sexta-feira, 28 de maio de 2010

O Novo Serra

Em postagem recente, tracei um perfil dos principais candidatos a presidente e fiz elogios a José Serra, por ver nele - para além de minhas divergências políticas - um sujeito cordato, urbano, sensato e ponderado, educado e falante de um português prestigiado. Tudo bem, quando cutucado ele costuma partir pra grosseria, mas mesmo assim podíamos ver nele a fleuma de um lorde.

Esqueçam tudo. O desespero parece rondar as fileiras serristas e o careca parece estar sendo orientado a assumir o figurino neocon, ou seja, um reacionário emperdenido e espumante. Só isso explica as recentes declarações sobre o Irã, que nem o Obama demoniza tanto, e sobre a Bolívia, cujo presidente progressista, o primeiro índio a governar o país, seria conivente com o narcotráfico. É um caminho incerto, mas até certo ponto lógico: como os meios de comunicação - a serviço dessa interpretação do mundo - influenciam tanto o cidadão, tentemos minar o prestigio do Lula atacando seus parceiros estratégicos. Hugo Chávez será uma questão nas eleições, acreditem.

Agora é esperar: vai ser deprimente, se eles insistirem nesse caminho, mas pode até ser engraçado. Dilma também vai dar suas escorregadas, sendo ainda neófita. Ela tentou se aproveitar das asneiras de Serra e sapecou que a Bolívia é "um país pequeno". É maior que qualquer das potências europeias, garanto. Enfim, a campanha deve oferecer um espetáculo interessante, mas uma atração à parte será o comportamento do "esquerdista" Serra vestido de neoconservador.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mais uma tentativa

Mais uma tentativa de fingir algum entusiasmo pela seleção, pelo circo todo da copa do mundo. Por mais que a gente sempre queira vencer a competição, não dá pra levar nada disso a sério. Não só pela exploração comercial - a última copa foi pra mim a copa da Pepsi, que martelava um comercial idiota (dá-dá-dá) nas transmissões dos jogos - mas pelo pouco caso demonstrado pela CBF, reunindo-se a poucos dias do certame, e finalmente pela FIFA que permite que o calendário europeu vá até as vésperas da copa. Resume-se então a juntar uns gatos pingados, que hoje a gente nem vê mais jogar por aqui, pois saem com 15 anos, para jogar umas peladas e seja o que deus quiser (e sendo ele brasileiro, há de querer). O melhor mesmo de copa do mundo é sair do trabalho no meio da tarde com um motivo banal assim e, é claro, cair na bebedeira. Então aproveitemos, e torçamos para a seleção "eficiente" e seu futebol feio. O esporte da rapaziada seguirá sendo falar mal do Dunga. Nada de polêmicas sobre quem deveria estar lá e quem lá não deveria estar, repito que o importante era reuni-los com uns dois meses de antecedência. Mas lembremos que há oito anos ninguém esperava nada de especial da seleção do Felipão. E eles trouxeram o caneco.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Brasil e o Imbróglio Persa

A política de buscar parceiros no mundo em desenvolvimento foi um dos acertos da política externa de Lula, o que conferiu ao Brasil uma inserção diferente no cenário mundial. O Irã acabou sendo um polêmico caso à parte, dadas as desconfianças de que Teerã esteja buscando o desenvolvimento de armas atômicas, sem falar na própria situação interna da república islâmica, com protestos de insatisfeitos e eleições suspeitas. No dia 17 de maio, um evento significativo se deu: em visita a Teerã, Lula e Amorim costuraram um acordo pelo qual Ahmadinejad enviaria pouco mais de uma tonelada de urânio para a Turquia, recebendo o combustível nuclear sem potencial bélico um ano depois. No dia seguinte veio o balde de água fria: Hillary Clinton caminhou e defecou solenemente para o acordo firmado, e pressionou novamente por sanções, talvez um pouco com brios feridos pela audácia desses países desclassificados querendo decidir alguma coisa tão importante.

