quinta-feira, 11 de março de 2010

Erramos, Ainda Bem

Tempo atrás, escrevi o artigo De Chicana em Chicana, que, admito, abordava a questão do escândalo político candango, o panetonegate ou mensalão do DEM, ou o que seja, com uma perspectiva bem pessimista, derrotista mesmo. Bem, fatos novos me desmintiram, e já faz três semanas que o governador titular está preso na Polícia Federal.

Acontece que eu vocalizava o sentimento mais generalizado, ante o domínio que o Gargamel exercia sobre a Assembleia Distrital, de que estava no forno uma pizza de panetone. Não contávamos com a extrema burrice, creditada que seja ao desespero, do então governador. Subornar uma testemunha para dizer que as fitas eram montagens - sendo que certamente a PF tem peritos para atestar a autenticidade - e ainda por cima escrever um bilhete - foi uma manobra infantil; some-se a isso os dois pangarés da PM goiana que ele enviou à Câmara Distrital para fazer espionagem, e temos um Arruda inepto e mal aconselhado. Como dizem, quanto mais mexer, mais fede. Se ele tivesse ficado pianinho, usando as manobras protelatórias de praxe, poderia terminar o mandato. Afinal, não foi preso pela denúncia original, mas pelo flagrante do suborno.

De qualquer sorte, a prisão de Arruda é emblemática. A sensação generalizada da população é de que esse tipo de crime fica sempre impune - e eu mesmo caí nessa. Não faz muito um banqueiro foi pego subornando um delegado da PF e pôde contar com "facilidades": está soltinho. O que faz este caso ser diferente? A abundância de imagens e o consequente clamor público, certamente. Mas o que pesa é a perda da sustentação política. Um presidente já perdeu o mandato em situação semelhante, e serviu de precedente - mas não foi preso. Nos dois casos, o governante perdeu todo capital político e ficou isolado de uma vez. O Collor é uma história à parte, com suas particuaridades que não vou deslindar aqui, mas seu impedimento foi na época um marco histórico de qualquer sorte. O que confusamente quero perguntar é: o caso será um ponto de inflexão na história do combate à corrupção? Há bons motivos para crer que sim, mas nesses assuntos não se pode cantar vitória antes do tempo. Há que se lembrar que esse caso teve por peculiaridade uma extrema visibilidade: fala-se em toda administração de um (quase) estado, com vídeos que fizeram a alegria da mídia; e a corrupção miúda que grassa em todo município, com poucas exceções? Ou mesmo em outros estados, sem que divergências internas à camarilha a exponha? É bem claro que o esforço de coibir as negociatas políticas no Brasil é hercúleo, e não pode depender de escândalos midiáticos. De qualquer sorte, acredito mesmo que estejamos progredindo, pela ação do Ministério Público (onde humildemente labuto), da Controladoria Geral da União e da Polícia Federal, é mais comum ouvir falar em corruptos sendo pegos - daí a sensação de alguns de que nunca houve tanta corrupção - mas daí a efetivamente puni-los é com o Judiciário, que parece ainda esperar que se confeccionem recibos para propinas e desvios de verba. E não se esqueça dos corruptores: os donos das empresas que mantinham esquema com Arruda por exemplo - e mantêm com Serra - são tão bandidos quanto ele, sem o agravante, é claro, de ostentarem um mandato público.

Enfim, é torcer, redobrar a vigilância e tentar votar bem, se bem que o que nos oferecem é quase sempre uma meleca mesmo. Por ora, me orgulho em dizer que errei. E tentarei monitorar esse derrotismo daqui pra frente. 

Um comentário:

Grilo D disse...

Há uma diferença básica entre os casos Arruda e Dantas: no primeiro, a imprensa estava, coincidentemente, do mesmo lado que o povo. Já Daniel Dantas foi defendido por advogados com 50% de audiência no território nacional - e os investigadores, achincalhados publicamente.
Há que citar o motivo, apesar de você certamente já saber: Dantas interessa a muitos que, além de lucrarem com suas peripécias, caem se ele cair; por outro lado, Arruda é descartável na atual conjuntura da campanha tucana, ao meu ver, em um "desassoreamento" da campanha de Serra, que já "dragou" Gilberto Kassab e Yeda Crusius.
Abraços e parabéns pelo blog,
Grilo D