sexta-feira, 16 de abril de 2010

Uma Comédia Séria

Quando os irmãos Coen lançaram a obra prima Onde Os Fracos Não Têm Vez, em que Javier Barden brilhou como "o mal em pessoa", fiquei me perguntando: será que vão adotar daqui pra frente um tom mais sóbrio e reflexivo, abandonando a comédia? Não que isso fosse uma tragédia (trocadilho à parte), pois a julgar pela qualidade do longa citado, eles têm potencial para relizar dramas monumentais.

Após algum tempo eles se saíram com Queime Depois De Ler, em que retomam a formula clássica da comédia de erros, além da queridinha de longa data Frances McDormand (desde o primeiro, Gosto de Sangue, passando por Fargo - que revelou a ela e à dupla - ou O Homem Que Não Estava Lá, Arizona Nunca Mais e por aí vai), na boa companhia dos consagrados Brad Pitt, George Clooney e John Malkovitch em grandes atuações. Um bom filme, engraçado, mas que não resiste a uma segunda (vá lá, terceira) sessão e que deixou a dúvida (inversa): será que vão voltar a fazer dramas?

Na verdade, não há muito mistério, pois em entrevistas eles revelaram planos de perseguir ambos caminhos. Nada melhor, portanto, do que prosseguir com um filme igualmente engraçado e cerebral, que é exatamente este Um Homem Sério, ora em cartaz por aqui. A crítica menosprezou o filme como inferior dentro da filmografia da dupla, o que acho injusto: talvez estejam procurando pelas gargalhadas, deixando de perceber a profundidade da película.

Um Homem Sério gira em torno do judaísmo, tema que sempre aparecia, nem que seja de relance, na maioria dos filmes anteriores; mas agora veio como o cerne da narrativa. O próprio argumento saiu direto do Velho testamento: as desventuras de Larry Gopnik são uma versão da parábola de Jó, em que um homem muito pio tem sua fé testada de diversas formas. Se eu entendesse alguma coisa de Bíblia poderia traçar aqui paralelos, mas imagino que se trate aqui de pinçar apenas a ideia principal, como E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? fez com a Odisseia.

O prtagonista é um professor universitário de Física, um judeu de classe média em seu subúrbio, com filhos adolescentes, nos Estados Unidos dos anos 50. A começar pela mulher que o deixa, Gopnik tem uma série de desventuras e prolemas de toda sorte, inclusive no trabalho e no trânsito, o irmão folgado, a televisão que não pega... Aturdido em meio a tantas "provas", o careta Gopnik acredita ser um cara "sério" que não merece aquelas "provas"; é orientado a buscar a ajuda do rabino. Essa ajuda vai se provar uma peregrinação por toda a hierarquia de rabinos, desde o falastrão rabino "júnior", passando pelo hilário pseudo-aconselhamento do rabino "sênior" - a cena mais central do filme, na minha visão, como explicarei - até o inacessível rabino-mor. Diversos episódios no caminho cumprem a função de introduzir piadas, como a recalcitrante visita à vizinha que lhe oferece um baseado - o único momento em que ele se afasta do estereótipo de "certinho" - ou o insano projeto de seu irmão, o Mentaculus, um "mapa de probabilidades do universo" que acaba funcionando - o que me remeteu ao "realismo fantástico" de Charlie Kauffman, como em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças. E, é claro, o tema do judaísmo sempre permeando a narrativa. É mais ou menos isso, vou tentar não "estragar" o filme para quem não viu, mas vou-me permitir uma interpretação, uma vez que o final é meio "aberto".

Como disse, o filme é um híbrido: tem suas gags, é engraçado - ainda esteja longe do Grande Lebowsky no medidor de gargalhadas - mas é ao mesmo tempo sério e profundo. Deixa pontas soltas para serem processadas e interpretadas depois do filme, o que é ótimo no meu modo de ver, mas absurdo para quem procura o "riso barato". Nesse aspecto, aproxima-se de Fargo. Para não "fazer aviãozinho" com minha visão do final (e não "estragar" demais), deixo a vocês ruminar a sequência final de idas e vindas, inversão dos clichés cinematográficos em que tudo parece ir mal, desaguando depois no "happy-ending". Voltemos então à visita ao rabino, que conta a ele uma história fantástica de mensagens em hebraico gravadas atrás dos dentes de um "goi" (não-judeu); a história acaba sem nenhuma explicação, o que deixa Gopnik perplexo e ainda mais desesperado. Ora, esssa é a tônica do filme: não busque explicação para nada, nem recompensa por seus méritos ou lógica nas coisas (ainda que o Tio Arthur pareça ter desvendado o "segredo do universo"). Avida está aí, é essa, e não há muito por que se preocupar. Se tudo parece ir errado, se Hashem parece nos testar... não há muito a fazer e talvez o conselho do rabino júnior caia bem: mudar de perspectiva. Com essa visão algo materialista e pessimista, o filme acaba sendo uma crítica ao judaísmo, ou pelo menos à pretensão de representar uma tradição que explicaria tudo, como defende sua colega na cena do piquenique.

Enfim, repetindo, é triste e engraçado, sem ser tragicômico, é divertido e profundo, sem ser pretensioso. É uma comédia séria, mais um bom filme dos irmãos Joel e Ethan Coen.

