terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Duvidosa Polarização Ideológica

Episódios recentes têm sugerido uma aparente polarização ideológica do debate político brasileiro. Obviamente, desde muito cada um dos campos majoritários - a situação lulopetista e a oposição demotucana - apontam o dedo para o oponente brandindo acusações, quando não ofensas, com variados níveis de respaldo na realidade. Pois se é difícil negar que o PSDB no poder seguiu a cartilha neoliberal do Consenso de Washington, perseguindo alguma preocupação social muito tímida e tardiamente, também há que se dar muita pirueta para enxergar a presidência petista como esquerdista de fato: fora a ação social mais ousada - que de fato virou referência mundial para uma atônita esquerda - o trato com o Estado seguiu basicamente o mais do mesmo, centrado em metas macroeconômicas que num primeiro momento asfixiaram o investimento e um BNDES privilegiando abertamente a formação de grandes grupos econômicos. Eu particularmente cheguei à conclusão de que Lula não tinha outra escolha a não ser um governo de coalizão, pois sabemos que mandato não se iguala a poder: o executivo não faz nada sozinho, e o poder econômico de certa forma governa nos bastidores. Só não precisava ser tão acanhado.

Afinal, foram iguais então? De modo algum. Creio que Lula e sua equipe tenham absorvido a parte "responsável" do discurso hegemônico: não há muito espaço para voluntarismos em política econômica afinal - ainda que, de novo, possa ter exagerado na ortodoxia no começo. Mas não partiu para a privatização, não arrochou os salários, não se endividou para garantir um populismo cambial. E não entregou o pré-sal de bandeja para os gringos. A "moderação" garantiu bons resultados na economia, e agradou a Davos, que inventou um prêmio ad hoc para Lula, ao passo que a inclusão social (e em grande medida também o bom desempenho da economia) que a renda mínima propiciou foi algo espantoso, agradando Porto Alegre. Vinte milhões deixando a pobreza extrema é algo certamente inédito, e bastante para caracterizar um bom governo. Além disso, no que fez de "igual", Lula foi melhor que o antecessor; não sei muito de economia, mas qualquer observador isento dirá que o manejo das contas públicas foi mais responsável.

Enfim, toda essa comparação dos dois governos vai dar pano pra manga na campanha e nem vou me estender. Mas o resumo da ópera é bem irônico: o partido da social-democracia dedica-se ao tatcherismo selvagem e o partido operário "limita-se" à social-democracia.

Resolvi escrever, como já indiquei lá em cima, sobre fatos recentes que elevaram o tom (ou baixaram o nível) da campanha - que obviamente já vai de vento em popa, o que é ótimo, pois com a Copa tende a arrefecer. Posso estar esquecendo alguma coisa, mas quero falar de dois episódios mais óbvios. O primeiro foi o 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, virulentamente atacado pelos setores conservadores. Por mais que o agronegócio normalmente se opusesse às audiências prévias às reintegrações de posse; que a Igreja naturalmente reagisse a qualquer menção ao direito de aborto, uniões e adoções homoafetivas, e banimento de símbolos religiosos dos recintos do Estado assim-dito laico; ou que a mídia corporativa não admita qualquer acompanhamento que seja, julgando suas concessões títulos nobiliárquicos de origem divina e transmissão hereditária, o que incomodou de verdade foi a Comissão da Verdade. Os militares reagiram como se esperava deles (e Lula deveria simplesmente aceitar a demissão coletiva de ministro e chefes das forças), mas a reação da direitona, que foi ao zênite da desfaçatez de tachar o plano de comunista, reeditando a Guerra Fria, visava um objetivo: evitar ser associada aos bárbaros crimes que as gerações mais recentes sabem apenas vagamente que aconteceram, a maioria ignorando o papel que neles desempenharam empresários, imprensa e anticomunistas em geral, Igreja inclusive. É melhor não remexer nisso. Pois a ação em concerto desses setores foi um sucesso: os media aplicaram sua tradicional lavagem cerebral, pintando o plano, propositivo, como um decreto que instituía o comunismo, ou no mínimo a censura; a população mais desinformada, como sempre, engoliu as mentiras, Lula pôs os panos quentes de sempre e alterou o texto - dando margem para investigar os militantes - e, mais do que isso, deu uma geladeira indefinida ao texto, que não será discutido este ano e talvez não o seja nunca mais pois Serra o trituraria e Dilma não teria metade do capital político que Lula tem. O que o episódio revela é que na população brasileira de modo geral não há um vivo sentimento de indignação contra o terrorismo de Estado da ditadura militar, que ainda há boa dose de anticomunismo e, voltando às eleições, que a tentação de atacar Dilma por ter sido militante, ainda que arriscada, tem seu apelo. E tem tudo para ser uma patética cartada final se Dilma consolidar uma dianteira.

Bem, essa foi a Direita mostrando suas garras. Já o pré-programa de governo da candidata palaciana foi "interpretado" pelos media como uma guinada à esquerda. Esse é o padrão hoje: a interpretação enviesada da "imprensa" vira verdade, e importa muito mais que o fato ou o texto original. Tudo que o pré-programa prevê é uma maior atuação do Estado na promoção do desenvolvimento, o que é uma continuação de certa forma do Lula dos últimos dias, que "ameaça" reabrir a Telebras para espalhar a banda larga pelo país. Isso é aparentemente o bom e velho keynesianismo, que está ou deveria estar novamente em voga com o colapso econômico fruto das estripulias neoclássicas. Há que lembrar, e foi ressaltado pelo PT, que o texto ainda vai passar por conversas com o PMDB. O que nos traz ao que queria enfim ressaltar: um eventual governo Dilma seria a continuação do governo de coalizão conhecido como Era Lula.

Então vemos setores conservadores insuflando uma suposta polarização ideológica que é unilateral: apenas a direita radicaliza o discurso, revivendo a guerra fria, enquanto sabemos que, se esse campo vencer, nem em sonho acabaria com o Bolsa Família, nem tampouco paralisaria a transposição do São Francisco, e pensaria várias vezes antes de privatizar BB ou Petrobras. Ou seja, não há polarização de fato: no que toca a políticas, as diferenças entre Serra e Dilma seriam praticamente tópicas (com o BC independente garantindo o interesse da Banca). A polarização se traduz assim: a Direita quer vencer no grito. E tem os meios de comunicação para tanto. É esperar para ver. Devemos considerar que nossas eleições são mais mercadológicas que ideológicas, e que se polarização há, é entre os setores hegemônicos tradicionais e o fenômeno Lula, portanto o embate se dará entre a máquina de propaganda do PSDB (aí incluída a extra-oficial), em cima de um nome conhecido de outros carnavais, e uma política neófita com seu super-cabo-eleitoral. E o bicho vai pegar aqui, na rede.

PS: Não estamos como nos EUA onde há um só partido com duas facções, mas estamos caminhando perigosamente para isso.

Nenhum comentário: