sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Utopia Calling

I

Do outro lado da linha, Agemiro mal cria que Pablo conseguira completar uma ligação: os dois amigos não se falavam havia já três anos. A conexão transatlântica entretanto era péssima, e não foi sem dificuldade que Pablo narrou sua desventura. Agemiro se contentou em ouvir; em seu íntimo, o amigo já não lhe despertava compaixão alguma.

Haviam estudado juntos, desde o início do fundamental até o fim do médio. Talvez não fossem o melhor amigo um do outro, inseparáveis; mas tanto melhor, pois relações intensas são geralmente mais instáveis, ainda assim, os dois eram sempre da mesma patota, e não aprontaram poucas. Chegados à adolescência, calharam de disputar uma garota, o que parece tê-los feito - ironicamente - mais próximos. Agemiro pouco pôde comemorar sua conquista, Fabiana não chegou a ficar dois meses com ele, e o caso certamente ajudou a moldar seu temperamento cético das mulheres e da vida.

Para piorar, Pablo pela mesma época começou a namorar a garota mais bonita da escola, dois anos mais jovem que os dois. Érica se destacava de fato das colegas: aproximava-se muito mais do padrão de beleza europeu imposto pela televisão que as demais; era descendente de italianos e seu pai era um industrial tão pão-duro que não a matriculava em escolas particulares, fazendo-a uma alienígena dentre os matizes raciais endêmicos na Escola Estadual Jairo Pedrosa, em Botafogo.

Pablo, assim como Agemiro, não vivia na penúria, mas também não estudava em escola pública por opção. E desde novo se mostrou afeito a dinheiro e boa vida, de modo que mesmo percebendo em Érica um gênio difícil, fez tudo para mantê-la, incluindo (e principalmente) bajular seu pai. Seus sonhos foram pouco a pouco se realizando: ficou noivo, casou-se e, com a morte do insuportável sogro, herdou uma fortuna e uma fábrica de aneis vedantes.

Agemiro, por sua vez, ao passo que ia falando cada vez menos com o amigo, ia se aproximando cada vez mais da boemia; de uma forma amargurada de boemia aliás. Ia sozinho a bares ou espetáculos, ou antes com um livro por companheiro. Cometia seus versos, mas não se incomodava em apresentá-los a ninguém. Com as mulheres teve mais duas ou três desventuras e simplesmente desisitiu: todo aquele ritual da corte lhe parecia ridículo e como as pessoas não eram, e não pareciam dispostas a ser, francas, era apenas justo que ele se resignasse à misantropia e à solidão.

II

Continuaram se falando com frequência variável, mais pela nostalgia dos tempos da escola do que por um verdadeiro laço; mas eram amigos, de certa forma. Pablo assumiu integralmente os negócios do finado sogro, e Agemiro era gerente de uma empresa de material de escritório. Pablo o visitava às vezes em Duque de Caxias, mas nunca o convidava para sua cobertura na Vieira Souto, até que um dia Érica viajou para visitar parentes em Santa Catarina, e Pablo ousou enfim recebê-lo.

Agemiro não tinha nenhuma novidade para contar, mas Pablo sim - e uma bem inusitada. Começou por destilar a velha cantilena de que a violência está insuportável, que lhe haviam roubado o relógio, que o Brasil não tem mais jeito e tudo mais. Então passou a descrever um projeto magnífico, revolucionário, de um novo país que seria fundado, um oásis de segurança e prosperidade, sem marginais, sem congestionamentos, sem corrupção e mesmo sem políticos, e seguiu descrevendo esse paraíso, que não teria nem mesmo mosquitos ou doenças tropicais. Tudo graças à tecnologia e à eficiência de uma empresa privada. Agemiro arqueava cada vez mais as sobrancelhas.

Era uma iniciativa de gente endinheirada dos Estados Unidos, que em boa parte já vivia em cidades privatizadas, e obviamente, das empresas que geriam tais cidades, que se uniram em um consórcio chamado de Utopia Inc. Este seria o nome do país, nada origina: Utopia. Agemiro, aceitando a caipirinha que o amigo lhe oferecia, pensou consigo mesmo: será que alguém dessa empresa, ou dos futuros moradores se deu o trabalho de ler Thomas More? Perguntou: onde ficaria afinal esse eldorado? Pois é, respondeu Pablo, será arrendada metade de um país africano, que é perfeitamente ociosa hoje; e com a receita, a metade remanescente poderá enfim se desenvolver! Todos ganham!

