quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Chomsky: Dedo Americano na Reação ao PNDH-3? Traduzido



 Leosfera:

Caro Professor Chomsky,

Entendo que a mídia americana não se importa muito com assuntos internos brasileiros, então pensei que podia partilhar com o senhor alguns acontecimentos que talvez sejam de seu interesse e eventualmente ter sua opinião a respeito.

Em dezembro último, o governo lançou um Plano Nacional de Direitos Humanos, um documento propositivo que reflete preocupações liberais globais, assuntos internos, e propunha uma Comissão da Verdade, para investigar e eventualmente punir torturadores do regime de 64-85.

Houve enorme reação da Direita, não apenas dos militares – o que era óbvio – mas também de diversos setores conservadores, que se opuseram veementemente a outros tópicos que ironicamente já estavam presentes em edições anteriores do planos, lançadas sob o ex-presidente Cardoso. Então o agronegócio se opôs a audiências judiciais prévias à expulsão de trabalhadores sem terra, a Igreja se opôs a casamentos e adoções homossexuais, abortos e banimento de símbolos religiosos em espaços governamentais, e a mídia é um capítulo à parte.

Não apenas ela atacou a ideia de monitorar o respeito dos veículos pelos Direitos Humanos, com eventuais sanções, mas faz fez um esforço para, nem sempre discretamente, acusar o governo de estabelecer o comunismo por decreto. Um “jornalista” chegou a perguntar “onde estão os militares?” O público, excetuados apoiadores informados e engajados de Lula, engoliram as conspícuas mentiras, então tivemos que ouvir declarações mais apropriadas à guerra fria.

É surpreendentemente baixa a consciência do regime de terror entre nós. É um tabu de nossa sociedade, que prefere fingir que ele nunca existiu (ao contrário do Chile ou da Argentina). Muitos estão agora difamando os militantes de esquerda (a candidata de Lula, Dilma Rousseff, foi uma deles), e a reação de Lula, mudando o documento, aparentemente deixa espaço para investigá-los também.

Entendo que haja uma tendência mundial de extrema-direita, mas aqui eu vejo muito mais uma estratégia para recobrar o poder. Agora que as mais recentes pesquisas mostram os dois candidatos, Serra (PSDB, direita) e Dilma (PT, centro-esquerda), virtualmente empatados, a tendência é que a virulência cresça (e as questões desapareçam). É o último recurso do PSDB, já que o PT vai se concentrar em comparar o tactherismo de Cardoso com a social-democracia de Lula.

Minha pergunta é: seu argumento é que a mídia “fabrica o consenso” nos EUA, um país de partido único, aqui eles de fato fabricaram consenso durante a ditadura, como o fizeram nos anos neoliberais, agora ela tenta fabricar um golpe (na Venezuela muito mais do que aqui). Qualquer expectador atento perceberá que a grande mídia representa o interesse americano aqui, não apenas defendendo posições de direita (o que se explica por interesses comuns), mas na cobertura de guerras dos EUA ou a questão Israel-Palestina. O senhor pensa que poderia haver intervenção direta americana ou trata-se de comportamento corporativista? Afinal, a Rede Globo, o maior conglomerado de mídia tem uma participação de 30% da Time-Life.
Muito obrigado pela paciência.
Cordialmente,
Leonardo Afonso.  




Noam Chomsky:

Obrigado pela atualização, estou parcialmente a par mas não inteiramente. É uma pena, para dizer o menos. Pode muito bem haver interferência dos EUA. Dificilmente seria inusitado. Mas suspeito que a razão primária é o que você sugere. É um fenômeno mundial, em variados graus, e a América Latina tem há muito sido notória pela voracidade e pela violência de elites tradicionais com elevada consciência de classe, que em grade medida possuem a imprensa – ainda que não em toda parte. O único diário realmente independente e muito bem sucedido de que eu saiba no hemisfério é o La Jornada, no México.

NC

Um comentário:

Blog Polivocidade disse...

É, companheiro. Chomsky tem razão. Vivemos uma espécie de ditadura cognitiva. O controle é via estupidez, interdição cognitiva. Não é que as pessoas não queiram entender, é que elas não são capazes. Analfabetismo funcional. Outro dia recebi de um grupo de emeios que participo uma mensagem de uma analista de recursos humanos que pedia ajuda para escrever uma carta de agradecimentos a um grupo de bombeiros por um curso gratuito que deram em sua empresa. É mais ou menos isso. O lema da sociedade do consumo não é "Por Você" à toa.
Mas estamos na luta! Abraços!