sábado, 27 de março de 2010

Da Patada ao Piparote

Posso dizer que não era tão neófito assim na blogosfera quando assumi este endereço. Lá pelos idos de 2002, meu amigo Alexandre Piccolo - esse sim um literato que se possa levar a sério - mais o PH, o Mário... o Socha, como esquecer? mas basicamente o Alê - que é dublê de literato e computeiro, esqueceu-me dizer - bolaram a Patada, uma comunidade em que cada um tinha um dia para publicar seu texto, e que foi ganhando em visibilidade até um fim inexplicável lá pelo começo de 2006. Estou quase certo de que houve uma etapa anterior à Patada, mas não consigo me lembrar do nome. Sei que a Patada foi, juntamaente com o Coquetel do Mingus, uma das coisas interessantes com que me envolvi enquanto em Campinas. E diria que a fase áurea - já que eu sou muito fraco para escrever ficção - foi a Quitanda do Leo, em que eu resenhava coisas diversas com um twist humorístico - meio boboca, admito.

Aqui vai o arquivo. Há muita maluquice impublicável aí, como também na maior parte do Leosfera - que surgiu de uma de minhas "etapas", por assim dizer. Mas aí já estou entregando a rapadura. Enfim, passa lá e aproveita para conferir os outros articulistas também. Tem coisa boa aí.

Mas nada de ficar lamentando a morte da Patada, porque... ela ressurge como o Piparote! Basicamente a mesma patota, com o mesmo objetivo: escrever e publicar textos. O que significa dizer que estarei vivendo uma vida dupla: resolvi que o Piparote será a plataforma onde publicarei ficção (e isso me força a produzir, o que é ótimo), enquanto aqui no Leosfera ficam as abobrinhas políticas. Música, cinema e arte em geral vai ser um coringa para usar nos dois (para "tapar buracos" no Piparote e para "quebrar o gelo" por aqui).

Já adicionei o link aí ao lado, mas não tem por que não repetir (é um endereço tão enxuto e bonitinho):

http://www.piparote.com/

sexta-feira, 26 de março de 2010

Varèse: Ionisation

Desde que eu era um moleque roqueiro, meu gosto musical foi-se ampliando um bocado. E uma das direções foi a da música chamada "contemporânea", que na verdade é contemporânea dos meus avós. Também não gosto muito do impreciso termo "música do século XX", já que o que mais marcou a música desse século foi a cultura de massas. Também algo impreciso, mas pelo menos bem mais charmoso, é o termo "avant-garde" ou "vanguarda". Pouco importa. Já coloquei aqui recentemente Mr. John Cage, e agora é a vez do francês - emigrado para os EUA - Edgard Varèse. Ouvi falar de Varèse em um documentário sobre Frank Zappa. Ocorre que boa parte da maluquice do narigudo - e polêmico - guitarrista de Baltimore se deve ao compositor francês. Zappa era um frangote que curtia  Rythm'n'Blues quando travou contato com a música de Varèse, especificamente Ionisation. "Esses acordes são bem malvados" foi a impressão de Francis Vincent então. Daí em diante, Varèse e outros compositores influenciaram bastante Zappa, como se pode observar no disco Yellow Shark, por exemplo. E como vocês não querem mais falatório, fiquem com Ionisation, de Edgard Varèse, um dos maiores clássicos do avant-garde.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Quando a Questão é Quota

Outra polêmica sempre latente que voltou aos holofotes por esses dias foram as quotas. Eu prefiro assim, com "qu" e glide. Inclusive, para quem não sacou a aliteração, o título deve ser lido como se houvesse trema em "questão" - o pobre diacrítico proscrito.

O que ocorreu foi que nosso simpático partido ultraconservador Democratas - Dem para os íntimos, Demo para os detratores mais exaltados, PFL para os saudosistas (de quando eles apitavam alguma coisa) e Arena para as viúvas da caserna; e, se continuarmos puxando esse fio, podemos chamá-lo Escravocratas - entrou com a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 186 junto ao Supremo Tribunal Federal, questionando a legalidade de adotar quotas com critério racial.

A alegação é a um tempo óbvia e inacreditável: o sistema viola o princípio da igualdade. Óbvia porque, de fato, é introduzida uma distinção; mas é inacreditável a cara de pau dessa turma do Agripino, já que o mecanismo existe para sanar a gritante desigualdade racial de nossa sociedade. Tratam-se os desiguais desigualmente, de modo a reduzir essa desigualdade. O que observamos é uma absurda reação do Brasil "branco" que se sente "prejudicado", ou seja, "discriminado" por não passar no vestibular. E já houve decisões judiciais reconhecendo esse "direito sagrado".