III

Agemiro desistiu de arregalar os olhos e coçou o topo da cabeça com uma expressão resignada. Perguntou: e onde é que você entra nisso? Simples, retomou Pablo, eles estão vendendo cotas a qualquer um que queira emigrar. Emigrar? (não gosto dessa conversa... pensou) Sim! Serei acionista do meu próprio país, não é formidável? Nem um pouco, disse Agemiro quase a si mesmo; e em voz alta: escuta, não estão aceitando latinos apenas para varrer as ruas? Latino? Quem é latino aqui? Tá me chamando de cucaracha? protestou em tom semi-debochado Pablo, e seguiu: não, todo trabalho braçal será terceirizado, dizem que serão do leste europeu. Não querem negros por perto? - ironizou Agemiro - é apartheid assim mesmo, sabia? Agemiro, você não é meu amigo, porra? Fica com essas ideias de comunista, caralho, isso já saiu de moda! Olha, posso fumar um cigarro? - Agemiro desconversou irritado. Claro, vamos até a cobertura.

Subiram e a linda vista do Rio de Janeiro acalmou o amigo estupefato. O outro prosseguiu. Não quer saber o que vou fazer com a fábrica? Não tinha pensado nisso... Aí é que estamos: não tenho nenhum parente mais no Rio; não quero chamá-los também, não me dou com nenhum. Agemiro interrompeu: porque ainda são pobres? Pablo encarou o interlocutor e quase soltou vapor pelas ventas; afastando-se do parapeito, indicou uma cadeira de vime ao amigo, sentando-se em outra: porque são incompetentes e preguiçosos, só isso. Mesmo sua irmã? - Agemiro lembrou-se do cigarro e acendeu um. Esquece minha irmã, é ela quem não gosta de mim. Hum... não a culpo. Agemiro, quero que você cuide da fábrica.

Ele se engasgou com a caipirinha e a cuspiu fora num jato. Como? Que absurdo é esse? Nada absurdo, você é gerente, não? é de confiança, é meu amigo, qual é o problema? Pablo, isso não é pra mim, é uma péssima ideia. Por que não a vende? Nem pensar, eu preciso lavar... preciso levar adiante meu sonho! A fábrica é da Érica, caramba, que sonho? A fábrica é nossa, e vai ser um pouco sua também: você terá uma participação. Não dá certo, o olho do dono é que engorda o porco. Tá bom, mas pense a respeito? Por mim?

O resto da conversa foi desajeitado, trocaram reminiscências sem grande entusiasmo. Agemiro falava sem pensar, consumido pela dúvida. Gostava de sua vida humilde e pacata de classe média baixa, mas vinha tendo dificuldade para pagar todas as contas e nada conseguia economizar. A reforma na casa que precisava fazer era sempre adiada, e seu plano de saúde era um autêntico cobertor curto. Despediu-se quase decidido.

IV

Pablo só esperou que fosse construído o aeroporto em Utopia. Foi até lá cuidar da construção de sua mansão de cinema. Não que precisasse, ele confiava plenamente na Utopia Inc., mas estava tão entusiasmado que não queria ficar de fora. Pablo travava negociações duras com a agência de emprego da Utopia Inc., as melhores posições pareciam estar tomadas, e acabou conseguindo um posto de burocrata na universidade que seria construída. Por ora, torrava a herança e confiava na renda da fábrica; ou pelo menos assim parecia. O país foi mesmo sendo construído: a infra-estrutura se erguia em velocidade espantosa; a produção agrícola, que já vicejava, era terceirizada, mas temia-se o fato de as fontes principais de água ficarem do lado de lá da fronteira. Fronteira que era aliás fortemente vigiada, por uma outra empresa com experiência em guerras no Oriente Médio. Foi bem depois que optaram por construir um muro.

