos tanques de guerra da velha mídia). Nas duas situações, é possível perceber as motivações do presidente, pode-se concordar com o que tentou dizer, mas mesmo seu mais fervoroso correligionário há que reconhecer que pecou na formulação das frases. Na melhor das hipóteses; na pior, escapa ao meu alcance por que diabos Lula iria defender um conspícuo corrupto, e do campo adversário (cotado inclusive para vice na chapa da oposição), e nem o episódio do "mensalão" em seu próprio quintal explicaria qualquer coisa.

Quando estourou o "panetonegate", com o vídeo de Arruda, então candidato, recebendo um maço polpudo de dinheiro - repetido ad nauseum pela Rede Globo - além de outros vídeos e áudios de menor repercussão, o presidente operário estava na simpática Cascais, para uma "cimeira" ibero-americana. Entende-se que tenha tentado contemporizar, pois não lhe cabia - em seu papel de chefe do Executivo Federal - partir para a execração pública de um chefe de Executivo Estadual (ou Distrital) no exercício do cargo. Afirmou, com toda propriedade, que as investigações deveriam prosseguir, que Polícia Federal e Ministério Público deveriam fazer seu trabalho, e competia ao Judiciário julgar, ou algo assim. Mas quando disso isso, já tinha feito a declaração infeliz: "imagem não fala por si". Por mais que seja uma verdade - sabemos que há mil trucagens possíveis, ainda mais em tempos de computação gráfica -, no caso da fita (para usar um termo obsoleto) de Arruda, não havia muito espaço para acreditar em manipulação, até por que as denúncias eram corroboradas não apenas por aquela peça, mas por farto material audiovisual. Parece que Lula, do lado de lá do Atlântico, em nossa antiga metrópole, não havia assistido a nada - então bastaria dizê-lo, ora! - e fez questão de dizer depois - que seja para minimizar o impacto da declaração anterior - que havia visto as imagens e que "eram graves".

Depois que ontem o STJ anunciou a prisão de Arruda, a velha mídia noticiou ao mesmo tempo que o próprio se entregara à PF, e que o presidente Lula teria ficado "chocado", "desolado", que acharia o fato "lamentável", tudo em meio à euforia da opinião pública pela prisão do careca - que foi de fato um marco histórico no combate à corrupção. Bem, como não houve uma declaração pública, tratou-se de "fofoca" de um "assessor próximo", fica difícil saber o que Lula de fato disse. Em grande medida, trata-se de manipulação da mídia de sempre - em especial os veículos mais engajados contra Lula  - para colar Arruda nele e desgastá-lo. Mas é óbvio que Lula deve ter de algum modo expressado seu pesar por ver o triste destino de um colega de profissão com quem tinha uma relação cordial. É aliás esse aspecto humano que dá a nota peculiar a Lula. Talvez tenha sido essa consternação solidária que foi amplificada pelos ruidosos canais do jornalismo tapuia.

Hoje, Lula percebeu a repercussão do boato e foi firme: disse que se sentia chocado mesmo é com as cenas de Arruda recebendo a grana (que agora falam por si); lembrou o projeto que enviou ao Congresso tornando corrupção crime hediondo; e assumiu mesmo o tom moralizante ao proferir o clichezão "que isso sirva de exemplo". Bem, ou é o que pensa e a culpa é toda da mídia "golpista", ou foi orientado a assumir essa aparentemente nova postura. De qualquer forma, o que se percebeu nas duas ocasiões foi que ele não tinha a frase certa na ponta da língua, e acabou usando frases ambíguas que fizeram a festa da mídia sensacionalista. Não senti em nenhum momento que ele defendesse a corrupção ou a liberdade do governador apenas por ser governador. Crédito seja dado a ele por não aproveitar o episódio no embate partidário-eleitoral: passa a imagem de distância do pega-pra-capar. Mas nesse caso não faria sentido outra incontinência presidencial, essa com sinal trocado e longe da grandeza de estadista ou da prudência (exagerada) aqui demonstrada: a ocasião em que chamou o presidente do principal partido de oposição de "babaca".

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