sábado, 13 de março de 2010

Lula no Oriente Médio

Lula esquecerá por um instante as eleições e fará um giro pelo Oriente Médio. É um fato deveras inédito um presidente brasileiro ser levado a sério a ponto de ser tratado pelo Haaretz, principal diário israelense, como "profeta do diálogo". É muito bonito, mas que não se esperem resultados concretos.

Por um motivo muito simples: a brutal assimetria de forças no "conflito". O que acontece por lá é que uma vez o projeto sionista concretizado em 1948, Israel não parou de arrogantemente expandir suas fronteiras e ocupar territórios. Isso devido ao apoio diplomático e militar da maior superpotência que já houve, os ainda mais arrogantes Estados Unidos. Do outro lado, a população palestina, o que tem? A simpatia de boa parte da população esclarecida no mundo todo e... foguetes caseiros, que só atraem mais chumbo sionista.

Pois repetidas vezes Israel faz um jogo de cena aceitando "conversações de paz", mas tem sempre suas condições e restrições, e na prática a paz que almejam é que os palestinos parem de incomodar e aceitem sua situação atual. Ver por exemplo o último trecho da primeira parte da entrevista de Chomsky ao Democracy Now! aqui em baixo.

E hoje, em que pé que estamos? Israel retomou seus assentamentos em Jerusalém Oriental, declarou patrimônio de Israel sítios sagrados para os muçulmanos e, em suma, não mostra disposição em ceder. Os Estados Unidos de sua parte, nem fingem que discordam, passam a mão e tacitamente apoiam as investidas. Não faz muito, a dupla atacou Gaza quase que por exercício, matando pelo menos mil civis, destruindo infra-estrutura e empregando armamento experimental - o temível fósforo branco - e depois tendo a cara-de-pau de se sair com uma desculpa esfarrapada. Enfim, é de esperar que essa turma subitamente mude de ideia e, de consciência pesada, simplesmente aquiesça quanto ao estabelecimento de um Estado palestino?

E quanto aos palestinos? Estão divididos, e chegaram a lutar entre si antes que o Hamas assumisse o controle de Gaza. O que ocorre basicamente é que com a disposição do Fatah de dialogar com Israel, e com a falta de resultados, este partido perdeu sustentação, visto como incompetente ou colaboracionista. Daí a vitória do Hamas em Gaza, e seus foguetes Hassan que serviram de pretexto para o massacre israelense.

Voltando a Lula, o presidente operário será recebido em Israel (e nossa imprensa não condenará o desrespeito aos direitos humanos por parte deste país), o rinoceronte do Avigador Lieberman será todo mesuras, esquecendo que Lula apoia Ahmadinejad. Repertirão que estão prontos para dialogar e o mesmo bla-bla-bla de sempre. Fotos bonitas para a imprensa mundial e pronto. Lula deve então encontrar Abbas (líder do Fatah), basicamente retribuindo as visitas que recebeu. Não deve se incomodar em dialogar com o Hamas - pega mal, são "terroristas" -, vai à Síria, Jordânia e... Irã (em maio apenas - deveria ter aproveitado o ensejo). Aí a mídia faz aquele escândalo, tudo dentro do script.

Até acredito que nossa chancelaria esteja sinceramente interessada em fazer alguma diferença. E como prometi ser menos derrotista, vamos torcer para que se obtenha algum avanço concreto. E eventualmente Lula poderia ser laureado com o (já achincalhado) Nobel da Paz. Mas está se me configurando chancelaria de boas intenções, chazinhos e tudo mais. Resultados, só quando os EUA mudarem de lado por algum motivo. Enquanto isso, projeta-se ainda mais a figura de Lula internacionalmente. É o famoso "jogar para a plateia".

Atualização

Bem, a visita a Israel aqueceu bem mais que o previsto: Lula se recusou a visitar o túmulo de Theodore Herzl, patrono do Sionismo, e o rinoceronte Lieberman o boicotou. Pensei bastante se foi uma boa pedida. Do ponto de vista principista, eu nunca me associaria ao Sionismo, mas pragmaticamente vale a pena o desgaste? Creio que Lula acertou: não estava no roteiro, não é praxe nas visitas de estadistas, e é de certa forma um endosso à doutrina que afinal de contas acabou com a paz naquele pedaço de terra. A chancelaria de antigamente (que tirava seus sapatos) responderia na mesma hora "por que não?". O Brasil de hoje não só se oferece - mais que isso, é requisitado - como interlocutor para a região, mas é altiva a ponto de firmar posição.

Enquanto isso, os EUA fazem mais um jogo de cena, subindo o tom com Israel pelas negociações de paz. É um discurso bonito que a análise da praxis ao longo de todas essas décadas não sustenta.

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