As redes de televisão transmitidas por cabo e em alta definição traziam os noticiários do ocidente, que falavam em tom entusiasta da empreitada: as ações da Utopia Inc. eram dentre as de melhor desempenho, as pessoas já haviam se adaptado e viviam prósperas vidas. Até a mão-de-obra terceirizada parecia ir muito bem, escolheram até um brasileiro para entrevistar: dizia que o salário de camareiro era bom, estava aprendendo algum inglês - viera através de um agência - e era até divertido viver no dormitório; era branco e de classe média, no Brasil. Apenas alguns veículos independentes denunciavam uma suposta usurpação do território do pequeno país, como uma quantidade razoável de camponeses fora expulsa, às vezes comprados bem barato, às vezes ameaçados - e circulavam suspeitas de mortes.

Foi do seu computador de última geração que Pablo videofonou para Érica, dizendo que estava tudo bem, estaria trabalhando em breve, apenas as coisas eram muito caras. Ouviu mil banalidades e declarou que ligava para dizer que era hora de ela se juntar a ele; Érica ainda fez charme, comentou sobre a tia-avó doente e tudo, mas sabia que aquele era seu destino (gostava demais de Pablo) e na semana seguinte já partia. Chegando, tudo lhe pareceu artificial demais, mas tinha certeza de que se acostumaria.

V

No Rio, Agemiro assumira a direção da fábrica e um naco da sociedade, tudo em cartório. Ia tudo muito bem, obrigado: nos dois primeiros anos que Pablo esteve fora, a empresa navegou tranquilamente o mar da bonança econômica. Agemiro não mudara muito seus hábitos, para além do terno exigido por sua posição. E foi em mais uma de suas noites na Lapa que acabou conhecendo uma morena linda, que agia e falava com muita espontaneidade, e sorria com uma graça singular. Achou prudente fornecer sua profissão antiga ante o questionário de Sílvia - esse era seu nome - em parte por desconfiança, em parte por timidez; mas arrependeu-se depois: ela não parecia ser mera interesseira, e ele se veria em maus lençois para desmentir a si mesmo - ainda que fosse uma revelação positiva. Sustentou a mentira indefinidamente, pois a partir daquele dia viam-se corriqueiramente. Ela, se não mentia, era pedagoga em uma escola, e batalhara muito para fazer faculdade trabalhando em casa de família e conseguir aquele emprego.

Começaram então a surgir os problemas na fábrica: um concorrente havia feito uma descoberta que revolucionava o mercado, com um produto melhor e mais barato. As vendas começaram a despencar, contratos eram cancelados ou não eram renovados. Agemiro ligou para Pablo, que não pareceu muito preocupado, mas disse que assim que pudesse tirar férias iria ao Rio. Não se falaram por um bom tempo após isso. Agemiro passou a se maldizer e repetir que sabia desde o início que aquilo não era boa ideia. Sílvia o achava preocupado e insistiu até arrancar dele a confissão de que era empresário por vias tortas, e o motivo de sua inquietação.

Pela mesma época, Agemiro viu uma notícia na TV dando conta de um escândalo financeiro envolvendo justamente a Utopia Inc. Especulação financeira, corrupção, métodos questionáveis... o bastante para reduzir a credibilidade da empresa a pó, e jogar suas ações no fosso. Mais uma vez sua cabeça martelava: "isso não vai dar boa coisa". Quando um país está na bolsa de valores e quebra, não é como um banco, não há quem lhe socorra. E o colapso é inevitável. Quando a imprensa passou a se interessar pelo caso, descobriu que não era bem vinda em Utopia, que já vivia de facto um regime de exceção. Eram divulgadas notas pela administração dando conta de que tudo estava às mil maravilhas, e tratava-se de combater a liberdade na internet. Eventualmente todas as comunicações foram cortadas. Bem-vindos à Distopia.  