Semana passsada, causou furor a argumentação, ou pseudoargumentação, do senador Agripino Maia, para quem não devemos adotar políticas compensatórias porque os negros que vinham para a América já haviam sido escravizados por outros negros. Ora, isso é fato. Mas o debate aqui não é a versão correta da História (supondo que houvesse controvérsia), mas o modo de tentar minimizar os efeitos da escravidão (que é incontroversa, independentemente de seus pormenores) sobre a população descendente dos escravos africanos hoje, apenas 122 anos após a abolição. Pois se a questão do negro tem avançado recentemente - da minha infância até hoje é possível ver diferença - basta prestar atenção como ainda é muito natural ver um negro em posição subalterna (lavando seu carro, cuidando da sua casa) e ainda chama a atenção ver algum deles gerente de banco, por exemplo. E o acesso ao ensino superior é justamente a chave para a melhora de posição social em nossa sociedade.

Há um grupo de negros contra as quotas, liderados pelo Militão. Pelo que entendi, eles acham humilhante precisar de quotas para a aprovação. É um argumento válido, mas inócuo. Isso porque nenhum sistema de quotas é obrigatório. Aquele que acreditar que é capaz de triunfar sem políticas afirmativas pode concorrer pelo sistema universal, e faz muito bem se assim optar (até porque a proporção de negros aprovados só cresce).


Um conceito muito caro a quem quer questionar as quotas é a chamada meritocracia. Ou seja, você vale na medida do seu desempenho. Não interessa se as condições de que você dispôs para melhorar seu desempenho - boa escola, dedicação exclusiva - são uma vantagem desleal, os outros que se virem para competir. E ora, a política afirmativa não derruba a meritocracia, cada vaga segue sendo disputada a tapa, com base no desempenho, mas com um mecanismo para beneficiar um grupo pelos motivos mencionados.

Também se brande o mito da democracia racial, do Brasil miscigenado - como Agripino quer - pacifica e consensualmente; e o fato de que às vezes é difícil determinar a etnicidade de uma pessoa (repisando o episódio em que um gêmeo foi aceito e outro reprovado no sistema da UnB). Não é preciso começar a contestar o primeiro argumento, de tão ridículo; o segundo é sólido: se a miscigenação não foi pacífica, miscigenação houve, muito mais do que nos EUA, por exemplo. E se formos levar isso ao extremo, são no Brasil uma pequena minoria aqueles que não têm nenhum patrimônio genético de negro. É uma questão delicada, mas esse reconhecimento ainda não anula o fato que a população de pele escura tem menor status social. É apenas uma dificuldade a mais, e simples de ser contornada: apenas é necessário que um branco esperto não se beneficie do sistema declarando-se negro, certo? Então, que haja uma comissão, na matrícula, que determine se aquele aluno que se declarou afrodescendente o é de fato; serão poucos os problemas.

Outra argumentção pertinente, mas que não chega a derrubar o instituto da política afirmativa, ou melhor, apenas o reforça, é a de que o critério deveria ser social, privilegiando o aluno de baixa renda - e se os negros estão majoritariamente nessa categoria, seriam automaticamente contemplados, sem excluir os brancos. É justamente por isso que a tendência agora é o critério misto, como o do projeto do governo para as federais, que está emperrado no Congresso, que reserva 50% das vagas para egressos da rede pública, com subquotas étnicas; ou como temos na Unicamp, em que egressos da rede pública ganham um bônus de 30 pontos e negros ou índios ganham mais 10.

O que nos traz à questão que ao meu ver é mera tecnicalidade: reserva de vagas ou bônus? Isso deve ser decidido analisando os resultados de cada método, e já temos boas amostras para julgar. O sistema de reserva tem o risco hipotético de aprovar candidatos com desempenho muito baixo, e o sistema de bônus corre o risco de não fazer diferença nenhuma. Não acho que seja o caso em qualquer dos casos. Deveria portanto ficar a critério de cada instituição.

