terça-feira, 16 de março de 2010

Minha Colher em Cuba

Lula visitou Cuba já faz um tempo, mas a oposição brasileira faz tudo para tirar o máximo do episódio. Lula por sua parte não contribuiu nada com suas declarações, e esta postagem poderia muito bem se chamar Cala a boca Magda Redux. Sei que resolvi meter minha colher nesse grude, e já estou vendo eu sair lambuzado, mas vejamos.

Os críticos do regime castristas adotam o discurso e o ponto de vista dos Estados Unidos, o senhorio que foi despossuído em 1959, e preferem ignorar que a Revolução representou, no mínimo, a transferência da posse da ilha dos americanos (e elite local) para os cubanos como um todo. Houve resultados impressionantes pelo menos em educação e saúde, universalizadaos, analfabetismo erradicado e por aí vai. Houve problemas de desabastecimento, que em grande medida podem ser creditados ao embargo imperialista. E sempre houve os que discordassem, com os quais o regime sempre lidou no modo tradicional das ditaduras. Até que ponto isso seria "inevitável" no ambiente de conflito que açulado desde os EUA, é matéria de debate. Não há liberdade de imprensa e paira uma sensação de vigilância. Qualquer esquerdista, por mais que defenda os Castro, tem que reconhecer isso.

Há uma discussão que cabe aqui: a democracia-institucional-liberal-burguesa-iluminista é o bem supremo a ser perseguido, mesmo quando sirva de máscara para uma plutocracia que mantém uma parcela da população na indigência (como é o caso da nossa)? É a pergunta que Serra lança em seu artigo, já respondendo: não queremos justiça social a custo da democracia. Bem, essa pergunta deveria ser feita aos cubanos; eu mesmo nunca ouvi falar de enquetes, se são sequer permitidas ou não. Mas tomemos um caso bem afim: a Venezuela, sede - a crer na mídia - das maiores ameaças à democracia, apresentava índices de aprovação da democracia pátria bem maiores que os brasileiros.

A questão é: vemos o regime comunista cubano tornar-se algo anacrônico, apresentar sinais de desgaste com a saúde frágil de Fidel, mas a abertura que parecia natural ficou em suspenso. Temos o fator do ego de Fidel, de ditador latino, influindo: seu projeto era sinceramente de libertação e melhoria social, mas um projeto de poder pessoal todo o tempo. O que nos faz crer que só sua morte trará a détente. A pergunta que vem à mente é: o fim da ditadura e a adoção de "frescuras" burguesas como eleições pluripartidárias, destruiriam as conquistas sociais? Não é possível construir um país a partir daqui? Com o povo escolhendo no voto seus caminhos? O que os comunistas fazem estendendo o regime é garantir uma reação conservadora quando se romper a represa autoritária.

E nosso presidente, por mais que se entenda sua amizade pessoal com os irmãos Castro, suas posições a que tem todo direito (afinal, foi eleito por um partido nominalmente de esquerda), deveria ter sido mais diplomático ao reagir à morte do preso político Zapata, por greve de fome, quando o comparou a bandidos comuns, e mesmo menosprezando uma morte. Há sempre aquela baboseira de não-intervenção em assuntos internos - que vale quando interessa, em Honduras não valia - mas o que há de fato é uma política de alianças. E Cuba é um aliado, e um aliado de peso quando se trata de mineiramente minar a hegemonia americana no hemisfério, surgindo como um contrapeso. Nesse caso, o dicurso oficial é de apoio ao governo instaurado - o que não incomoda a mídia quando se trata da ditadura chinesa ou dos maiores violadores dos direitos humanos do planeta - mas nada obriga Lula a fazer pouco dos dissidentes. Poderia muito bem afirmar que Cuba tem seus problemas internos sérios, que esperamos que sejam resolvidos da melhor forma, etc. um bla-bla-bla bem manjado e insípido, ou seja, diplomático.

O Brasil deve ficar esperto, e certamente Lula e Amorim o sabem, para ser protagonista na inevitável abertura cubana, ocupando espaços de modo a evitar a reincorporação do antigo bordel dos gringos. E é aí que Lula poderia ter dado a cartada de mestre: poderia ter ido além dos panos quentes e domado a situação em seu proveito (harness): afirmando abertamente a disposição de mediar o diálogo na ilha rumo a uma transição pacífica - que mesmo Raul e Fidel certamente já veem com bons olhos - conservando as conquistas socialistas, mas com mais liberdade política. E por esse caminho Lula poderia chegar mais fácil a seu tão sonhado Nobel da Paz: a paz no Oriente Médio não está a seu alcance.

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