VI

Pablo tentou minimizar os escândalos da Utopia Inc. - estava certo de que tudo daria certo. Mas ficou mais difícil acreditar nisso quando os serviçais terceirizados, antes coagidos a não se sindicalizarem, passaram a se organizar e, ao ficar um mês sem receber (a empresa tentava cobrir buracos os sacrificando), declararam greve geral e o caos começou a se instaurar. Os serviços públicos deixaram de ser prestados, o campo foi abandonado e a segurança foi comprometida; com isso, os vizinhos africanos, que vagamente invejavam o oásis de prosperidade que ali se instaurara, antes a eles vedado, passaram a inundar as três cidades utopianas, com as perspectivas de emprego abertas pela greve. Decidiu-se então canalizar os recursos e energias restantes a erguer um muro ao longo da fronteira - o que pode ter terminado de derrubar o combalido projeto.

O Estado funcionava em modo de emergência, e um burocrata acadêmico era necessariamente desnecessário. Pablo ficou desempregado e aí então começou a se preocupar. Ele se cria um dos pioneiros fundadores de um sonho, mas não passava de um inocente útil que ajudou a financiar um projeto duvidoso. E como a alta das ações e os aportes dos novos colonos cessaram, acelerou-se a debâcle. Os colonos lá instalados dividiam-se entre os que batalhavam para salvar a embarcação - e seus investimentos - e os que fugiam, primeiro por concorridos voos, depois por precárias estradas, quando as linhas aéreas foram suspensas. Pablo resistia o quanto podia, mas Érica não estava gostando de fazer serviço doméstico, os preços disparavam e sua renda virtualmente desaparecera, ou estava retida em paraísos fiscais.

Por essa época já havia episódios de violência entre brancos e negros, e mesmo entre eles, e o mundo tomava conhecimento do caos utopiano por mais que se tentasse barrar a informação. O governo central era tão frágil que já circulavam boastos de uma evacuação em massa. Mesmo antes que isso acontecesse, um corajoso engenheiro da companhia de comunicações, unido a um grupo de colonos enfurecidos, restabeleceu as linhas telefônicas para que se pudesse falar com o mundo externo. Foi aí que Pablo conseguiu estabelecer contato com Agemiro novamente.

VII

Pablo contou todas suas desventuras, todas agruras por que passava o país de seus sonhos, disse  que se arrependia de ter embarcado nessa e que na verdade o Rio era o melhor lugar do mundo. Adiantou a situação periclitante do país, que a qualquer momento implodiria, que o que restaria sobraria para os "pretos" e que ele mesmo fugiria em uma caravana na semana seguinte. Agemiro reafirmou a situação complicada da fábrica, cujo produto ficara de repente obsoleto, revelou que pretendia se casar com Sílvia e que queria sair da sociedade. Pablo pediu que ficasse tranquilo, que resolveriam tudo ele chegando ao Rio. Agemiro ainda arriscou um "é uma pena" não muito sincero.


Após atravessar três países, Pablo conseguiu voar para Madri e de lá para o Rio. Érica e ele já estavam estremecidos, ela pensava consigo que aquele aventureiro arruinara sua vida e destruíra a fortuna de seu pai. Mas quando um mês depois se separam ela recebeu um valor significativo. O apartamento da Vieira Souto ainda estava alugado, e os dois amigos se encontraram em Copacabana, perto do hotel de Pablo. Pessoalmente, Agemiro sentiu enfim alguma compaixão, e sentiu-se bobo de ver um triunfo no infortúnio do amigo que não se contentara em ser um membro afluente da sociedade carioca - queria viver longe da "gentalha" em um mundo inventado. Pablo era um homem arrasado. "O importante é que você voltou à Cidade Maravilhosa e tem a vida pela frente", tentou reanimá-lo. Combinaram que fechariam a fábrica, venderiam o prédio e o máquinário, dividindo as receitas. Trocaram mecanicamente as mesma reminiscências de sempre e se despediram.


Com o valor recebido, Agemiro e Sílvia montaram uma escola em Duque de Caxias, ela sendo coordenadora e ele professor de matemática. Vivem bem o bastante e costumam ir à praia ou à serra nos fins de semana. Não abandonaram também a Lapa onde se conheceram. Pablo às vezes os visitava, e não tinha mais pudor de recebê-los na cobertura. A diferença sendo que Pablo de certa forma agora invejava a vida simples do amigo. Seguiram se vendo amiúde, até a prisão de Pablo pela Polícia Federal. O (até há pouco) respeitável empresário era um dos mais altos postos de uma rede de tráfico internacional de drogas.

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