Aí caímos de novo no projeto da Ideli Salvatti: empurrar a quota de 50% para todas as federais não é ferir a autonomia universitária? É uma boa discussão, no que aliás essa temática é farta. Me parece uma boa iniciativa, mas fica o receio de que se aprove essa lei e continue se tolerando a baixa qualidade de nossa educação básica, o que é um assunto paralelo mas interligado ao da reserva. Digo isso porque se hoje o nível dos alunos é sofrível, com a reserva é possível pensar - nos cursos menos concorridos das universidades menos concorridas - em perfeitas topeiras sendo aprovadas (mas me pergunto se já não é assim). Quanto ao aspecto "autoritário" do projeto, é também discutível: as federais são mantidas pelo governo federal, que pode sim fixar regras para os sistemas de acesso. Mas deve ser respeitado sempre o diálogo.

Quando fiz vestibular da UnB em 2005 (e a adoção das quotas era recente), o tema da redação foi justamente discriminação racial, e eu sapequei lá argumentos contra o sistema - era como eu pensava então - e o principal deles eu em certa medida sigo sustentando, ainda que veja hoje que não exclui ações "emergenciais", de resultado mais imediato. Era o de que a desigualdade deve ser enfrentada incluindo as pessoas mais pobres no sistema econômico, e em pé de igualdade, claro. Ou seja, melhorar a condição do negro é combater a pobreza, distribuir renda. O Brasil até tem avançado nesse terreno, mas há muito pela frente. A falha na minha análise de então, que se espelha no coro dos críticos das quotas, é fingir que a questão racial não existe, que não faz diferença.

Apenas mais um pouco da minha experiência pessoal para terminar. Como disse, fiz vestibular na UnB, e passei (saí e passei de novo, mas não importa). A UnB foi pioneira na adoção de quotas raciais, e o que posso dizer é que é um sucesso. Eu, vivendo essa vidinha besta de classe média, convivia muito pouco com negros - em posição de igualdade ao menos - e hoje os vejo representados na universidade em que estudo. Não consta (ainda que eu não tenha números) que seu desempenho seja pior, e de forma alguma houve o efeito inverso - com que muitos adversários das quotas ameaçam - de instilar a intolerância racial. Por fim, aqui na PGR, onde trabalho, já tive um chefe negro lá no transporte, e agora voltei a ter um chefe negro, e o chefe dele é ainda mais negro. Serviço público, por só depender de uma prova e vedar discriminação, é outra escada para ascenção deles. Mais um motivo para me orgulhar de trabalhar na PGR é que a ADPF do Dem já saiu com parecer do Ministério Público pelo indeferimento.

Mas... e os índios hein? Será que vamos aprender a lidar com os índios? Isso já é outra conversa...

terça-feira, 23 de março de 2010

Hermeto em Montreux: Quebrando Tudo

O primeiro disco que eu comprei do Hermeto foi o do festival de Montreux de 79. Discaço, Hermeto em seu ápice. E o som que eu mais curtia sempre foi o ousado Quebrando Tudo (como poderia ser diferente?). Qual não foi minha surpresa ao deparar com um vídeo dessa mesma música, no mesmo festival, no blog no Nassif? Sempre foi um som - particularmente a seção experimentalista do Bruxo - que instigava muito a imaginação, e eis que este vídeo talvez estrague um pouco o mistério, mas vale a pena o risco. Engraçado que no disco eles sumiram com o berro que a moça dá no início. Bem, lá vai então.

Ela Dorme


Quem me falou de John Cage pela primeira vez foi o Pastel - irmão do Forma, sabe? - aluno de Música lá na Unicamp. Busquei e gostei muito. Algumas coisas é preciso abrir bastante a mente - Cage é dos maiores nomes da música experimental e não podia ser diferente - mas peças como a Segunda Construção em Metal pegam você pelo pescoço. Bem, não é preciso dizer que sua música se inclui na categoria "amor ou ódio", e o telespectador de novela médio vai mandar exorcizar alguém visto escutando suas peças para piano preparado (ainda que algumas sejam bem "palatáveis"). Mas, ora, não está aí metade da graça? Cage compôs uma peça "para qualquer número de músicos" que consiste em 4 minutos e 33 segundos de silêncio (4'33''), e os adminstradores de seu espólio tentaram processar um outro músico por plágio por lançar sua peça em branco - figurando na lista de processos mais ridículos que vi no Guardian outro dia (ou Independent, sei lá). Minha peça favorita dele - e uma das favoritas com um todo - é She's Asleep, um duo de piano preparado (em que se adicionam metais, borrachas, etc. para alterar o som do piano) e voz. É um prodígio de sutileza e ao mesmo tempo heterodoxo como só ele ousava ser. Há diversas versões, esta - não apenas por ser a com a qual tive contato - é definitivamente a melhor (que conheço).


terça-feira, 16 de março de 2010

Minha Colher em Cuba

Lula visitou Cuba já faz um tempo, mas a oposição brasileira faz tudo para tirar o máximo do episódio. Lula por sua parte não contribuiu nada com suas declarações, e esta postagem poderia muito bem se chamar Cala a boca Magda Redux. Sei que resolvi meter minha colher nesse grude, e já estou vendo eu sair lambuzado, mas vejamos.