O comportamento da mídia nacional é aquele típico sob Lula: insistem em pintá-lo como um narcisísta megalomaníaco e ridículo, defendendo aquele criminoso que quer fazer armas nucleares, com o objetivo único de se exibir. Fazem mais do que pediriam os americanos, levados pelo ódio que cresce na proporção da aprovação do metalúrgico. Onde buscar então uma fonte séria e confiável para saber se o acordo irano-turco-brasuca foi um marco histórico ou uma patuscada inócua? Bem, selecionei duas que trarei para vocês aqui: Noam Chomsky e Le Monde Diplomatique.


Na edição de 17 de maio do DemocracyNow!, em matéria sobre o acesso negado a Chomsky à Cisjordânia, Amy Goodman pergunta:

"Eu queria fazer-lhe uma pergunta sobre o Irã, este último acordo que acaba de ser anunciado. Não sei se o senhor tem acompanhado as notícias já que está aí, mas um acordo na questão toda de energia nuclear e armas nucleares. O Irã concordou em enviar a maior parte de seu urânio enriquecido para a Turquia em um acordo de permuta por combustível nuclear que poderia aliviar o impasse internacional sobre o contestado programa nuclear iraniano. Em contrapartida, o Irã receberá combustível nuclear de baixo nível para alimentar um reator médico - o acordo alcançado com os ministros de relações exteriores de Irã, Turqua e Brasil. E o Irã disse que a permuta se dará sob supervisão da agência nuclear da ONU, a AIEA, a Agência Internacional de Energia Atômica. Qual é a sua avaliação disso?"

NOAM CHOMSKY: Se os relatos são corretos, é difícil entender por que... sob que justificativas os Estados Unidos se objetariam. São basicamente objeções dos Estados Unidos. Mas o que é significativo a respeito são várias coisas, primeiro que é o Irã, é o Brasil e a Turquia. A Turquia é representativa das potências regionais. A Turquia, como a Liga Árabe, deixou claro que não quer sanções. Quer uma negociação, uma resolução diplomática. O Brasil é provavelmente o país mais respeitado no... dentre os países não-alinhados, representa um papel muito importante. Na verdade, que os dois tenham superado... e calha de eles estarem no Conselho de Segurança, mas que estejam abertamente clamando por uma resolução diplomática pacífica e se opondo ao apelo... à ameaça de quaisquer ações ulteriores, isso é significativo. [...]


Entrevista completa (inglês)

Já o Monde Diplomatique vai mais além, vê no acordo o sinal de um novo tempo na geopolítica:

"As grandes potências se descreditam" junto à opinião pública ao ignorar a iniciativa irano-turco-brasileira, declarou Ali Akbar Salehi, chefe da organização iraniana de energia atômica (AFP, 19 de maio). É "uma provocação para as potências emergentes", insistiu de sua parte o ex-embaixador da França em Teerã François Nicoullaud, na RFI, em 19 de maio. Para o editorialista do New York Times Roger Cohen (« America Moves the Goalposts », 20 de maio), "o Brasil e a Turquia representam o mundo emergente pós-ocidental. E ele seguirá emergindo. Hillary Clinton deveria ser menos irresponsável torpedeando os esforços de Brasíla e de Ankara e rendendo hipocritamente homenagem a seus esforços sinceros." A capacidade dos Estados Unidos de impor sua solução, prossegue ele, está seriamente erodida.

Todos três reagiam à proposição pelos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU de uma resolução endurecendo as sanções contra o Irã. O acordo tripartite assinado em Teerã não terminou de levantar ondas. Sua importância não pode ser subestimada, pois sinaliza sem dúvida o fim da "comunidade internacional" atrás da qual os Estados Unidos e a União Europeia confabulavam para tocar sua política.

Artigo completo (francês).