3 comentários:

Alexandre Piccolo disse...

Léo, ótimo texto, excelente avaliação, resenha das mais bem escritas!

Repensando (e repesando) as críticas ao último texto que você publicou no Piparote, essa sua crítica cinematográfica (publicada aqui na Leosfera) me deixa ainda mais "grilado", pra ficar na gíria hodierna. Fico com a impressão de "pouco caso" que você vem fazendo conosco. Ao tentar olhar de sua perspectiva, fico buscando entendimento para isso, e acho que talvez entenda. A Leosfera é um espaço SEU, construído e trabalhado exclusivamente por você, com esforço e suor próprios, sem ajuda nem colaboração de mais ninguém. Talvez por isso você reserve o melhor material para cá, como fez com esse último texto.

Essa "review" sobre o filme dos Cohen ficou mto boa mesmo, mostra SEU ponto de vista com equilíbrio, não usa dos clichês, evita o senso comum, nem mesmo se deixa levar pela crítica. Ao contrário, você discorda dessa mesma crítica "especializada" com muita elegância, note-se: "A crítica menosprezou o filme como inferior dentro da filmografia da dupla, o que acho injusto: talvez estejam procurando pelas gargalhadas, deixando de perceber a profundidade da película." E não só esses períodos merecem destaque. Que se observe como todo o texto está bem articulado, coeso, não veicula simplismos, enfim, tenta ver pelo "outro lado do balcão" algo bom no objeto em análise (nada superficial) e que pode ser comunicado e repassado a seus leitores (que, se não forem muitos, não são pedintes nem ambulantes da praça da Sé, sem sombra de dúvidas).

É isso que eu vejo como descaso e que talvez chame de menosprezo em relação ao Piparote (como senti no último texto). Penso que no fundo foi isso que me motivou a julgar seu texto como fraco. Ficava me perguntando "por que ele não caprichou aqui como capricha lá na Leosfera?", "será pra nos zoar, tirar uma onda com a nossa cara?". Não achei uma resposta, por isso fiquei lendo e relendo o texto para tentar apontar falhas no texto, que achei indigno de você, sobretudo porque já li (e continuo lendo) textos seus. Sei, porque nos conhecemos há algumas primaveras, que você manda muito bem naquilo em que você se dedica e confesso que fico chateado de ver você disperdiçar talento ao tentar "abraçar o mundo", como se diz, seja com mil-e-um afazeres díspares (que parecem mais tirar do que concentrar o foco), seja com esses repasses de ideias "supostamente bacanas ou descoladas, da contracultura" (mas exorbitantes ou disparatadas), como foi o texto que você deixou lá no Piparote. Tenho certeza que você é sensível o bastante para perceber as diferenças entre esta bela resenha e aquela crônica do "disse-que-disse". O público leitor, seja ele qual for, talvez consiga endossar essa diferença. E por isso fico com a sensação do descaso, em que venho martelando.

Talvez manter os dois sites tenha ficado realmente duro, compreendo. Eu mesmo me vejo até altas horas de segunda-feira, relendo e revisando, pra postar ao menos algo esforçado e burilado, que eu julgue "legal", tentando não menosprezar o tempo e a atenção dos meus pouquíssimos leitores - ainda que saiba que, em inúmeras vezes, eu fico aquém. Então, se estiver na correria total e não conseguir postar lá no Piparote, sem galho, sem crise. O Mário mesmo segue essa linha, às vezes prefere deixar o espaço em branco a fazer algo às pressas. E quando você tiver escrito algo legal, bem pensado, que venha de suas avaliações finas, repensadas, retocadas com insights sensíveis, como você fez nessa "resenha cinematográfica", não vejo o menor problema de publicá-la TAMBÉM no Piparote. Só acrescenta ao espaço lá, de que você também faz parte.

Alexandre Piccolo disse...

Não sei se isso ajudará você a olhar a casa lá do Piparote com "mais belos olhos", mas esperamos transformá-lo, daqui um tempo, numa revista seriada. A ideia é continuar a publicar semanalmente. Entretanto, numa periodicidade ainda não definida (semestral, bimestral, tri...??), recolhemos os textos mais legais, bolamos um editorial, fechamos os artigos em PDF (quiçá), enviamos por email, imprimamos (tomara!), enfim, fazer um resgate periódico nos bons textos talvez estimule posts cada vez melhores, mais primorosos, incentive novos colaboradores a escrever (espero conseguir um ISSN pra revista), poderemos divulgar e contar essa produção em "currículos oficiais", dentre outras vantagens que a empreitada traz. Bem, talvez partilhando com você essas expectativas e ideias pro futuro, você se empolgue conosco também.

Nem vou responder e "dar trela" ao debate dos comentários em seu texto lá no Piparote - espero ter feito isso aqui. De resto, a gente pode conversar tomando uma breja, que é bem melhor. Irei à Gyn em maio, se animar o passeio, tá já convidado.

Um forte abraço do


Piccolo

Alexandre Piccolo disse...

P.S.: Essa pra mim era nova: precisei de 2 comentários pra colocar meu texto (não são aceitos mais de 4096 caracteres!). Por isso deixei em 2 coments (bem, agora 3 com esse post scriptum).