Os críticos do regime castristas adotam o discurso e o ponto de vista dos Estados Unidos, o senhorio que foi despossuído em 1959, e preferem ignorar que a Revolução representou, no mínimo, a transferência da posse da ilha dos americanos (e elite local) para os cubanos como um todo. Houve resultados impressionantes pelo menos em educação e saúde, universalizadaos, analfabetismo erradicado e por aí vai. Houve problemas de desabastecimento, que em grande medida podem ser creditados ao embargo imperialista. E sempre houve os que discordassem, com os quais o regime sempre lidou no modo tradicional das ditaduras. Até que ponto isso seria "inevitável" no ambiente de conflito que açulado desde os EUA, é matéria de debate. Não há liberdade de imprensa e paira uma sensação de vigilância. Qualquer esquerdista, por mais que defenda os Castro, tem que reconhecer isso.

Há uma discussão que cabe aqui: a democracia-institucional-liberal-burguesa-iluminista é o bem supremo a ser perseguido, mesmo quando sirva de máscara para uma plutocracia que mantém uma parcela da população na indigência (como é o caso da nossa)? É a pergunta que Serra lança em seu artigo, já respondendo: não queremos justiça social a custo da democracia. Bem, essa pergunta deveria ser feita aos cubanos; eu mesmo nunca ouvi falar de enquetes, se são sequer permitidas ou não. Mas tomemos um caso bem afim: a Venezuela, sede - a crer na mídia - das maiores ameaças à democracia, apresentava índices de aprovação da democracia pátria bem maiores que os brasileiros.

A questão é: vemos o regime comunista cubano tornar-se algo anacrônico, apresentar sinais de desgaste com a saúde frágil de Fidel, mas a abertura que parecia natural ficou em suspenso. Temos o fator do ego de Fidel, de ditador latino, influindo: seu projeto era sinceramente de libertação e melhoria social, mas um projeto de poder pessoal todo o tempo. O que nos faz crer que só sua morte trará a détente. A pergunta que vem à mente é: o fim da ditadura e a adoção de "frescuras" burguesas como eleições pluripartidárias, destruiriam as conquistas sociais? Não é possível construir um país a partir daqui? Com o povo escolhendo no voto seus caminhos? O que os comunistas fazem estendendo o regime é garantir uma reação conservadora quando se romper a represa autoritária.

E nosso presidente, por mais que se entenda sua amizade pessoal com os irmãos Castro, suas posições a que tem todo direito (afinal, foi eleito por um partido nominalmente de esquerda), deveria ter sido mais diplomático ao reagir à morte do preso político Zapata, por greve de fome, quando o comparou a bandidos comuns, e mesmo menosprezando uma morte. Há sempre aquela baboseira de não-intervenção em assuntos internos - que vale quando interessa, em Honduras não valia - mas o que há de fato é uma política de alianças. E Cuba é um aliado, e um aliado de peso quando se trata de mineiramente minar a hegemonia americana no hemisfério, surgindo como um contrapeso. Nesse caso, o dicurso oficial é de apoio ao governo instaurado - o que não incomoda a mídia quando se trata da ditadura chinesa ou dos maiores violadores dos direitos humanos do planeta - mas nada obriga Lula a fazer pouco dos dissidentes. Poderia muito bem afirmar que Cuba tem seus problemas internos sérios, que esperamos que sejam resolvidos da melhor forma, etc. um bla-bla-bla bem manjado e insípido, ou seja, diplomático.

O Brasil deve ficar esperto, e certamente Lula e Amorim o sabem, para ser protagonista na inevitável abertura cubana, ocupando espaços de modo a evitar a reincorporação do antigo bordel dos gringos. E é aí que Lula poderia ter dado a cartada de mestre: poderia ter ido além dos panos quentes e domado a situação em seu proveito (harness): afirmando abertamente a disposição de mediar o diálogo na ilha rumo a uma transição pacífica - que mesmo Raul e Fidel certamente já veem com bons olhos - conservando as conquistas socialistas, mas com mais liberdade política. E por esse caminho Lula poderia chegar mais fácil a seu tão sonhado Nobel da Paz: a paz no Oriente Médio não está a seu alcance.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Soltando Foguetes II

Joguei os vídeos do Chomsky lá no Vídeos do Dia, do Blog do Nassif, e virou post!