Bem, é reconfortante. Quanto ao impasse em si, que dizer? O que devemos ter em mente é que o Irã é uma nação muito tradicional e que legitimamente aspira ao posto de potência média regional, e portanto um contraponto a Israel, um posto avançado do Ocidente, no Oriente Médio. Daí o incômodo de Washington, que - não esqueçamos - bancava a transferência de tecnologia nuclear ao Irã no tempo do Xá, como o fez com Índia e Paquistão. Não que eu veja no Irã um paraíso democrático, pelo contrário, sou contrário a qualquer teocracia com um líder meio maluco se eternizando em eleições discutíveis; mas não vejo em Ahmadinejad um demônio, nem motivo por que o Irã não possa se um parceio estratégico e um mercado para nossos produtos. Quanto à bomba, bem: quando ele conseguir, ele faz; mas está longe disso. Se ele tem ou não esse direito, depende se você aceita a autoridade (em erosão) dos Estados Unidos e seu parceiro Israel. Até lá acerta Lula em buscar uma saída pacífica bancando o mediador entre Teerã e o Ocidente, sem assumir um dos lados. Eu de minha parte concordo com ele: o certo é não só que se impeça a proliferação, mas que se comecem a destruir as ogivas existentes.

sábado, 15 de maio de 2010

Meus Discos

Minha nova obsessão são os LPs "zero-bala", e estou gastando uma fortuna com eles. Achei que podia compartilhar aqui meu novíssimo repertório em formato analógico, ou seja, em vinil, LP, bolachão. Devo dizer que é uma experiência audiófila única, não é baboseira o que dizem. É um som quente e confortável, orgânico; a onda contínua é a explicação certamente. O som do CD parece de plástico depois dessa experiência. O Hot Rats mesmo soou completamente diferente; talvez seja um mix diferente, não sei, sei que foi como redescobrir o disco.



domingo, 9 de maio de 2010

Minha Posição para Outubro

Em post já não tão recente assim, traçava um panorama do cenário para a eleição presidencial deste ano e prometia explicitar e explicar minhas próprias posições, o que ficou para outra ocasião, que vem a ser esta. Talvez tenha faltado lá também dizer que, a meu ver, estas eleições serão as mais disputadas de nossa vida democrática, com os dois principais candidatos disputando palmo a palmo até o resultado final.

Bem, na coluna aí ao lado declaro abertamente meu apoio à candidatura do P-Sol, de Plínio de Arruda Sampaio. Por quê? No mínimo porque as posições verdadeiramente de esquerda estão hoje meio escanteadas com a força da centro-esquerda lulopetista, e cabe a nós que nos posicionamos nessa corrente tentar fortalecê-la eleitoralmente. Algo como emplacar 1% das intenções de voto, não ria, é uma grande vitória. Você perguntará: mas então por que não lançar Heloísa Helena que entraria para perseguir os dois dígitos? Simplesmente porque ela não quis, e com toda razão, pois assegurar uma vaga no senado faz muito mais sentido que uma candidatura presidencial frustrada (e garante exposição similar, além de uma tribuna para nosso ideário). No vácuo da defecção de HH, e depois de um breve flerte com o PV, o partido se lançou em uma ridícula disputa interna em que felizmente Plínio foi indicado, derrotando Martiniano Cavalcanti, preferido pela cúpula partidária. Felizmente porque Plínio é um esquerdista histórico, deputado constituinte e petista fundador: poderia concorrer com o slogan "mais petista que o PT". Cavalcanti é um desconhecido, e além do mais é mais "soft", confundindo-se com o campo petista, muito superior em capital político - não representaria uma alternativa. Mas afinal, que diabo vocês querem com um porcento dos votos? Bem, não venceremos as eleições majoritárias, sendo HH talvez a única exceção; é importante crescer no parlamento agora, e nas ruas, em ações diversas de divulgação da plataforma esquerdista. Trabalho difícil, uma vez que se o trabalhador de modo geral vê sua vida melhorar, não será fácil convencê-lo de que é hora de virar tudo de ponta cabeça. No meu modo de ver, cabe ao P-Sol um trabalho de conscientização dos mecanismos de poder em nosso país e sua injustiça intrínseca, ajudando a superar a máxima superficial do "é tudo um bando de ladrão" em favor de uma compreensão melhor dos processos subjacentes. Trabalho de formiguinha.

