domingo, 9 de maio de 2010

Minha Posição para Outubro

Em post já não tão recente assim, traçava um panorama do cenário para a eleição presidencial deste ano e prometia explicitar e explicar minhas próprias posições, o que ficou para outra ocasião, que vem a ser esta. Talvez tenha faltado lá também dizer que, a meu ver, estas eleições serão as mais disputadas de nossa vida democrática, com os dois principais candidatos disputando palmo a palmo até o resultado final.

Bem, na coluna aí ao lado declaro abertamente meu apoio à candidatura do P-Sol, de Plínio de Arruda Sampaio. Por quê? No mínimo porque as posições verdadeiramente de esquerda estão hoje meio escanteadas com a força da centro-esquerda lulopetista, e cabe a nós que nos posicionamos nessa corrente tentar fortalecê-la eleitoralmente. Algo como emplacar 1% das intenções de voto, não ria, é uma grande vitória. Você perguntará: mas então por que não lançar Heloísa Helena que entraria para perseguir os dois dígitos? Simplesmente porque ela não quis, e com toda razão, pois assegurar uma vaga no senado faz muito mais sentido que uma candidatura presidencial frustrada (e garante exposição similar, além de uma tribuna para nosso ideário). No vácuo da defecção de HH, e depois de um breve flerte com o PV, o partido se lançou em uma ridícula disputa interna em que felizmente Plínio foi indicado, derrotando Martiniano Cavalcanti, preferido pela cúpula partidária. Felizmente porque Plínio é um esquerdista histórico, deputado constituinte e petista fundador: poderia concorrer com o slogan "mais petista que o PT". Cavalcanti é um desconhecido, e além do mais é mais "soft", confundindo-se com o campo petista, muito superior em capital político - não representaria uma alternativa. Mas afinal, que diabo vocês querem com um porcento dos votos? Bem, não venceremos as eleições majoritárias, sendo HH talvez a única exceção; é importante crescer no parlamento agora, e nas ruas, em ações diversas de divulgação da plataforma esquerdista. Trabalho difícil, uma vez que se o trabalhador de modo geral vê sua vida melhorar, não será fácil convencê-lo de que é hora de virar tudo de ponta cabeça. No meu modo de ver, cabe ao P-Sol um trabalho de conscientização dos mecanismos de poder em nosso país e sua injustiça intrínseca, ajudando a superar a máxima superficial do "é tudo um bando de ladrão" em favor de uma compreensão melhor dos processos subjacentes. Trabalho de formiguinha.

Quanto ao líder nas pesquisas, pelo menos até bem pouco, José Serra, não o odeio com toda a força do meu ser como o faz toda a blogosfera petista. É um sujeito capaz e inteligente, mas que funciona de acordo com as diretizes do partido a que pertence. Representa uma elite que sempre se viu como detentora do espírito nacional, para quem o resto do país é um incômodo que era possível ignorar, mas não é mais, por culpa do metalúrgico, que sacudiu um pouco a mistura. A turma do contagolpe de 32, que até hoje é "revolução". Ou seja, é a oligarquia paulista com as demais a reboque. Na verdade, o PSDB até era uma promessa boa, logo após a redemocratização, quando separou-se do que considerava uma política fisiológica e baixa, capitaneada por Orestes Quércia - ainda que se possam enxergar apenas disputas intestinas. Por um tempo posou de bastião do liberalismo progressista, mas uma vez no poder percebeu a necessidade de aliança, e estava ali o PFL, com um poder tão capilarizado, coisa que fazia tanta falta ao jovem partido que... voilà: foi firmado um pacto que tragou o PSDB para as hostes do conservadorismo mais reacionário, do qual representa a fatia urbana enquanto o rebatizado DEM fica mais na esfera rural. É a tudo isso que rechaço, mais que a José Serra, e isso não é por acreditar na conversa de que ele é a "esquerda" do partido. Inclusive acho que esta eleição será diferente - pelo menos um pouco - por contrapor mais dois partidos e dois campos ideológicos do que duas personalidades.      

Já de Marina Silva como pessoa, aí sim nada posso falar de desabonador. Não me agrada seu furor religioso, penso que isso não faz bem em política. Mas respeito muito sua figura, sua trajetória. Ocorre que essa trajetória está ligada a lutas sociais e ambientais em seu estado natal, como não ouvir seu nome e lembrar de Chico Mendes, por exemplo? Agora, quando ela decide se candidatar à presidência, depois de ter feito parte do governo Lula, ficamos na expectativa de saber como ela se posiciona em diversos outros tópicos, desde a economia, passando por moralidade até política externa. Se analisarmos seu novo partido, o PV, aí que estamos perdidos. É uma agremiação anfótera (como diria o Itamar) e imprevisível; oportunista na verdade. Basta dizer que deixou-se cortejar pelo P-Sol até revelar sua verdadeira face ao compor com a direita no Rio. Marina tem se cercado de pensadores claramente neoliberais e isso é sintomático. Acontece que sendo o país fortemente conservador, eleita uma presidenta de um partido inexpressivo, a tendência é que ela se torne refém das forças que representam esse conservadorismo.

A candidata governista, Dilma Rousseff, o é pela primeira vez, e isso pesa. A batalha de sua equipe ainda é a sintonia fina para transformar a "gerentona" em uma mulher carismática (enquanto Serra é cobra criada, fala bem, mesmo dizendo apenas o óbvio). É esperar para ver como ela se sairá em debates, por exemplo. Minha impressão dela é em geral positiva, não foi à toa que Lula optou por ela. Sim, é fato que escândalos políticos foram rifando os quadros históricos do partido - recaindo a escolha sobre uma ex-pedetista - mas ela crescia desde o início dentro do governo. Eu mesmo, em minha inocência, cheguei a imaginar que o partido pudesse lançá-la em 2006 dado o problema do "mensalão". Acontece que Dilma não é Lula, e boa parte do sucesso do governo petista se baseava na figura do presidente. Sendo ela mais frágil, como ficaria seu governo? Lula estaria sempre com os cordames por trás dela, putinizando-se? O PMDB engoliria sua presidência? É um pouco temerário (com trocadilho); mas Lula também foi pintado como muito mais que temerário, e saiu-se melhor que as melhores expectativas. Eu, por aprovar os dois governos do PT, devo votar nela no segundo turno, ainda mais sendo a única real alternativa quem é. Mas também não vou me jogar de cabeça na campanha Dilma, tentando manter uma distância para evitar aquela famosa bajulação segundo a qual nosso lado é perfeito e imbatível. Até porque meu lado já sai derrotado de saída. Mas eu ainda assim espero que dê Dilma. E estou certo de que vai ser uma campanha interessante. Não como deveria ser, com conteúdo, discussão aprofundada de políticas, mas emocionante, no mínimo. Pra quem gosta de baixaria, então, vai ser um prato cheio.

Um comentário:

Alexandre Piccolo disse...

Baixaria - a gente vê por aqui (nessa campanha eleitoral...)!