Chomsky e a democracia

Por Leosfera

 Tempo atrás, já havia sido publicado um poema meu.

domingo, 14 de março de 2010

Coquetel do Mingus

Digitalizei todas minhas fitas do Coquetel do Mingus, programa que mantive com diversos outros parceiros na Rádio Muda, lá na Unicamp. Vai aqui uma pequena amostra, do dia 03/04/05, portanto uma época já bem dominada pelas interessantes maluquices do Pedro.

sábado, 13 de março de 2010

Lula no Oriente Médio

Lula esquecerá por um instante as eleições e fará um giro pelo Oriente Médio. É um fato deveras inédito um presidente brasileiro ser levado a sério a ponto de ser tratado pelo Haaretz, principal diário israelense, como "profeta do diálogo". É muito bonito, mas que não se esperem resultados concretos.

Por um motivo muito simples: a brutal assimetria de forças no "conflito". O que acontece por lá é que uma vez o projeto sionista concretizado em 1948, Israel não parou de arrogantemente expandir suas fronteiras e ocupar territórios. Isso devido ao apoio diplomático e militar da maior superpotência que já houve, os ainda mais arrogantes Estados Unidos. Do outro lado, a população palestina, o que tem? A simpatia de boa parte da população esclarecida no mundo todo e... foguetes caseiros, que só atraem mais chumbo sionista.

Pois repetidas vezes Israel faz um jogo de cena aceitando "conversações de paz", mas tem sempre suas condições e restrições, e na prática a paz que almejam é que os palestinos parem de incomodar e aceitem sua situação atual. Ver por exemplo o último trecho da primeira parte da entrevista de Chomsky ao Democracy Now! aqui em baixo.

E hoje, em que pé que estamos? Israel retomou seus assentamentos em Jerusalém Oriental, declarou patrimônio de Israel sítios sagrados para os muçulmanos e, em suma, não mostra disposição em ceder. Os Estados Unidos de sua parte, nem fingem que discordam, passam a mão e tacitamente apoiam as investidas. Não faz muito, a dupla atacou Gaza quase que por exercício, matando pelo menos mil civis, destruindo infra-estrutura e empregando armamento experimental - o temível fósforo branco - e depois tendo a cara-de-pau de se sair com uma desculpa esfarrapada. Enfim, é de esperar que essa turma subitamente mude de ideia e, de consciência pesada, simplesmente aquiesça quanto ao estabelecimento de um Estado palestino?

E quanto aos palestinos? Estão divididos, e chegaram a lutar entre si antes que o Hamas assumisse o controle de Gaza. O que ocorre basicamente é que com a disposição do Fatah de dialogar com Israel, e com a falta de resultados, este partido perdeu sustentação, visto como incompetente ou colaboracionista. Daí a vitória do Hamas em Gaza, e seus foguetes Hassan que serviram de pretexto para o massacre israelense.

Voltando a Lula, o presidente operário será recebido em Israel (e nossa imprensa não condenará o desrespeito aos direitos humanos por parte deste país), o rinoceronte do Avigador Lieberman será todo mesuras, esquecendo que Lula apoia Ahmadinejad. Repertirão que estão prontos para dialogar e o mesmo bla-bla-bla de sempre. Fotos bonitas para a imprensa mundial e pronto. Lula deve então encontrar Abbas (líder do Fatah), basicamente retribuindo as visitas que recebeu. Não deve se incomodar em dialogar com o Hamas - pega mal, são "terroristas" -, vai à Síria, Jordânia e... Irã (em maio apenas - deveria ter aproveitado o ensejo). Aí a mídia faz aquele escândalo, tudo dentro do script.

Até acredito que nossa chancelaria esteja sinceramente interessada em fazer alguma diferença. E como prometi ser menos derrotista, vamos torcer para que se obtenha algum avanço concreto. E eventualmente Lula poderia ser laureado com o (já achincalhado) Nobel da Paz. Mas está se me configurando chancelaria de boas intenções, chazinhos e tudo mais. Resultados, só quando os EUA mudarem de lado por algum motivo. Enquanto isso, projeta-se ainda mais a figura de Lula internacionalmente. É o famoso "jogar para a plateia".