Quanto ao líder nas pesquisas, pelo menos até bem pouco, José Serra, não o odeio com toda a força do meu ser como o faz toda a blogosfera petista. É um sujeito capaz e inteligente, mas que funciona de acordo com as diretizes do partido a que pertence. Representa uma elite que sempre se viu como detentora do espírito nacional, para quem o resto do país é um incômodo que era possível ignorar, mas não é mais, por culpa do metalúrgico, que sacudiu um pouco a mistura. A turma do contagolpe de 32, que até hoje é "revolução". Ou seja, é a oligarquia paulista com as demais a reboque. Na verdade, o PSDB até era uma promessa boa, logo após a redemocratização, quando separou-se do que considerava uma política fisiológica e baixa, capitaneada por Orestes Quércia - ainda que se possam enxergar apenas disputas intestinas. Por um tempo posou de bastião do liberalismo progressista, mas uma vez no poder percebeu a necessidade de aliança, e estava ali o PFL, com um poder tão capilarizado, coisa que fazia tanta falta ao jovem partido que... voilà: foi firmado um pacto que tragou o PSDB para as hostes do conservadorismo mais reacionário, do qual representa a fatia urbana enquanto o rebatizado DEM fica mais na esfera rural. É a tudo isso que rechaço, mais que a José Serra, e isso não é por acreditar na conversa de que ele é a "esquerda" do partido. Inclusive acho que esta eleição será diferente - pelo menos um pouco - por contrapor mais dois partidos e dois campos ideológicos do que duas personalidades.      

Já de Marina Silva como pessoa, aí sim nada posso falar de desabonador. Não me agrada seu furor religioso, penso que isso não faz bem em política. Mas respeito muito sua figura, sua trajetória. Ocorre que essa trajetória está ligada a lutas sociais e ambientais em seu estado natal, como não ouvir seu nome e lembrar de Chico Mendes, por exemplo? Agora, quando ela decide se candidatar à presidência, depois de ter feito parte do governo Lula, ficamos na expectativa de saber como ela se posiciona em diversos outros tópicos, desde a economia, passando por moralidade até política externa. Se analisarmos seu novo partido, o PV, aí que estamos perdidos. É uma agremiação anfótera (como diria o Itamar) e imprevisível; oportunista na verdade. Basta dizer que deixou-se cortejar pelo P-Sol até revelar sua verdadeira face ao compor com a direita no Rio. Marina tem se cercado de pensadores claramente neoliberais e isso é sintomático. Acontece que sendo o país fortemente conservador, eleita uma presidenta de um partido inexpressivo, a tendência é que ela se torne refém das forças que representam esse conservadorismo.

A candidata governista, Dilma Rousseff, o é pela primeira vez, e isso pesa. A batalha de sua equipe ainda é a sintonia fina para transformar a "gerentona" em uma mulher carismática (enquanto Serra é cobra criada, fala bem, mesmo dizendo apenas o óbvio). É esperar para ver como ela se sairá em debates, por exemplo. Minha impressão dela é em geral positiva, não foi à toa que Lula optou por ela. Sim, é fato que escândalos políticos foram rifando os quadros históricos do partido - recaindo a escolha sobre uma ex-pedetista - mas ela crescia desde o início dentro do governo. Eu mesmo, em minha inocência, cheguei a imaginar que o partido pudesse lançá-la em 2006 dado o problema do "mensalão". Acontece que Dilma não é Lula, e boa parte do sucesso do governo petista se baseava na figura do presidente. Sendo ela mais frágil, como ficaria seu governo? Lula estaria sempre com os cordames por trás dela, putinizando-se? O PMDB engoliria sua presidência? É um pouco temerário (com trocadilho); mas Lula também foi pintado como muito mais que temerário, e saiu-se melhor que as melhores expectativas. Eu, por aprovar os dois governos do PT, devo votar nela no segundo turno, ainda mais sendo a única real alternativa quem é. Mas também não vou me jogar de cabeça na campanha Dilma, tentando manter uma distância para evitar aquela famosa bajulação segundo a qual nosso lado é perfeito e imbatível. Até porque meu lado já sai derrotado de saída. Mas eu ainda assim espero que dê Dilma. E estou certo de que vai ser uma campanha interessante. Não como deveria ser, com conteúdo, discussão aprofundada de políticas, mas emocionante, no mínimo. Pra quem gosta de baixaria, então, vai ser um prato cheio.