sexta-feira, 21 de maio de 2010

O Brasil e o Imbróglio Persa

A política de buscar parceiros no mundo em desenvolvimento foi um dos acertos da política externa de Lula, o que conferiu ao Brasil uma inserção diferente no cenário mundial. O Irã acabou sendo um polêmico caso à parte, dadas as desconfianças de que Teerã esteja buscando o desenvolvimento de armas atômicas, sem falar na própria situação interna da república islâmica, com protestos de insatisfeitos e eleições suspeitas. No dia 17 de maio, um evento significativo se deu: em visita a Teerã, Lula e Amorim costuraram um acordo pelo qual Ahmadinejad enviaria pouco mais de uma tonelada de urânio para a Turquia, recebendo o combustível nuclear sem potencial bélico um ano depois. No dia seguinte veio o balde de água fria: Hillary Clinton caminhou e defecou solenemente para o acordo firmado, e pressionou novamente por sanções, talvez um pouco com brios feridos pela audácia desses países desclassificados querendo decidir alguma coisa tão importante.

O comportamento da mídia nacional é aquele típico sob Lula: insistem em pintá-lo como um narcisísta megalomaníaco e ridículo, defendendo aquele criminoso que quer fazer armas nucleares, com o objetivo único de se exibir. Fazem mais do que pediriam os americanos, levados pelo ódio que cresce na proporção da aprovação do metalúrgico. Onde buscar então uma fonte séria e confiável para saber se o acordo irano-turco-brasuca foi um marco histórico ou uma patuscada inócua? Bem, selecionei duas que trarei para vocês aqui: Noam Chomsky e Le Monde Diplomatique.


Na edição de 17 de maio do DemocracyNow!, em matéria sobre o acesso negado a Chomsky à Cisjordânia, Amy Goodman pergunta:

"Eu queria fazer-lhe uma pergunta sobre o Irã, este último acordo que acaba de ser anunciado. Não sei se o senhor tem acompanhado as notícias já que está aí, mas um acordo na questão toda de energia nuclear e armas nucleares. O Irã concordou em enviar a maior parte de seu urânio enriquecido para a Turquia em um acordo de permuta por combustível nuclear que poderia aliviar o impasse internacional sobre o contestado programa nuclear iraniano. Em contrapartida, o Irã receberá combustível nuclear de baixo nível para alimentar um reator médico - o acordo alcançado com os ministros de relações exteriores de Irã, Turqua e Brasil. E o Irã disse que a permuta se dará sob supervisão da agência nuclear da ONU, a AIEA, a Agência Internacional de Energia Atômica. Qual é a sua avaliação disso?"

NOAM CHOMSKY: Se os relatos são corretos, é difícil entender por que... sob que justificativas os Estados Unidos se objetariam. São basicamente objeções dos Estados Unidos. Mas o que é significativo a respeito são várias coisas, primeiro que é o Irã, é o Brasil e a Turquia. A Turquia é representativa das potências regionais. A Turquia, como a Liga Árabe, deixou claro que não quer sanções. Quer uma negociação, uma resolução diplomática. O Brasil é provavelmente o país mais respeitado no... dentre os países não-alinhados, representa um papel muito importante. Na verdade, que os dois tenham superado... e calha de eles estarem no Conselho de Segurança, mas que estejam abertamente clamando por uma resolução diplomática pacífica e se opondo ao apelo... à ameaça de quaisquer ações ulteriores, isso é significativo. [...]


Entrevista completa (inglês)

Já o Monde Diplomatique vai mais além, vê no acordo o sinal de um novo tempo na geopolítica:

"As grandes potências se descreditam" junto à opinião pública ao ignorar a iniciativa irano-turco-brasileira, declarou Ali Akbar Salehi, chefe da organização iraniana de energia atômica (AFP, 19 de maio). É "uma provocação para as potências emergentes", insistiu de sua parte o ex-embaixador da França em Teerã François Nicoullaud, na RFI, em 19 de maio. Para o editorialista do New York Times Roger Cohen (« America Moves the Goalposts », 20 de maio), "o Brasil e a Turquia representam o mundo emergente pós-ocidental. E ele seguirá emergindo. Hillary Clinton deveria ser menos irresponsável torpedeando os esforços de Brasíla e de Ankara e rendendo hipocritamente homenagem a seus esforços sinceros." A capacidade dos Estados Unidos de impor sua solução, prossegue ele, está seriamente erodida.

Todos três reagiam à proposição pelos cinco membros do Conselho de Segurança da ONU de uma resolução endurecendo as sanções contra o Irã. O acordo tripartite assinado em Teerã não terminou de levantar ondas. Sua importância não pode ser subestimada, pois sinaliza sem dúvida o fim da "comunidade internacional" atrás da qual os Estados Unidos e a União Europeia confabulavam para tocar sua política.

Artigo completo (francês).

Bem, é reconfortante. Quanto ao impasse em si, que dizer? O que devemos ter em mente é que o Irã é uma nação muito tradicional e que legitimamente aspira ao posto de potência média regional, e portanto um contraponto a Israel, um posto avançado do Ocidente, no Oriente Médio. Daí o incômodo de Washington, que - não esqueçamos - bancava a transferência de tecnologia nuclear ao Irã no tempo do Xá, como o fez com Índia e Paquistão. Não que eu veja no Irã um paraíso democrático, pelo contrário, sou contrário a qualquer teocracia com um líder meio maluco se eternizando em eleições discutíveis; mas não vejo em Ahmadinejad um demônio, nem motivo por que o Irã não possa se um parceio estratégico e um mercado para nossos produtos. Quanto à bomba, bem: quando ele conseguir, ele faz; mas está longe disso. Se ele tem ou não esse direito, depende se você aceita a autoridade (em erosão) dos Estados Unidos e seu parceiro Israel. Até lá acerta Lula em buscar uma saída pacífica bancando o mediador entre Teerã e o Ocidente, sem assumir um dos lados. Eu de minha parte concordo com ele: o certo é não só que se impeça a proliferação, mas que se comecem a destruir as ogivas existentes.

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