Atualização

Bem, a visita a Israel aqueceu bem mais que o previsto: Lula se recusou a visitar o túmulo de Theodore Herzl, patrono do Sionismo, e o rinoceronte Lieberman o boicotou. Pensei bastante se foi uma boa pedida. Do ponto de vista principista, eu nunca me associaria ao Sionismo, mas pragmaticamente vale a pena o desgaste? Creio que Lula acertou: não estava no roteiro, não é praxe nas visitas de estadistas, e é de certa forma um endosso à doutrina que afinal de contas acabou com a paz naquele pedaço de terra. A chancelaria de antigamente (que tirava seus sapatos) responderia na mesma hora "por que não?". O Brasil de hoje não só se oferece - mais que isso, é requisitado - como interlocutor para a região, mas é altiva a ponto de firmar posição.

Enquanto isso, os EUA fazem mais um jogo de cena, subindo o tom com Israel pelas negociações de paz. É um discurso bonito que a análise da praxis ao longo de todas essas décadas não sustenta.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Erramos, Ainda Bem

Tempo atrás, escrevi o artigo De Chicana em Chicana, que, admito, abordava a questão do escândalo político candango, o panetonegate ou mensalão do DEM, ou o que seja, com uma perspectiva bem pessimista, derrotista mesmo. Bem, fatos novos me desmintiram, e já faz três semanas que o governador titular está preso na Polícia Federal.

Acontece que eu vocalizava o sentimento mais generalizado, ante o domínio que o Gargamel exercia sobre a Assembleia Distrital, de que estava no forno uma pizza de panetone. Não contávamos com a extrema burrice, creditada que seja ao desespero, do então governador. Subornar uma testemunha para dizer que as fitas eram montagens - sendo que certamente a PF tem peritos para atestar a autenticidade - e ainda por cima escrever um bilhete - foi uma manobra infantil; some-se a isso os dois pangarés da PM goiana que ele enviou à Câmara Distrital para fazer espionagem, e temos um Arruda inepto e mal aconselhado. Como dizem, quanto mais mexer, mais fede. Se ele tivesse ficado pianinho, usando as manobras protelatórias de praxe, poderia terminar o mandato. Afinal, não foi preso pela denúncia original, mas pelo flagrante do suborno.

De qualquer sorte, a prisão de Arruda é emblemática. A sensação generalizada da população é de que esse tipo de crime fica sempre impune - e eu mesmo caí nessa. Não faz muito um banqueiro foi pego subornando um delegado da PF e pôde contar com "facilidades": está soltinho. O que faz este caso ser diferente? A abundância de imagens e o consequente clamor público, certamente. Mas o que pesa é a perda da sustentação política. Um presidente já perdeu o mandato em situação semelhante, e serviu de precedente - mas não foi preso. Nos dois casos, o governante perdeu todo capital político e ficou isolado de uma vez. O Collor é uma história à parte, com suas particuaridades que não vou deslindar aqui, mas seu impedimento foi na época um marco histórico de qualquer sorte. O que confusamente quero perguntar é: o caso será um ponto de inflexão na história do combate à corrupção? Há bons motivos para crer que sim, mas nesses assuntos não se pode cantar vitória antes do tempo. Há que se lembrar que esse caso teve por peculiaridade uma extrema visibilidade: fala-se em toda administração de um (quase) estado, com vídeos que fizeram a alegria da mídia; e a corrupção miúda que grassa em todo município, com poucas exceções? Ou mesmo em outros estados, sem que divergências internas à camarilha a exponha? É bem claro que o esforço de coibir as negociatas políticas no Brasil é hercúleo, e não pode depender de escândalos midiáticos. De qualquer sorte, acredito mesmo que estejamos progredindo, pela ação do Ministério Público (onde humildemente labuto), da Controladoria Geral da União e da Polícia Federal, é mais comum ouvir falar em corruptos sendo pegos - daí a sensação de alguns de que nunca houve tanta corrupção - mas daí a efetivamente puni-los é com o Judiciário, que parece ainda esperar que se confeccionem recibos para propinas e desvios de verba. E não se esqueça dos corruptores: os donos das empresas que mantinham esquema com Arruda por exemplo - e mantêm com Serra - são tão bandidos quanto ele, sem o agravante, é claro, de ostentarem um mandato público.

Enfim, é torcer, redobrar a vigilância e tentar votar bem, se bem que o que nos oferecem é quase sempre uma meleca mesmo. Por ora, me orgulho em dizer que errei. E tentarei monitorar esse derrotismo daqui pra frente.